Chapter 1
SEXTA-FEIRA À NOITE
Descobri recentemente que é possível espancar um homem até a morte com um capacete de moto.
Não é algo que eu faria sempre, já que agora preciso substituir o tal capacete, mas é uma boa arma se você estiver num aperto, e salvou minha vida ontem à noite. Não é incomum que tentem me matar, mas o que é incomum é que o homem que eu matei foi enviado para entregar um convite e, ao descobrir quem eu era, decidiu tentar a sorte. A coisa terminou com meu capacete quebrado e pedaços do cérebro dele nos armários da minha cozinha.
Isso foi há umas seis horas. Aceitei o convite, e agora um estranho está me levando através da floresta densa de um lugar que eu não conheço. Viajamos parte do caminho de avião, mantiveram um capuz na minha cabeça e música alta nos meus ouvidos. Por fim, fui guiado até este carro, e desde que tirei o capuz, só vi estradas silenciosas e florestas sem fim.
A maioria poderia se encolher diante desses homens que estou prestes a conhecer, mas foi para isso que treinei. Passei anos infiltrado trabalhando para chegar aqui, e mais tempo ainda planejando tudo; algo tão trivial como o medo não vai me segurar.
O carro para diante de um portão de madeira pintado de bordô, ladeado por muros de pedra cinza. Luzes de tom alaranjado fixadas na pedra perfuram um pouco da escuridão, e pelo pouco que consigo ver, apenas as árvores são altas o suficiente para superar a altura deste lugar.
O vidro zune quando o abaixo, e o cheiro forte de pinho e chuva atinge meu nariz. Nunca fui fã de carros, e esta viagem me faz sentir falta do conforto da minha moto. Nada é mais reconfortante do que o ronco de um motor embaixo de mim, o borrão das luzes da cidade enquanto ultrapasso o limite de velocidade, perdido demais no momento para me importar.
“Acelera mais e eu te beijo, Cole.”
“Sobe o vidro”, dispara o motorista, me arrancando da única memória que não desperta fúria.
Fecho os olhos, inalo fundo e viro o pequeno dispositivo de metal na minha mão. A superfície está riscada e gasta, é mais velha do que eu, mas ainda funciona. Ao abrir a tampa articulada, passo o polegar pela engrenagem de metal, e o isqueiro ganha vida. A chama tremeluz e dança, sendo agora o único movimento no carro, pois o motorista ficou imóvel.
Nos encaramos pelo retrovisor, e o sangue foge dos nós dos dedos dele enquanto aperta o volante. “Desculpe, eu não—” O portão se abre em dobradiças silenciosas, mas ele não move o carro. “Eu não sabia que era você.”
Não digo nada e, segundos depois, avançamos.
Refletores que margeiam a entrada nos guiam em direção a uma casa moderna de teto plano construída em um complexo. Concreto e metal se unem em linhas precisas espalhadas por três prédios enormes, interligados por passarelas de vidro. Luzes alaranjadas e quentes brilham do lado de dentro, dando à propriedade uma aparência acolhedora, assim como o homem sorridente que me espera no topo da entrada.
O carro para e eu saio, aliviado por estar fora daquele espaço apertado. Sou grande demais para ficar no banco de trás.
“Cage”, Felton abre um sorriso largo, apertando minha mão quando nos encontramos na traseira do carro. Como sempre, ele está com roupas de ginástica, como se estivesse constantemente pronto para provar quantos abdominais consegue fazer. Ele tem trinta e dois anos, como eu, e nós dois temos um metro e noventa e três, mas é só aí que nossas semelhanças terminam. Enquanto meu cabelo escuro é raspado curto, as madeixas ruivas dele são penteadas para trás, com mechas caindo sobre olhos verdes penetrantes que brilham com uma empolgação genuína ao me ver. Um nojo revira meu estômago por fazer esse homem sentir qualquer coisa que não seja uma dor intensa.
Felton Maddox é um filho da puta, mas minha amizade com ele é necessária. Fiz entregas para a família Maddox por seis meses, usando minha moto para pegar e levar drogas e dinheiro. Eu era rápido, eficiente, nunca roubava uma parte e não fazia perguntas, então não demorou muito para eu subir nos cargos e ficar cara a cara com Felton.
Na primeira vez que nos encontramos, mantive meu capacete e não falei nada durante todo o tempo. Ele engoliu a ideia do motociclista mortal e silencioso, imerso numa vida de crime. Em poucas semanas, ele já me chamava de seu melhor amigo.
“Que bom que você conseguiu vir. Desculpe por todo o segredo, mas você entende nossa necessidade de sermos discretos.” Eu entendo, e odeio isso, então apenas concordo com a cabeça. “Preciso do seu celular. Só até o fim de semana acabar.” Pego o aparelho no bolso, entrego a ele, e Felton alisa um adesivo na capa com minhas iniciais rabiscadas atrás antes de entrar. Eu sigo. “Você é o último a chegar, então a festa está bombando.”
O interior da casa é tão grandioso quanto o exterior. Pisos de pedra lisa, tetos altos, luminárias de ouro e arte que a maioria só sonha em ver, quanto mais ter.
