Capítulo I
"Bem-vinda à Vila."
Numa pequena comunidade do posto administrativo da Missão Mocumbi, no distrito de Inharrime, vivia Antonieta.
Uma jovem cuja beleza celestial barralhava a visão do homem comum, deixando sempre algum embaraço por onde passava. Rapazes da sua idade, homens feitos e até alguns mais velhos pareciam perder o juízo quando ela aparecia. Mas não era apenas a beleza que chamava atenção. Antonieta também era conhecida pela sua doçura, educação e inocência, uma réplica da própria humildade em pessoa.
Desde muito nova, vários homens já haviam ido à casa do seu pai pedir a sua mão em casamento. O pai, Honesto, sempre recusava educadamente alegando que faltava na idade.
— A menina ainda está a crescer — respondia ele. — Ainda não é tempo.
Com o passar dos anos, porém, a situação foi durando.
Numa tarde quente de janeiro, Honesto discutia no quintal com o filho mais velho, Chinene, sobre o futuro da filha.
— Antonieta vai para Inharrime — dizia o pai, sentado num tronco à sombra de uma mangueira. — Lá ela pode fazer a décima primeira e décima segunda classes. Precisa tornar-se alguém.
Chinene abanou a cabeça irritado.
— Escola para quê? — perguntou, levantando a voz. — Para depois ela meter isso nas panelas como todas as outras?
Honesto suspirou.
— Não devo nada a ninguém para impedir a minha filha de estudar.
— O pai não está a ver direito — respondeu Chinene, já nervoso. — Essa daí devia ficar em casa a aprender a ser mulher. Não vamos sustentar alguém com mamas dentro desta casa só para ir brincar de escolinha.
— Tenha calma, meu filho — disse Honesto, tentando manter a serenidade. — Um dia ela vai casar, sim. Mas ainda tem tempo. O Mário já falou comigo… disse que a quer casar e olha que ele é um bom rapaz.
— casar? — Chinene riu com desprezo. — E o que nos vale um casamento com um servente do hospital? O Maguide trabalha na África do Sul. Esse sim tem futuro.
Sem esperar resposta, pegou na sua catana e afastou-se em direção às matas todo frustrado.
A noite caiu sutilmente.
No quintal, à luz do luar, a família jantava ao ar livre. Antonieta servia a comida enquanto o pai e os irmãos conversavam.
Foi então que um visitante apareceu assim do nada.
— Papá Honesto! — chamou uma voz.
Era Mário, um vizinho distante que trabalhava na vila de Inharrime.
— Entra, meu filho! — respondeu Honesto com alegria. — Venha juntar-se a nós.
Mário aproximou-se e sentou-se ao lado dele.
— Antonieta, minha filha — disse o pai — traga mais um vindirich (prato) para o senhor Mário.
— Já volto, papá.
Quando voltou, Mário já sorria para todos.
— Então — perguntou Honesto — que notícias traz?
Mário olhou para Antonieta e depois para o pai.
— Pode mandar a menina fazer as malas.
Honesto banhou se de dúvidas.
— Como assim?
— Consegui resolver tudo. Antonieta pode estudar em Inharrime.
O velho começou a rir de alegria.
— Falta-me palavras para agradecer!
Mário acenou com a mão, em sinais de não.
— Não precisa agradecer. Faço isso pelo nosso bem.
Virou-se para Antonieta.
— Então, menina… prepare-se. Segunda-feira vamos para a vila.
Antonieta sorriu timidamente.
— Está bem, mano Mário.
— Só vai ter de se comportar, ouviu?
— Vai se comportar, sim — respondeu o pai, orgulhoso. — Minha filha é direita.
Segunda-feira chegou depressa.
Antonieta acordou cedo, tomou banho e vestiu as suas melhores roupas. Antes de sair, abraçou o pai com força e despediu-se dos irmãos, sobrinhos e cunhadas.
Logo depois, Mário passou para levá-la.
A viagem até a vila de Inharrime não demorou muito, mas para Antonieta parecia uma travessia para outro mundo.
Quando chegaram, ela ficou completamente fascinada com o fascínio da vila..
Havia gente por todo lado. Bancas de mercado cheias de produtos, vendedores gritando ofertas, crianças correndo entre as ruas e, no centro, um pequeno jardim que parecia o lugar mais bonito que ela já tinha visto.
— Tanta gente… — murmurou Antonieta, de boca aberta. — Isto é o mais perto do paraíso que eu já vi.
Mário riu.
— Acostume-se. Agora esta também é o seu paraíso.
Apontou para diferentes direções enquanto caminhavam.
