O Encontro Mascarado

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

"Isto não é um romance. É um pesadelo disfarçado em seda e fumaça de charuto." Irene Turner é perfeita. Uma comissária de bordo impecável de primeira classe, uma esposa dedicada e uma mulher que vive de acordo com uma agenda imaculada. Ela está no controle total de sua vida, até que um estranho embarca em seu voo e ocupa o assento 2A. Vincent Corso não apenas a observa. Ele consome seu espaço, rouba seu fôlego e reivindica sua sanidade. Ele é um predador que não precisa de força física, porque sabe exatamente como fazê-la desmoronar por vontade própria. Quando uma caixa de veludo preto é deixada pendurada na maçaneta de um hotel, Irene é forçada a colocar uma venda de seda. O que acontece na escuridão total do Quarto 1824 destruirá seu mundo imaculado. E revelará uma verdade aterrorizante: o verdadeiro monstro pode não ser o homem que está amarrando a venda, mas o desejo proibido e sombrio que desperta dentro dela. Depois que a máscara é colocada, não há caminho de volta.

Status
Completo
Capítulos
24
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

🌶️ Voo Noturno para a Ruína: O Manifesto do Predador 🌶️ 

Eu prestei um serviço impecável a minha vida inteira. Até o homem no assento 2A me quebrar.

Levei exatamente sete minutos para colocar o uniforme.

Quando os sete minutos passaram, eu me tornei outra pessoa.

No solo, eu era a mulher que marcava consultas na clínica de fertilidade. A mulher que dizia "tudo bem" quando Marcus dizia: "Talvez desta vez seja diferente". Havia pesos enormes. Eu não conseguia largá-los.

No céu, era diferente.

Altitude de cruzeiro: 30.000 pés. Lá em cima, tudo estava abaixo de mim. A clínica, o calendário, o vigésimo oitavo ciclo. Eu flutuava acima de tudo aquilo. Como deitar na superfície de uma piscina. Como quando a água sobe acima das suas orelhas e o som se afasta. Nada conseguia me alcançar.

Então, eu continuava subindo.

Já uniformizada, parei diante do espelho e verifiquei os ângulos.

Bianca abriu a porta do vestiário e estalou a língua. — Irene, você já tem nível de Primeira Classe só de ficar aí parada. — Ela me olhou de cima a baixo, amarrando o lenço. — Esse rosto paga a passagem.

— Adulação — eu disse, fechando meu batom.

— Não é adulação. É fato. É por isso que você está sempre na Primeira Classe.

Peguei minha bolsa e abri o tablet no balcão da cozinha. Manifesto de passageiros. Analisei os nomes da Primeira Classe, preferências de refeição, sinalizações VIP. Nada notável. Coloquei o tablet de lado.

Eu estava enganada. Ainda não sabia disso.

Naquele dia, o homem do 2A embarcou. Esse foi o começo.

O senhor idoso no assento 7 me entregou seu paletó e pediu um cabide. Resolvido. A mulher no assento 2 recusou champanhe e pediu água sem gás. Resolvido. O homem no assento 4 sentou-se com os olhos no celular. O passageiro perfeito.

Por último, mais um passageiro embarcou.

O ar chegou a mim antes que meus olhos pudessem vê-lo. Da entrada do corredor, a densidade mudou como uma queda súbita na pressão da cabine, embora não fosse. Minhas mãos continuavam alinhando as taças de champanhe. Meu olhar se ergueu por conta própria.

Quarenta e poucos anos. Uma camisa branca, aberta no colarinho, e por baixo, um porte que não tinha nada de casual. Ombros que faziam o corredor parecer estreito. O terno escuro estava impecável. O que estava ali dentro não era um empresário. Algo mais antigo. Algo que aprendeu a ficar imóvel.

Minhas mãos pararam.

O olhar dele varreu a cabine e atingiu o meu em cheio. Meu estômago deu um solavanco. Desviei o olhar rápido, mas já sabia que era tarde demais. Ele veio em minha direção sem pressa, e seus olhos pousaram na etiqueta de identificação dourada acima do meu seio esquerdo. Três segundos. Silencioso e preciso. Do jeito que um predador encontra o ponto fraco.

Durante todo o caminho de volta para a cozinha, uma pergunta não me deixava. Eu já tinha lidado com centenas de passageiros como ele. Por que, desta vez, minhas mãos pararam primeiro?