Sigo Felton por uma sala de estar vazia até a área da piscina. Conto seis capangas, três sentados em móveis de jardim confortáveis, segurando taças de cristal cheias de um líquido âmbar. Cada um tem seu próprio segurança, um para cada homem, mas seus coldres estão vazios. Sem dúvida, as armas foram confiscadas antes mesmo de chegarem perto do prédio, assim como fizeram comigo. Os outros três estão perto de um bar improvisado, e mal consigo conter um escárnio quando vejo o único homem que parece querer me ferrar.
Chip Fennington está tentando ser o centro das atenções, como sempre, sua risada bruta me deixando com os dentes rangendo. Ele é enorme, com certeza se dopando, cabelo loiro raspado, mas a barba é espessa e quase comprida o suficiente para fazer tranças. Ele é um brutamontes e odeia que Felton goste tanto de mim.
O problema é que ele é inteligente. Ele ficou desconfiado de mim quase imediatamente, mas meu histórico é sólido. O departamento para o qual trabalho é administrado pelo governo, mas nós dançamos na linha entre o que é legal e o que não é. Não quero saber como criaram minha nova identidade, Cage Monroe. Tudo o que me importa é que ela não pode ser desmascarada por homens como Chip.
“Não se preocupe com ele”, diz Felton, dando um leve soco nas minhas costelas. Resmungo em resposta, enfiando as mãos nos bolsos como se estivesse me segurando para não quebrar o pescoço de Chip. Na verdade, estou mais irritado porque o único homem que eu queria que estivesse aqui não está, e perguntar sobre ele tão cedo levantaria suspeitas. “Agora que você está aqui, posso te dar seu presente. Está pronto?” Ele pisca e bate palmas para chamar a atenção dos outros. “Pessoal! É hora de estrear nosso novato.”
Murmúrios divertidos e vivas são a resposta, e eu treino minha expressão para parecer curiosidade e não horror pelo que Felton consideraria um presente.
Ele leva a mão à boca. “Darcy, traga as moças!”
Os convidados começam a vibrar, a cantarolar, a bater palmas. É uma sinfonia de empolgação, mas eu apenas cruzo os braços, e finalmente, Darcy aparece.
A loira de um metro e setenta e oito parece deslumbrante em um vestido esmeralda brilhante. Seu cabelo está cacheado, e seu sorriso de lábios vermelhos simplesmente irradia quando ela para nas portas abertas da varanda. Ela é namorada de Felton desde que o conheço, e é completamente desequilibrada. Felton me disse que uma vez acordou e a encontrou esculpindo as iniciais dela na perna dele. Ele riu enquanto me contava, mostrando a cicatriz com orgulho. Eles se merecem.
“Estão prontos, meninos?”, pergunta Darcy, e todos vibram. Ela faz um biquinho, coloca a mão na orelha e diz: “Eu perguntei se vocês estão prontos!” Gritos e assobios seguem, e ela ri antes de deslizar seu olhar sedutor até mim. “Vamos trazer seus presentes, Cagey Boy.”
Felton mantém os olhos em Darcy enquanto se inclina perto de mim. “Ela é fantástica pra caralho, não é?”
Ele não se importa com o que eu penso, então não respondo. Darcy poderia cortar a garganta da mãe de Felton como entretenimento da noite, e ele seria o primeiro a começar os aplausos.
Uma a uma, sete mulheres encapuzadas são levadas para o pátio. Elas estão com vestidos parecidos com o de Darcy, cada um de uma cor brilhante e única. Elas tropeçam nos saltos, e os homens que as acompanham as impedem de cair.
Uma delas está chorando. Outra mal consegue ficar em pé.
Custa-me tudo não arrancar a garganta de Felton.
Isso é uma merda. Uma merda total. Estou ganhando uma mulher como se fosse uma cesta de boas-vindas, e o que é pior: Felton parece empolgado por mim. Como alguém pode gostar disso?
Os capuzes das mulheres são arrancados.
Sete mulheres. Todas claramente aterrorizadas, respirando rápido e olhando ao redor com pavor em suas expressões. Há duas ruivas, três morenas, duas loiras.
“Escolha a sua, Cage”, diz Felton, mexendo as sobrancelhas.
Os outros me incentivam, e eu queria estar com minha arma para poder acabar com todos eles.
Quero recusar, mas meu disfarce seria revelado, então dou um passo à frente, observando as mulheres como se estivesse pensando em quem eu gostaria que fosse minha acompanhante no fim de semana.
Um movimento atrás da fileira de mulheres chama minha atenção, um rabo de cavalo loiro balançando de um lado para o outro enquanto uma garçonete aparece. Ela está de saia preta e camisa branca, e eu a observo enquanto ela se move.
É como se ela estivesse andando em câmera lenta, o pequeno sorriso em seu rosto, ensaiado e congelado. Olhos azuis olham na minha direção, mas nunca diretamente para mim, e mesmo estando a pelo menos seis metros de distância, sei que ela vai ter cheiro de hidratante de baunilha, e que ela tem uma marca de nascença em formato de lua na omoplata direita.
Uma marca de nascença que beijei mil vezes quando me apaixonei por ela treze anos atrás.
Meu coração para, e eu pisco rapidamente, como se limpar a visão fosse mudar quem estou olhando.
Meu amor de infância.
Meu primeiro amor.
Sunday Winters.