Novo emprego
"Aria, levanta! Você só tem uma hora para se arrumar!" — gritou Julian, meu irmão mais velho, no corredor, do lado de fora da porta do meu quarto. Ele começou a bater repetidamente para chamar minha atenção.
Eu resmunguei, virando para o lado esquerdo da cama, que ficava mais perto da porta. Levantei o dedo do meio, mesmo sabendo que Julian não podia me ver.
"Não mostre o dedo para mim! Agora levanta, antes que você perca seu primeiro dia de trabalho."
Meu irmão disse aquilo de um jeito que me fez resmungar alguns palavrões, rezando para que ele fosse embora logo. Só alguns segundos depois, quando repeti o que ele disse na minha cabeça, é que a ficha caiu.
Eu tenho trabalho. Merda.
Meus olhos se arregalaram e, sem pensar duas vezes, joguei os cobertores longe e saí da cama. Comecei a procurar pelo quarto tudo o que precisava para me arrumar.
Levei um tempinho para me vestir, garantindo que eu estivesse apresentável para o meu primeiro dia. Sabe como é, né? Precisava causar uma boa primeira impressão. Fui descendo para a cozinha para tomar café e pegar um lanchinho. Passei por lá bem a tempo de ver meu irmão antes que ele também saísse para trabalhar.
"Tenha um bom dia e obrigada por me acordar, Juli", disse, dando um abraço rápido nele.
"Não me chame assim", ele resmungou, passando os braços ao meu redor. Eu sabia que ele odiava o apelido que dei, mas isso não me impedia de usá-lo.
Eu gostava de ver como ele ficava desconfortável, já que achava que Juli era nome de menina. E bom, você sabe o que isso significa... exatamente, feria o grande ego dele.
Vi ele sair pela porta e entrar no carro, dando tchau enquanto dava ré na garagem. Meu relógio mostrava que eu só tinha uns quinze minutos, o que significava que podia comer meu café e minha torrada com calma.
Perceber como as paredes da casa pareciam vazias fez meu sorriso desaparecer aos poucos. Tínhamos tirado todas as fotos de família porque era doloroso demais olhar para elas.
Morávamos sozinhos; eu e meu irmão éramos donos da casa que herdamos depois que nossos pais morreram em um trágico acidente de carro. Meu coração ainda se parte só de pensar no meu pai e na minha mãe, Mary Jane Williams e James Aryn Williams. Eu sentia muita falta deles.
Fomos criados pela tia Elena e pelo tio Mac, irmão do meu pai, até termos idade para nos mudarmos para a casa onde vivemos agora. Não os víamos desde o último Natal; eles moravam em Londres, enquanto nós voltamos para casa, em Nova York.
Até hoje, meu irmão e eu mal falamos sobre nossos pais. A essa altura, você esperaria que eu tivesse superado ou, pelo menos, seguido em frente, mas ainda não encontrei a pessoa certa para isso. E Julian também não. Fizemos uma promessa silenciosa de que não falaríamos sobre o passado; achamos muito mais fácil focar no presente do que remoer as coisas. Era mais fácil mentir para nós mesmos do que encarar a verdade.
Tenho 28 anos e moro com meu irmão mais velho superprotetor. Você deve estar se perguntando por quê, né? Bem, meus pais deixaram todas as economias deles para nós, incluindo a casa, que decidimos dividir até que um de nós se casasse. Não diria que somos ricos, mas definitivamente não somos pobres. Veja bem, eu gosto de trabalhar e só usava o dinheiro dos meus pais quando realmente precisava. Julian ficava de olho em tudo e se certificava de que nenhum homem chegasse perto de mim, mas admito que houve vezes em que ele nem ficou sabendo de alguns caras com quem saí no passado.
Quando terminei o café, já estava no carro indo em direção à North Shore Primary School, onde fui contratada para trabalhar como professora. Minha turma era composta por crianças de 7 e 8 anos.
