Prólogo
Sera
Eu nunca tinha estado em um lugar como aquele antes.
A luz tinha a cor de mel e escorria pelas paredes. Tudo cheirava a charutos e dinheiro antigo. Cardápios sem preços. Sem música alta. Apenas murmúrios baixos e o tilintar suave de taças que provavelmente custavam mais do que o meu aluguel inteiro. Ele não me disse o nome do lugar, apenas enviou um endereço e um horário.
Eu pesquisei no Google cinco minutos antes de chegar e quase dei meia-volta quando vi as avaliações, com palavras como exclusivo, apenas com reserva e elite política.
Eu não voltei atrás. A curiosidade, ou talvez o desespero, me fez continuar andando. Eu precisava saber por que um homem que nem tinha olhado para o meu currículo, que tinha rejeitado minha inscrição sem dizer uma palavra, agora queria me ver pessoalmente.
Eu disse a mim mesma que não estava nervosa, mesmo quando a recepcionista me olhou de cima a baixo como se eu não pertencesse àquele lugar. Disse a mim mesma que meus saltos não doíam, que eu tinha escolhido aquele vestido porque gostava dele, e não porque era o único que eu tinha que parecia caro sob luz baixa. Eu disse a mim mesma que, seja lá o que fosse aquilo, eu daria conta.
"Srta. Casteele", ele disse com um sorriso, levantando-se da cabine no canto assim que me aproximei. "Eu não tinha certeza se você viria."
"Eu também não tinha certeza", respondi, retribuindo o sorriso.
Mentira número um. Eu tive certeza no segundo em que li a mensagem dele.
Ele fez um gesto para eu me sentar. Deslizei para a cabine à frente dele, o couro frio contra minhas costas. Ele não buscou o cardápio. Eu também não. Sua postura era relaxada, mas eu podia sentir a impaciência emanando dele. Ele estava esperando por algo, mas eu não sabia o quê.
Mantive minhas mãos imóveis no colo e deixei o silêncio reinar. Eu não seria a primeira a quebrá-lo. Ficamos apenas ali sentados, o silêncio se estendendo tão deliberadamente quanto o espaço entre nós.
"Você está fazendo estágio na Carson & Finch neste semestre, não está?"
Eu assenti. "Comecei há duas semanas."
Ele me estudou com a facilidade de um homem que tinha tempo de sobra. Ambas as mãos estavam perfeitamente entrelaçadas sobre a mesa à sua frente. Suas abotoaduras captavam a luz, douradas e gravadas com um brasão de família que eu não reconhecia.
"Você esconde bem", ele disse. "De onde você vem, quero dizer."
Eu não perguntei como ele sabia de onde eu vinha. Não importava. Pessoas como ele sempre sabiam. A questão não era se ele tinha descoberto a sujeira. Era o quão fundo ele tinha cavado e o que planejava fazer com aquilo.
"Eu gosto disso", ele acrescentou. "Me dá um motivo para ir direto ao ponto sem bullshit."
Inclinei a cabeça. "Foi por isso que me trouxe aqui? Pela minha vantagem?"
Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos seus olhos.
"Você disse na sua inscrição que estudava direito na Halston com uma bolsa de mérito", ele continuou. "Mas eu fiz algumas ligações. Você não tem bolsa nenhuma. Na verdade, você mal conseguiu entrar. Seu histórico escolar era... bem, digamos que não era nada lisonjeiro. Não até o seu último ano."
Meu estômago revirou, mas não disse nada. Ele esperou, ele queria que eu me contorcesse.
"Por que mentir?", ele perguntou, aquele olhar ainda pairando em seu rosto.
Já tinham me feito essa pergunta antes, às vezes com curiosidade, às vezes com crueldade. A verdade nunca era simples.
Eu não sei por que faço isso. Talvez porque mentir para estranhos seja mais fácil do que dizer a verdade para pessoas que acham que te conhecem. Talvez porque, se eu dissesse as coisas certas, poderia ser qualquer pessoa, menos eu mesma.
