A Campina
POV
Ashina Bearclaw
Frio.
Essa foi a primeira coisa que senti.
O chão abaixo de mim estava úmido e congelado. O frio atravessava minhas roupas e mordia minha pele. Uma espessa camada de neblina cercava a campina. Ela se arrastava baixa sobre a grama e escondia as árvores na beira da clareira.
Por um momento, não consegui lembrar onde eu estava.
Então tudo voltou à minha mente de uma vez.
Renegados.
Meus olhos se arregalaram.
Sentei-me rápido demais. Minha cabeça girou enquanto eu puxava o ar com força. Minhas mãos correram pelo meu corpo, procurando por sangue, pele rasgada ou ossos quebrados. Eu queria qualquer coisa que explicasse a dor que eu sabia que deveria estar ali.
Mas não havia nada.
Nenhum sangue. Nenhum ferimento. Nenhuma marca de mordida.
Franzi a testa e pressionei a mão contra a minha coxa.
Isso era impossível.
Um deles tinha me mordido. Eu me lembrava de suas mandíbulas se fechando com força suficiente para me fazer gritar. Lembrei-me de ser jogada contra uma árvore como se eu não pesasse nada. Eu me lembrava do estalo do meu corpo batendo na casca de madeira.
Depois, a escuridão.
Pouco antes de perder a consciência, senti um cheiro estranho. Ele estava escondido sob o fedor do renegado.
Café.
Floresta.
Algo profundo e selvagem.
Engoli em seco e olhei ao redor da campina.
Havia algo de errado com aquela neblina. Ela não estava ali antes. Eu tinha saído para assistir à chuva de meteoros. O céu estava limpo e a lua brilhava forte. As estrelas estavam espalhadas acima de mim como poeira prateada.
Agora eu mal conseguia ver a três metros na minha frente.
Ria? Chamei através do nosso elo.
Silêncio.
O pânico subiu rápido e forte no meu peito.
Ria, me responde. Nós estamos bem?
Ainda nada.
Minha respiração acelerou. Fiquei de joelhos com dificuldade. Tentei ignorar como minhas mãos tremiam contra a grama fria.
Ria!
Finalmente, minha loba se mexeu no fundo da minha mente. Ela parecia lenta e tonta.
Estou aqui, querida, ela sussurrou.
O alívio bateu tão forte que quase desabei.
Você está machucada? Eu perguntei.
Não, ela disse, embora parecesse abalada. Mas precisamos ir embora. Agora.
Eu me forcei a ficar de pé.
Minhas pernas pareciam fracas, mas aguentaram firme. Dei um passo e depois outro. Eu varria a neblina ao meu redor com os olhos.
Foi quando eu o vi.
Do outro lado da campina, na beira das árvores. Lá estava o maior lobo que eu já tinha visto.
Ele era gigantesco.
Seus pelos escuros pareciam absorver a luz do luar e brilhar ao mesmo tempo. Ele era sombrio, lindo e assustador. Dava para sentir o poder emanando dele mesmo do outro lado da clareira. Ele estava completamente imóvel, me observando através da neblina.
Então seus olhos refletiram o luar.
Um verde brilhante.
Meu coração parou.
Estou morta, pensei.
Ria tomou a frente.
Corra.
Eu não discuti.
Eu me transformei antes que minha mente humana pudesse pensar direito. Meus ossos estalaram e mudaram de forma enquanto Ria assumia o controle. No segundo em que minhas patas tocaram o chão, eu disparei em direção a casa.
Galhos batiam contra nós pelo caminho. A floresta virou um borrão ao meu redor. Ria forçou nosso corpo a ir mais rápido e com mais força. Ela usou cada gota de força que nos restava.
Eu abri uma conexão mental com meu irmão e meu Alfa.
*Basil!*
A resposta dele veio na hora, carregada de pânico.
*Ashina? Onde você está?*
Renegados, eu disse a ele. Meus pensamentos corriam tão rápido quanto minhas patas. Fui atacada na campina na beira da floresta. Eu estou bem. Estou voltando para casa agora.
A fúria dele atravessou a conexão mental com força.
