Quando os Corvos Calaram
Capítulo Um - Quando os Corvos Calaram
Os corvos pararam de cantar antes que o mar ficasse negro. Esse foi o primeiro aviso. Não o vento, embora ele soprasse cortante vindo do norte e carregasse a picada do gelo antigo. Nem as nuvens, embora elas pairassem baixas sobre Veyrhold, como se o céu tivesse se cansado e quisesse desabar sobre os telhados. Nem mesmo a estranha linha vermelha sangrando no horizonte, fina como uma ferida recém-aberta.
Os corvos. Sigrava Veyr estava no caminho do penhasco acima da vila, com uma mão curvada ao redor do punho de sua espada de treino e a outra fechada sobre o pequeno talismã de lobo de madeira em seu pescoço. O talismã pertencera ao seu irmão. Certa vez, quando ele ainda era pequeno o suficiente para se esconder atrás das saias dela e tolo o bastante para pensar que ela poderia espantar monstros, ele o esculpiu com uma faca cega e dedos sangrando. O lobo era torto. Um olho era maior que o outro. Seus dentes pareciam mais pedras de rio do que presas. Sigrava o usava mesmo assim, especialmente em noites como esta.
Abaixo dela, Veyrhold se preparava para a festa de inverno. Fumaça subia das casas comunais em fitas cinzentas. Tochas queimavam ao longo dos caminhos lamacentos. Homens arrastavam barris de cerveja em direção ao salão de seu pai, enquanto as mulheres gritavam para que parassem de derramar metade na neve. Crianças corriam umas atrás das outras entre os varais de peixes, guinchando sempre que alguém usando uma máscara de besta esculpida saltava das sombras. Deveria parecer caloroso. Deveria parecer seguro. Mas os corvos estavam em silêncio. Eles se alinhavam no telhado do santuário, formas negras contra a luz que desvanecia. Mais deles empoleiravam-se nas costelas do antigo arco de ossos de baleia perto da costa. Outros ficavam espalhados pelas pedras do penhasco acima dela, com as cabeças inclinadas, olhos brilhantes e atentos... eram muitos... silenciosos demais.
Sigrava nunca confiara no silêncio. Silêncio significava um homem prendendo a respiração atrás de uma porta. Silêncio significava a neve cedendo sob uma bota. Silêncio significava o rosto de seu pai depois que o mensageiro veio dizer que seu segundo irmão havia se afogado.
O mar nunca estava silencioso. Os deuses nunca estavam silenciosos. E os corvos só paravam de chamar quando algo maior que a morte estava ouvindo.
“Sigrava!” Ela se virou. Sua prima Brenna subia o caminho apressada, as saias reunidas nas duas mãos, as bochechas coradas pela subida. Seu cabelo ruivo escapara da trança em cachos selvagens ao redor do rosto, e uma guirlanda de bagas de inverno estava torta em sua cabeça.
“Aí está você”, disse Brenna. “Seu pai está procurando por você.”
“Então diga a ele que ele tem olhos.”
“Ele está procurando por você dentro do salão.”
“Então diga a ele que procure em um lugar menos estúpido.”
Brenna suspirou, embora sua boca tivesse um leve trejeito. “Você é impossível.”
“É o que dizem.”
“Repetidamente.”
“Por covardes.”
“Por todo mundo.”
Sigrava olhou de volta para os corvos. Um deles moveu as garras contra a viga do telhado. O som foi minúsculo, quase nada, mas na quietude, ele percorreu sua espinha.
Brenna seguiu seu olhar. “O que foi?”
“Os pássaros.”
“O que tem eles?”
“Eles ficaram quietos.”
Brenna lançou um olhar cauteloso aos corvos e depois fez o sinal da cruz do jeito antigo: dois dedos na testa, lábios e coração. “Não comece a falar como sua mãe esta noite.”
Os dedos de Sigrava apertaram o talismã de lobo. As pessoas raramente falavam de Eirhild Veyr agora... não a menos que estivessem bêbadas, sofrendo ou com medo. A mãe de Sigrava era bonita da maneira que as tempestades são bonitas à distância, cheia de cabelos escuros, olhos claros e uma voz que podia silenciar uma sala sem nunca se elevar. Ela sabia de coisas. Era isso que as pessoas sussurravam; não magia, nunca magia – Veyrhold era prática demais para essa palavra durante o dia. Mas Eirhild sabia quando os pescadores não voltariam. Ela sabia qual criança carregava febre antes da primeira tosse. Ela sabia, três noites antes de sua morte, que o mar não traria conforto para aqueles que pedissem demais a ele.
