Marcada pelo Contrato

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Resumo

Ela se casou com o alfa mais perigoso de Boston para sobreviver. Agora, o cio dele se aproxima, o dela começa a despertar, e o homem que jurou nunca tocá-la não consegue parar de sentir o cheiro do seu pescoço, como se ela fosse o último fôlego que ele tomaria na vida.

Status
Completo
Capítulos
41
Classificação
4.9 14 avaliações
Classificação Etária
18+

Don't Underestimate Her - Conall

O último rut mandou um homem para o hospital.

Conall processou essa informação da mesma forma que processava a maioria das verdades desagradáveis: quieto, contido, com o maxilar tão travado que os ossos rangiam. Do outro lado da mesa, o Dr. Brennan folheava papéis como se eles pudessem protegê-lo. O escritório cheirava a antisséptico e à ansiedade de um beta. Um cheiro azedo, ralo. O tipo de aroma que fazia o lobo de Conall andar de um lado para o outro por trás de suas costelas.

“Os ciclos estão acelerando”, disse Brennan. Cuidadoso. Clínico. Falando com o homem mais perigoso de Boston da mesma forma que alguém falaria com uma arma carregada deixada sobre a mesa. “O último durou setenta e duas horas. O anterior, quarenta e oito. Sua base hormonal entre os ciclos está — francamente, Sr. Dempsey — alarmante.”

Conall o observou. Não disse nada.

Brennan engoliu em seco. “Os supressores pararam de funcionar. Nós excedemos a dosagem máxima duas vezes. Seu corpo está metabolizando-os mais rápido do que podemos administrar.”

“Então aumente a dose.”

“Qualquer valor acima disso e seu fígado falhará em seis meses.”

Silêncio. O relógio na parede tiquetaqueava. Lá embaixo, o trânsito de Boston zumbia seu hino baixo e úmido. Conall passou a mão pelo cabelo — grosso, preto, permanentemente bagunçado por causa desse hábito — e recostou-se na cadeira.

“O sujeito que eu machuquei. Ele vai ficar bem?”

“Fratura no osso orbital. Ombro deslocado. Lacerações no... sim. Ele vai se recuperar.”

Bom. Mas essa palavra parecia insuficiente. Bom implicava margens de segurança, e as margens de Conall estavam encolhendo. Os ruts estavam o devorando vivo. Cada um era pior. Cada um, mais alto, mais quente, mais selvagem. Ele teve um apagão durante o último ciclo e acordou no porão do armazém com sangue nas mãos e Ronan parado a dois metros de distância com uma arma de tranquilizante.

Ronan. Seu segundo em comando. O único homem vivo que apontaria uma arma para Conall Dempsey e viveria para discutir isso durante o café da manhã.

“Certo. Qual é o plano?”, disse Conall. Sem emoção.

Brennan soltou o ar como se estivesse segurando a respiração durante toda a consulta. “Vincule-se. Encontre uma parceira. A âncora feromonal de uma ômega é o único estabilizador confiável para ciclos tão avançados. O mecanismo biológico é...”

“Aye. Eu sei o que é.”

Brennan fechou a boca.

Conall sabia. Seu lobo sabia. Todo alfa com sangue com mais de um século de existência sabia. O vínculo com uma ômega reprogramava o animal, dando a ele algo para orbitar além de sua própria fúria. Uma coleira feita de cheiro, pele e do batimento cardíaco de outra pessoa.

A ideia se instalou em seu peito como se ele tivesse engolido vidro.

Ele se levantou. Brennan recuou — um movimento involuntário, a resposta instintiva de um beta na presença de um predador alfa cujo controle estava escorregando. Conall registrou o recuo. Arquivou. Adicionou ao longo e feio catálogo de evidências de que o médico estava certo.

“Envie os arquivos do registro para o meu escritório.”

Seu escritório ocupava o último andar de uma casa georgiana em Merrion Square que pertencia à família Dempsey há quatro gerações. As paredes eram de carvalho escuro. A mesa era mais antiga que a República. O uísque no aparador custava mais que o carro da maioria das pessoas.

Conall serviu dois dedos da bebida. Bebeu. Serviu mais dois.

Os arquivos do registro estavam sobre sua mesa em uma pasta de couro. Quarenta e sete perfis. Quarenta e sete ômegas avaliadas, catalogadas e precificadas para o mercado de vínculos. Fotografias. Históricos médicos. Perfis de feromônios. Potencial reprodutivo.

Ele odiava cada palavra em cada página.

Seu pai havia comprado sua mãe de um registro. Conall se lembrava do jeito que o velho falava sobre isso — *boa linhagem, sangue bom, sabia o seu lugar*. Lembrava-se dos hematomas nos braços de sua mãe. Do jeito que ela estremecia ao ouvir passos. Do som dela chorando através de paredes grossas o suficiente para abafar tiros, mas nunca a dor.

Ele abriu a pasta mesmo assim.

Porque a alternativa era enlouquecer. E um alfa feral à frente da operação Dempsey significava sangue — do tipo errado. O tipo que trazia guerras, trazia investigações, trazia todo o império desmoronando sobre as cabeças de cada pessoa que dependia dele.

Então ele olhou.

Ômega após ômega. Rostos suaves. Olhos baixos. Submissão praticada no ângulo de cada fotografia. Eram mulheres treinadas para obedecer. Algumas criadas para isso. Os perfis pareciam avaliações de gado.

*Temperamento: dócil.*

*Resposta à autoridade: complacente.*

*Uso anterior de supressores: nenhum.*

As páginas viravam. O uísque diminuía. O lobo andava de um lado para o outro, entediado, inquieto, desinteressado. Cada arquivo cheirava levemente ao papel em que estava impresso — nada mais. Tinta e burocracia.

Ele estava na metade da pilha quando suas mãos pararam.

A fotografia era diferente.

Ela olhava diretamente para a câmera. Essa foi a primeira coisa. Todas as outras ômegas no registro tinham sido fotografadas de perfil, com os olhos baixos e o queixo encolhido. Praticado. Posado. Esta mulher encarava a lente como se estivesse desafiando o fotógrafo a lhe dar um motivo.

Cabelo ruivo. Um cobre profundo, escuro o suficiente para parecer quase preto sob a iluminação plana do estúdio. Traços marcantes — maçãs do rosto que poderiam cortar, uma boca que parecia estar decidindo entre um sorriso e um insulto. Ela era bonita da maneira que uma lâmina bem feita é bonita. Funcional. Precisa. Perigosa.

*Lillith Marrow.*

Ele leu o perfil. Vinte e quatro anos. Família de baixo status — pai ferido, casa em situação de pobreza. Ela se inscreveu no registro há oito semanas.

*Temperamento: —*

O campo estava vazio.

Ele verificou duas vezes. O avaliador tinha deixado uma única nota abaixo: *Não cooperativa durante a avaliação. Recomendo reavaliação.*

O lobo de Conall parou de andar.

Foi isso que o fisgou. A imobilidade. Seu lobo estava se debatendo há meses — um animal preso roendo as grades de seu controle. Um rut após o outro tornando a jaula cada vez mais fina. Cada supressor, cada disciplina, cada ato de restrição forçada apenas ganhando tempo contra o colapso inevitável.

Para esta fotografia — para esta ômega de temperamento em branco encarando uma câmera como se quisesse lutar contra ela — o lobo ficou quieto.

Vigilante.

*Esperando.*

Ele deveria ter deixado o arquivo de lado. Deveria ter continuado passando. Ele precisava de docilidade. Precisava de complacência. Precisava de uma ômega que ancorasse seus ciclos de rut, estabilizasse o lobo e mantivesse distância entre eles. Uma transação. Limpa. Contratual.

Esta mulher parecia o oposto de limpa e contratual. Ela parecia o tipo de problema que inicia guerras.

Ele leu o arquivo novamente. E mais uma vez. Passou o polegar pela borda da fotografia até o papel amolecer.

A porta se abriu. Declan entrou — jovem, barulhento, construído como uma parede, pura energia alfa arrogante e pouco senso para bater na porta. Ele se jogou na cadeira em frente a Conall com a facilidade de alguém que ou conquistou familiaridade ou ainda não aprendeu a temer a falta dela.

“Ronan disse que você está comprando uma esposa.” Declan sorriu. “Romântico.”

Conall deslizou o arquivo pela mesa.

Declan pegou. Leu. Suas sobrancelhas subiram. “Lillith Marrow. Família pobre. Ômega de registro.” Ele folheou até a página de avaliação. Bufou ao ver o campo de temperamento vazio. “Não cooperativa durante a avaliação. Ela parece ser uma gracinha.”

“Traga-a aqui.”

Declan levantou o olhar. O sorriso desapareceu para algo mais cauteloso. “Aqui. Na mansão.”

“Para o casamento, rapaz.”

“Chefe.” Declan colocou o arquivo na mesa. Inclinou-se para frente. “Você tem quarenta e sete opções nessa pilha. Metade delas são de famílias de vínculo, treinadas desde o nascimento. Essa aqui é...” Ele olhou para o perfil novamente. “Ela não é ninguém. Sem conexões. Sem treinamento. E o avaliador nem conseguiu fazer com que ela cooperasse em uma entrevista de cinco minutos.”

Conall levantou seu uísque. Bebeu. Colocou o copo na mesa com um som como um ponto final.

“Traga a garota aqui, Declan.”

Algo no tom de voz surtiu efeito. O maxilar de Declan travou — a resposta alfa involuntária a uma ordem direta de um dominante. Ele procurou por uma explicação no rosto de Conall e encontrou o que todos encontravam quando olhavam por muito tempo: uma parede. Lisa. Impenetrável. O tipo que fazia você se perguntar o que ela foi feita para conter.

“Quanto ofereço pelo preço da noiva?”

Conall citou um valor.

Declan arregalou os olhos. “Isso é... para uma ômega de família pobre? Isso são seis vidas de dinheiro. Você poderia comprar uma filha de uma casa de vínculo pela metade.”

“Estou bem ciente do que eu poderia comprar.”

“Então por que...”

“Porque eu disse, porra.”

As palavras caíram como uma porta se fechando. Declan sustentou o olhar por um tempo. Dois. Então ele soltou o ar pelo nariz, pegou o arquivo e se levantou.

“Certo. Vou viajar amanhã.”

“Hoje à noite, então.”

O maxilar de Declan trabalhou. “Hoje à noite. Certo.” Ele colocou o arquivo debaixo do braço. Pausou na porta. “Mais alguma coisa que eu deva saber sobre essa aqui?”

Conall olhou para o espaço em sua mesa onde a fotografia estivera. O fantasma de seu olhar ainda permanecia. Direto. Inabalável. Uma mulher que se colocou à venda e encarou a câmera como se desafiasse a lente a ter pena dela.

“Aye”, disse ele. “Não a subestime.”

Declan saiu.

Conall sentou-se no escritório escuro. O uísque aquecendo sua palma. O lobo se acomodou sob suas costelas pela primeira vez em meses — uma vibração baixa e paciente, como um motor em ponto morto. Esperando por algo que ele já podia sentir no vento.

Ele deveria ter escolhido uma ômega complacente. Deveria ter escolhido uma mulher que ancorasse seus ruts, ficasse longe do seu caminho e deixasse o contrato ser o que contratos deveriam ser: frios, funcionais e finitos.

Em vez disso, ele olhou para a fotografia de uma mulher ruiva com um campo de temperamento em branco e sentiu seu lobo *reconhecer* algo.

Ele esvaziou o uísque. Serviu outro.

Três dias para o seu próximo ciclo de rut. O lobo pressionou contra sua pele, quente, certo e terrivelmente calmo.