Caminhei pelos corredores em direção à sala dos professores. Lá, fui recebida por outros colegas, a maioria dos quais eu já tinha conhecido, e alguns que estavam voltando das férias.
"E você deve ser a Sra. Williams", disse uma voz alegre e suave vinda da minha esquerda, enquanto eu colocava meus papéis em uma mesa na sala dos professores. Virei-me para a senhora idosa com um sorriso gentil antes de cumprimentá-la. Com a mão estendida, perguntei: "Por favor, me chame de Aria. E você deve ser a Sra. Davidson?". Olhando-a de perto, pude perceber que ela era alguém em quem eu poderia confiar; parecia ser muito experiente.
"Sim, querida, mas pode me chamar de Evelyn. Sou responsável pela sala de aula ao lado da sua e, se precisar de alguma ajuda, não hesite em pedir", disse ela, fazendo-me sorrir alegremente em concordância. Eu não esperava por isso, mas fiquei feliz que alguém por ali fosse prestativa e disposta a me ajudar.
"Obrigada, com certeza vou aceitar sua oferta se sentir necessidade", respondi, antes de trocar mais algumas palavras com Evelyn. Depois, decidi ir para minha sala preparar tudo antes da chegada dos alunos.
Entrei na sala, coloquei o material que tinha preparado para as crianças na minha mesa e fui arrumar as cadeiras. Limpei todas as mesas, dando um trato rápido antes de espirrar um spray com cheiro de baunilha que tinha trazido na bolsa. Pode me chamar de perfeccionista, mas prefiro um ambiente limpo e cheiroso, e tenho certeza de que as crianças iriam apreciar.
Coloquei os doces que comprei na minha gaveta, organizei os marcadores novos no quadro, coloquei todas as minhas canetas em um pote na mesa junto com outras decorações. Peguei alguns cartazes para pregar pelas paredes e coloquei o porta-retrato com a foto do Julian, da minha tia e do meu tio na mesa, ao lado de uma caixa de lenços.
Conectei meu laptop ao projetor e coloquei o iPad para carregar; sabia que estava pronta. Assim que terminei e me sentei, ouvi o sinal tocar. Observei todas as crianças entrarem apressadas; algumas se sentavam rindo, outras pareciam cansadas e a maioria conversava entre si, sem prestar atenção em nada.
O que me surpreendeu foi quando todos ficaram em silêncio no momento em que um garotinho loiro de moletom cinza entrou na sala. Ele arrastou uma das carteiras lá para o fundo, longe de todo mundo, e sentou-se.
Pelo olhar que as outras crianças lançavam a ele, eu soube na hora que ele era diferente.
"O que vocês estão olhando?", o garotinho loiro de 7 anos disparou, fazendo com que a turma toda virasse o rosto.
Interessante.
"Com licença, mocinho, vou precisar pedir que você se sente mais à frente. Coloquei as carteiras nos lugares delas por um motivo", disse a ele, quebrando o silêncio constrangedor.
A maioria das crianças parecia desconfortável, como se soubesse de algo que eu não sabia. Todas pareciam um pouco assustadas por mim.
"Eu sento onde eu quiser, tia. Você não manda em mim", a resposta petulante dele me irritou, junto com aquela atitude arrogante.
"Vou te dar cinco segundos para colocar essa carteira de volta onde estava. Caso contrário, vai sentar aqui na frente comigo", avisei.
O garoto pensou um pouco; observei seus olhos estreitos como se estivesse me desafiando. Por um momento, achei que ele não fosse se mover, até que o vi levantar. Por um segundo, ele me lembrou Julian enquanto arrastava a carteira de volta para o lugar, e eu não pude deixar de me perguntar por que ele era tão hostil com todos.
Percebendo que não chegaria a lugar nenhum com ele, decidi deixar passar. Respirei fundo e continuei. No entanto, não deixei passar o olhar sombrio que ele me lançou, como se estivesse imaginando minha cabeça rolando.
