A Temporada do Retorno

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Resumo

Quando Kendall Monroe deixou Northridge há dois anos, ela partiu com o coração despedaçado, um segredo que jamais planejou e nenhuma intenção de voltar. Agora, ela está de volta à mesma cidade universitária obcecada por hóquei que jurou nunca mais pisar, criando seu filho de dois anos, Everett, enquanto tenta reconstruir uma vida que finalmente parece estável. Entre levar o filho à creche, longos turnos na biblioteca e primeiros encontros desajeitados, Kendall está determinada a seguir em frente. Há apenas um problema. Brennan Hayes. Capitão do time de hóquei de Northridge. O garoto de ouro do campus. Futuro profissional. A mesma estrela do hóquei, devastadoramente atraente, que um dia a amou como se ela fosse seu mundo... antes de quebrar seu coração a ponto de fazê-la fugir. Brennan passou dois anos fingindo que superou Kendall. Ficas, festas, aplicativos de namoro, distrações sem sentido. Nada disso chegou perto de substituí-la. Então, certa noite, o perfil dela aparece na tela do seu celular. Um swipe muda tudo. Agora, Brennan não consegue parar de pensar na garota que perdeu... ou no garotinho com os olhos de Kendall e o sobrenome de outro. Mas Kendall não é mais a mesma garota que se apaixonou por ele. Ela é mãe agora. Mais forte. Mais reservada. E Brennan rapidamente percebe que vencer jogos de hóquei é muito mais fácil do que reconquistar a única mulher que ele já amou. Porque, desta vez, Kendall tem algo muito mais importante do que seu próprio coração para proteger. E Brennan está prestes a descobrir que segundas chances não são nada fáceis.

Gênero
Romance
Autor
Lynn Fair
Status
Completo
Capítulos
69
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
18+

Prólogo

Kendall

Dois Anos Atrás

A fundação de concreto da arena vibrava contra as solas dos meus tênis. Era um estrondo baixo e rítmico que parecia menos um som e mais uma presença física. Mesmo aqui, escondida nas entranhas do estádio, onde o ar cheirava a gelo velho, desinfetante industrial e equipamento úmido, não havia como escapar. As paredes não podiam contê-lo. As portas pesadas e resistentes ao fogo não podiam sufocá-lo.

A multidão gritava o nome dele.

*Hayes. Hayes. Hayes.*

Milhares de vozes movendo-se em uma cadência aterrorizante e sincronizada que fazia a poeira dançar na luz fluorescente forte acima da minha cabeça. Era um som sufocante, uma parede de pura adoração.

Geralmente, era o tipo de som que fazia algo quente e ferozmente protetor florescer bem abaixo das minhas costelas. Em qualquer outra noite, ouvi-los gritar por ele teria trazido um sorriso bobo e indefeso ao meu rosto. Isso acontecia porque eu possuía a única coisa que ninguém naquelas arquibancadas jamais teria: eu conhecia o garoto por trás da camisa. Eu conhecia a versão de Brennan Hayes que não existia sob o brilho ofuscante das vigas do estádio. Eu conhecia o garoto que rotineiramente comia cereal barato em tigelas de mistura, porque a louça normal exigia muitas reposições. Eu conhecia o peso exato e reconfortante do queixo dele descansando no meu ombro e o jeito que ele pressionava um beijo lento e demorado na curva sensível do meu pescoço quando estava tentando ser perdoado. Eu tinha um cemitério digital de selfies borradas e ridículas que ele enviava do fundo do ônibus do time às três da manhã, sempre acompanhadas de alguma mensagem alegando que a horrível iluminação do teto o fazia parecer "tragicamente bonito".

Ele era ridículo. Ele era impossível. Ele era inteira e incondicionalmente meu.

Pelo menos, ele tinha sido quando acordamos esta manhã.

Meu celular deu um zumbido forte e violento na palma da minha mão, a vibração repentina arrancando um suspiro irregular dos meus pulmões. Eu nem precisei olhar para a tela. Eu já tinha encarado o texto brilhante seis vezes, até que as palavras estivessem gravadas na minha retina, mas meu polegar deslizou pelo vidro mesmo assim.

> **Brennan:** Preciso te ver.

>

Quatro palavras.

