Prólogo - Um Silêncio de Três Partes
Havia três silêncios na estalagem do Pônei Caolho, e nenhum deles durava mais do que cinco minutos.
Era uma noite fria de outono no ano de 1895, e a velha estalagem rangía como se estivesse contando uma piada que só ela entendia. O primeiro silêncio era a calmaria do próprio ambiente vazio - as mesas de carvalho gastas, as cadeiras tortas, o cheiro persistente de ensopado de coelho que ninguém mais pedia. O segundo silêncio era o sutil sussurro do vento nas frestas da janela, um som tão constante que o cérebro aprendia a ignorá-lo. O terceiro silêncio era o mais pesado, e pertencia ao homem ruivo sentado sozinho no canto, encarando um copo de cerveja que ele ainda não havia tocado.
Então a porta se abriu com estrondo.
Quatro magos completamente ensopados e exaustos tropeçaram para dentro da estalagem. Eram, coletivamente, a coisa mais lamentável que o estabelecimento havia recebido desde o incidente do dragão em miniatura de 1887. Atrás deles, a tempestade uivava como se estivesse pessoalmente ofendida com a decisão deles de entrar em um lugar seco.
O primeiro a entrar foi Valério, ventomante de trinta e dois anos, cujo nariz avermelhado e olhos lacrimejantes revelavam sua maldição mais antiga: uma alergia ao pólen que o acompanhava desde os doze anos e que transformava cada espirro em um evento meteorológico de proporções discutíveis. Ele usava um lenço tão volumoso enrolado no pescoço que parecia carregar um animal de estimação. Logo atrás veio Clarice, hidromante de vinte e nove anos, que mesmo encharcada mantinha os ombros erguidos e o nariz levemente franzido - a expressão habitual de alguém que considerava o mundo em geral levemente inferior às suas expectativas. Ela abraçava contra o peito uma caneca de metal selada com cera, protegendo sua última reserva de água de fonte pura como se fosse um artefato sagrado.
Depois veio Alistair, piromante de vinte e seis anos, que entrou de costas, ainda olhando para a tempestade lá fora com a expressão de quem acabou de escapar de algo muito pior do que uma chuva. Ele carregava, em cada mão, uma alça de um balde de madeira cheio de água - o seu mais fiel companheiro de viagem e único item no qual confiava absolutamente. Por último, Geraldo, geomante de cinquenta e oito anos, entrou com a lentidão cerimonial de alguém que havia aprendido, décadas atrás, que a pressa só servia para machucar os joelhos.
Nenhum deles se conhecia. Há quarenta e oito horas, ainda viviam vidas separadas, cada um lidando sozinho com o peso de seus poderes quebrados. Agora, por obra de uma burocracia mágica particularmente impiedosa, eram sócios involuntários em uma missão que a maioria consideraria suicida e o restante considerariasimplesmente idiota.
A partir desta noite, a jornada deles seria imortalizada - eventualmente - como uma das mais bizarras e acidentais crônicas de toda a história da magia moderna.
- Alguém aqui serve sopa quente? - perguntou Geraldo, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto molhava o chão de madeira com as próprias roupas encharcadas.
Ninguém respondeu. Mas o homem ruivo no canto levantou o copo de cerveja, como se brindasse a algo que só ele havia previsto.