Prólogo
"ESSA NÃO É A SUA ideia mais inteligente, Hayden." A voz do meu primo ecoa pela imensidão do refeitório silencioso e chega à cozinha adjacente. Viro a panqueca na frigideira, acerto o pouso como a profissional que sou e deixo o outro lado fritar no fogo alto.
Viro-me e vou arrastando os pés até o balcão de serviço, com as mãos na cintura.
"Nenhuma das minhas ideias é inteligente, Spencer", respondo, e ele gira levemente para me encarar por trás de seus óculos de armação grossa. "Mas são pra caralho de engraçadas."
Quando ele me esnoba, atravesso a porta e saio para o corredor vazio. A lua está cheia esta noite e sua luz pálida entra pelos grandes painéis de vidro que compõem a parede norte. Isso cria um brilho sinistro sobre o vazio.
Paro devagar ao lado de Spencer e cruzo os braços. Nós dois encaramos em silêncio o mural recém-adicionado à nossa frente.
"É lindo, não acha?", murmuro para ele antes de dar uma mordida na panqueca que segurava na mão direita. Spencer me olha pelo canto do olho antes de suspirar; pesadamente e com profunda decepção. Não é um som incomum para mim.
Então, minha vida é uma espiral constante de decepção. Pelo menos eu admito.
"Não acredito que você está comendo panquecas numa hora dessas." Meu primo bufa e começa a arrancar a gostosura fofinha da minha mão. Ele dá uma mordida agressivamente. Obviamente, ele está frustrado com a minha calma e com o meu total descaso. Ele mastiga com amargura enquanto seu maxilar marcado se fecha com força.
"Sempre é hora para panquecas, querido primo", digo a ele, ignorando o fato de que ele tinha acabado de arrancar um pedaço da panqueca com aquela boca grande dele, de um jeito grosseiro. Definitivamente, isso entrou para a lista das dez maiores traições dos animes. Dou um passo à frente, depois de engolir outra panqueca em uma velocidade anormal, e me abaixo para pegar uma lata de tinta spray rosa neon. Eu a sacudo; o som ecoa na sala silenciosa e ricocheteia nas paredes nuas. "Acho que precisa de mais rolas."
Subo na cadeira e puxo a máscara de papelão branco sobre a boca. Não sou idiota e não vou morrer por inalação tóxica antes de ver a reação do meu diretor à minha obra de arte. Pressiono a lata. A tinta spray rosa salpica na parede branca e movo a mão como um artista faria com um pincel.
"Você precisa fazer pelo menos proporcional, Hay", observa Spencer atrás de mim. "O Diretor McKinley nunca teria uma rola desse tamanho. Já viu o quão apertadas são as calças dele?"
Faço uma careta de nojo e concordo com a cabeça: "Puta merda, você tem razão—"
As portas do refeitório se escancaram e batem contra as paredes de reboco. O som foi ensurdecedor e forte, como se um trovão tivesse acabado de explodir naquela sala. Lenta e timidamente, olho por cima do ombro e assisto com horror enquanto meu professor de química do décimo ano, Sr. Jacobs, está parado no limiar.
"O que vocês dois pensam que estão fazendo!" Ele ruge com as sobrancelhas rebeldes franzidas em uma carranca profunda. Ele aponta um dedo severo, porém gordinho, para nós e atravessa o refeitório a passos largos. "Desça daí agora mesmo, Srta. Jones!"
Então: "Corram!"
Spencer grita no tom de um pterodáctilo ao meu comando, e eu jogo a lata de tinta spray longe. Meu primo junta as bolsas com um movimento poderoso dos braços e eu pulo da cadeira. Nós dois damos no pé pelas portas dos fundos o mais rápido possível.
Estava frio e escuro quando atravessamos as portas de saída. Mesmo assim, continuamos a correr pelo campus da escola como se nossas bundas estivessem pegando fogo. O som dos gritos e exigências do Sr. Jacobs servia de trilha sonora para a nossa corrida.
Quando o Mercedes prata de Spencer, o único carro no estacionamento vazio, entra em vista, começo a bombear as pernas rapidamente.
"Eu achei que você disse que a escola estava vazia!", Spencer grita enquanto corremos em direção ao carro dele.
"Eu achei que estava!", retruco em voz alta, ouvindo o solado do meu Converse gasto bater no asfalto. Os gritos do Sr. Jacobs continuavam a ecoar na noite enquanto ele nos perseguia.
Quando chegamos ao carro, tento audaciosamente deslizar sobre o capô, como espiões fazem em filmes. Palavra-chave aqui: tento. Consequentemente, rolo para fora do metal escorregadio e caio com força de bunda no chão.
Mesmo assim, o medo de ser pega e entregue à polícia é maior do que a minha humilhação, então pulo de pé instantaneamente.
Spencer joga as bolsas no banco de trás e eu praticamente mergulho de cabeça no banco do passageiro. Bato a porta, tranco e coloco o cinto. Meu coração batia de forma errática dentro da caixa torácica, assim como minha respiração.
Spencer está tão perto, tão perto pra caralho de ligar a ignição e nos tirar da Brookhaven High School.
Mas, de repente, o Sr. Jacobs aparece do nada como o filho do demônio que ele é e bate as duas palmas carnudas no capô do veículo. Nós dois, lá dentro, pulamos de susto e soltamos um grito alto, com Spencer fazendo uma reencenação ao vivo da pintura O Grito.
"Sr. Michaels e Srta. Jones, sugiro que saiam do carro agora mesmo!", ordena o Sr. Jacobs, e pude ver que o rosto dele estava vermelho como beterraba, mesmo na escuridão da noite. Fico feliz que minhas aventuras desta noite tenham beneficiado o Sr. Jacobs, dando a ele sua dose diária de exercícios.
Spencer e eu giramos as cabeças lentamente e nos olhamos.
"O quê? Não conseguimos te ouvir?", respondo, voltando meu olhar para o professor enquanto me inclino para frente no assento e coloco a mão na orelha. "A conexão está horrível. Acho que o sinal está caindo."
"Estamos conversando, Hayden. Eu posso ver você." O Sr. Jacobs estreita os olhos por trás dos óculos finos apoiados em seu nariz inchado. Ele parece totalmente farto da minha merda. Mas, sendo justa, ele está farto da minha merda desde o primeiro dia, quando entrei na sala de aula e derrubei um tubo de Pringles no chão.
Faço uma pausa. Então: "Hã?"
"Srta. Jones, se você não sair do carro—!"
E, naquele mesmo segundo, é como se um show de fogos de artifício explodisse atrás do Sr. Jacobs. O céu da meia-noite se torna em todos os tons de vermelho e laranja. O Sr. Jacobs se projeta sobre o carro de Spencer enquanto nós dois nos encolhemos dentro do veículo com o som estrondoso. O que antes era o refeitório da Holden Bay High School agora é uma bola gigantesca de fogo. Spencer me lança outro olhar rápido, e eu faço o mesmo com ele. Nós dois estamos pensando a mesma coisa, não são necessárias palavras.
Estamos fodidos.
E é assim, senhoras e senhores, que acabei no banco de trás de uma viatura policial apertada, com um banco de couro irregular e extremamente desconfortável. As algemas estão apertadas demais e cheira a Cheetos e chulé aqui atrás. Eu estava conversando, de forma unilateral, diga-se de passagem, com um dos policiais, o oficial Roberts, sobre o início do universo, porque eu preferiria qualquer coisa a ter que me estressar com o tamanho da merda em que vou me meter quando minha mãe perceber que sua única filha está sendo presa neste momento.