A Luna da Tempestade de Sangue

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Resumo

Lyra Vale cresceu como a serva sem lobo de Raven Hollow, odiada pela alcatéia e instruída de que a Deusa da Lua a havia esquecido. Mas, durante a cerimônia da Lua de Sangue, uma tempestade violenta desperta uma antiga marca de crescente sob sua pele. Sua loba oculta, Tempest, não é comum — ela carrega a memória de cada mulher Stormblood que foi acorrentada, reivindicada ou morta pelo poder Alpha. Quando o Alpha Kael Stormfang chega de Blackridge, um lugar amaldiçoado, seu lobo reconhece Lyra como sua mate. Mas Lyra se recusa a ser propriedade de alguém, mesmo do destino. O vínculo deles sobrevive à rejeição porque está atado a algo mais antigo do que a lei do acasalamento: um juramento quebrado, uma Luna Stormblood assassinada e uma maldição que dizimou os lobos de Blackridge por gerações. À medida que Lyra descobre a verdade sobre seu nascimento, ela descobre que é tanto herdeira Stormblood quanto sangue real da linhagem perdida dos rogues. Darius Thorn, o rei rogue, quer o sangue de seu coração para erguer um reino morto e coroar-se governante de lobos que jamais poderiam rejeitá-lo. Para quebrar a maldição, Kael deve se ajoelhar e entregar voluntariamente o poder Alpha que sua linhagem outrora usou para acorrentar as Stormblood. Lyra deve decidir se aceita, destrói ou molda esse poder novamente. No fim, Lyra se torna a Luna da Tempestade de Sangue — não como uma mate silenciosa ao lado de um Alpha poderoso, mas como a tempestade que ensina um Alpha a se ajoelhar, curar e governar sem correntes.

Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
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Classificação Etária
16+

1

Os lobos de Raven Hollow acreditavam que a Deusa da Lua abençoava cada criança com uma fera.

Um segundo batimento cardíaco.

Uma sombra sob a pele.

Uma alma com garras.

Aos dezoito anos, todo lobo sentia isso. Alguns ouviam seus lobos como sussurros em sonhos. Outros sentiam-nos inquietos, remexendo sob as costelas. Alguns se transformavam cedo, um amontoado de ossos, gritos e pelo sob a luz do luar, enquanto pais orgulhosos choravam e agradeciam à Deusa por mais um guerreiro forte, mais um futuro companheiro, mais um nome para gravar na linhagem da alcateia.

Eu tinha dezoito anos.

E dentro de mim, não havia nada.

Nenhum rosnado.

Nenhum sussurro.

Nenhuma respiração animal e quente envolvendo meu coração.

Apenas silêncio.

E às vezes, quando o céu pesava e escurecia, trovões.

Pressionei minhas palmas com mais força contra o chão da alcateia e esfreguei até que meus nós dos dedos ardessem.

O mármore sob mim estava frio o suficiente para causar dor. Ele se estendia pelo grande salão em veios cinza-pálidos, polido toda semana por garotas como eu e admirado todas as noites por lobos que nunca olhavam para baixo tempo o suficiente para se perguntar quem o havia limpado. Esta noite, ele tinha que brilhar. Esta noite, a Lua de Sangue surgiria.

Esta noite, todo jovem de dezoito anos sem companheiro em Raven Hollow ficaria sob o carvalho sagrado para ser abençoado.

Alguns se transformariam.

Alguns sentiriam o cheiro de seus companheiros.

Alguns ganhariam títulos, futuros, lugares nas mesas onde as decisões eram tomadas.

E eu ficaria no fundo, onde as coisas indesejadas pertenciam, esperando que ninguém notasse que a Deusa da Lua não tinha mais nada para me dar.

“Esqueceu um ponto.”

A voz veio de cima, suave e doce como mel envenenado.

Eu não precisava olhar para cima para saber quem era.

Selene Ashford pisou no chão limpo com botas enlameadas.

Observei a mancha escura que ela arrastou pelo mármore.

Algumas garotas atrás dela riram.

Selene era sobrinha do Alfa Garrick, embora se portasse como se fosse sua filha. Cabelos dourados, olhos âmbar e um lobo tão forte que todos diziam que ela seria a Luna um dia. Ela era o tipo de beleza que as pessoas obedeciam antes mesmo de ela falar; o tipo de crueldade que as pessoas perdoavam porque seu sorriso parecia luz do sol.

