Capítulo 1
As pessoas ainda falavam sobre isso como se fosse engraçado.
Essa era a pior parte.
Não o vídeo em si.
Não os sussurros.
Nem mesmo o jeito como estranhos ainda olhavam para ela às vezes, como se lembrassem de cada segundo.
Era a risada.
A risada interminável e implacável.
Mesmo agora.
Três anos depois.
Mya Bennett estava diante do espelho do banheiro às seis e meia da manhã, passando máscara nos cílios enquanto a chuva batia contra a pequena janela do apartamento ao seu lado.
Sua mãe já estava gritando com alguém ao telefone na cozinha.
De novo.
“Você acha que eu sou burra?”, a mãe disparou. “Eu sei exatamente o que você está fazendo—”
Armários bateram.
Mya fechou os olhos por um segundo.
Só um.
Inspire.
Expire.
Último ano do ensino médio.
Mais um ano e ela estaria livre.
Esse era o único pensamento que a ajudava a passar por manhãs como aquela.
Mais um ano.
Seu celular vibrou na bancada da pia.
Kate: tá viva?
Mya deu um sorriso fraco.
Quase isso.
Kate: usa a calça jeans preta hoje
se eu tenho que sofrer na aula de química, pelo menos deixa eu olhar para algo bonito
Mya: você é muito preocupante
Kate: mas mesmo assim, adorável
Outro grito explodiu da cozinha.
Os ombros de Mya ficaram tensos na hora.
“Você arruinou a minha vida, Darren!”
Silêncio.
Então, uma voz mais baixa.
Mais perigosa.
“Eu deveria ter tido mais juízo do que confiar em você.”
Mya encarou a si mesma no espelho.
Ela já parecia cansada.
Moletom escuro. Cabelo bagunçado. Olhar fechado.
Ninguém na Rosewood High lembrava de quem ela era antes do primeiro ano.
Antes da festa.
Antes de Cody Hayes.
Agora, ela era apenas a garota do vídeo.
A garota de quem todos riam.
A garota que se recuperou tão silenciosamente que ninguém notou que ela nunca se recuperou de verdade.
A voz da mãe dela falhou novamente.
Mya pegou sua mochila e saiu antes que a briga pudesse engolir o apartamento inteiro.
—
A Rosewood High parecia linda na chuva.
Essa era a parte chata das escolas de gente rica.
Até lugares miseráveis pareciam ter saído de um filme.
Os enormes prédios de tijolos brilhavam sob o céu cinzento. Carros caros enchiam o estacionamento. As bandeiras do time de futebol americano balançavam violentamente com o vento.
E bem ali, no centro de tudo—
Cody Hayes.
Claro.
Encostado em sua caminhonete preta, como se o universo o tivesse projetado pessoalmente para destruir vidas.
Jaqueta do time. Cabelo escuro molhado. Maxilar marcado. Uma arrogância preguiçosa.
Cercado de pessoas.
Sempre cercado de pessoas.
As garotas riam alto demais perto dele. Os caras o admiravam como se ele fosse um deus.
Mya odiava entender o porquê.
Ele parecia perigoso do jeito que as tempestades parecem.
Lindo até destruir alguma coisa.
Kate apareceu ao lado dela debaixo do mesmo guarda-chuva.
“Ah, ótimo”, Kate murmurou. “O Satanás chegou cedo.”
Mya soltou uma risada abafada.
Do outro lado do estacionamento, Cody olhou para cima.
E a viu imediatamente.
Todas as vezes.
Como se o corpo dele a reconhecesse antes que seu cérebro pudesse impedir.
Sua expressão mudou instantaneamente.
Diversão sarcástica.
O estômago de Mya se revirou com uma irritação automática.
“Não faz isso”, Kate avisou baixinho.
“Não fazer o quê?”
“Começar uma briga antes da primeira aula.”
Tarde demais.
Cody já estava andando na direção delas.
A chuva escorria pelas mangas de sua jaqueta enquanto os alunos se afastavam instintivamente.
Jaxon Reed caminhava ao lado dele, sorrindo para absolutamente tudo, como sempre.
Jaxon era o caos embrulhado em colônia cara e sorrisos de galã.
Cody era pior.
Porque Cody parecia calmo enquanto destruía as pessoas.
“Bem”, Cody falou com lentidão ao chegar nelas. “Se não é o meu pesadelo favorito.”
Mya sorriu friamente.
“Se você está tentando flertar, talvez deva fazer um teste de danos cerebrais primeiro.”
Jaxon soltou uma risada alta.
Os olhos de Cody brilharam.
Brevemente divertido.
Brevemente perigoso.
Kate gemeu dramaticamente. “São oito da manhã. Vocês dois podem adiar a tensão sexual para depois da cafeína?”
“Que nojo”, Mya disse na hora.
Cody deu um sorriso de lado.
“Aí está a hostilidade que eu senti falta durante o verão.”
“Você deveria ter sentido mais falta ainda.”
“Ah, eu tentei.”
Aquele sorriso idiota.
Aquele sorriso idiota e devastador.
