Chapter 1
Cameron
Cameron acordou antes que o quarto ficasse totalmente claro, preso naquele espaço tênue entre o sono e a consciência, onde seu corpo sabia que algo estava diferente antes mesmo de sua mente perceber.
Calor.
Maciez.
Não estava sozinho.
Ele ficou parado por um segundo, com os olhos ainda fechados, permitindo-se sentir aquilo em vez de se apressar para dar um nome. O peso aninhado ao seu lado. O ritmo lento e constante da respiração perto de seu peito. O perfume suave de Ivy em seus lençóis, em seu quarto, no ar que ele puxava para os pulmões como se fosse a única coisa que o mantinha ancorado.
Então, tudo se encaixou de uma vez.
Ivy.
Seus olhos se abriram lentamente.
A luz cinzenta da manhã escorregava pelas cortinas, pintando o quarto com sombras suaves, e lá estava ela, encolhida ao seu lado como se, em algum momento da noite, tivesse parado de vigiar cada centímetro de espaço entre eles e simplesmente relaxado. Uma das mãos estava enfiada perto de suas costelas, seu cabelo espalhado pelo travesseiro, o rosto calmo de um jeito que quase nunca ficava quando ela estava acordada.
Algo lá no fundo do peito dele se apertou.
A noite passada voltou em pedaços primeiro, e depois tudo de uma vez.
A voz dela, baixa, mas firme.
Por enquanto, eu quero isso exatamente desse jeito.
Quando eu decidir, eu te aviso. E se eu nunca decidir, te aviso isso também.
Estou escolhendo você agora. Do único jeito que posso.
Seu lobo havia silenciado quando ela disse aquilo; não satisfeito, não exatamente aliviado, mas forçado a ficar imóvel pela verdade dela. Pelo fato de ela não ter fugido. Pelo fato de ela ter ficado. Cameron sentiu aquela resposta se acomodar dentro dele muito tempo depois de adormecerem, uma promessa e um limite entrelaçados tão fortemente que não havia como separá-los.
Ela era dele.
Não por marca.
Não por reivindicação.
Mas por escolha, e isso importava mais.
Mesmo que isso não tornasse a fome mais fácil de suportar.
Ela ficou, disse Akela, com a voz calma na mente de Cameron agora, apenas observando em vez de pressionar.
Cameron engoliu em seco. Eu sei.
Isso importa.
Importava. Mais do que Akela queria admitir na maior parte do tempo.
Cameron deixou sua mão se mover com cuidado sobre o cobertor até que seus dedos repousassem contra as costas de Ivy. Leve. Mal encostando. O suficiente para ter certeza de que ela era real e ainda estava ali com ele, e não alguma coisa cruel que sua mente criou por desejo antes do amanhecer.
Ela se aproximou enquanto dormia.
A garganta dele se fechou.
Deus.
Havia algo perigoso em manhãs como aquela. Não porque houvesse algo errado, mas porque pareciam fáceis demais. Perto demais da vida que ele queria ter com ela. O tipo de momento que fazia seu lobo levantar a cabeça e começar a imaginar a permanência como se ela já estivesse ao alcance.
Minha, disse Akela, mais certo agora.
O maxilar de Cameron travou. Cuidado.
Akela não respondeu, mas Cameron ainda podia senti-lo sob sua pele, alerta e profundamente satisfeito com a visão dela em sua cama.
Não está ajudando.
Ivy fez um som suave e piscou acordando devagar, seus cílios subindo o suficiente para que olhos verdes sonolentos encontrassem os dele. Por um segundo, ela pareceu desorientada, então sua expressão suavizou quando o reconheceu.
“Ei”, ela sussurrou.
O peito dele se contraiu com força o bastante para doer. “Ei.”
A voz dela estava rouca de sono, quente e calma, e isso provocou algo nele para o qual ele não tinha palavras. Ela olhou para baixo, como se tivesse acabado de notar que estava quase metade deitada sobre ele, e um leve rubor tocou seu rosto.
“Você está encarando”, ela murmurou.
Ele quase sorriu. “Você estava babando em mim.”
Ela estreitou os olhos, mesmo meio adormecida. “Mentiroso.”