A cortina foi afastada e Bianca entrou na cozinha. Seus olhos estavam mais brilhantes que o normal.

— Irene. Você viu ele? O 2A. Meu Deus, ele é toda fantasia que eu já tive. Consegue imaginar ficar presa em um elevador com aquele homem? E você?

— Você é louca, Bianca. As coisas que mulheres casadas dizem.

Mantive minha expressão séria, mas podia sentir o calor no meu rosto. As palavras que ela tinha jogado para fora já estavam fazendo algo na minha cabeça. Um espaço fechado. Aquele corpo. Um homem que parecia ter feito pessoas desaparecerem.

Eu bloqueei esse pensamento. Mas alguns segundos tinham se passado antes que eu o fizesse.

Toalhas quentes em uma bandeja de prata, percorrendo a cabine. Assento 7, 4, 2, e parei na frente do 2A.

— Sua toalha quente, senhor.

Ele olhou para cima. Estendeu a mão para a toalha na ponta da pinça.

Ele não pegou a toalha. Ele pegou minha mão.

Quatro dedos se fecharam completamente ao redor da minha. Firmes. Quentes e secos. Seu polegar passou lentamente pelas costas da minha mão uma vez, do jeito que você testa a superfície de algo que te pertence. Nem gentil, nem bruto. Apenas isso.

A bandeja estava na minha mão esquerda. Se eu puxasse, ela viraria. Se eu empurrasse, meu corpo se inclinaria sobre ele. Se eu ficasse parada, aquilo continuaria. Nenhuma dessas opções era neutra.

O homem no assento 4 olhava pela janela. A mulher no assento 2 tinha aberto uma revista. Ninguém parecia estar olhando. Mas não existe Primeira Classe onde ninguém olha. Todos nesta cabine percebem e fingem que não.

Ele segurou minha mão. Sete segundos. Oito segundos.

Enquanto ele segurava, minha mente foi para um lugar estranho, no verão de dois anos atrás, época das monções. Um corredor de hospital. O médico dizendo: "Se a família tivesse chegado cinco minutos depois". Marcus nunca mais mencionou aquele dia. Nem uma vez.

— Sua toalha, senhor. — Minha voz era minha. Fria, precisa, quinze graus.

Ele soltou lentamente. Sem pressa. Deixando claro que soltar tinha sido uma escolha dele.

Ele devolveu a toalha usada, mas a colocou bem na beirada — à beira de cair. Quando me inclinei para pegá-la, seu cheiro veio. Fumaça de charuto e madeira escura, denso e pesado. Eu não aspirei. Aquilo simplesmente me preencheu. Como se o ar tivesse mudado.

— Obrigada. — Fui para o próximo assento.

De volta à cozinha, olhei para minha mão. Sem marcas. Mas as costas dela — onde o polegar dele estivera — ainda estavam quentes. Cinco anos, e isso nunca tinha acontecido.

Caminhei pela cabine com uma garrafa de champanhe. E parei no 2A.

— Desejaria champanhe, ou talvez —

— Sirva você mesma.

Coloquei a taça na mesa dele, inclinei-me para o assento e inclinei a garrafa. A mão dele foi para a minha cintura.

Não levemente. Cinco dedos se fecharam ao redor do meu lado esquerdo, por cima do paletó, com pressão suficiente para ler exatamente o que havia por baixo. O polegar dele pressionou bem ao lado do meu osso do quadril. No meio do serviço, eu não conseguia endireitar o corpo. Se fizesse isso, a garrafa erraria a taça. O champanhe derramaria. Eu seria a pessoa que arruinou o serviço.

Calculado.

Do outro lado do corredor, o homem no assento 4 olhou para cima. Ele viu meu rosto. Viu a mão nas minhas costas. E então voltou a olhar para o celular. Essa é a etiqueta da Primeira Classe. Você não viu nada.

Servi até o topo. Não derramei. Endireitei-me. A mão dele deslizou naturalmente, como se nunca tivesse estado ali.

— Aproveite. — Minha voz estava perfeita.

De volta à cozinha, coloquei a garrafa no balcão e abri e fechei o punho uma vez. Homens como ele existem. Existe um jeito de lidar com todos eles. Isso não é nada.