Mya odiava a facilidade com que ele exibia confiança.
Como se a crueldade nunca lhe tivesse custado nada.
Como se o primeiro ano nunca tivesse acontecido.
A água da chuva encharcou seus tênis enquanto ela passava por ele.
A mão dele agarrou seu pulso de repente.
Nada intenso.
Mas o suficiente.
Uma eletricidade subiu pelo braço dela, violenta.
Os dois congelaram.
O ar mudou.
Sempre mudava quando eles se tocavam.
Mya se soltou num puxão imediato.
“Não me toca.”
Algo indecifrável cruzou o rosto dele.
E logo desapareceu sob uma camada de arrogância.
“Relaxa, Bennett. Você estava com algo no cabelo.”
“Preferia ser careca.”
Jaxon riu novamente.
Kate revirou os olhos. “Vocês dois são exaustivos.”
Mas Mya já estava indo embora.
Com o coração batendo rápido demais.
Ela ainda conseguia sentir a mão dele em sua pele.
Deus.
Ela o odiava.
—
O corredor fervilhava com a energia do último ano.
Candidaturas para faculdades. Temporada de futebol americano. Comissões de formatura criando drama em pleno setembro porque, aparentemente, adolescentes são clinicamente insanos.
Mya mantinha a cabeça baixa perto de seu armário.
Não porque fosse fraca.
Mas porque chamar atenção em Rosewood era perigoso.
Principalmente a dela.
“Ei,” alguém sussurrou por perto.
“É ela?”
Outra voz.
“Aquele vídeo foi cruel.”
Um calor inundou o peito dela imediatamente.
Três anos.
Três anos da porra e as pessoas ainda falavam disso.
Mya bateu a porta do armário com mais força do que pretendia.
Os calouros por perto tomaram um susto.
Bom.
Ela começou a caminhar em direção à aula—
E parou de repente.
Porque alguém tinha colado uma captura de tela impressa no seu armário.
Uma foto.
Antiga.
Humilhante.
Do primeiro ano.
Mya naquela festa.
Olhos arregalados. Mortificada. Segundos antes de a sala inteira começar a rir.
A garganta dela fechou na hora.
Ao seu redor, os alunos diminuíram o passo.
Observando.
Sempre observando.
E, escrito com um marcador preto grosso sobre a foto:
AINDA FÁCIL.
Algo horrível se contorceu dentro dela.
Não era tristeza.
Não era vergonha.
Raiva.
Pura raiva.
“Jesus,” Kate sussurrou ao lado dela. “Mya—”
Mya arrancou o papel com violência.
Suas mãos tremiam.
Não porque ela ia chorar.
Ela aprendeu há muito tempo a nunca chorar na escola.
Predadores sentem o cheiro de sangue.
“Quem fez isso?” Kate exigiu.
Mya já sabia.
Não especificamente.
Mas no geral.
A turma do futebol.
A galera popular.
As pessoas que cultuavam Cody Hayes e tratavam crueldade como entretenimento.
“Esquece isso,” Mya murmurou.
Mas então—
Uma voz familiar atrás dela.
“Bom, isso é criativo.”
Tudo dentro dela paralisou.
Cody.
Claro.
Ele estava a poucos metros de distância, segurando livros de forma desleixada em uma das mãos.
Sua expressão era indecifrável.
Os alunos por perto ficaram em silêncio instantaneamente.
Esperando.
Mya dobrou o papel amassado no punho lentamente.
“Você acha isso engraçado?”
“Não.”
“Sério? Porque seus amigos parecem entretidos.”
O maxilar dele se contraiu levemente.
“Eles não são meus amigos.”
“Isso é adorável, considerando que eles passam metade da vida te seguindo.”
Alguns alunos próximos se mexeram, sem jeito.
Cody se aproximou.
Perto demais.
“Você acha que eu mandei alguém fazer isso?”
Mya riu uma vez.
Seca.
Sem humor.
“Eu acho que você não os impede porque me ver ser humilhada sempre foi seu passatempo favorito.”
Algo perigoso brilhou nos olhos dele então.
Não era raiva.
Algo mais sombrio.
Culpa.
Desapareceu rápido.
“Você ainda está presa ao primeiro ano, Bennett?”
O corredor ficou em silêncio.
Kate murmurou: “Ai meu Deus...”
Mya encarou ele.
“Você quer dizer a noite em que você filmou minha humilhação pública enquanto todo mundo ria?”
O rosto de Cody endureceu na hora.
“Eu não filmei.”
“Mas você começou.”
Nenhum dos dois se moveu.
A tensão entre eles parecia estar viva.
Os alunos encaravam abertamente agora.
Isso era entretenimento em Rosewood.
O ódio deles tinha se tornado uma mitologia da escola.
Cody se inclinou levemente para frente.
“Você sabe qual é o seu problema?”
Mya sorriu friamente.
“Me ilumine.”
“Você age como se fosse a única pessoa que se lembra daquela noite.”
Por uma fração de segundo—
A voz dele soou quase irritada consigo mesma.
Então o sinal tocou.
O momento se quebrou instantaneamente.
