ROSTOS SELVAGENS
**Entre no Clima: Playlist Oficial de *Bound to You***
*Prepare essas faixas antes de abrir o livro — sombrias, sensuais e obsessivas.*
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1. Closer — Nine Inch Nails
2. Earned It — The Weeknd
3. Wicked Game — Chris Isaak
4. Crazy in Love (Remix) — Beyoncé
5. Bad Things — Machine Gun Kelly & Camila Cabello
6. Dark Horse — Katy Perry
7. I Put a Spell on You — Annie Lennox
8. Haunted — Beyoncé
9. S&M — Rihanna
10. Take Me to Church — Hozier
11. Fetish — Selena Gomez
12. Desire — Meg Myers
13. River — Bishop Briggs
14. Unholy — Sam Smith & Kim Petras
15. Love Is a Bitch — Two Feet
16. Seven Nation Army — The White Stripes
17. Control — Halsey
18. You Should See Me in a Crown — Billie Eilish
19. Bury a Friend — Billie Eilish
20. Glory and Gore — Lorde
21. Dangerous Woman — Ariana Grande
22. I See Red — Everybody Loves an Outlaw
23. Power — Isak Danielson
24. War of Hearts — Ruelle
25. Castle — Halsey
26. Survivor — 2WEI
27. In the End — Linkin Park
28. Believer — Imagine Dragons
29. Love Me Like You Do — Ellie Goulding
30. Young and Beautiful — Lana Del Rey
31. Experience — Ludovico Einaudi
32. Skin — Rihanna
33. Middle of the Night — Elley Duhé
34. Lost in the Fire — Gesaffelstein & The Weeknd
35. Infinity — Jaymes Young
36. Pony — Far
37. Or Nah — The Weeknd
38. Partition — Beyoncé
39. Often — The Weeknd
40. Motive — Ariana Grande & Doja Cat
41. Tear You Apart — She Wants Revenge
42. Rev 22:20 — Puscifer
43. Scream — Avenged Sevenfold
44. Change (In the House of Flies) — Deftones
45. The Death of Peace of Mind — Bad Omens
46. Venom — Little Simz
47. Sick Like Me — In This Moment
48. Flesh — Simon Curtis
49. Strange Love — Halsey
50. Worship — Ari Abdul
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🌶️ *Dê o play. Tranque a porta. Deixe a obsessão começar.*
AXLE
O ronco da estrada ainda era uma vibração de foder em seus ossos, mas a euforia de uma corrida limpa estava passando rápido. Estava azedando e virando um nó tenso na sua barriga. Axle caminhava de um lado para o outro no clube, suas botas pesadas devorando o piso de concreto marcado. Para lá e para cá. Para lá e para cá. Os homens mantinham distância dele, se espremendo nas sombras da sala como baratas quando a luz da cozinha acende.
Algo estava errado.
Seu olho estava tremendo desde o amanhecer. Não era o tipo de tremor que você ignora. Era do tipo que significava que o universo estava prestes a cagar no seu dia e chamar isso de destino.
— Que porra está demorando tanto? — ele murmurou, passando a mão pelo cabelo. O cordão de couro que ele usava para amarrá-lo já estava esgarçado. Fios castanho-escuros se soltavam e caíam sobre seu rosto. Ele parecia desequilibrado. Ele sabia disso. E não dava a mínima foda.
Grimm, seu VP, estava sentado no bar tomando um uísque que já tinha esquentado na sua mão há uma hora. — Prez. Eles já chegam. O Voss não brinca em serviço quando o assunto é buscar o dinheiro.
— Eu sei que porra o Voss não faz — disparou Axle. — Não estou preocupado com o Voss.
Ele estava preocupado com todo o resto. A estação de trem. A troca. Os trezentos mil numa mala de rodinhas verde-sálvia que deveriam estar nas mãos dele trinta minutos atrás. Um milhão de coisas poderiam dar errado. A polícia. Rivais. Algum civil aleatório com complexo de herói e o celular discando para o 190.
A porta da frente se abriu com um estrondo.
Voss entrou primeiro. Frio e preciso, seu rosto de ex-militar e contador não revelava absolutamente porra nenhuma, como sempre. Atrás dele, Hound carregava a mala como se não pesasse nada. E não pesava mesmo, porque Hound parecia um armário com braços.