Não havia conversa brincalhona. Nenhum emoji de provocação. Nenhum pedido posterior perguntando onde estava o beijo de boa sorte antes de ele entrar no gelo. Apenas uma ordem fria e estéril que parecia completamente estranha vinda dele.

Um nó frio e oleoso de ansiedade se formou no fundo do meu estômago, mas eu tentei ignorar, forçando-me a dar mais um passo pelo labirinto de corredores de blocos de concreto. Eu estava pensando demais. Tinha que ser isso. O que estava em jogo hoje era astronômico; ele tinha acabado de marcar o gol da vitória nos últimos trinta segundos do terceiro período, bem na frente de uma fileira de olheiros da NHL que passaram os últimos três meses dissecando cada movimento dele. Ele provavelmente estava apenas afogado em adrenalina. Brennan sempre ficava quieto quando o barulho ao redor dele ficava alto demais. Era um mecanismo de defesa; ele se voltava para dentro para se encontrar. Eu sabia disso sobre ele.

Eu conhecia cada um dos seus silêncios. Eu conhecia a topografia dos seus humores melhor do que a minha própria.

Ou, que Deus me ajude, eu achava que conhecia.

Fiz a última curva perto dos vestiários e o fôlego morreu completamente na minha garganta.

Ele estava parado perto do final do corredor, emoldurado pela luz feia e institucional do teto. Ele estava apenas meio despido do jogo; as calças pesadas de hóquei ainda pendiam de seus quadris, combinadas com a camisa de compressão que drenava o suor e que se agarrava às linhas largas e rígidas de seus ombros. Seu cabelo escuro era uma bagunça de cachos úmidos e rebeldes que grudavam em sua testa, pingando levemente contra sua pele. Sua camisa com listras universitárias estava apertada em seu punho direito, o tecido amassado com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.

Mas foi o maxilar dele que fez meu sangue gelar. Estava tão travado que eu conseguia ver o músculo pulsando violentamente sob a pele. Antes mesmo de ele abrir a boca, um medo pesado e sufocante se instalou no meu peito.

Meu ritmo diminuiu, meus tênis arrastando contra o chão gasto. — Ei — eu disse baixinho, a sílaba soando frágil contra o rugido distante do estádio.

Seus olhos se ergueram.

E lá estava. A coisa que eu passei os últimos dez minutos tentando desesperadamente não nomear.

Era uma expressão que eu nunca tinha visto no rosto dele nos três anos em que estivemos juntos. Não era o olhar de um cara cansado, ou estressado com olheiros, ou irritado com uma decisão errada de um árbitro. Este não era um problema externo.

Isso era sobre nós. Isso era um fim.

— O que aconteceu? — perguntei, minha voz baixando uma oitava, perdendo a suavidade, tornando-se aguda com um pânico repentino.

Sua garganta oscilou enquanto ele engolia em seco, seu peito subindo e descendo em um ritmo irregular. — Nada.

— Brennan.

Ele desviou o olhar. Ele realmente mudou o peso do corpo e deixou seu olhar cair para o chão de concreto gasto.

Aquele movimento covarde me apavorou mais do que qualquer outra coisa poderia ter feito. Brennan Hayes não desviava o olhar de mim. Não importava se estávamos no meio de uma discussão, se ele estivesse sussurrando um pedido de desculpas no meu cabelo no escuro, ou se ele estivesse me procurando em uma festa lotada e sufocante com aquele sorriso lento e malicioso que fazia meus joelhos cederem. Quando se tratava de mim, ele estava sempre totalmente presente. O foco dele era sempre absoluto.

Mas, agora, ele nem conseguia olhar nos meus olhos.

— Precisamos conversar — ele disse.

As palavras foram baixas, roucas por causa da gritaria no gelo, mas me atingiram como um golpe físico. Meus pulmões travaram, uma faixa apertada e agonizante envolvendo minhas costelas até doer para respirar. Eu odiava essas palavras. Eram pedaços pequenos e despretensiosos de vocabulário, mas quando colocadas juntas naquela sequência exata, tornavam-se uma arma. Uma ferramenta de diagnóstico destinada a abrir algo saudável e declará-lo morto.

— Ok — sussurrei, a palavra com gosto de cinzas.