*Continue no caminho. Os guerreiros estão a caminho.*
Um segundo depois, o alerta da alcateia ecoou por cada mente conectada.
*Todos os guerreiros para a campina oeste. Possível invasão de renegados. Protejam as fronteiras.*
Ria correu ainda mais rápido.
Quando cheguei aos terrenos da casa da alcateia, meus pulmões queimavam. Voltei à forma humana perto do posto de roupas de emergência. Peguei as primeiras coisas que encontrei: uma camiseta longa e uma calça de moletom.
Minhas mãos tremiam tanto que precisei de duas tentativas para me vestir.
Eu ainda estava curvada. Minhas mãos estavam nos joelhos, tentando recuperar o fôlego, quando o Beta Channing chegou até mim.
Ele saiu da sua forma de lobo num movimento suave. Pegou um calção na caixa de roupas e o vestiu às pressas.
"Ash!", ele disse, correndo na minha direção. "O que aconteceu?"
Eu balancei a cabeça, ainda ofegante. "Eu não sei, Chan."
Ele colocou as mãos com cuidado nos meus ombros. Seus olhos me examinaram da cabeça aos pés.
Channing me amava como uma irmãzinha desde que éramos crianças. Ele era o Beta do Basil agora. Mas para mim, ele sempre seria o Chan. O garoto que costumava roubar sobremesa extra da cozinha e colocar a culpa em mim.
A expressão dele ficou sombria. "Você se machucou?"
"Eu deveria estar", eu sussurrei.
Seus olhos se fixaram nos meus.
"Eu estava assistindo à chuva de meteoros quando dois renegados surgiram do nada", eu disse. "Nenhum aviso. Nenhum cheiro. Nada. Eu me transformei e lutei contra eles, mas um me pegou pela coxa. Ele me mordeu, Chan. Com muita força. Depois me jogou contra uma árvore."
O maxilar de Channing ficou tenso.
"Eu desmaiei", continuei. "Quando acordei, eles tinham sumido. Nenhum ferimento. Nenhum sangue. Nada. Então eu vi um lobo negro imenso na beira da clareira. Ria e eu corremos. Ele não nos seguiu."
Graças à lua.
As mãos de Channing apertaram de leve os meus ombros. "Um lobo negro?"
Eu concordei com a cabeça.
Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, seus olhos perderam o foco. Ele estava usando a conexão mental com alguém.
Um momento depois, seu rosto ficou paralisado.
Paralisado até demais.
"O que foi?", eu perguntei.
"Charlie acabou de falar comigo", ele disse com a voz baixa. "Eles encontraram dois renegados mortos perto da sua campina."
Meu estômago embrulhou.
Charlie não era nosso guerreiro principal à toa. Ele era enorme, letal e assustador quando queria ser. Se o Charlie disse que os renegados estavam mortos, então eles estavam bem mortos.
"Mortos como?", perguntei. Embora eu não tivesse certeza se queria saber a resposta.
Channing olhou para mim com cuidado. "Despedaçados."
Um calafrio percorreu o meu corpo. Não tinha nada a ver com o ar da noite.
"Ashina", ele perguntou devagar. "O que você fez com eles?"
Minha boca se abriu. "Eu? Nada! Eu desmaiei depois que um daqueles idiotas me mordeu e me jogou numa árvore."
Ele estudou o meu rosto por um instante. Depois concordou com a cabeça.
Ele acreditou em mim.
Mas isso não fez nenhum de nós se sentir melhor.
"Vamos colocar você para dentro", ele disse.
Ele colocou uma mão no meio das minhas costas e me guiou até a casa da alcateia.
A casa da alcateia Westcliff se erguia diante de nós como algo saído de um velho livro de histórias. Parecia mais um castelo medieval do que um lar. Tinha paredes altas de pedra, torres em espiral e varandas. Duas alas largas se estendiam a partir do centro.
Basil e eu morávamos na ala oeste, no quarto andar. Channing e sua companheira, Marie, moravam abaixo de nós, no terceiro. O segundo andar tinha escritórios e salas de reunião. O primeiro andar pertencia à alcateia, com a sala de estar comum, sala de jantar, cozinha e espaços de convivência.