Mergulhei meu pano no balde e torci.

“Sim, Selene.”

Ela se agachou na minha frente, inclinando a cabeça. Seu perfume era forte e floral, destinado a esconder o almíscar selvagem de lobo sob sua pele. “Você parece cansada, Lyra.”

Esfreguei a lama. “Estou bem.”

“Isso é bom.” Seu sorriso se alargou. “Você precisará de forças esta noite.”

As garotas atrás dela riram novamente.

Mantive meu rosto inexpressivo.

Essa era uma coisa que aprendi cedo em Raven Hollow: a dor só é divertida quando transparece.

Selene inclinou-se para mais perto. “Está animada? Talvez esta noite seja finalmente a noite.”

Meus dedos apertaram o pano com força.

“Talvez seu lobo tenha apenas sido tímido todos esses anos”, ela continuou. “Talvez ele esteja se escondendo. Talvez seja minúsculo.” Seus olhos brilharam. “Como um rato.”

Outra risada.

O som arranhou minha espinha.

Eu queria dizer algo. Qualquer coisa. Queria dizer que pelo menos um rato tinha dentes. Que pelo menos um rato sabia quando fugir. Mas palavras eram coisas perigosas em uma alcateia. Podiam se tornar acusações, e acusações podiam se tornar punição.

Então, baixei o olhar.

“Sim, talvez.”

O sorriso de Selene diminuiu um pouco. Ela odiava quando eu não me quebrava facilmente.

Sua bota pressionou a ponta do meu pano, prendendo-o sob o salto. “Ou talvez a Deusa da Lua tenha esquecido de você.”

O salão ficou silencioso o suficiente para eu ouvir a água pingando do pano para o balde.

Uma gota.

Duas.

Três.

Olhei para cima, então.

Não porque eu fosse corajosa.

Porque, às vezes, a dor subia rápido demais para ser engolida.

Os olhos âmbar de Selene se estreitaram quando nossos olhares se encontraram. Ao nosso redor, os outros se mexiam inquietos. Lobos não gostavam dos meus olhos. Nunca gostaram.

Prateados, eles sussurravam.

Olhos de fantasma.

Olhos de tempestade.

Olhos amaldiçoados.

Minha mãe também tinha olhos prateados, embora eu só soubesse disso porque alguém disse por engano uma vez e depois empalideceu, como se até lembrar dela fosse proibido.

Selene removeu a bota do pano.

“Você deveria se trocar antes da cerimônia”, disse ela, endireitando-se. “Embora eu suponha que não importe. Ninguém estará olhando para você.”

Ela se virou e se afastou, com suas amigas seguindo-a como sombras obedientes.

A risada delas ecoou por muito tempo depois de terem desaparecido pelas portas duplas.

Continuei de joelhos.

A mancha de lama havia sumido, mas continuei esfregando.

Para frente e para trás.

Para frente e para trás.

Até que o mármore ficasse embaçado sob mim.

Até que a dor no meu peito se acomodasse de volta ao lugar silencioso onde guardava tudo o que eu não podia me dar ao luxo de sentir.

Ao pôr do sol, a casa da alcateia cheirava a carne assada, guirlandas de pinheiro e expectativa.

Raven Hollow ganhava vida durante as cerimônias. Tochas ladeavam o caminho de pedra da casa até a clareira sagrada, suas chamas estalando no vento frio. Fitas vermelhas pendiam das portas. Lobos circulavam pelos salões vestidos de preto e carmesim, cores de sangue, lua e juramento.

Levei bandejas pela sala de jantar enquanto as famílias se reuniam ao redor das longas mesas de carvalho.

Os pais ajeitavam as capas de suas filhas. As mães choravam suavemente enquanto os pais davam tapinhas nos ombros dos filhos. Jovens lobos riam alto demais, fingindo que não estavam com medo.

Eu invejava aquele medo.

Medo significava que eles esperavam que algo acontecesse.

“Lyra.”

Virei-me.

Mara estava na porta da cozinha, limpando as mãos no avental. Ela era a pessoa mais próxima da família que eu tinha em Raven Hollow, embora nem ela ousasse se autodenominar assim. Uma ômega viúva com olhos gentis e boca cansada, Mara me acolheu depois que minha mãe morreu, quando ninguém mais queria uma criança de olhos prateados, sem pai conhecido e sem cheiro de lobo.