Ele passou a mão livre pelos cachos úmidos, a camisa na outra mão farfalhando alto enquanto ele olhava de volta para as pesadas portas duplas do vestiário. De trás da madeira, os sons abafados de seu time explodiram; caras gritando, graves vibrando de uma caixa de som Bluetooth, bastões de metal batendo contra o chão enquanto celebravam uma vitória massiva, como se o mundo inteiro não tivesse acabado de sair completamente do eixo sob meus pés.

— Tenho pensado muito ultimamente — ele começou, sua voz plana, desprovida da cadência que geralmente me fazia sentir segura.

Uma risada aguda e histérica escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la. — Isso já soa para caralho de horrível.

A boca dele se contraiu nos cantos, uma microexpressão que parecia que ele queria sorrir, quebrar a tensão, dar um passo à frente, me envolver em seus braços e dizer que estava apenas brincando comigo. Por um segundo lindo e incrivelmente estúpido, eu me deixei acreditar nisso. Deixei-me pensar que ele estava apenas abalado. Que ele ia me dizer que estava apavorado com o futuro, que os olheiros o tinham encurralado, ou que ele só precisava que eu o levasse para algum lugar tranquilo onde o mundo não pudesse alcançá-lo.

Mas então o calor desapareceu e suas feições se fixaram novamente em uma máscara rígida e ilegível.

— Estou falando sério, Kendall.

A frieza no tom dele me fez instintivamente envolver meu corpo com os braços, meus dedos cavando fundo nas mangas grandes do moletom de algodão pesado que eu estava usando.

*O moletom dele.*

O cinza-escuro com seu sobrenome e número desbotados nas costas, aquele que ele praticamente me forçou a usar depois do nosso primeiro encontro porque o ar do outono tinha ficado frio e ele murmurou, com aquele sorriso estúpido e arrogante, que gostava de ver o nome dele na minha pele. Eu vivia nele desde então.

— Então apenas diga — eu exigi, minha voz endurecendo à medida que o medo começava a se transformar em uma raiva desesperada e defensiva. — Pare de enrolar.

Brennan apenas me encarou. O silêncio se estendeu entre nós, espesso e sufocante, durando um segundo a mais, depois dois, depois três.

E, naquele silêncio prolongado, a verdade cristalizou-se. Eu não precisava que ele a articulasse. O conhecimento desceu sobre mim como um peso físico, esmagando o ar do meu peito.

— Eu não consigo mais fazer isso — ele disse.

O corredor pareceu cair em um vácuo. O rugido distante da multidão, o grave batendo pelas portas do vestiário, o eco de passos mais adiante no corredor; tudo desapareceu, substituído por um zumbido agudo nos meus ouvidos.

Eu pisquei para ele, meu cérebro obstinadamente se recusando a processar a sintaxe da frase. — O quê?

— Você e eu — ele disse, sua voz baixando, completamente firme agora, o que de alguma forma tornava tudo mil vezes pior. — Eu não consigo continuar tentando equilibrar tudo isso, Kendall.

*Tudo isso.*

A frase soou como um tapa. Como se nosso relacionamento fosse um livro-razão que ele estava tentando equilibrar. Como se eu fosse uma bagagem extra pesada que ele era forçado a arrastar por um aeroporto. Como se me amar, depois de tudo que tínhamos construído, não passasse de um peso inconveniente que ele tinha que carregar.

Dei um passo para trás antes mesmo de meu cérebro registrar que minhas pernas estavam se movendo, criando distância entre nós porque a própria massa dele de repente parecia perigosa. — Você está terminando comigo?

Ele não respondeu.

Ele não piscou. Ele apenas ficou ali, o peito arfando sob a camisa de compressão, deixando o silêncio responder por ele. Era a saída de um covarde, deixar a ausência de uma negação fazer o trabalho pesado.

Meu coração não apenas partiu; senti como se ele tivesse se estilhaçado com um estalo interno violento, tão alto que fiquei genuinamente chocada por ele não ter recuado com o impacto.

— Você disse que me amava — sussurrei, as palavras soando patéticas, como uma criança implorando por um brinquedo que lhe tinha sido tirado. — Você me disse isso há dois dias.

Os olhos dele dispararam para os meus, um fogo repentino e sombrio acendendo neles. — Eu te amo.