A ala leste abrigava os lobos sem companheiros. Também abrigava as famílias que esperavam a construção de suas próprias casas.
Não era apenas a casa da matilha.
Era o coração de Westcliff.
E esta noite, pela primeira vez em cinco anos, não parecia seguro.
Channing abriu a porta e me guiou para dentro.
— O Alpha estará aqui em um momento — ele disse. — Charlie e os homens dele vão cuidar da campina. Suba, tome um banho e troque de roupa. Você está com cheiro de renegado e... — Ele fez uma pausa, franzindo a testa.
— E o quê?
— Eu não sei. — Ele se inclinou mais perto e depois balançou a cabeça. — Outra coisa. Não consigo identificar.
Café e floresta passaram pela minha mente.
Afastei esse pensamento.
— Maravilha — murmurei.
Channing me deu um sorriso pequeno e cansado. — Encontre-nos no escritório de Basil quando terminar.
Balancei a cabeça e subi as escadas.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Quando cheguei à minha suíte, a adrenalina estava passando. Isso me deixava trêmula e com frio. Meu quarto era decorado em marfim e dourado, com toques de azul meia-noite. Era suave e tranquilo em circunstâncias normais.
Esta noite, parecia silencioso demais.
Tirei as roupas emprestadas e as joguei no cesto do meu armário. Depois, entrei no banheiro.
O espelho me fez parar.
Eu parecia normal.
Pálida, sim. Abalada, com certeza. Mas inteira.
Nenhum hematoma marcava meus braços. Nenhum sangue manchava minha pele. Nenhuma ferida de mordida estragava minha coxa.
Toquei o lugar onde os dentes do renegado tinham estado.
Nada.
— Como? — sussurrei.
Ria estava quieta.
Quieta até demais.
O chuveiro esquentou devagar. Entrei debaixo d'água, deixando-a escorrer pelo meu cabelo, meus ombros e minha pele. Eu queria que aquilo lavasse tudo. A névoa, os renegados, o lobo negro. E o cheiro que ainda parecia persistir na minha mente.
Mas o medo continuou.
Estávamos seguros há anos.
Depois do ataque que matou nossos pais, o Rei Alpha enviou guerreiros e guardas reais para fortalecer nossas fronteiras. Nenhum renegado havia invadido Westcliff desde então.
Até esta noite.
Fiquei no banho até a água ficar quase quente demais. Então, finalmente saí e me enrolei em uma toalha.
Vesti-me rapidamente com uma das minhas camisetas rosa-choque favoritas. Coloquei leggings pretas e botas pretas de cano curto. Sequei meu longo cabelo castanho e o prendi em um rabo de cavalo alto. Então, forcei-me a ir procurar meu irmão.
Ao me aproximar do escritório de Basil, diminuí o passo.
Vozes vinham lá de dentro, baixas e tensas.
— Não faz sentido haver apenas dois renegados — disse Channing. — Acho que eram batedores.
Meu estômago revirou.
Batedores.
Isso significava que poderia haver mais.
Bati uma vez. Depois, empurrei a pesada porta de madeira.
Basil estava sentado atrás de sua mesa em uma cadeira de encosto alto. Seu rosto estava cuidadosamente inexpressivo. Channing estava sentado de frente para ele, com os cotovelos nos joelhos e uma expressão sombria.
No momento em que Basil me viu, a máscara rachou.
Apenas um pouco.
Mas eu o conhecia bem demais para não perceber.
As pessoas sempre diziam que Basil e eu poderíamos nos passar por gêmeos. Isso, embora ele fosse quatro anos mais velho. Tínhamos o mesmo longo cabelo castanho e os mesmos olhos azuis. Tínhamos o mesmo queixo teimoso dos Bearclaw. Ele tinha vinte e quatro anos quando se tornou Alpha após a morte dos nossos pais.
Eu estava com quase vinte e cinco agora.
E ele ainda olhava para mim como se eu fosse a menininha que ele havia prometido proteger.