Seu olhar percorreu-me e suavizou-se.

“Você não se trocou.”

Olhei para meu vestido cinza simples. Estava limpo, mas velho, com a bainha remendada em três lugares. “Ainda preciso terminar de limpar a mesa oeste.”

“Não.” Ela se aproximou e pegou a bandeja das minhas mãos. “Você tem dezoito anos. Você vai participar da cerimônia.”

Uma risada escapou antes que eu pudesse contê-la. Soa oca.

“Mara—”

“Você vai participar”, repetiu ela.

Olhei em direção à sala de jantar. “O Alfa Garrick disse que eu poderia ficar com os servos.”

“Ele disse muitas coisas depois de beber vinho demais.”

Isso quase me fez sorrir.

Mara baixou a voz. “Sua mãe gostaria que você estivesse sob a Lua de Sangue.”

O sorriso morreu.

Minha mãe.

Ninguém falava dela a menos que quisessem me machucar ou me avisar. Eu tinha fragmentos em vez de lembranças. Uma canção de ninar cantarolada em meu cabelo. Uma mão quente pressionada contra minha bochecha. O cheiro de chuva na lã. A voz de uma mulher sussurrando: Quando o trovão vier, não tenha medo.

Engoli em seco. “E se nada acontecer?”

Os olhos de Mara vacilaram.

Ela não mentia para mim. Essa era uma das razões pelas quais eu a amava.

“Então nada acontece”, disse ela gentilmente. “E você respira através disso.”

Minha garganta apertou.

Ela enfiou a mão no bolso do avental e tirou um pequeno embrulho dobrado. “Aqui.”

Fiz uma careta. “O que é?”

“Abra.”

Dentro havia uma fita.

Não era vermelha como as outras.

Era prateada.

Fina, desbotada e macia pelo tempo.

Meus dedos travaram ao redor dela.

“Era dela”, disse Mara. “Sua mãe a usou na noite em que chegou a Raven Hollow.”

Meu coração deu um solavanco doloroso. “Você guardou?”

“Eu guardei o que pude.”

O barulho da cozinha pareceu desaparecer. Por um momento, só existiam Mara, a fita e a saudade de uma mulher de quem eu mal me lembrava, mas que me fazia falta como o ar que eu respirava.

Amarrei a fita em volta do meu pulso.

Ela parecia frágil contra a minha pele.

“Obrigada”, sussurrei.

Mara tocou meu rosto. “Aconteça o que acontecer esta noite, Lyra Vale, você não é um erro.”

Eu queria acreditar nela.

Eu queria tanto isso que chegava a doer.

A clareira sagrada ficava além do limite norte da casa da alcateia, onde a floresta se abria em torno de um carvalho antigo, mais velho do que qualquer linhagem de Alfa. Seus galhos se estendiam largos e escuros contra o céu da noite, despidos apesar da estação, como se ele se recusasse a florescer para quem quer que fosse.

A Lua de Sangue ainda não tinha surgido, mas sua chegada tingia o horizonte de carmesim.

Fiquei no fundo, junto com os ômegas e os servos.

Exatamente onde todos esperavam que eu estivesse.

O frio cortava meu vestido fino. Lobos não sentiam o inverno tão intensamente quanto os humanos. Suas feras os aqueciam por dentro. Eu sentia cada lufada de vento entrar pela minha gola e escorrer pela minha espinha.

Ao redor da clareira, a alcateia se reuniu em círculos, de acordo com a hierarquia.

O Alfa Garrick estava mais perto do carvalho, de ombros largos e barba prateada, com sua Luna ao lado em um vestido de veludo vermelho-escuro. A família Beta estava à sua direita. Os guerreiros, atrás deles. Os casais formados. Os anciãos. As crianças.

E, no centro, esperavam os jovens de dezoito anos.

Vinte e três deles.

Vinte e três futuros.

Selene estava entre eles, radiante em seda carmesim, com seus cabelos dourados trançados com rubis. Seu olhar varreu a multidão até me encontrar. Ela sorriu.

Desviei o olhar.

O som de um tambor ecoou.