— Então o que porra é isso, Brennan? — gritei, a raiva finalmente rompendo a paralisia. — O que você está fazendo?

O maxilar dele trabalhou, um músculo saltando violentamente perto da orelha. — Você merece mais do que essa vida. Você merece alguém que possa realmente estar presente.

Eu o encarei, completamente incrédula, e então outra risada saiu de mim. Era um som horrível e quebrado, cru e raspado nas bordas. — Não.

As sobrancelhas dele se juntaram, seus olhos se estreitando levemente. — Não o quê?

— Não faça parecer nobre — disparei, minha voz tremendo tão violentamente que precisei cerrar os dentes para evitar que batessem. Eu odiava a fraqueza disso. Odiava que eu estivesse desmoronando enquanto ele estava ali como uma estátua de pedra. — Não fique aí parado e destrua meu coração enquanto tenta fingir que está me fazendo um favor dos diabos.

Um lampejo de dor genuína passou pelo rosto dele, seus olhos se estreitando nos cantos.

*Bom*, pensei amargamente. *Bom*. Eu queria que doesse nele. Eu queria que ele sangrasse, mesmo que fosse apenas uma fração da ruína total e catastrófica que estava percorrendo minhas veias agora.

“Kendall—”

“Não”, eu disse, balançando a cabeça com força enquanto as primeiras lágrimas quentes e humilhantes começavam a arder atrás das minhas pálpebras. Pisquei para contê-las, recusando-me a deixá-las cair na frente dele. “Não, você não tem o direito de falar. Porque eu estive ao seu lado em cada momento disso. Em cada treino miserável às cinco da manhã, em cada viagem cansativa, em todas as vezes que o hóquei veio primeiro, eu recuei e entendi. Eu nunca reclamei. Nem uma única vez.”

Sua boca se abriu levemente e seu peito subiu como se ele quisesse interromper, mas nenhum som saiu.

“Eu mudei toda a minha grade da faculdade por causa dos seus jogos”, continuei, as palavras saindo em um fluxo furioso e sufocante. “Sentei em arenas geladas e miseráveis até meus dedos ficarem azuis. Celebrei cada uma de suas vitórias como se fossem minhas e te segurei no escuro após cada derrota, quando você nem conseguia falar. Eu te amei durante tudo isso, Brennan. Incondicionalmente. E agora, o quê? Agora que as coisas estão ficando sérias, de repente eu sou demais para você?”

“Não é isso que estou dizendo”, ele rosnou, dando um passo curto e brusco em minha direção, com a mão se estendendo instintivamente.

“É exatamente isso que estou ouvindo.”

“Amor, me escuta—”

“Não me chame assim.”

As palavras cortaram o ar como uma lâmina, mais afiadas e cruéis do que eu pretendia.

Brennan parou onde estava, sua mão estendida caindo pesadamente de volta ao lado do corpo, como se eu tivesse batido nele fisicamente. Por uma fração de segundo, sua máscara desmoronou completamente. Seu rosto fez algo horrível — contorceu-se em algo tão cru, tão devastado e quebrado, que uma parte de mim quis retirar o que disse instantaneamente. Uma parte de mim quis gritar que sentia muito e estender a mão para encurtar a distância entre nós.

Quase.

Mas a realidade permanecia. Ele ainda estava parado ali. Ele ainda era o único cravando a faca. Ele ainda estava escolhendo ativamente esse resultado.

Ele estava escolhendo o hóquei.

“Quer saber qual é a parte mais fudida disso?”, perguntei, usando as costas da mão para limpar com força uma lágrima perdida que escorreu pelo meu rosto, furiosa com meu próprio corpo por me trair. “Eu realmente achei que esta noite seria especial. Achei que íamos celebrar.”

Seus olhos se fecharam com força por um longo momento, seus cílios longos projetando sombras escuras sobre as maçãs do rosto.

“Havia olheiros da NHL lá hoje”, eu disse, minha voz caindo para um sussurro áspero e sarcástico. “A arena inteira estava gritando seu nome. Você marcou o gol da vitória. Você conseguiu tudo o que sempre quis, Brennan.”

Suas feições se contraíram ainda mais, seu rosto se contorcendo como se ele estivesse sentindo dor física.

E foi exatamente naquele momento que a última peça do quebra-cabeça se encaixou. A verdade fria e dura se instalou no fundo dos meus ossos, me destruindo completamente.

Eu não fazia mais parte do seu “tudo”. Eu era um peso. Eu era o excesso que precisava ser cortado sistematicamente para que o resto do sonho dele coubesse no espaço estreito e sufocante dos esportes profissionais.

“Então é isso?”, perguntei, a percepção fazendo meus joelhos fraquejarem. “Você chega perto do seu sonho, finalmente fica ao alcance da mão da NHL, e eu sou a primeira coisa que você descarta?”

Seus olhos se abriram bruscamente. Eles estavam mais escuros do que eu jamais tinha visto, o verde profundo sendo inteiramente engolido pelas pupilas, tornando-os quase pretos com uma emoção perigosa e volátil.

“Você acha que isso é fácil para mim, porra?”, ele exigiu, sua voz caindo para um registro rouco e grave que vibrava com uma raiva contida.

“Não”, eu disse, minha voz mal atravessando a distância entre nós, reduzida a um sussurro oco e ofegante. “Eu acho que você está tornando isso fácil ao fingir que não tem escolha.”

Sua respiração mudou instantaneamente. Ficou mais pesada e ruidosa, o som de um homem acuado em um canto. Era raiva, ou talvez apenas um mecanismo de defesa contra toda a dor que ele tentava suprimir.

“Eu não sei como ser o que você precisa que eu seja, Kendall”, ele disse, a voz falhando levemente ao dizer meu nome, o som rasgando minhas terminações nervosas. “E ainda ser o que eles precisam que eu seja também.”

“Eles?”, perguntei, com um tom amargo. “Os olheiros? A administração? Seu agente? Seu técnico?”

Ele não respondeu. Apenas me encarou, seu silêncio sendo uma admissão pesada e condenatória.

Assenti lentamente, embora cada órgão dentro do meu corpo parecesse entrar em colapso sob a pressão de uma estrela moribunda. “Certo. Claro.”

“Kendall, por favor.”

“Diga”, sussurrei, dando um passo em direção a ele, movida por uma coragem estranha e imprudente que só aparece quando você não tem absolutamente nada a perder. Eu queria que a execução fosse limpa. Não queria mentiras bonitas para me apegar mais tarde no escuro. “Diga, Brennan. Diga o que você realmente quer dizer. Use as palavras reais.”

Seu peito subiu e desceu em um último suspiro irregular. Quando ele falou, a voz era tão rouca que parecia estar rasgando sua garganta.

“Eu preciso focar no hóquei.”

Aí estava.

Seis palavras. Esse foi todo o pedido de execução. Foi só o que bastou para demolir três anos de história, de promessas compartilhadas e de um futuro que havíamos traçado em viagens noturnas.

Senti as palavras aterrissarem em algum lugar profundo e permanente, marcando minha alma. Por um momento aterrorizante, minha garganta travou e eu não consegui respirar. O mundo girando ao meu redor parecia completamente cinza.

Então, uma frieza estranha e cristalina me invadiu, substituindo o pânico e o calor da raiva. Era o entorpecimento do choque, e foi uma misericórdia.

Sem uma palavra, tirei meus braços das mangas longas e largas do seu moletom. Abaixei-me, agarrei a barra elástica grossa com ambas as mãos e puxei-a violentamente sobre a cabeça em um movimento fluido.

O tecido pesado raspou em meu rosto, a eletricidade estática fazendo meu cabelo subir em um halo selvagem ao redor da minha cabeça. O ar frio e estagnado do corredor da arena atingiu a pele nua dos meus braços e colo, causando arrepios instantâneos, mas eu não liguei. Eu não sentia o frio.

Os olhos de Brennan seguiram o movimento, caindo sobre o monte de tecido cinza que agora eu segurava como se fosse um cadáver.

Entrei em seu espaço pessoal, violando a fronteira pela última vez, e empurrei o moletom pesado contra o peito dele com força.