Mas não foi a visão deles que fez Axle parar de andar.
Foi o cheiro.
Algo doce. Floral. Baunilha e algo mais sombrio por baixo. Algo quente e clara e inconfundivelmente *feminino*.
Suas narinas inflaram. Seu maxilar travou com tanta força que um músculo saltou em sua bochecha.
— Seu filho da puta — disse Axle, com a voz caindo para um tom baixo e perigoso. — Parou num puteiro no caminho de volta?
Voss piscou. Era o único sinal de surpresa que ele demonstrava. — Prez?
O clube estava tenso, mas disperso. Homens nos sofás, homens no bar, o murmúrio baixo de piadas sujas e negócios mais sujos ainda. De repente, ficou em silêncio absoluto.
— Você me ouviu. — Axle deu um passo à frente. Depois outro. Os homens se abriram para ele como a porra do Mar Vermelho. — Eu mando você fazer uma coleta simples. Trocar o material por dinheiro. Entrar e sair. E você volta fedendo a uma maldita loja de perfumes. Então, vou perguntar de novo. — Ele parou a centímetros do rosto de Voss, perto o suficiente para não sentir cheiro de nada nele. Apenas café e óleo de arma. — Você parou num puteiro?
Voss não recuou. Não piscou. — Prez, a gente não parou em lugar nenhum. O trem atrasou. Juro pelo meu escudo, porra.
— Então por quê... — A voz de Axle parecia uma navalha arrastando no cascalho. — ...Eu sinto cheiro de flores e baunilha na porra do meu clube?
Hound, ainda segurando a mala, parecia genuinamente confuso. Uma expressão que ficava estranha em seu rosto deformado. — Chefe, eu não sinto cheiro de porra nenhuma agora. Só sinto o cheiro da bunda suja do Grimm e óleo de motor.
Um riso abafado veio de algum lugar no fundo. Provavelmente era o Knuckles. O imbecil do novato não conseguiu se segurar.
— E a buceta fedida da Sydney — murmurou outro.
A sala explodiu. Não exatamente em risadas, mas naqueles latidos rudes e aliviados que surgem quando os homens acham que desviaram de uma bala. Grimm revirou os olhos com tanta força que foi um milagre não caírem da cara. — Vão se foder, todos vocês. Eu tomei banho na terça.
— Hoje é sexta, seu desgraçado porco.
— Quinta — corrigiu Grimm. — Tomei banho na quinta. Prestem atenção nos fatos.
Axle não riu. Seu olho continuava tremendo. O cheiro ainda estava lá, agarrado no fundo de sua garganta como uma promessa que ele não queria e não podia ignorar. — Põe essa merda na mesa — ele disse, apontando o queixo para a mala. — Nós contamos. Depois a gente guarda. Depois a gente bebe. E se uma maldita coisa estiver errada...
Ele não terminou a frase. Não precisava.
Hound jogou a mala verde-sálvia na mesa de madeira riscada no centro da sala. Os homens se aproximaram. Formaram um círculo solto de coletes de couro, olhares duros e mãos que faziam coisas que a lei não perdoaria. Voss deu um passo à frente para abrir o zíper.
O zíper abriu macio. Suave. Macio pra caralho para uma mala que passou por três trocas e uma viagem de trem.
Os dentes fizeram um som baixo.
A tampa se abriu.
E o cheiro... Aquele cheiro de foder atacou todos como um golpe físico. Caro. Feminino. Errado, errado, errado.
O clube ficou em silêncio. Não era o silêncio tenso de antes. Isso era diferente. Era o silêncio de uma bomba explodindo sem som, o choque violento de ver algo tão inesperado que o seu cérebro apenas... para.
Era a mala de uma mulher.
Seda. Cetim. Renda. Vestidos dobrados com um cuidado quase reverente. Eram tecidos macios em tons de bordô, creme e azul-meia-noite. Calcinhas. Pedaços delicados e minúsculos de renda preta e rosa-pálido que fizeram algo quente e indesejado se torcer na barriga de Axle. Sutiãs combinando, do tipo que parecia custar mais do que alguns de seus homens ganhavam numa semana. Uma pilha de romances com títulos como O Beijo Proibido do Highlander e Rendição ao Duque. Uma bolsa de maquiagem. Uma ovelhinha de pelúcia gasta, sem um dos olhos de botão.