A cabine ficou escura. A maioria dos passageiros fechou os olhos ou colocou fones de ouvido. Botão de chamada. Assento 2A.

Levei um cobertor. Tentei entregá-lo.

— Cubra-me.

Desdobrei o cobertor, alisei as bordas. No momento em que puxei a bainha para ficar reta, a mão dele se fechou ao redor do meu pulso e me puxou para baixo do cobertor.

Lá dentro, no escuro, algo quente e duro pressionou minha palma.

Puxei a mão. Ele não soltou. Não era força. Era peso. Peso que endurecia quanto mais eu tentava me mover. No silêncio da cabine, o único som era o do meu próprio coração, alto o suficiente para doer.

Eu deveria estar enojada. Eu deveria ter gritado.

Então por que minhas pontas dos dedos estavam tremendo com algo que não era medo?

Puxei com força. Minha mão se soltou.

Fiquei reta e olhei para ele. Ele estava lá, olhando para cima. Sem se atrapalhar. Sem pedidos de desculpas. Observando para ver exatamente como eu quebraria. Então ele fechou os olhos.

De volta à cozinha, pressionei minhas costas contra a parede. A mão que o tinha tocado estava tremendo. Não apenas de medo — da verdade que eu não queria ver: algo estava despertando dentro de mim que eu não reconhecia. E eu queria aquela sensação de volta. Foi isso que me apavorou.

Isso acaba quando aterrissarmos.

Mas fiquei parada ali, incapaz de me mover por três minutos inteiros. Cinco anos. Nunca tinha acontecido nem uma vez.

Passava da meia-noite. Eu estava organizando a cozinha quando o botão de chamada tocou. 2A.

Macarrão instantâneo. Eu levei. Ele olhou fixamente para o copo.

— Você colocou muita água. Isso não é ramen. É sopa.

Segundo copo. Levei. — Pouca demais.

— Vou refa—

— Já chega. — Ele levantou a mão. — Sente-se.

Eu parei. A "eu" de sempre não ficava presa desse jeito.

— Se precisar de mais alguma coisa, o botão de chamada...

— Irene.

Ele disse meu nome. Baixo, dissolvendo-se na escuridão. Quieto o suficiente para que o assento ao lado pudesse ouvir, ou não — bem no limite.

— Fiquei pensando nisso a noite toda. Como seria ter você em cima de mim.

Silêncio.

— Você também pensou. — Ele fechou os olhos. — Irene.

O passageiro no assento 3 se mexeu durante o sono. Se ouviu ou não, eu não tinha como saber. Essa incerteza era exatamente o que ele queria. Uma situação onde eu não pudesse emitir som, não pudesse reagir, pudesse apenas ficar ali e receber.

— Se precisar de mais alguma coisa, por favor, pressione o botão de chamada.

Minha voz saiu fria. Como se eu estivesse verificando se ela ainda funcionava.

01:00 da manhã. Bianca passou pela cortina e olhou para o meu rosto. Ela não disse uma palavra — mas Bianca fazia as mesmas rotas há cinco anos. Ela conseguia distinguir meu sorriso de quinze graus do meu rosto real.

— É o 2A?

Eu não respondi. Não precisava.

— Vou assumir o serviço dele. Se o botão de chamada tocar, não vá. — Ela apertou meu ombro uma vez. — Okay?

01:30 da manhã. O botão de chamada tocou.

Bianca saiu. Eu não conseguia ouvir nada da cozinha. Por instinto, peguei o tablet da cabine e abri o registro de passageiro do 2A.

Vincent Corso. Marcador CIP preto, o nível VIP mais alto.

Meus olhos pararam no campo de Observações.

[SSR: Comissária de bordo Irene Turner designada exclusivamente]

Uma linha fria percorreu minha espinha.

Ele não era um passageiro difícil com quem eu tinha esbarrado por acaso. Ele tinha vindo deliberadamente — embarcando nesta sala selada no céu para me caçar. Desde o início. Sempre.

Quando Bianca voltou, seu rosto tinha mudado. Quieta e cuidadosamente furiosa.

— Aquele filho da puta. Ele é realmente louco. — Uma pausa. — Retiro tudo o que eu disse.

Eu olhei para o rosto dela.

E pela primeira vez, eu estava com medo. Não dele.

De mim mesma.