Grave.

Lento.

A clareira silenciou.

O Ancião Rowan deu um passo à frente, suas vestes brancas arrastando-se pela grama congelada. Seu rosto era marcado por rugas, seu cabelo era longo e pálido, e seus olhos, embora nublados pela idade, ainda eram afiados o suficiente para fazer até os guerreiros baixarem a cabeça.

“Esta noite”, disse ele, com a voz ressoando pela clareira, “a Lua de Sangue nasce.”

A alcateia respondeu em uníssono.

“E nós nascemos sob ela.”

Um arrepio percorreu a multidão.

O Ancião Rowan ergueu as mãos em direção ao céu que escurecia. “A Deusa da Lua vê o sangue. Ela vê os ossos. Ela vê a fera sob a carne e a verdade sob a fera. Esta noite, ela abençoa aqueles que atingiram a maioridade. Esta noite, lobos despertam. Laços são revelados. Destinos são selados.”

Meu estômago deu um nó.

Destinos são selados.

Olhei para o chão e cravei as unhas nas palmas das mãos.

Passei anos dizendo a mim mesma que eu não me importava. Que eu não precisava de um lobo. Que eu não precisava de um parceiro. Que eu não precisava da bênção de uma deusa que me viu dormir em um sótão enquanto outras crianças dormiam sob colchas quentes e mãos amorosas.

Mas, quando a primeira ponta da Lua de Sangue surgiu sobre as árvores, enorme, vermelha e ardente, algo dentro de mim se quebrou.

Por favor, pensei.

A palavra surgiu antes que o orgulho pudesse impedi-la.

Por favor.

Que haja algo.

Qualquer coisa.

Um sussurro.

Um sopro.

Um sinal de que eu não era um vazio.

A lua subiu mais alto.

A clareira se encheu de luz vermelha.

O Ancião Rowan chamou o primeiro nome.

“Cassian Reed.”

Um garoto de cachos escuros deu um passo à frente. Sua mãe soluçava cobrindo o rosto com as mãos enquanto ele se ajoelhava sob o carvalho.

O ancião pressionou dois dedos na testa dele.

“Você se oferece à Lua?”

A voz de Cassian tremeu. “Eu me ofereço.”

“Você aceita o lobo interior?”

“Eu aceito.”

Por um momento, nada aconteceu.

Então, Cassian gritou.

Sua coluna se arqueou. Ossos estalaram. Suas mãos atingiram o chão, dedos se curvando, garras perfurando a pele. A alcateia observou em silêncio reverente enquanto seu corpo se quebrava e se refazia sob a Lua de Sangue.

Pelos surgiram sobre seus ombros.

Seu grito se tornou um uivo.

Um lobo marrom estava sob o carvalho.

A alcateia explodiu.

Comemorações. Uivos. Aplausos.

Seu pai correu em sua direção, rindo e chorando, e envolveu o pescoço do lobo trêmulo com os braços.

Eu não conseguia desviar o olhar.

Era terrível.

Era lindo.

Era tudo o que eu nunca teria.

Nome após nome era chamado.

Alguns se transformavam. Outros não, mas seus lobos despertavam de maneiras mais sutis. Seus olhos brilhavam. Seus cheiros mudavam. Seus pais os abraçavam. Guerreiros acenavam em aprovação. A Lua os reivindicava, um por um.

Então, uma garota chamada Elara deu um passo à frente.

Antes que o Ancião Rowan pudesse tocar sua testa, ela ofegou e se virou para a multidão.

Seus olhos se fixaram em um jovem guerreiro perto da linha de fogo.

O guerreiro ficou paralisado.

A clareira inteira prendeu a respiração.

“Parceiro”, sussurrou Elara.

O guerreiro cambaleou para frente, como se a palavra o tivesse puxado pela alma.

Ele a pegou em seus braços, e a alcateia comemorou mais alto do que antes.

Senti algo dentro de mim afundar.

O laço de parceria.

A conexão sagrada com que todo lobo sonhava.

Um presente. Uma promessa. Uma segunda alma escolhida pela própria Deusa.

Eu me perguntava como era a sensação.

Calorosa, talvez.

Como a luz do sol através das pálpebras fechadas.

Ou aterrorizante.

Como cair e confiar que a terra se transformará em braços.

“Selene Ashford.”