— Daquele lado fica o hospital onde trabalho. Mais adiante está a escola. E ao lado o internato onde você vai ficar.
Antonieta observava tudo como se estivesse sonhando.
Logo chegaram à escola.
Depois de deixarem as coisas no internato, Mário levou-a até os corredores das salas.
Ela parou diante de uma porta aberta. Vestia uma saia preta longa que quase tocava os calcanhares e uma camisa branca bem abotoada, ajustou a gravata, respirou fundo e bateu levemente.
— Com licença, professor…
O homem dentro da sala levantou os olhos.
Era o professor Malaia.
— Está atrasada — disse ele imparcialmente — Entre.
Antonieta entrou timidamente.
— E então, turma — disse o professor. — Temos uma nova colega. Apresente-se.
Ela ficou de pé diante de todos.
— O meu nome é Antonieta Honesto Nhamia. Nasci e cresci na pequena vila Missão Mocumbi… e vim para terminar o ensino aqui.
O professor observou-a por alguns segundos.
— Então, Antonieta de Mocumbi… quem vem de tão longe não vem para brincar, certo?
— Não, professor.
Ele assentiu.
— perfeito. Sente-se.
A aula seguiu normalmente até ao intervalo.
Os alunos começaram a sair da sala gradualmente, Antonieta ia fazendo o mesmo até ser chamada:
— Antonieta.
Ela voltou-se.
— Sim, professor?
— O ano lectivo começou há uma semana. Está atrasada em relação a minha agenda.
— Eu sei, professor. Vou pedir aos colegas para me enquadrarem.
Ele balançou a cabeça.
— Não é isso. Eu mesmo posso proporcionar tudo o que perdeu.
— agradecida, professor.
— Na minha casa. Depois das aulas.
Antonieta ficou confusa por um instante.
— Na casa do professor? - abrindo um sorriso nervoso.
— Sim. É algo normal por aqui.
Ela baixou os olhos.
— Desculpe, professor… o meu papa não permite que eu vá a casas de homens.
O professor aproximou-se um pouco.
— É a casa do seu professor. Se quiser passar de classe, vai ter de passar por lá.
E saiu da sala.
Antonieta voltou lentamente para a sua carteira, sem moral para sair.
Pouco depois, dois rapazes aproximaram-se dela.
— Colega de Mocumbi! — disse um deles, sorrindo.
Ela levantou os olhos.
— Bom dia…
— Eu sou Casimiro — disse ele. — E este aqui é Petirosse.
Petirosse acenou, meio baralhado.
— Não gosta de sair para o corredor no intervalo? — perguntou Casimiro.
— Na Missão eu fazia isso com as minhas amigas.
— Então venha connosco. Vamos mostrar a escola.
Antonieta hesitou, mas acabou sorrindo.
— Está bem.
Os três saíram para o corredor.
O sol do meio-dia iluminava o pátio da escola. Grupos de alunos conversavam por toda parte enquanto outros peranbulavam.
Enquanto caminhavam, Casimiro mostrou-lhe os lugares importantes da escola: as melhores casas de banho, a reprografia, o pátio e o refeitório.
— Então, colega de Mocumbi — perguntou ele — o que está a achando da vila?
Antonieta olhou à volta.
— É muito diferente… nunca vi tantas meninas na escola.
Casimiro caiu na gargalhada.
— Sério?
— Lá no Mocumbi quase todas vão abandonando cedo para engravidar ou lobolar.
— Então você é um caso raro — disse ele.
Enquanto conversavam, Antonieta levantou os olhos e viu alguém no outro lado do pátio.
Era o professor Malaia.
O sorriso dela desapareceu, sumiu, esvaziou, foi se.
Casimiro percebeu imediatamente.
— Não fique assustada — disse ele em voz baixa. — Eu vi como ele olha para você.
Antonieta virou-se.
— Como assim?
Petirosse arrumou coragem falondo pela primeira vez
— Ele já fez isso antes.
— Com quem?
— Com a Elisa — respondeu Casimiro.
— O que aconteceu com ela?
Os dois rapazes trocaram um olhar.
— Ninguém sabe aõ certo — disse Casimiro. — A quem alega que mudará de distrito…
Casimiro tentou sorrir.
— Não precisa ter medo. Se ele tentar alguma coisa, vai ter de lidar connosco.
Antonieta respirou fundo e olhou novamente para a escola, para os alunos e para a vila que ainda há poucas horas lhe parecera um paraíso.
Agora já não tinha tanta certeza.
Casimiro abriu os braços.
— De qualquer uma das formas… é o começo da sua grande aventura.
E sorriu.
— Bem-vinda à vila.