"Eu não menti", eu disse calmamente. "Prefiro o termo 'curadoria'."
Isso o fez rir, do jeito que todos os homens ricos riem quando acham que encontraram algo raro.
"Eu gosto de você", ele disse, com os cantos dos olhos enrugados.
Não disse nada. Observei seu terno perfeitamente ajustado. O relógio Rolex dourado e brilhante em seu pulso. Éramos de mundos completamente diferentes. Qualquer coisa que ele gostasse em mim não podia ser algo bom.
Ele recostou-se. "A maioria dos candidatos quer me impressionar com históricos impecáveis. Você, por outro lado, entende o jogo. Sabe como impressionar sem tentar."
"Eu entendo como sobreviver."
Ele riu baixinho, balançando a cabeça. Devo ter passado em algum teste invisível dele. Para ser sincera, eu não gostava de para onde aquela conversa estava indo.
"E é exatamente isso que te torna interessante." Ele inclinou-se um pouco para a frente, com a voz mais suave. "Existe um caso em que estou trabalhando. Um caso complicado. E preciso de alguém com seus talentos específicos. Alguém que saiba como fazer as pessoas acreditarem em coisas que não deveriam."
As peças se encaixaram com um choque familiar e desconfortável. Eu sabia o que ele estava me pedindo. E o quão fundo ele realmente tinha cavado no meu passado.
Eu o encarei. "Você quer que eu minta no tribunal?"
"Quero que você testemunhe em um caso de grande repercussão." Ele alcançou o bolso e deslizou um cartão pela mesa. "Tudo o que você disser será preparado para você. Tudo o que precisa fazer é desempenhar o seu papel."
Não toquei no cartão.
"Eu investiguei você. Li sua ficha", ele disse. "O dinheiro. As cartas. A subida repentina nas notas. Eu sei o que você fez para chegar aqui. Você é engenhosa, Sera. Mas não vamos fingir que este estágio seja o que você realmente quer."
Engoli em seco. "O que eu realmente quero?"
Ele sorriu como se a resposta fosse óbvia. "Você quer a porta aberta. Aquela que garotas como você não deveriam alcançar. Faculdade de direito. Prestígio. Poder. Você quer que as pessoas parem de olhar para você como se você tivesse implorado para entrar. Eu posso te dar tudo isso."
"O que eu ganho em troca?", perguntei. Minha voz não vacilou.
"Em troca?", ele ecoou. "Se você subir naquele estrado, você conta uma história. E quando tudo terminar, você sai com uma oportunidade. Vou retirar minha rejeição inicial ao seu estágio e garantir uma vaga para você na Crane University. Com todas as despesas pagas."
Ele estava oferecendo a única coisa pela qual eu tinha me matado para conseguir, a versão de mim que eu tinha construído tijolo por tijolo, mentira por mentira. E tudo o que custaria seria apenas mais uma mentira.
Meus dedos finalmente roçaram a borda do cartão. A curiosidade sempre foi meu pior hábito.
Ele me observou em silêncio. Não havia pressão em sua voz, mas no fundo, eu sabia que não podia dizer não. Ele poderia expor meu passado, destruir tudo o que eu tinha feito por mim mesma.
Mas a verdade era que eu não queria dizer não.
Pensei no apartamento que eu mal conseguia pagar. No passado que eu não podia apagar. Nos anos que passei sendo descartável.
Eu olhei nos olhos dele. "O que acontece com o homem contra quem vou testemunhar?"
"Ele perde. Você ganha." A resposta foi instantânea e natural. "Ele não é o importante nesta história. Você é."
O momento caiu em silêncio e, naquele silêncio, eu assenti.
E, assim, a garota que eu costumava ser desapareceu. Porque a sobrevivência não é sobre dizer a verdade. É sobre escolher o caminho que te faz sair viva.