A clareira mudou.

Até as tochas pareciam queimar com mais intensidade.

Selene deu um passo à frente com perfeita elegância, seu vestido carmesim varrendo a grama. Ela se ajoelhou sob o carvalho, com a cabeça baixa o suficiente para parecer humilde sem nunca realmente se rebaixar.

Os dedos do Ancião Rowan tocaram sua testa.

“Você se oferece à Lua?”

“Eu me ofereço”, disse ela, clara e confiante.

“Você aceita o lobo interior?”

Um sorriso curvou seus lábios.

“Eu aceito.”

O poder percorreu a clareira.

Não era vento.

Não era som.

Poder.

Ele pressionou minha pele até que eu desse um passo para trás.

A cabeça de Selene se ergueu bruscamente. Seus olhos âmbar brilharam em ouro. Um rosnado saiu de sua garganta, profundo e dominante, forte demais para uma loba jovem comum.

Os guerreiros murmuraram.

O Alfa Garrick sorriu.

A Luna Cressida levou a mão ao peito, com os olhos brilhando de orgulho.

Selene não se transformou completamente, mas seu lobo se mostrou em seu olhar, nas pontas afiadas de seus caninos e na aura dourada que tremeluzia ao seu redor como o calor.

“Forte”, alguém sussurrou.

“Nascida Luna.”

“Sangue de Alfa.”

Selene se levantou, triunfante, e se virou para enfrentar a alcateia.

Então, lentamente, seu olhar encontrou o meu.

O sorriso dela não era bonito agora.

Era uma lâmina.

O Ancião Rowan continuou chamando os nomes.

A lua subiu mais alto.

O frio se intensificou.

Um por um, o círculo se esvaziou até que apenas um nome permanecesse sem ser dito.

O meu.

Eu sabia, porque as pessoas tinham começado a olhar para mim.

Não abertamente no início. Um olhar aqui. Um sussurro ali. Um ombro se virando. Uma criança fazendo uma pergunta antes de sua mãe a silenciar.

O Ancião Rowan olhou para o pergaminho em suas mãos.

Sua boca se contraiu.

O silêncio se espalhou pela clareira como geada.

Ele não queria dizer aquilo.

Isso quase me fez rir.

Até meu nome era um incômodo.

Finalmente, ele levantou a cabeça.

“Lyra Vale.”

Nenhuma comemoração.

Nenhuma lágrima de orgulho.

Nenhuma mãe pressionando os dedos trêmulos contra a boca.

Mara estava na borda da clareira com os servos, as mãos juntas com força à frente do corpo. Ela me deu um pequeno aceno.

Forcei meus pés a se moverem.

A grama estalava sob meus sapatos.

Cada passo parecia alto demais.

Passei pelos ômegas. Pelos guerreiros. Pelas famílias. Passei por Selene, que observava com olhos cintilantes. Passei pelo Alfa Garrick, cuja expressão parecia esculpida em pedra.

Quando cheguei ao carvalho, meu coração batia tão forte que me perguntei se todos podiam ouvi-lo.

Talvez pudessem.

Lobos ouviam tudo.

Eu me ajoelhei.

O chão estava congelado sob meu vestido.

O Ancião Rowan estava diante de mim, olhos pálidos estudando meu rosto. De perto, ele cheirava a sálvia, pergaminho velho e medo.

Isso me assustou.

Medo?

De mim?

Os dedos dele pairaram sobre minha testa por mais tempo do que nos outros.

Então ele me tocou.

A clareira desapareceu.

Não de verdade.

Mas, por um breve instante, tudo ficou distante.

As tochas ficaram borradas.

Os sussurros diminuíram.

A Lua de Sangue tornou-se um olho vermelho observando lá do alto.

“Você se oferece à Lua?”, perguntou o Ancião Rowan.

Minha boca estava seca.

Pensei no sótão. No frio. Nos sussurros. Na bota de Selene sobre meu trapo. Na fita de Mara em volta do meu pulso. Na voz esquecida da minha mãe.

Pensei em cada noite em que pressionei a mão contra o peito e implorei por algo dentro de mim que respondesse.

“Eu ofereço”, eu disse.

As palavras mal passaram pelos meus lábios.

A expressão do Ancião Rowan vacilou.

“Você aceita o lobo interior?”

