A Primeira Desgraça
Sexta-feira à noite.
Seul brilhava através da janela do apartamento de Yoo Na-ri.
As luzes dos carros riscavam as ruas lá embaixo, enquanto uma chuva fina transformava a cidade em um mar de reflexos dourados. O som distante do trânsito se misturava à televisão ligada na sala, onde uma protagonista claramente sem amor-próprio acabava de perdoar o namorado pela terceira traição.
Na-ri afundou ainda mais no sofá.
Vestia um moletom enorme, meias felpudas e carregava uma tigela de sorvete sobre as pernas.
— Pelo amor de Deus, mulher... ele te traiu três vezes.
A protagonista aceitou o pedido de desculpas.
Na-ri fechou os olhos.
— Eu desisto de vocês.
A campainha tocou.
Ela ignorou.
Tocou novamente.
E outra vez.
Na quarta tentativa, Yoo Na-ri já sabia quem era.
Só existia uma pessoa capaz de tocar uma campainha como se estivesse anunciando o fim do mundo.
Kang Ji-eun.
Sua melhor amiga.
E uma ameaça constante à paz mundial.
— Yoo Na-ri! — gritou uma voz do outro lado da porta. — Eu sei que você está aí!
— Vai embora.
— Não.
— Por favor.
— Também não.
Na-ri largou a tigela na mesa e caminhou até a entrada.
Quando abriu a porta, encontrou Ji-eun encharcada pela chuva, segurando duas sacolas e exibindo um sorriso que normalmente antecedia problemas.
Grandes problemas.
— Você parece deprimida.
— E você parece um processo judicial.
— Que coisa linda de se dizer para sua melhor amiga.
Ji-eun entrou sem esperar convite.
Como sempre.
Desde a faculdade, as duas compartilhavam praticamente tudo.
Segredos.
Traumas.
Ressacas.
E algumas decisões extremamente questionáveis.
Ji-eun largou as sacolas sobre a bancada da cozinha.
— Trouxe vinho.
— Não quero vinho.
— Trouxe comida.
— Não quero comida.
— Trouxe uma proposta irrecusável.
Na-ri apontou para ela.
— É exatamente essa frase que me assusta.
Ji-eun abriu o sorriso mais perigoso do planeta.
— Vamos sair.
— Não.
— Vamos.
— Não.
— Tem música.
— Não.
— Tem bebida.
— Não.
— Tem homens bonitos.
Silêncio.
Ji-eun cruzou os braços.
— Sabia.
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Uma hora depois, Yoo Na-ri tinha absoluta certeza de que tomava decisões ruins.
O bar estava lotado.
Luzes azuladas iluminavam o ambiente.
O som grave da música vibrava pelo chão.
Perfumes caros se misturavam ao cheiro de álcool, fumaça e comida.
Pessoas dançavam.
Conversavam.
Riam.
E Lee Min-woo acenava para elas do outro lado do salão.
Infelizmente.
Lee Min-woo era o melhor amigo de Ji-eun.
E uma das pessoas mais irritantemente carismáticas que Na-ri conhecia.
Ele tinha aquele tipo de beleza que parecia acontecer sem esforço.
Cabelo bagunçado.
Sorriso fácil.
Olhos brilhando com alguma ideia ruim.
Provavelmente várias.
— Minhas garotas favoritas!
— Não me abraça.
— Nossa.
— Estou falando sério.
— Isso magoa meus sentimentos.
— Você tem sentimentos?
— Às vezes.
— Impressionante.
Ji-eun começou a rir.
Min-woo levou a mão ao peito.
— Eu sou constantemente atacado por este grupo.
— Porque você merece.
— Justo.
Enquanto os três conversavam, um garçom passou oferecendo bebidas.
Na-ri pegou uma taça.
Precisaria dela.
Ela já conhecia aquele olhar no rosto de Ji-eun.
Conhecia aquele sorriso no rosto de Min-woo.
Os dois estavam escondendo alguma coisa.
E isso raramente terminava bem.
— Cadê o seu amigo? — perguntou ela.
Min-woo sorriu.
— Qual deles?
— O convencido.
— Ah.
— Aquele que acha que foi enviado por Deus como presente para as mulheres.
Min-woo gargalhou.
— Você realmente não gosta dele.
— Eu prefiro lamber uma bateria.
— Nossa.
— Estou sendo educada.
— Isso é assustador.
Foi então que Min-woo olhou para algum ponto atrás dela.
E sorriu.
Um sorriso de quem acabava de encontrar entretenimento para o resto da noite.
— Falando no diabo...
Na-ri se virou.
E imediatamente se arrependeu.
Porque Seo Jae-hyun era ridiculamente bonito.
O tipo de bonito que irritava.
Alto.
Camisa preta.
Mangas dobradas até os antebraços.
Relógio elegante.
Cabelo escuro levemente bagunçado.
E aquele sorriso.
Aquele maldito sorriso confiante.
Como se o mundo inteiro tivesse sido criado especificamente para agradá-lo.
— Estou atrasado?
A voz era calma.
Grave.
Perigosamente agradável.
— Infelizmente não.
Min-woo explodiu em gargalhadas.
Ji-eun quase derrubou a bebida.
Jae-hyun arqueou uma sobrancelha.
— Interessante.
— Trágico.
— Você sempre é tão simpática?
— Só com pessoas especiais.
— Então sou especial?
— Especialmente irritante.
Por um segundo, ela esperou arrogância.
Ou ofensa.
Ou qualquer reação típica de um homem com ego inflado.
Mas Seo Jae-hyun simplesmente riu.
Uma gargalhada sincera.
Bonita.
Quente.
Daquelas que fazem as pessoas sorrirem sem perceber.
E Yoo Na-ri odiou isso imediatamente.
Porque homens bonitos já eram um problema.
Homens engraçados também.
Os dois juntos deveriam ser proibidos por lei.
— Ah... — disse ele. — Eu gostei dela.
— Que pena.
— Vai ser divertido.
— Eu discordo.
— Ainda.
Na-ri tomou um gole generoso da bebida.
Já estava arrependida daquela noite.
E tinha a estranha sensação de que o pior ainda nem havia começado.
Ela não sabia o quanto estava certa.
Porque aquela noite...
Seria a primeira de muitas desgraças.
E também o início de uma história que mudaria completamente sua vida.