Sigrava tinha treze anos quando sua mãe entrou na água negra e não voltou. Depois disso, seu pai proibiu qualquer conversa sobre presságios. Como se o silêncio pudesse fazer os deuses esquecerem. “Não estou falando como ninguém”, disse Sigrava.
“Você está parada sozinha em um penhasco, encarando pássaros, durante sua própria festa de noivado.”
“Não é uma festa de noivado.”
As sobrancelhas de Brenna se ergueram.
“Não é”, rebateu Sigrava.
“É uma festa organizada pelo seu pai, com a presença do Jarl Oskell e seu filho mais velho, com cerveja suficiente para afogar um cavalo e carne assada o bastante para nos levar à falência até a primavera.”
“Isso não prova nada.”
“Isso prova que você está sendo vendida educadamente.”
Sigrava se afastou da vila. “Eu preferiria ser vendida de forma indelicada. Pelo menos assim eu poderia esfaquear alguém sem estragar o clima.”
Brenna riu uma vez, depois parou quando Sigrava não o fez. Sua voz suavizou. “Rava.” Apenas as pessoas que amavam Sigrava a chamavam assim. Havia cada vez menos delas a cada inverno. “Ele não é tão terrível assim”, disse Brenna.
“Quem?”
“Leif Oskellson.”
“Ele sorri com dentes demais.”
“Essa é a sua objeção?”
“É o suficiente.”
“Ele tem terras. Navios. Homens.”
“Meu pai também. E eu não vou me casar com ele também.”
Brenna fez um som de engasgo. “Não deixe que ninguém ouça você dizer isso.”
“Eu pretendo deixar que todos me ouçam dizer.”
“Sigrava.”
“Eu não serei trocada por um garoto de mãos macias que acha que uma espada é algo que seus homens carregam para ele.”
“Ele não tem mãos macias.”
“Ele usa luvas dentro de casa.”
“É inverno.”
“É fraqueza.”
Brenna pressionou os lábios, lutando contra o riso ou o desespero. “Seu pai quer paz com o clã de Oskell.”
“Meu pai quer filhos homens.” As palavras saíram mais frias do que ela pretendia.
O rosto de Brenna mudou. Abaixo delas, uma explosão de riso surgiu do salão. Alguém começara a bater um tambor. As primeiras notas de uma canção de festa ecoaram pela vila, ásperas, alegres e altas demais.
Sigrava olhou para as luzes nas janelas. O salão de seu pai era o maior edifício de Veyrhold, construído com vigas de dragão esculpidas e portas grossas tiradas de um ataque a um mosteiro do sul antes de ela nascer. Escudos alinhavam as paredes externas. A maioria pertencia a homens mortos. Os escudos de seus irmãos pendiam mais perto da entrada. O de Hemming estava partido ao meio. O de Rorik ainda trazia as manchas de sal do mar. Sigrava perguntara uma vez por que seu próprio escudo não podia ficar lá. Seu pai lhe dissera para não falar bobagens.
Ela podia lutar por Veyrhold. Sangrar por ele. Congelar em suas rotas de vigia e quebrar ossos em seu pátio de treinamento. Mas não podia herdá-lo. Não enquanto houvesse um homem em algum lugar disposto a colocar seu nome nela como um carimbo.
Brenna tocou seu braço. “Venha para dentro. Se você evitá-lo por muito mais tempo, Ulfr enviará homens para arrastá-la.”
“Ele pode tentar.”
“Ele vai.”
“Então eu vou mordê-los.”
“Você tem vinte e três anos.”
“E meus dentes são excelentes.”
Desta vez, Brenna riu de verdade. Ela balançou a cabeça e voltou pelo caminho. “Certo. Congele sozinha. Mas quando seu pai perguntar, direi que avisei você.”
“Diga a ele que os corvos me avisaram primeiro.”
Brenna parou. Por um momento, o divertimento deixou seu rosto. Acima delas, um corvo abriu o bico. Nenhum som saiu. Brenna sussurrou: “Não diga coisas assim”. Então, apressou-se em direção à vila.
Sigrava permaneceu no penhasco. O vento puxava mechas soltas de seu cabelo da trança. Ela não se vestira para a festa. Sua túnica de lã escura estava presa na cintura, suas botas estavam enlameadas pelo pátio de treinamento, e seu manto estava preso com ferro em vez de prata. Seu pai odiaria aquilo.