Uma brisa passou pela clareira.

As tochas balançaram.

Cada lobo esperava.

Fechei os olhos.

Procurei.

Busquei.

Imaginei um lobo dormindo em algum lugar bem dentro de mim. Branco, talvez, por causa dos meus olhos. Ou cinza como a névoa do inverno. Imaginei as orelhas tremendo. As patas se esticando. Uma cauda balançando irritada porque demorei tanto para encontrá-la.

Busquei mais fundo.

Por favor.

Silêncio.

Meu estômago afundou.

Não.

Busquei novamente, com mais força desta vez, além da respiração, dos ossos e da vergonha que subia pela minha garganta.

Por favor, eu implorei, embora não soubesse se estava implorando à Deusa ou a mim mesma.

Por favor, me responda.

Nada.

Nenhum lobo.

Nenhum calor.

Nenhum segundo batimento cardíaco.

Apenas um espaço vazio e escuro onde algo deveria estar.

Um murmúrio se espalhou pela alcateia.

O Ancião Rowan removeu os dedos da minha testa.

Seu rosto era inexpressivo, mas sua piedade era pior que a crueldade.

Abri meus olhos.

A Lua de Sangue encarava de volta.

“Eu aceito”, sussurrei, embora a pergunta já tivesse morrido.

Por vários segundos, ninguém se moveu.

Então, alguém riu.

Foi um som baixo. Rapidamente abafado.

Mas rompeu o silêncio.

Mais sussurros se seguiram.

“Nada.”

“Eu sabia.”

“Sem lobo.”

“Esquecida pela Lua.”

O calor subiu pelo meu pescoço. Meu corpo queria tremer, mas recusei-me a dar-lhes esse prazer. Levantei-me, com as pernas dormentes e as mãos cerradas ao lado do corpo.

O Alfa Garrick deu um passo à frente.

Sua voz ecoou claramente. “A cerimônia está completa.”

Simples assim.

Nenhuma bênção.

Nenhum conforto.

Nenhum reconhecimento.

A alcateia começou a se mover, virando as costas para mim em direção à comida, às fogueiras e à celebração. Fiquei sob o carvalho sagrado enquanto Raven Hollow fluía ao meu redor como água ao redor de uma pedra.

Mara tentou me alcançar, mas dois guerreiros ficaram entre nós enquanto a multidão se deslocava.

Selene passou perto o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir.

“Até a Lua não te quer.”

Prendi a respiração.

Ela seguiu em frente.

Algo dentro de mim ficou muito quieto.

Pensei que fosse chorar. Esperava lágrimas, talvez. Vergonha. Dor. A dor familiar de ser indesejada.

Mas não chorei.

Senti frio.

Mais frio que o ar de inverno.

Mais frio que a grama congelada sob meus pés.

Olhei para a Lua de Sangue e me perguntei que tipo de deusa assiste a uma garota ajoelhada, com todo o coração aberto, e não lhe dá nada.

Então o céu respondeu.

Um trovão rolou pela clareira.

Não alto.

Ainda não.

Mas profundo.

Tão profundo que o senti dentro das minhas costelas.

A alcateia congelou.

Rostos se viraram para cima.

O céu estava limpo momentos antes. Sem nuvens. Sem cheiro de chuva. Sem aviso no vento.

Outro estrondo veio.

Mais perto.

As tochas brilharam em azul.

Minha respiração parou.

Porque o trovão não vinha de cima.

Vinha de dentro de mim.

Ele percorreu meus ossos como uma voz despertando de um longo sono.

A fita prateada ao redor do meu pulso tremulou, embora não houvesse vento.

O Ancião Rowan virou-se lentamente para mim.

Seu rosto estava pálido.

Dei um passo para trás.

E depois outro.

O trovão rolou novamente.

Desta vez, por baixo dele, ouvi algo impossível.

Um sussurro.

Não vinha da alcateia.

Não vinha da floresta.

Não vinha da lua.

Vinha de dentro.

Suave.

Antigo.

Meu.

Não esquecida.

Meus joelhos quase cederam.

A Lua de Sangue brilhou mais intensamente.

E em algum lugar muito além de Raven Hollow, além das árvores negras e das montanhas congeladas, um lobo uivou.

Não como um aviso.

Como uma resposta.