E um vibrador. Rosa em tom pastel. Inconfundível.
— Mas que porra — sussurrou Grimm.
Ninguém riu. Ninguém se mexeu. Os homens encaravam o conteúdo da mala como se fosse uma granada ativa. E, de certa forma, era mesmo. Uma granada ativa vestida de La Perla e com cheiro de um maldito sonho.
Axle começou a rir.
Não era uma risada boa. Era baixa, oca e sem nenhum humor. Era a risada de um homem que acabava de perceber o quanto o seu dia ia dar merda. Suas mãos agarraram as bordas da mesa, os nós dos dedos ficando brancos. Mais cabelo escapou do cordão de couro e caiu sobre seu rosto, e a risada continuou vindo, suave e terrível.
— Prez... — começou Voss.
— Cala a boca. — Axle não levantou a voz. Ele não precisava. As palavras cortaram a sala como uma lâmina. — Só... cala a porra da boca.
Ele enfiou a mão na mala. Seus dedos — cheios de cicatrizes, calos e feitos para a violência — se fecharam em um pedaço de renda preta. Uma calcinha. Ele a ergueu. Era tão pequena, incrivelmente macia e delicada contra o couro áspero de sua palma.
Ele não sabia por que fez aquilo.
Talvez fosse a adrenalina. Talvez fosse a raiva. Talvez fosse o jeito como o cheiro de baunilha e algo mais escuro, quente e almiscarado, tinha grudado no fundo do seu cérebro e estava apertando.
Ele levou a calcinha ao rosto.
A renda era macia contra sua barba por fazer. O cheiro o atingiu como um trem de carga. Algodão limpo, baunilha, o fantasma de algum perfume caro. E, por baixo de tudo, um toque de algo que era apenas... ela. Quem quer que fosse essa porra de mulher.
Seu pau deu uma fisgada.
Ele ia matar alguém enquanto estava duro de cheirar a calcinha de uma estranha. Essa era a porra da vida dele agora.
— P-p-prez... — gaguejou Hound. Pelo jeito, ele tinha tirado a palha mais curta para falar em seguida.
A cabeça de Axle se ergueu rápido. Ele enfiou a calcinha no bolso do colete. Ele lidaria com aquela humilhação específica depois. Ele contornou a mesa em três passos, sua mão disparou e apertou a garganta de Hound, batendo o homem gigante contra a parede com força suficiente para chacoalhar o mural emoldurado da fênix.
— Você perdeu trezentos mil dólares. — A voz de Axle mal passava de um sussurro agora, e isso era muito pior do que gritar. — Você perdeu meu dinheiro. E me trouxe uma mala cheia de calcinhas de alguma vadia. Me dê um motivo. Um único maldito motivo para não colocar você num buraco no chão aqui e agora.
O rosto de Hound estava ficando vermelho. — N-não... mala... igual... porra, Prez, as malas eram iguais...
— Elas eram idênticas — interrompeu Voss, com a voz firme, mas tensa. — Malas de rodinhas verdes. Mesma marca. Mesmo tamanho. Estavam uma do lado da outra na esteira de bagagem. Nós pegamos a errada. É um erro. Um erro burro e simples.
— Um erro. — O aperto de Axle aumentou na garganta de Hound. — Um erro que nos custou trezentos mil e deixou uma civil com uma mala cheia de armas sem registro. E com dinheiro suficiente para comprar a porra de uma ilhazinha. Você acha que ela vai simplesmente deixar para lá? Acha que ela já não ligou para todos os tiras, federais e canais de TV num raio de oitenta quilômetros?
— Eu... não consigo... respirar... Prez...
A porta da frente se abriu com um estrondo.
Todas as cabeças na sala se viraram. O aperto de Axle afrouxou uma fração. Sua atenção assassina mudou para a nova invasão.
Knuckles estava na porta. Seu rosto estava branco como leite, e os olhos arregalados como pratos. O novato tinha uns vinte e dois anos e ainda era um pouco ingênuo. Ainda tentava deixar crescer uma barba que parecia mais pentelho colado no queixo. Agora, ele parecia ter visto um fantasma.