Ótimo. Talvez, se ela parecesse problemática o suficiente, Leif Oskellson decidiria que a paz não valia o esforço.
Um corvo derrubou algo do telhado do santuário. Caiu na neve perto dos pés de Sigrava com um baque úmido. Ela olhou para baixo. Um peixe - pequeno, prateado e morto. Sua barriga fora aberta da garganta à cauda, mas não havia sangue. Seu olho negro olhava para ela, turvo e acusador. Sigrava se agachou. O corte era limpo. Limpo demais para um pássaro. Ela estendeu a mão em direção a ele, mas parou. O ar mudou. Não o vento. O vento ainda soprava do norte. Isso era abaixo dele... uma pressão, profunda e baixa, rolando do mar como uma batida de tambor através dos ossos. Os corvos viraram suas cabeças em direção ao fiorde, todos de uma vez.
Sigrava se levantou. Bem abaixo, a água além da boca do porto escureceu; não com o cair da noite, não com a sombra das nuvens... apenas escureceu. Uma linha de névoa rastejou sobre as ondas, espessa e pálida como o hálito de uma boca moribunda. Engoliu as rochas primeiro, depois os postes marcadores externos, depois o canal estreito por onde os barcos de pesca entravam ao amanhecer. O pulso de Sigrava desacelerou. A canção de festa continuava abaixo. As crianças ainda riam. Os homens ainda gritavam por cerveja. Ninguém estava olhando para a água.
Sigrava correu. Suas botas bateram na terra congelada. Ela desceu o caminho do penhasco, a espada batendo contra a coxa, o manto estalando atrás dela. No meio do caminho, ela passou por Brenna.
“Sigrava?”
“Entre!”
“O quê?”
“Para dentro, Brenna!”
Sigrava não esperou para ver se ela obedecia. Ela alcançou a primeira fileira de varais de peixes exatamente quando o sino do porto começou a tocar. Uma vez. Uma pausa. Então, de novo. Não o toque rápido e alegre dos barcos retornando. Um lento badalar de ferro que gritava perigo.
A vila mudou em um instante. O riso se estilhaçou. Homens saíram do salão, alguns ainda segurando copos, outros com cintos mal apertados e facas desembainhadas. Mulheres arrancaram as crianças dos caminhos. Cães começaram a latir. Em algum lugar, um bebê chorou.
Sigrava empurrou um grupo de pessoas perto da casa de defumação. “Saiam da frente!”
Um homem agarrou sua manga. “O que é isso?”
Ela se soltou. “O mar.”
Ele a encarou como se ela tivesse enlouquecido. Então, o chifre soou baixo, longo e estranho. Cada rosto se virou em direção ao porto. A névoa se abriu. Velas negras emergiram dela; não uma, nem três, mas nove. Elas vieram como facas através da lã, navios longos com cascos escuros e proas esculpidas, seus remos movendo-se em silêncio perfeito. Nenhum canto surgiu deles, nenhum grito de guerra, nenhum tambor... apenas aquele chifre, novamente. Seu som rolou sobre Veyrhold e afundou nos dentes de Sigrava.
Uma mulher perto do poço gritou: “Hrafnheim”. O nome atravessou a vila como fogo pegando em grama seca.
“Hrafnheim.”
“Navios lobo.”
“O Lobo Negro.”
O coração de Sigrava bateu uma vez, forte. Impossível. Hrafnheim ficava além dos penhascos do norte, através de águas que nenhum navio sensato atravessava tão tarde na estação. Seu rei não atacava tão longe ao sul há anos. Não desde que ele derrotou os jarls da Costa de Pedra e pregou seus estandartes em seu salão. Não desde que ele afogou o príncipe rebelde em sua própria taça de festa. Não desde que as pessoas começaram a dizer seu nome suavemente, como se o som sozinho pudesse invocá-lo: Valdyr Hrafn – o Rei Lobo.
Uma mão fechou-se ao redor do ombro de Sigrava e a girou. Seu pai estava lá com seu manto de festa, barba prateada trançada, rosto vermelho de cerveja e raiva. “O que você fez?”, Ulfr Veyr exigiu.
Sigrava encarou-o. — O que eu fiz?
O aperto dele tornou-se doloroso. — Você estava nos penhascos?
— Sim.
— O que você viu?
— Navios.
Os olhos dele desviaram-se para o porto. O medo passou por eles tão depressa que ela quase não notou, quase. Sigrava já tinha visto o pai com raiva, sofrendo, orgulhoso, bêbado e até cruel. Mas ela nunca o tinha visto com medo, não daquele jeito.
— O que está acontecendo? — perguntou ela.
Ulfr soltou-a como se a pele dela estivesse queimando. — Vá para o salão.
— Não.
— Faça o que eu mando.
— Diga-me por que Hrafnheim navega contra nós.
— Porque os lobos estão com fome.
— Não minta para mim.
A palma da mão dele estalou no rosto dela. O som silenciou os homens mais próximos. A cabeça de Sigrava virou com o impacto. Um calor tomou conta da sua bochecha. Por um momento estranho, ela não ouviu nada além do sangue pulsando nos ouvidos. Então, olhou lentamente para ele de volta. A mão de Ulfr tremia, e aquilo assustou-a muito mais do que o tapa. — Para dentro — disse ele, com a voz rouca. — Agora.
A primeira flecha atingiu o alvo antes que ela pudesse responder. Enterrou-se na garganta do homem ao lado do poço. Ele caiu de joelhos, com as mãos arranhando a haste. Sangue negro escorreu por entre os seus dedos. A esposa dele gritou e avançou na sua direção, mas outra flecha atravessou-lhe o ombro e atirou-a na lama. Então, o céu encheu-se de ferro.
— Escudos! — alguém rugiu.
Não havia muralha pronta, apenas pânico. Sigrava moveu-se antes que o pensamento a alcançasse. Ela pegou um escudo de um suporte do lado de fora do defumadouro e empurrou um rapaz para trás de si enquanto as flechas martelavam a madeira. Uma atingiu com tanta força que atravessou, a ponta de ferro passando a centímetros do seu olho. O rapaz soluçou.
— Corra — disse ela. Ele não se mexeu. Ela virou-se e rosnou: — Corra! E desta vez ele correu.
Os navios chegaram à costa. Homens saltaram para as águas rasas, com cotas de malha negras brilhando, machados nas mãos e peles de lobo sobre os ombros. Seus rostos estavam marcados com cinzas e runas vermelhas. Moviam-se com uma disciplina brutal, não como saqueadores bêbados de sede de sangue, mas como caçadores que já sabiam onde cada armadilha estava escondida. Os homens de Veyrhold avançaram para enfrentá-los. O choque quebrou o silêncio da noite.
Sigrava sacou a espada quando um saqueador veio em sua direção através da fumaça, largo como uma porta, com o machado erguido. Os olhos dele passaram por ela e a ignoraram no mesmo instante. Aquele foi o seu primeiro erro. Ela aparou o machado com o escudo, avançou e cravou a lâmina abaixo das costelas dele. O suspiro quente dele bateu contra o rosto dela — esse foi o seu último. Ela empurrou-o e virou-se; outro veio. E depois outro.
O mundo resumiu-se a ombros, pulsos e ao som úmido do aço entrando na carne. O pai dela tinha-a treinado no antigo pátio até as suas palmas abrirem e as pernas tremerem. Ele dissera-lhe que os homens mentiam com a boca, com os olhos e com os votos, mas nunca com os ombros. Um ombro dizia-lhe para onde a lâmina iria. Sigrava ouviu. Ela esquivou-se de um golpe de espada e cortou a coxa de um homem. Bateu com o escudo no rosto dele quando caiu. Chutou o joelho de outro e cortou-lhe a garganta antes que ele pudesse gritar. O sangue fumegava na neve e a fumaça engrossava ao seu redor.
Em algum lugar, Brenna gritava o seu nome. Sigrava virou-se para o som, mas um vulto moveu-se através do fogo à sua frente, e cada instinto em seu corpo parou. Um cavalo surgiu da neblina, negro e enorme. A crina estava trançada com anéis de prata, os olhos revirando-se em branco, mas não se assustou com as chamas. O cavaleiro estava sem capacete, tão calmo quanto a morte no inverno. Usava couro preto sob um manto escuro de pele. Uma corrente cruzava o seu peito, pesada com amuletos de ferro. O seu cabelo era longo, negro, trançado nas têmporas e úmido por causa do mar. Uma cicatriz cortava a sobrancelha esquerda até um olho pálido, não azul, não cinza, mas prateado. O seu olhar percorreu a aldeia em chamas sem pressa. Homens morriam ao seu redor. Flechas sibilavam. Um telhado desabou, vomitando faíscas na escuridão.