Olhei para a turma, limpei a garganta e caminhei até o quadro, escrevendo meu nome em letras grandes e claras: "SRTA. WILLIAMS."
"Olá a todos, eu sou a Srta. Williams, a nova professora de vocês." Sorri olhando para todos na sala, tentando memorizar o rosto da maioria das crianças.
Pelas expressões, pareciam surpresos ao finalmente notarem que eu estava ali. Fiquei chocada quando o mesmo menino lá do fundo disse: "Ninguém se importa, você só vai embora como o resto deles mesmo."
Eu nunca entendi por que ele disse aquilo, mas me incomodou. Eu precisava perguntar o que ele quis dizer depois que a aula terminasse. Antes que eu pudesse aprofundar nisso, precisava que a turma soubesse que eu ficaria por muito tempo. "Na verdade, pretendo ficar aqui por um bom tempo", respondi, voltando-me para o quadro, mas não antes de ver algumas caras de choque e perplexidade.
"Agora, quero que todos se apresentem. Vamos fazer um círculo e cada um de vocês dirá seu nome bem alto e claro para que eu possa aprender", disse com um tom firme, porém gentil.
Sorri, encorajando a primeira menina que falou comigo: "Meu nome é Daisy e espero que você seja nossa professora para sempre", ela disse, fazendo-me sorrir para ela.
Depois disso, a dinâmica continuou. Todos na sala começaram a dizer seus nomes...
"Meu nome é Bailey."
"Demi."
"Sou o Tristan."
"Carlos."
"Jenny."
"Kaitlyn."
"Oi, sou a Hayley."
"Sou o Jayson, mas meus amigos me chamam de Jay."
E, finalmente, depois de mais alguns alunos, chegamos à última pessoa. O menino no fundo da sala, que parecia que aquele era o último lugar onde queria estar. Dei a ele alguns minutos para me dizer seu nome, mas ele não parecia querer conversar.
Olhando para mim com desinteresse, como se quisesse dizer que preferia não falar. Eu soube naquele momento que ele não ia responder, então balancei a cabeça antes de entregar os papéis para que todos terminassem a tarefa que eu tinha passado.
A primeira coisa que queria que a turma fizesse era desenhar, colorir ou escrever algo que amassem, para que eu pudesse conhecer seus interesses e hobbies.
Procurei na minha gaveta pelos doces que eu sabia que tinha; talvez se eu mostrasse bondade para aquele menino no fundo, ele retribuísse? Então foi exatamente o que fiz: coloquei o doce na mesa dele antes de me afastar.
Ao me virar, vi o mesmo menino no fundo da sala olhar para o que eu tinha dado a ele com confusão, antes de seus olhinhos dispararem diretamente para mim. Seu olhar se intensificou, o que me deixou chocada. Eu me perguntava qual poderia ser o motivo daquela expressão. Eu tinha agora um novo objetivo: fazer com que aquele garoto confiasse em mim.
Depois disso, comecei a entregar um doce para cada aluno que estava trabalhando de forma agradável e silenciosa. Todos me agradeceram, exceto, é claro, um — e aposto que você consegue adivinhar quem.
Quando a aula terminou e foi hora de todos irem para casa, eu já tinha arrumado tudo o que precisava antes de sair em direção ao meu carro. No caminho, parei para ver Evelyn, ou melhor, a Sra. Davidson, conversando com aquele mesmo menino da minha turma, cujo nome eu ainda não sabia.
"Está tudo bem por aqui?", perguntei com um sorriso, olhando para o menino de 7 anos da minha turma. Seu nome ainda era um mistério. Eu esperava um sorriso de volta, mas não tive sucesso; apenas Evelyn me reconheceu.
"Estamos bem, querida. Pode ir para casa agora, eu fico com o Ethan até o pai dele chegar", disse Evelyn, fazendo-me balançar a cabeça em concordância antes de ir embora. