Prólogo
Entro sob as luzes brilhantes junto com o resto dos bailarinos. Eu não sou solista. Ainda não. Afinal, só tenho 10 anos. Mas tenho tempo. Muito tempo, na verdade. Pratico desde que era bem pequena. Não sei se herdei o amor pela dança da mamãe e do papai, ou se isso é só meu mesmo.
Mamãe e papai me disseram que, se eu me esforçar muito, talvez eu consiga ser solista. Não tenho certeza se quero ser Prima. Só quero dançar sem todo esse drama. As Primas precisam trabalhar mais e ficam com os dedos dos pés mais machucados do que qualquer outra pessoa. Elas judiam muito dos pés. Já tenho problemas com os meus, não preciso acabar no hospital por ter quebrado a perna.
Mamãe e papai administram a Black Swan Dance Company. Eles disseram que haveria um convidado especial hoje para nossa apresentação. Não me contaram nada além disso, só que queriam que eu dançasse perfeitamente para ele. Bom, vou dar o meu melhor. Nem sei se ele vai saber quem eu sou. Pareço igual a qualquer outra bailarina.
Não consigo ver nada além das luzes ofuscantes, mas tudo bem. Isso me ajuda a entrar no clima e na minha posição inicial. Se eu pensar demais em todos aqueles olhos em mim, fico nervosa... Mesmo fazendo isso há muito tempo, ainda sinto aquele frio na barriga quando as pessoas me assistem.
Respiro fundo, expulso toda a tensão do corpo e me concentro. Preciso ser absolutamente perfeita para a mamãe, o papai e o convidado especial deles.
As primeiras notas deslizam pelas caixas de som e balançamos nossos trajes brilhantes. Não estamos usando tutus hoje. São mais como saias transparentes que caem sobre as coxas, e nossos collants são violetas.
Minhas sapatilhas estão amarradas com fitas até as pernas. Meu cabelo castanho-mel está preso em um coque firme e minha maquiagem está impecável. Sinto-me como uma bonequinha de vestir... Ou talvez uma boneca em uma caixinha de música girando sem parar para todo mundo ver.
Na ponta dos pés, finjo que estou voando pelo céu enquanto me dobro e giro, perfeitamente no ritmo da música. Meus braços se esticam e balançam, seguindo o fluxo e o ritmo que foram martelados na minha cabeça.
Nós nos abaixamos e giramos na ponta dos pés. Alcançamos o céu e levantamos as pernas, equilibrando-nos como flamingos. Graciosa. Movimentos sempre graciosos. Fluidos e lindos. Poderosos e fortes. Ponta e flex. Salto e pirueta. Movimentos que viraram memória muscular. Não preciso pensar em nada... Só sigo a música.
Amo dançar. É minha vida. Nem lembro quantos anos eu tinha quando mamãe e papai começaram a me ensinar. Parece que já nasci com sapatilhas de balé nos pés. Conforme cresci, fiquei mais forte e minhas danças ficaram mais complexas. Logo haverá novos testes. Espero conseguir uma vaga de solista, mas talvez eu ainda não esteja pronta.
Mamãe e papai sempre me dizem que preciso alcançar as estrelas... E é isso que estou fazendo. Estou buscando a minha estrela. Quero mostrar ao mundo que sou uma boa dançarina... Mesmo que o pensamento me assuste um pouco.
Nem sei o que faria se tivesse que crescer e não dançar... Não tenho um plano B... Mas afasto esse pensamento depressivo. Não tem como eu não dançar no meu futuro!
Saltamos juntas graciosamente no ar e aterrissamos na ponta dos pés. Tenho sorte de não ter caído. Semana passada, a Marci caiu e teve que sair porque torceu o tornozelo. Tivemos que nos ajustar, mas isso faz parte do processo.
Estamos chegando ao fim da nossa apresentação e sinto a tensão na música, construindo nosso grande final. Coloco todo o meu esforço nos movimentos, focando na perfeição. Na graça e na fluidez. Não há tempo para pensar, apenas seguir as ações que foram ensaiadas exaustivamente nos últimos meses.
Nos reunimos no centro do palco e damos as mãos enquanto giramos em sincronia e caímos graciosamente no chão... Como pétalas de flor... Ficamos imóveis conforme a última bailarina se deita no tablado.
Quando a última nota da música vibra nas caixas de som, ouvimos aplausos, nos levantamos e, juntas, fazemos uma reverência para a plateia que não conseguimos ver.
Só então solto a respiração que estava prendendo e olho para a escuridão com um sorriso no rosto. Conseguimos! Meu coração dispara e minha respiração diminui. Estou tão empolgada! Mal posso esperar para ver meus pais. Espero ter me saído bem para o nosso convidado... seja lá quem ele for.
Não somos a última apresentação; precisamos esperar mais 4 grupos subirem ao palco antes que eu tenha permissão para ver meus pais. Assistimos às apresentações em uma televisão que está gravando a dança. Cada performance foi fantástica. Havia duas solistas, e uma era a Prima ballerina. Não a invejo nem um pouco. Ela tem pressão demais para garantir que não vai errar a rotina. Tudo o que eu preciso fazer é acompanhar as outras bailarinas e não cometer erros... Mesmo em um grupo grande, os erros ainda podem ser notados.
Finalmente é hora de encontrar minha família. Estou ansiosa para ver o que acharam da nossa dança. Só porque mamãe e papai administram o lugar, não significa que eles consigam assistir a todos os ensaios. Eles têm uma empresa para tocar e deixam as danças por conta dos instrutores.
Mamãe vem até mim e me abraça. Depois de uma dança longa, era exatamente disso que eu precisava. Ainda estou inquieta, mesmo depois de ter ficado sentada assistindo a outras 4 apresentações. Acho que a adrenalina vai passar mais tarde... Espero que antes de dormir. “Você foi muito bem, Josie! Estou tão orgulhosa de você!”
“Sim, você foi ótima, querida!” Papai diz, dando um beijo na minha bochecha antes de me pegar no colo e me girar. Sempre me sinto uma criancinha quando ele faz isso. Mas não sou pequena, tenho 10 anos! Mesmo assim, adoro... Mas nunca vou admitir isso.
Vejo minhas irmãzinhas, Charlotte e Olivia. A Charlie é um doce. Ela está acenando para mim com as bochechas rosadas. Mas a mamãe e o papai tratam a Liv como uma princesa, e o resultado é que ela é uma pirralha mimada. Ela só olha para mim com cara de tédio e cruza os braços sobre o peito como se preferisse estar em qualquer lugar, menos ali. Mas eu a amo mesmo assim. Tenho certeza de que, quando ela crescer um pouco mais, ela vai mudar.
Nesse momento, um homem se aproxima de nós com um garoto alguns anos mais velho que eu. O homem parece ter a mesma idade do meu papai. Só que ele tem tatuagens no pescoço, que aparecem por baixo de seu terno caro. Ele também usa um brinco brilhante na orelha esquerda.
O garoto também está vestido com um terno caro. Ele tem cabelos pretos jogados para o lado e olhos azuis brilhantes. Ele também parece estar entediado agora. Bem, acho que não dá para agradar todo mundo. Por que trouxeram um garoto aqui? Não entendo nada disso.
“Josie, quero que conheça Dean Kingston e seu filho Richard. Dean costumava tocar em uma banda de rock. O filho dele tem 14 anos. Dean e Rose são velhos amigos nossos”, papai explica com um sorriso enorme no rosto.
Dean me analisa de cima a baixo, e há algo no olhar dele que me desagrada. Mas estendo a mão mesmo assim para cumprimentá-lo. Eu não poderia ser grosseira com um dos velhos amigos do papai. Além disso, talvez eu esteja apenas imaginando coisas.
“É um prazer conhecê-la, Josie. Seus pais me contaram muitas coisas sobre você”, ele diz com um sorriso malicioso. “Eu assisti à sua dança, querida. Você é uma bailarina e tanto.”
“O prazer é meu. E, uh, obrigada?” Tento dar o melhor sorriso que consigo. Se ele é amigo da mamãe e do papai, não quero ser rude, mesmo que pareça haver algo de errado com esse homem. Seus olhos azuis, profundos e penetrantes, parecem ver através do meu figurino, e isso está me deixando desconfortável.
Nesse momento, alguém chama a atenção do meu pai, e ele leva Dean e a mamãe para falar com outro casal. Charlie e Liv seguem atrás, me deixando sozinha com um garoto intimidantemente bonito.
Um garoto, aliás, que está zombando de mim. Ele me olha de cima a baixo, exatamente como o pai dele fez. “Você não é boa o suficiente para ser minha amiga”, ele diz com um sorriso sarcástico. Há a mesma frieza nos olhos brilhantes dele.
“Oh”, murmuro. O que mais eu poderia dizer para uma afirmação dessas? Ele não quer ser meu amigo? Era para ele ter vindo aqui e feito amizade comigo? Eu não causei uma boa impressão nele? Estou tão confusa e magoada.
Não sei por que isso me magoaria. Eu nunca conheci o garoto, e há algo definitivamente estranho nele. Ele não me conhece de jeito nenhum... Então, por que deveria me importar se ele acha que não sou boa o suficiente para ser amiga dele?
Pisco para segurar as lágrimas, viro as costas e volto para trás da cortina porque não quero ficar perto dele. Se ele não gosta de mim, tudo bem! De qualquer jeito, eu não quero ficar perto dele mesmo!
Eu nem sei o que ele estava fazendo aqui, para começo de conversa! Não é como se eu precisasse que ele me visse dançar. Mamãe e papai não disseram nada sobre fazer amizade com o garoto, então eu simplesmente não farei!
Pego minha bolsa e me esforço muito para não chorar. Posso chorar quando chegar em casa, no meu quarto, quando ninguém estiver olhando! Mantenho a cabeça erguida enquanto volto para perto dos meus pais, sem nem olhar para trás para aquele garoto mal-educado. Espero nunca mais ter que olhar para o rosto dele na minha vida!
Mas então ouço uma risadinha e não consigo evitar espiar. Ele está flertando com a Liv! Ela só tem 5 anos! Por que ele faria isso? Será que ele gosta de pirralhas como a minha irmã? O pensamento me deixa enjoada. Ele é quase 10 anos mais velho que ela!
Ele se abaixa, olha diretamente para mim e sussurra no ouvido de Olivia: “Você vai ser uma dançarina muito melhor que sua irmã. Eu percebo”, ele pisca para mim. “Você vai ser a minha bailarina quando for mais velha, não vai, pequena Liv?”
Algo sombrio se revira no meu peito com as palavras dele. Por que eu estaria com ciúmes da minha irmã mais nova? Ela é preguiçosa! Ela nunca seria uma boa bailarina! Olivia tentou dançar uma vez e desistiu no mesmo dia!
Mas ela olha para o rosto dele com um sorriso lindo. “Claro que serei sua bailarina, Ricky”, ela ri para ele.
E o pior é que sei que ele está fazendo isso de propósito para me machucar... Só não sei por quê. Consigo ver o escárnio no rosto dele enquanto ele me observa piscar, segurando as lágrimas que se acumulam nos meus cílios. Por que ele gosta de me machucar desse jeito? Eu realmente não entendo!
Viro-me imediatamente, sem dar a ele a satisfação de me ver chorar.
Nesse momento, a mamãe aparece com uma caixa enfeitada com um laço, e o papai traz um buquê. Ambos brilham de orgulho para mim. Pelo menos eles ainda me querem.
“Isto é para você, querida. Queremos que lembre o quanto te amamos e o quanto estamos orgulhosos de você, Josie”, mamãe sussurra, dando um beijo na minha bochecha e colocando a caixa em minha mão.
Engulo em seco, e dessa vez deixo as lágrimas caírem, porque são de felicidade. Mamãe e papai me deram um presente especial. O que será que é?
Desembrulho o laço lentamente e abro a caixa. Fico boquiaberta ao ver um lindo colar de coração de ouro. No centro, há um diamante que brilha, mesmo com a luz baixa.
“Você é nossa estrela brilhante, pequena Josie. Você vai crescer e brilhar mais do que qualquer diamante”, papai insiste enquanto tira o colar da caixa e coloca no meu pescoço.
Dou uma risadinha enquanto olho para o lindo pingente e para os meus pais. “Amo muito vocês! Obrigada por este presente lindo!” dou um gritinho e abraço meus pais.
E, ainda assim, por cima dos ombros deles, continuo vendo o garoto com um sorriso de canto nos lábios. Há algo cruel nos olhos dele. Há uma promessa ali, só não sei qual é. E eu realmente não quero ficar por perto para descobrir.
Não entendo qual é o problema dele comigo, mas não quero nada com ele. Se ele quer a Liv, ele que fique com a pirralha!
Fecho os olhos e me encosto no abraço dos meus pais, focando no amor que tenho por eles. Este é o meu lugar seguro. Nada pode nos tocar quando estamos juntos.