Ele parecia entediado até vê-la. O mundo pareceu prender a respiração. Sigrava conhecia-o. Todos o conheciam: Valdyr Hrafn, o Rei Lobo de Hrafnheim. O homem que tomava reinos da mesma forma que outros homens tomavam pão. O homem que as mães usavam para assustar as crianças para que ficassem longe do gelo fino e das águas profundas. O homem que certa vez enviou um jarl rival de volta para casa vivo, mas sem a língua, as mãos ou os filhos. Ele olhou para Sigrava como se esperasse encontrá-la. Como se tivesse atravessado o mar negro por ela.
Os dedos dela apertaram a espada quando Valdyr desmontou. O ato foi sem pressa, quase um insulto. Um dos seus guerreiros moveu-se para ficar ao seu lado, mas Valdyr levantou a mão. O homem parou. O Rei Lobo caminhou através da fumaça e das cinzas que caíam em direção a ela. Ele era mais alto do que ela esperava, mas não monstruoso... pior, era humano o suficiente para que a sua beleza parecesse uma ofensa. Ombros largos. Sangue no maxilar. Uma boca feita para dar ordens, não para a bondade.
Sigrava ergueu a espada. — Aproxime-se — disse ela — e darei o seu coração aos corvos.
Os olhos dele foram para a lâmina. Depois para o rosto dela. E então, estranhamente, para o pingente de lobo de madeira em seu pescoço. Algo passou pela sua expressão... reconhecimento... dor. Desapareceu antes que ela pudesse nomear. — Você é filha de Eirhild — disse ele.
O sangue de Sigrava gelou. Ninguém fora de Veyrhold dizia o nome da sua mãe. Ninguém. — Não coloque o nome dela na sua boca.
Valdyr parou logo além do alcance do seu golpe. — Sigrava Veyr.
Ouvir o seu nome na voz dele foi como uma mão fechando-se em volta da sua nuca. — Como você me conhece?
Antes que ele pudesse responder, a voz do seu pai ecoou pelo pátio em chamas. — Draven!
Sigrava virou-se. Ulfr tropeçou para fora do salão com a espada desembainhada e o manto de festa pendurado torto em um ombro. Dois dos seus homens seguiam-no, embora ambos parecessem mais assustados do que leais.
Valdyr não desviou o olhar de Sigrava. — O meu nome — disse ele calmamente — é Hrafn.
Ulfr parou a dez passos de distância. O seu rosto tinha a cor de cera velha. — Você quebra a lei da hospitalidade — gritou Ulfr. — Você quebra um juramento. Você vem sob a fumaça da festa com lâminas.
Agora Valdyr olhou para ele. A mudança no ar foi imediata. Quando o seu olhar estava em Sigrava, era frio, calculista, quase involuntariamente vivo. Quando se voltou para Ulfr, tornou-se nada, menos do que ódio, menos do que raiva — uma porta fechando-se. — Eu não quebro nada — disse Valdyr. — Estou coletando o que você prometeu.
As palavras percorreram o pátio como um segundo fogo. Sigrava encarou o pai. Prometeu?
A boca de Ulfr abriu-se. Por um batimento cardíaco, toda a sua bravata foi embora. Abaixo dela, restava terror... e culpa.
— O que você prometeu? — exigiu Sigrava.
O pai dela não olhava para ela.
Valdyr olhou, e isso era de alguma forma pior. — Pergunte a ele — disse ele.
A mão de Ulfr tremia em volta da espada. — Você não tem direito.
— Não — disse Valdyr. — Os seus mortos falarão de direitos.
O sino do porto tocou novamente. Mas ninguém estava perto dele. O som estava errado agora. Não era tocado por uma mão. Mas como se soasse de dentro de si mesmo, profundo e distorcido, como se o ferro se lembrasse de ter sido enterrado. Então veio o grito. Subiu da costa, não era de uma mulher, não era de uma criança, não era de nenhuma garganta viva — era a fome transformada em som.
A luta vacilou. Até os guerreiros de Hrafnheim viraram-se para a água. A neblina na boca do porto engrossou. As ondas negras começaram a agitar-se, embora nenhum vento as tocasse. Algo pálido surgiu perto do navio mais próximo — uma mão, depois outra, depois um rosto.
O estômago de Sigrava revirou. Um homem arrastou-se para fora do mar. A sua pele estava inchada e cinzenta. Algas agarravam-se aos seus ombros. Um olho tinha desaparecido, a órbita cheia de sal negro. A sua boca pendia aberta, derramando água do mar a cada passo.
Ela conhecia-o: Velho Harek. Um pescador que tinha se afogado na primavera passada. A sua viúva gritou o nome dele e correu em sua direção.