“Isso dói. Logo de manhã e você questiona minha integridade.”
“Você não tem integridade antes do café.”
Aquilo arrancou um sorriso verdadeiro dele.
O quarto permaneceu silencioso depois disso, o tipo de silêncio que não era vazio. O olhar de Ivy suavizou, mas ele podia ver aquilo lá também — aquela consciência sob a superfície. A noite passada não tinha desaparecido com o sono. A marca ainda estava entre eles. A escolha dela ainda era dela. A promessa dele ainda era dele para cumprir.
Ele estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. “Você está bem?”
Ela sustentou seu olhar por um segundo, tempo suficiente para ele saber que ela ouviu a pergunta real por trás daquilo.
Você ainda está bem depois da noite passada?
Nós ainda estamos bem?
Você ainda está aqui?
“Sim”, ela disse suavemente. “Um pouco envergonhada por acordar no seu quarto quando sua família inteira mora lá embaixo, mas... sim.”
A boca dele se curvou. “Isso é justo.”
Os lábios dela tremeram.
Ela ainda estava ali.
O pensamento mal tinha se assentado antes que passos pesados corressem pelo corredor.
Rápidos. Pequenos. Determinados.
Cameron fechou os olhos por um breve segundo. “Não.”
Ivy franziu a testa, ainda acordando. “O quê?”
A porta do quarto abriu-se com tanta força que bateu na parede.
“Ashe acordou!”
Sua irmã de dois anos entrou no quarto com seu lobo de pelúcia agarrado por uma orelha, cachos para todo lado, pijama torto e toda a força da natureza que ela geralmente trazia às seis da manhã. Ela deu três passos antes de se jogar na cama como se pagasse aluguel ali.
Ivy deu um solavanco para cima tão rápido que Cameron teve que segurar Ashe pela cintura antes que ela passasse por cima das pernas de Ivy.
“Ashe”, ele disse, segurando-a com um braço. “O que você está fazendo?”
Sua irmã deu uma risadinha, totalmente indiferente. “Acordei.”
“Eu estou vendo.”
Ashe se remexeu em seu aperto, olhando para Ivy com olhos grandes e sérios. “Você dormiu aqui.”
Ivy, com o cabelo uma bagunça e o rosto corado agora, piscou para ela. “Eu... dormi, é.”
Ashe pareceu pensar sobre isso. Então assentiu uma vez, como se aquilo fosse uma informação aceitável. “Ok.”
Cameron deixou a cabeça cair de volta contra o travesseiro por meio segundo. “Esta casa não tem regras.”
Ivy riu baixinho, tentando e falhando em esconder.
O som atingiu-o de forma baixa e calorosa.
Ashe se remexeu até que Cameron a colocou entre eles. Ela ficou sentada orgulhosamente, o lobo de pelúcia no colo, olhando de um para o outro como se tivesse interrompido algo importante e estivesse encantada com isso.
“Fome”, ela anunciou.
“Claro que você está”, murmurou Cameron.
“Quero cereal. Não o cereal ruim.”
“Existe cereal ruim agora?”
“Sim.”
Ivy pressionou os lábios, claramente perdendo a luta para não rir de novo.
Ashe apontou para ela. “Você vem também.”
Cameron olhou para Ivy então, esperando alguma hesitação. Talvez um constrangimento. Talvez aquele passo cauteloso para trás que ela às vezes dava quando sua família chegava perto demais, rápido demais.
Em vez disso, todo o rosto dela suavizou.
“Depois que eu escovar os dentes”, ela disse a Ashe.
Sua irmã aceitou imediatamente. “Tá. Rápido, hein.”
“Mandona”, disse Cameron.
Ashe o ignorou e se jogou de lado contra Ivy como se elas se conhecessem há sempre.
Algo em Cameron ficou muito quieto.
Não tenso.
Não agudo.
Quieto.
Sua irmãzinha confiava por instinto. Ela não se importava com a dinâmica da alcateia, ou com o que as pessoas lá embaixo poderiam inferir, ou o quão carregado era o fato de Ivy ter passado a noite em seu quarto depois de tudo. Ashe só se importava com quem parecia seguro.