— Prez — guinchou Knuckles. Então, percebendo como aquilo soou, ele limpou a garganta e tentou de novo, abaixando a voz para algo que achava ser mais durão. — Prez. Tem... hum... tem uma...
— Cospe logo essa porra antes que eu use seus dentes como alvo de tiro.
— Tem uma mulher no portão.
O silêncio que se seguiu foi uma coisa física. Pesado. Sufocante.
Axle soltou Hound, que escorregou pela parede, ofegante. A mão dele foi para a arma no quadril. Puro instinto, o tipo de instinto que o manteve vivo até ali. — Você disse uma policial, novato?
— Não, senhor. — Knuckles engoliu em seco. — Uma... uma mulher. Uma mulher muito bonita. Ela tem uma bolsa. Tipo, uma mala de rodinhas. Verde. Parece muito com... — Seus olhos dispararam para a mesa, para a explosão de renda e seda, e ele visivelmente ficou ainda mais pálido. — Hum. Como aquela ali.
“Ela está sozinha?”
“Até onde eu sei, sim. Ela disse—” Knuckles hesitou, claramente pesando a sabedoria de dizer a próxima parte. “Ela disse, e eu cito: ‘Acho que tivemos uma pequena confusão na estação de trem. Estou aqui para trocar a bagagem.’ Fim da citação, Prez.”
Alguém xingou baixinho. Grimm, talvez. Ou Voss. Não importava.
Axle encarou o prospect por um longo momento. Então ele olhou para a mala na mesa. Eram rendas e sedas e coisas macias e femininas que não tinham nada que estar num covil de lobos. Depois ele olhou para a porta. Em algum lugar lá fora na noite, uma mulher estava parada em seu portão. Ela segurava uma mala cheia de armas ilegais e dinheiro suficiente para desaparecer para sempre.
E ela tinha vindo aqui. Sozinha. Para trocar a bagagem.
“Quem caralhos faz isso?” ele resmungou.
Ninguém tinha uma resposta.
“Traga ela para dentro,” Axle disse. As palavras saíram mais ríspidas do que ele pretendia, arranhadas por algo que ele não queria nomear. “E chequem ela em busca de escuta. Revistem ela. De cima a baixo. Se ela ao menos se mover errado, coloquem ela no chão.” Ele fez uma pausa. As próximas palavras tinham gosto de cinzas e antecipação. “Isso tem que ser a porra de uma armadilha.”
A mulher que entrou no clubhouse do Sons of Ash não era uma mulher.
Ela era uma armadilha. Uma armadilha linda, de aparência suave e perfeitamente construída. Uma armadilha na qual os homens entravam de boa vontade e agradecidos. Eles entravam com o pau na mão e o cérebro desligado.
O maxilar de Axle se apertou com tanta força que seus dentes doeram.
“Puta que pariu,” alguém suspirou atrás dele. Grimm, talvez, ou um dos outros coitados que tinham acabado de esquecer como o oxigênio funcionava. “Que porra é essa?”
Ela tinha cachos escuros que caíam pelas costas. Eles emolduravam um rosto que pertencia a uma porra de pintura renascentista. Seus olhos eram cor de uísque. Não, mais fundos do que isso, a cor de bourbon envelhecido contra o fogo. E a boca dela era a porra de um crime. Lábios carnudos, o superior com um arco do cupido proeminente que implorava para ser traçado com um polegar ou uma língua. O inferior era mais cheio, mais macio, feito para ser mordido.
Ela usava um vestido. Uma coisa modesta, de renda marfim sobre algum tipo de anágua. Tinha um decote que não mostrava muito e uma barra que caía abaixo dos joelhos. Deveria ser recatado. Deveria ser chato.
Não era chato.
Porque o corpo dela — porra, o corpo dela — mesmo coberto, mesmo envolto naquele tecido macio e feminino, era obsceno. Seus peitos forçavam o corpete, aquele tipo de curvas cheias e pesadas que faziam as mãos de um homem coçar. Sua cintura era minúscula, do tipo que você poderia envolver com duas mãos. Abaixo dela, seus quadris se abriam em uma silhueta de pin-up que o vestido apenas enfatizava. Ela segurava uma bolsa pequena na frente do corpo, com as duas mãos em volta dela. Ela usava sapatos de salto baixo que faziam um som suave de clique enquanto caminhava.
A sala estava tão silenciosa que você podia ouvir um homem suar.
“Olá,” ela disse.
Duas sílabas. Isso era tudo. A voz dela era suave e ofegante, um zumbido baixo. De alguma forma, cortava o silêncio movido a testosterona como uma faca quente na manteiga. Era o tipo de voz que descia pela espinha de um homem e se instalava em algum lugar profundo e primitivo. O tipo de voz que você queria ouvir gemer o seu nome no escuro.
Um pequeno sorriso puxou o canto do seu lábio. Hesitante. Educado.
“Porra,” Grimm disse. E desta vez Axle ouviu claro como um tiro.
Ela não pareceu notar. Ou se notou, era bem-educada demais para reagir. “Acho que nossas malas foram trocadas na estação,” ela continuou. Sua voz era aquele mesmo ronronar ofegante e impossível. “Percebi depois que senti que estava mais pesada. Eu não conseguia tirá-la da... bem. Estava mais pesada do que eu esperava.” O sorriso vacilou, um pouco envergonhado agora. “Então eu abri. E percebi que não era minha.”
Ela parou. Ninguém falou. Os homens a encaravam como se ela tivesse criado uma segunda cabeça. Uma segunda cabeça linda e fodível.
“Eu tenho um rastreador de bagagem na minha mala,” ela acrescentou, como se isso explicasse alguma coisa. “Foi assim que encontrei este lugar. Eu só gostaria de ter minhas coisas de volta, por favor. Se não for muito incômodo.”
Axle encontrou sua voz. Saiu como cascalho envolto em arame farpado. “Você é a porra de uma policial?”
Ela não recuou. Não piscou. Não fez nenhuma das coisas que uma pessoa normal faria quando uma parede de quase dois metros de bandido tatuado se erguia sobre ela com assassinato nos olhos. A calma dela não quebrou. Apenas... se instalou mais fundo, como rocha sob águas paradas.
“Eu garanto,” ela disse, “ninguém me daria esse emprego. Estou aqui apenas para trocar a bagagem.”
“Mentira.” Ele deu um passo para mais perto, invadindo o espaço dela. Ele chegou perto o suficiente para ver a leve camada de sardas na ponte do nariz dela. “Você está usando uma escuta? Tem amigos nos federais esperando lá fora? Isso é algum tipo de emboscada?”
Ela piscou para ele. Sua expressão não mudou, ainda aquela mesma calma plácida e paciente. Mas algo piscou em seus olhos. Algo velho e cansado e quase... triste.
“Você parece ser uma pessoa muito desconfiada,” ela disse suavemente. Não era uma acusação. Apenas uma observação. “Mas eu entendo. Você pode checar. Eu espero.”
Ela gesticulou em direção à mala na mesa. A mala dela, aquela cheia de suas coisas íntimas e macias que os homens dele estavam encarando nos últimos cinco minutos. “Minha mala está bem ali. Eu posso?”
“Não.” Axle ergueu o queixo para Hound, que ainda esfregava a garganta. Ele parecia preferir estar em qualquer outro lugar. “Verifique a mala. Conte o dinheiro. Procure por escutas, rastreadores, qualquer coisa que não devesse estar lá.”
“E ela?” Voss perguntou.
“Tiffany. Revista ela.”
Uma das garotas do clube saiu de um banco do bar. Ela era uma loira oxigenada de olhos duros que estava com os Sons há tempo suficiente para conhecer o esquema. Ela se aproximou da mulher com a eficiência de quem já tinha feito isso antes.
“Braços abertos, docinho.”
A mulher — qual era o nome da porra dela? — obedeceu sem alarde. Ela esticou os braços e deixou Tiffany revistá-la. As mãos da loira se moviam sobre as curvas dela com desinteresse profissional. Ela não recuou quando Tiffany checou debaixo de seus braços, ao longo de suas costelas, descendo pelos quadris. Ela não protestou quando a busca desceu mais baixo, mais invasiva.
“Eu garanto a você,” ela disse, sua voz aquela mesma coisa ofegante e impossível. “Eu não tenho o hábito de tocar em coisas que não me pertencem.”
“Então como você foi parar com trezentos mil e uma mala cheia de armas?” Axle exigiu.
“Um erro.” Ela encontrou os olhos dele. Os dela estavam firmes. “As malas pareciam iguais.”
Do outro lado da sala, Voss e Hound tinham aberto a outra mala. O dinheiro estava lá. Eram pilhas organizadas de notas amarradas, todas contabilizadas. As armas estavam lá, com os números de série raspados e os mecanismos limpos. Voss checou o forro em busca de rastreadores GPS, escutas, qualquer coisa que pudesse transmitir. Ele não encontrou nada.
“Prez.” A voz de Voss estava tensa de descrença. “O dinheiro está bem. Tudo está bem. Está tudo aqui.”
“Verifique de novo.”
“Eu verifiquei duas vezes.”
“Verifique pela terceira porra de vez.”
Enquanto Voss obedecia, Axle se virou para a mulher. Ela ainda estava de pé lá, paciente como uma santa, com as mãos cruzadas na frente dela novamente. Seus olhos tinham se desviado para a mesa. Sua mala estava aberta lá, com suas coisas íntimas derramadas para cada filho da puta de olhos duros da sala ver.
As rendas. A seda. O vibrador. Os romances com seus escoceses sem camisa e decotes ofegantes.
Um leve rubor subiu por suas bochechas. A primeira rachadura em sua postura.
“Eu posso?” ela perguntou de novo, mais quieta desta vez. “Por favor?”
Axle não se mexeu. Ele ficou entre ela e a mesa, uma parede humana de couro e músculos e uma agressividade contida por pouco. “Você acabou de entrar num clubhouse de MC,” ele disse. “Cheio de homens. Cheio de armas e dinheiro que você pegou sem querer. E você veio sozinha, às onze da noite, para devolver.” Ele se inclinou para perto, abaixando a voz. “Você é a porra de uma louca, ou só estúpida?”
Ela não respondeu. Seus olhos piscaram para os dele, e por um momento, algo passou entre eles. Algo que não era exatamente medo. Algo mais complicado.
“Prez,” Tiffany disse, dando um passo para trás. “Ela está limpa. Sem escuta. Sem arma. Nada.”
“Obrigada,” a mulher disse. Como se Tiffany tivesse acabado de segurar a porta para ela.
Grimm tinha observado toda a troca. Ele tinha a expressão de um homem que já tinha visto de tudo e, de alguma forma, ainda estava surpreso. Ele limpou a garganta. “Axle. Comporte-se. Ela acabou de devolver a porra do seu dinheiro sem chamar a polícia. Mostre algum respeito.”
“Respeito.” Axle riu, com aquele mesmo som oco e sem humor. “Você não sabe disso. Você não sabe o que vai acontecer depois que ela for embora. Ela pode sair por aquela porta e ligar para todos os federais do estado.”
A mulher suspirou. Ela tinha um nome, ele se lembrou de repente. Ele tinha visto na identidade dela quando Voss checou a bolsa: Scarlett Hayes, 25. Foi um som pequeno, pouco mais que um fôlego, mas tinha peso.
“Senhor Axle, certo?” ela disse.
O nome dele na boca dela. Aquela voz. Aquela voz ofegante e impossível se envolvendo nas sílabas como seda em volta de uma lâmina.
O pau dele latejou. Puta merda.
“Eu não tenho um relacionamento muito bom com a polícia,” ela disse. Havia algo no tom dela agora. Algo velho, frio e enterrado no fundo. “Então eu não vou ligar para eles. Eu realmente não acho que eles sejam tão eficazes quanto dizem.”
Ela sorriu de novo. Aquela mesma curva pequena e triste em seus lábios. “Eu me viro para voltar para casa, obrigada. Eu não quero ser nenhum problema.”
Ela deu um passo em direção à mesa. Axle não se mexeu.
“Grimm,” ele disse, sem desviar o olhar dela. “Pegue a mala dela.”
Grimm se moveu para ajudar. Ele começou a dobrar um dos sutiãs delicados. Suas mãos calejadas e brutais pareciam obscenas contra a renda.
“Por favor, não,” ela disse rápido, o rubor se aprofundando. “Eu... eu cuido disso. Obrigada.”
Ela atravessou até a mesa. Ela se movia com uma graça silenciosa e sem pressa, que parecia totalmente fora de lugar naquele covil de violência e cerveja choca. Seus saltos batiam suavemente no concreto. Seus quadris balançavam o suficiente para atrair todos os olhares da sala.
Ela guardou suas coisas de forma rápida e eficiente. Seus movimentos eram econômicos, apesar do rubor. A lingerie. Os vestidos. Os romances. O cordeirinho de pelúcia. O vibrador. Ela o deslizou para o fundo da bolsa com um movimento prático e discreto que sugeria que já tinha feito aquilo antes.
Axle a observou o tempo todo. Ele não conseguia desviar o olhar. Nenhum deles conseguia.
Quando terminou, ela fechou o zíper da mala e se virou para encará-lo. “Obrigada,” ela disse. “Por não... bem. Por ser razoável. Eu vou embora agora.”
“Onde você está hospedada?”
Ela parou. “Como é?”
“Onde. Você. Está. Hospedada.” Ele mastigou cada palavra. “Como você vai voltar?”
“Do mesmo jeito que cheguei aqui, eu acho.” Ela deu de ombros. “Um táxi.”
Ele riu. Desta vez, foi quase genuíno. “Às onze da porra da noite? Aqui fora? Docinho, nenhum táxi vem para este bairro depois de escurecer. Qualquer idiota o suficiente para deixar você aqui já foi embora faz tempo.”
Ela engoliu em seco. A primeira faísca real de inquietação cruzou seu rosto. Não era medo dele, ele percebeu, mas da situação. De ficar presa ali. De não ter saída.
“Vanessa,” Axle latiu. Outra garota do clube olhou para cima. “Pegue o seu carro. Deixe ela onde quer que ela esteja hospedada. Sem desvios. Sem paradas. Você vai direto para lá, você volta direto para cá.”
“Não, por favor—” a mulher começou.
“Eu te perguntei alguma porra?” Ele se virou para ela, e toda a força de sua presença a atingiu como uma parede. Ela deu um meio passo para trás, sua calma finalmente rachando. “Você vai com a Vanessa porque eu mandei, porra. Ou você não vai sair deste complexo. Eu vou te trancar no porão até decidir o que caralhos fazer com você.”
Ela olhou para ele. O peito dela subia e descia com uma respiração que era um pouco rápida demais. Estava um pouco rasa demais. O medo estava lá agora, nadando naqueles olhos escuros de uísque. Mas havia algo mais também. Algo que parecia quase como... resignação.
Bom. Fique com medo. Garota esperta.
“Tá bem,” ela disse. E então, com um suspiro que parecia vir de algum lugar antigo e exausto: “Tanto faz.”
A palavra pairou no ar entre eles. Derrotada, mas não quebrada. Suave, mas não fraca. Ela ajustou a pegada na alça da mala e se virou para a porta, com a coluna reta e a cabeça erguida.
Axle a viu ir. O balanço de seus quadris. A queda de seus cachos escuros. O leve e persistente cheiro de baunilha e algo mais sombrio. Algo que deixou o peito dele apertado e a calça jeans desconfortável.
A porta se fechou atrás dela.
“Que porra,” Grimm disse no silêncio, “acabou de acontecer?”
Axle não respondeu. Sua mão foi para o bolso. A calcinha de renda preta ainda estava escondida lá. Ele podia senti-la lá, macia e condenadora, um segredo pressionado contra sua coxa.
Ele a puxou para fora. Olhou para ela. Pensou na mulher que a usava. Ela usava coisas assim por baixo de vestidos modestos de marfim. Ela sorria com olhos tristes e entrava num covil de lobos sem hesitar.
“Prez?” Grimm de novo.
“Cala a boca,” Axle disse. Mas não havia raiva nisso. Ele ainda estava olhando para a porta.
Em algum lugar à distância, um motor ligou. Pneus trituraram no cascalho.
E Axle ficou ali, no meio do seu clubhouse. Ele estava cercado por seus homens, seu dinheiro e suas armas. Ele segurava a calcinha de uma estranha em sua mão calejada. E se perguntava por que caralhos, de repente, ele não conseguia se lembrar de como respirar.
Scarlett Hayes.
O nome sussurrou por sua mente como uma promessa. Como uma ameaça.
Como o começo de algo que iria arruiná-lo completamente.