— Não! — Valdyr gritou tarde demais.
Harek abriu os braços como se para abraçá-la. Então o seu maxilar abriu-se mais do que qualquer maxilar vivo deveria, e ele mordeu-lhe a garganta. A aldeia desmoronou. Os mortos subiram do fiorde. Dezenas deles. Homens. Mulheres. Crianças. Guerreiros em cotas de malha enferrujadas. Pescadores em mantos funerários. Alguns frescos o suficiente para serem reconhecidos. Outros tão antigos que o mar os transformou em coisas pálidas e famintas.
Os guerreiros de Hrafnheim viraram as costas aos homens de Veyrhold e formaram fileiras em direção à costa. Eles sabiam. Sigrava viu isso então. Eles esperavam por aquilo. Valdyr sacou o machado das costas. A lâmina era de ferro negro, bordada em prata, com runas esculpidas tão profundamente que brilhavam num azul fraco. — Queimem-nos — comandou ele.
Os seus homens obedeceram. Fogo rúnico irrompeu ao longo da costa, azul-frio e violento. As coisas mortas gritaram enquanto a chama subia pelos seus corpos molhados. O cheiro era pior do que carne queimada. Era sal, podridão e uma dor antiga.
Sigrava não conseguia mover-se. O seu pai tinha prometido algo. Valdyr tinha vindo buscá-lo. Os mortos tinham se levantado. E através da fumaça, tropeçando da água negra num manto funerário azul, veio um rapaz, pequeno, pálido e descalço. O seu cabelo escuro colado à testa. O mundo desapareceu sob os pés de Sigrava. Não. O pingente de lobo de madeira torto no seu pescoço parecia queimar. Não.
O rapaz ergueu o rosto. Um olho estava turvo e branco. O outro era ainda o castanho suave que ela se lembrava de cem manhãs: sonolento, confiante, sempre procurando por ela primeiro. — Rava — chamou ele. A espada de Sigrava escorregou da sua mão.
O seu irmão sorriu. Água do mar escorreu de entre os seus dentes. — Venha para casa — disse ele.
Ela deu um passo em direção a ele, e a mão de Valdyr prendeu-se ao seu pulso. — Não faça isso — disse ele.
Ela tentou soltar-se. — Solte-me.
— Aquele não é o seu irmão.
Ela atingiu-o no rosto com o seu escudo. A cabeça dele virou ligeiramente. Lentamente, ele olhou de volta para ela. Sangue escureceu o canto da sua boca. — Solte-me — rosnou ela — ou cortarei a sua mão do seu braço.
O seu irmão morto deu mais um passo. — Rava — sussurrou ele.
O som partiu algo nela. Ela girou, ergueu a espada e cravou o punho nas costelas de Valdyr. Ele exalou bruscamente, mas não a soltou. Ela tentou alcançar a faca no seu cinto. Ele apanhou essa mão também. Num movimento brutal, ele virou-a, prendeu-a contra o seu peito e segurou os dois pulsos dela cruzados à sua frente. A respiração dele tocou a sua orelha. — Olhe para os pés dele — disse ele.
— Eu vou matar você.
— Olhe.
Ela olhou. O seu irmão estava na neve. Mas a neve ao redor dos seus pés não derretia. Ela escurecia. Onde ele pisava, finas linhas de água escura espalhavam-se pelo branco como veias. Atrás dele, os mortos já não atacavam aleatoriamente. Estavam virando-se para ela — todos eles.
O irmão de Sigrava abriu a boca novamente. Desta vez, quando falou, a voz não era a dele.
Era a voz de uma mulher, profunda, suave e infinita: Porta.
Valdyr ficou rígido atrás dela. Através do pátio, Ulfr Veyr caiu de joelhos... ajoelhando-se. — Por favor — sussurrou o seu pai.
Sigrava encarou-o através da fumaça, da neve e do fogo azul. — O que você fez? — perguntou ela.
Ulfr cobriu o rosto. Os mortos começaram a rir. Valdyr soltou um dos seus pulsos apenas para arrastar o gume do seu machado pela sua própria palma. O sangue brotou vermelho-escuro à luz do fogo. Sigrava tentou afastar-se, mas ele segurou-a com força.
— Perdoe-me — disse ele. As palavras foram tão silenciosas que ela quase não as ouviu. Então, ele pegou a mão dela. Pressionou a sua palma sangrenta contra a dela, e o mundo abriu-se em chamas azuis.