— Ash — ele disse suavemente, estendendo a mão por cima da mesa para pegar a minha. — Me conte tudo.
Sentei na cadeira ao lado de Channing. Coloquei as mãos sobre o rosto.
Por alguns segundos, apenas respirei.
Então, abaixei as mãos e olhei para o meu irmão.
— Eu estava na minha campina de sempre — eu disse. — Observando as estrelas. Dois renegados surgiram do nada. Eu não senti o cheiro deles. Ria também não. Eu me transformei e lutei com eles o melhor que pude. Mas um deles agarrou minha coxa e me mordeu. Depois, ele me jogou contra uma árvore.
Os olhos de Basil brilharam com o seu lobo.
Continuei antes que ele pudesse interromper.
— Eu desmaiei. Quando acordei, não tinha ferimentos. Nenhum. Eles tinham sumido. Então, vi um enorme lobo negro parado na beira da campina. — Engoli em seco. — Eu não sabia quem ele era. E não ia ficar para perguntar. Eu me transformei e corri. Ele não me seguiu.
Basil olhou para Channing.
O ar na sala mudou.
— Envie guardas e guerreiros para checar todas as fronteiras — ordenou Basil. — Dobrem as patrulhas imediatamente. Quero cada centímetro da fronteira oeste vasculhado.
Channing se levantou. — Eu mesmo cuidarei disso. Se o lobo negro ainda estiver lá, nós o encontraremos.
— Envie rastreadores também — acrescentou Basil.
Channing concordou e saiu do escritório. Ele fechou a porta silenciosamente atrás de si.
No segundo em que ficamos sozinhos, Basil se levantou e deu a volta na mesa. Ele se sentou na cadeira que Channing havia desocupado e pegou minha mão novamente.
Seu polegar roçou nos meus nós dos dedos.
— Ashina — ele disse, com a voz mais suave agora. — Você é toda a família que me resta.
Minha garganta apertou.
— Eu estou bem — sussurrei.
— Você foi atacada dentro do nosso território.
— Eu sei.
— E de alguma forma, dois renegados cruzaram nossas fronteiras sem serem detectados.
— Eu sei.
Ele fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, estavam cheios de um medo que ele nunca mostraria a mais ninguém.
— Até sabermos quem é o responsável, você não vai a lugar nenhum sozinha. Nada de bosque. Nada de campina. Nada de observar as estrelas sem um guerreiro.
Eu queria discutir.
A campina era minha.
Era minha desde que eu era menina. Era para lá que eu ia quando o mundo parecia muito barulhento. Era onde eu conversava com a lua, onde me sentia mais perto dos pais que havíamos perdido.
Mas eu estava cansada demais.
E a lembrança dos olhos verdes na névoa manteve meu protesto trancado atrás dos dentes.
— Tudo bem — eu disse.
Basil exalou lentamente. — Vá para a cama. Conversaremos novamente de manhã, depois que os guerreiros terminarem de revistar o bosque.
Balancei a cabeça e me levantei.
Antes que eu chegasse à porta, Basil falou de novo.
— Ash?
Olhei para trás.
Seu rosto estava duro agora. Sua máscara de Alpha estava de volta ao lugar.
— Se aquele lobo quisesse te machucar, ele teria te seguido.
Eu não sabia se isso deveria me confortar.
Não confortou.
Quando voltei para o meu quarto, não me dei ao trabalho de me trocar. Escovei os dentes e chutei minhas botas. Depois, deitei na cama totalmente vestida.
Puxei as cobertas até o queixo e fiquei olhando para o teto.
Dois renegados tinham me atacado.
Alguém — ou alguma coisa — os tinha matado.
Meus ferimentos tinham desaparecido.
E um imenso lobo negro com olhos verdes brilhantes tinha me visto fugir.
O quarto foi perdendo o foco lentamente. A exaustão estava me puxando para o fundo.
Pouco antes de o sono me dominar, Ria se agitou no fundo da minha mente.
Ashina, ela sussurrou.
O quê? Eu perguntei, já meio sonhando.
O medo dela rolou por mim como um trovão.
Aquele lobo não era um renegado.