Suas mãos se moveram automaticamente, os dedos agarrando o tecido familiar para evitar que caísse no chão. Ele o pegou. É claro que pegou. Brennan Hayes era um atleta de classe mundial; ele sempre pegava tudo. Discos voando a cento e trinta quilômetros por hora. Passes perfeitos. Minha cintura quando eu tropeçava em absolutamente nada no apartamento dele. Minha mão sob a mesa em restaurantes lotados quando ele queria me lembrar que estava ali. Meu rosto entre suas palmas grandes e calejadas logo antes de me beijar como se tentasse ancorar toda a sua alma à minha.

Ele pegava tudo. Exceto nós.

“Sabe o que é realmente engraçado?”, eu disse, minha voz estranhamente calma, embora meu peito estivesse oco. “Eu teria seguido você para qualquer lugar, Brennan. Não importava a cidade, o time ou quão ruim a agenda ficasse. Eu teria ido.”

O rosto dele desmoronou. Verdadeiramente desmoronou desta vez.

A máscara dura e estoica rachou ao meio, um olhar de pura e absoluta devastação atravessou suas feições, e isso só piorou as coisas. Era um lembrete cruel de que ele ainda se importava, o que significava que aquilo era um sacrifício calculado.

“Kendall, por favor, não faça isso”, ele disse, sufocado, os dedos apertando tanto o moletom que o tecido rangeu.

Apenas balancei a cabeça, afastando-me de seu alcance. “Não. Você não tem o direito de pedir por favor. Não depois disso.”

Atrás dele, no longo corredor, a arena pareceu explodir mais uma vez. As portas de vidro vibraram com outra onda massiva de som atravessando os túneis de concreto.

*Hayes. Hayes. Hayes.*

O nome dele preenchia o estádio como um canto religioso. Era o som do futuro dele chamando por ele, exigindo sua lealdade absoluta. Era o som da vida que ele havia escolhido no lugar de mim.

E enquanto eu estava lá, sob a luz dura e impiedosa do corredor, olhando para o garoto que eu amava mais do que a minha própria vida, percebi que tinha entregado meu coração a alguém que sempre responderia àquele chamado primeiro.

“Você fez sua escolha”, sussurrei.

Então, virei as costas.

Cada passo para longe dele parecia arrastar meus pés através de concreto molhado. Meus músculos gritavam para eu parar, para voltar, para implorar. A cada centímetro de distância que eu colocava entre nós, eu esperava pelo inevitável. Esperava pelo som pesado dos seus patins de hóquei ou tênis rangendo contra o chão. Esperava pelo aperto brusco da sua mão em torno do meu pulso, puxando-me de volta para o peito dele. Esperava que sua voz quebrasse o silêncio, bloqueando minha saída, porque em três anos, Brennan Hayes nunca tinha me deixado ir embora brava. Nem uma vez. Ele sempre ia atrás de mim.

Um passo. Dois passos. Três passos.

As pesadas portas corta-fogo no final do corredor se aproximavam. Ainda assim, não havia nada além do som da minha própria respiração curta.

Cheguei à esquina que me levaria à saída.

Nada.

Eu me odiei por isso — desprezei a parte fraca e patética de mim que não conseguia simplesmente ir embora com a dignidade intacta —, mas parei e olhei por cima do ombro.

Ele não tinha se movido um milímetro. Ele ainda estava exatamente onde eu o deixara sob aqueles tubos fluorescentes zumbindo, seus ombros largos curvados levemente para a frente, apertando meu moletom descartado contra o peito como se fosse a única coisa tangível que restava de mim no mundo.

Por um suspiro final e agonizante, nossos olhos se encontraram através da longa extensão do corredor de concreto.

E naquele último olhar, vi a verdade. Eu sabia, sem sombra de dúvida, que ele ainda me amava. Estava escrito na linha oca do seu maxilar e no olhar vazio e triste em seus olhos.

Essa era a parte absolutamente pior de tudo. Ele me amava. Ele só não me escolheu.

Virei a esquina, empurrei as portas metálicas de saída e caminhei para dentro da noite nítida de outono enquanto milhares de pessoas dentro do prédio continuavam a gritar o nome dele para o teto.

No momento em que o ar frio e cortante atingiu meu rosto e a primeira lágrima real finalmente escorreu pelos meus cílios, entendi uma verdade fundamental que eu desejava a Deus não ter que aprender.

Às vezes, a pessoa que quebra seu coração não faz isso porque parou de te amar. Às vezes, elas fazem isso simplesmente porque amam outra coisa mais.