E, aparentemente, Ivy passava essa segurança.
Ivy olhou por cima da cabeça de Ashe e pegou Cameron observando.
“O quê?”, ela perguntou baixinho.
Demais.
Ele poderia dizer a ela que ela ficava linda em sua cama. Que vê-la com Ashe fazia algo em seu peito se contorcer tão forte que parecia um hematoma. Que aquela manhã parecia perigosamente próxima do tipo de normalidade pela qual ele poderia se viciar.
Em vez disso, ele disse: “Você tem uma marca de travesseiro no rosto.”
A boca dela se abriu. “Nossa. Ok.”
“Está feio.”
Ela estreitou os olhos. “Você é, na verdade, o pior.”
Ashe ofegou alegremente. “Pior!”
“Obrigada”, disse Ivy com secura. “Muito útil.”
Cameron riu antes que pudesse se conter, e assim o ambiente relaxou. Só um pouco, mas o suficiente.
Akela se remexeu sob sua pele, mais calmo do que antes, mas não dormindo.
Isso poderia ser nosso, ele disse.
Os dedos de Cameron apertaram uma vez a ponta do cobertor. Não comece.
Não estou pressionando, disse Akela, o que provavelmente era o mais próximo da honestidade que Cameron conseguiria. Estou notando.
Esse era o problema. Cameron também estava notando.
A luz suave da manhã.
Ivy sentada em sua cama com o sono ainda nos olhos.
Ashe espremida entre eles, sem ideia de que tinha acabado de transformar algo dolorosamente íntimo em algo quase doce.
Uma cena tão simples que não deveria carregar tanto peso.
E, no entanto, carregava.
Porque na noite passada Ivy tinha traçado uma linha, e Cameron tinha prometido honrá-la. Sem pressão. Sem pressa. Sem a linha do tempo de mais ninguém. Nem mesmo se seu lobo odiasse isso. Nem mesmo se cada instinto em si continuasse alcançando mais.
Isso era o suficiente.
Tinha que ser o suficiente.
Ele se sentou com cuidado e levantou Ashe em seus braços antes que ela começasse a pular. “Vamos, pequena ameaça. Vamos aterrorizar a cozinha.”
“Eu aterrorizo o cereal”, corrigiu Ashe.
“Obviamente.”
Ivy afastou o cabelo e sentou-se também, parecendo muito mais acordada agora. Ainda havia suavidade em seu rosto, mas ele podia vê-la se acomodando de volta em si mesma da maneira que ela sempre fazia perto de outras pessoas. Não se afastando dele. Apenas... preparando-se para o dia.
Ele entendia isso.
Ele se levantou e ofereceu a mão a ela sem pensar.
Ela olhou para ela por um segundo. Então deslizou sua mão na dele e deixou que ele a puxasse para ficar de pé.
Simples.
Fácil.
Ainda o suficiente para fazer seu coração disparar uma vez forte contra as costelas.
Ashe imediatamente se inclinou para fora dos braços de Cameron em direção a Ivy. “Mão.”
Ivy sorriu e pegou a mão livre dela imediatamente.
Por um segundo estranho, eles apenas ficaram ali perto da cama — Ashe nos braços de Cameron, uma das mãos de Ivy na dele, a outra tomada por uma criança sonolenta, o quarto inteiro banhado em luz fraca e um silêncio que não duraria muito mais.
Uma imagem próxima demais de algo permanente.
Próxima demais de algo que ele poderia querer imprudentemente se não tomasse cuidado.
Então Cameron apertou o controle sobre si mesmo.
Sobre a paciência.
Sobre a promessa que ele lhe fez na noite passada.
Ele não iria apressá-la.
Nem por seu lobo.
Nem pela alcateia.
Nem por medo.
Nem mesmo pela parte de si mesmo que já imaginava o que significaria se manhãs como aquela parassem de ser emprestadas e começassem a ser deles.
Ashe se remexeu em seus braços. “Cereal agora.”
Cameron soltou o ar lentamente. “Sim, ok.”
Ele soltou a mão de Ivy primeiro.
Mas apenas depois de segurar por um segundo a mais do que o necessário.