Os alunos surgiram pelo corredor.
O barulho voltou de repente.
Cody se afastou primeiro.
Voltando à sua arrogância distante.
“A gente se vê por aí, Bennett.”
O pulso de Mya martelava dolorosamente enquanto ela o via desaparecer na multidão.
Kate soltou o ar devagar ao lado dela.
“Aquele garoto quer te beijar ou te matar.”
Mya apertou os livros com mais força.
“Espero que a segunda opção.”
Mas a mentira teve um gosto estranho na sua boca.
—
O horário do almoço foi pior.
Sempre era.
O refeitório da Rosewood funcionava como um reino.
Os atletas no centro. Os garotos ricos orbitando ao redor deles. Todos os outros tentando não se afogar socialmente.
Mya sentou-se à frente de Kate perto das janelas.
A chuva ainda batia no vidro lá fora.
“Ok”, disse Kate cautelosamente. “Precisamos conversar sobre a tensão psicótica no corredor.”
“A gente realmente não precisa.”
“Vocês dois pareciam estar a dois segundos de arrancar a roupa um do outro.”
Mya engasgou com a bebida.
“Ai meu Deus.”
“Estou falando sério.”
“Ele é um babaca narcisista.”
Kate deu de ombros. “Um babaca narcisista gostoso.”
“Traidora.”
“Observadora precisa.”
Mya revirou os olhos e olhou para o lado—
Diretamente para a mesa de Cody.
Erro.
Ele já estava olhando para ela.
Claro que estava.
Jaxon disse algo ao lado dele que fez vários jogadores de futebol rirem, mas Cody mal reagiu.
Seus olhos permaneceram fixos nos dela.
Como se ele estivesse tentando começar uma briga do outro lado do refeitório.
Ou terminar uma.
Mya desviou o olhar primeiro.
Irritada instantaneamente por esse fato.
Kate percebeu.
Deu um sorrisinho cúmplice.
“Eu odeio sua cara”, informou Mya.
“Hum-hum.”
Então, de repente—
Uma caixa de leite explodiu na mesa de Mya.
Líquido frio espirrou no seu moletom, nos livros e no seu colo.
O refeitório explodiu em risadas.
Mya paralisou.
Do outro lado do salão, um dos jogadores de futebol deu um sorriso largo.
“Ops.”
A humilhação a atingiu instantaneamente.
Quente.
Afiada.
Familiar.
Seu peito apertou dolorosamente enquanto as risadas ecoavam ao seu redor novamente—
Exatamente como no primeiro ano.
Exatamente como naquela festa.
Kate levantou-se imediatamente. “Que porra há de errado com você?”
Mas Mya mal a ouviu.
Porque Cody também tinha se levantado.
O refeitório inteiro ficou ligeiramente quieto.
Cody encarou o colega de time do outro lado do salão.
Sua expressão era letal.
“Que porra foi essa?”
O cara riu nervosamente. “Relaxa, cara. Foi uma brincadeira.”
Cody se moveu rápido.
Sua cadeira bateu para trás com força suficiente para ranger no piso.
“Parece que ela está rindo?”
Silêncio.
Silêncio de verdade desta vez.
A confiança do jogador de futebol vacilou na hora.
Mya encarou Cody em choque.
Ele parecia furioso.
Furioso de verdade.
Não divertido.
Não distante.
Furioso.
O colega zombou fracamente. “Por que você se importa?”
A voz de Cody baixou perigosamente.
“Eu disse para pedir desculpas.”
Ninguém se moveu.
Ninguém respirou.
O coração de Mya batia violentamente contra as costelas.
Porque, de repente, todos os olhares do refeitório não estavam mais focados na sua humilhação.
Estavam em Cody Hayes a defendendo.
O que fazia ainda menos sentido.
O colega resmungou algo baixinho antes de pegar sua bandeja e sair de vez.
A tensão permaneceu.
Pesada.
Afiada.
Cody olhou para Mya então.
E por um segundo impossível—
Ele pareceu arrependido.
Como se lembrasse de cada coisa horrível que já tinha feito a ela, tudo de uma vez.
Mya levantou-se bruscamente.
“Não preciso da sua ajuda.”
O olhar dele endureceu instantaneamente de novo.
“Bom para você.”
Ela pegou sua mochila encharcada.
As mãos tremiam.
Humilhação, raiva e confusão a dilaceravam por dentro.
Porque esse era o problema com Cody Hayes.
Ele podia arruiná-la.
Humilhá-la.
Fazê-la se odiar.
E, de alguma forma, ainda ser a única pessoa na sala que parecia pronta para incendiar o mundo quando outra pessoa a feria.
Mya passou por ele com força suficiente para que seus ombros colidissem.
A eletricidade estalou entre eles novamente.
Nenhum dos dois reconheceu.
Mas ambos sentiram.
Ela deixou o refeitório com o pulso acelerado e a humilhação queimando sob sua pele.
Atrás dela, o salão inteiro explodiu em cochichos.
E Cody a viu partir com uma expressão no rosto que ninguém ali entendeu.
Nem mesmo ele.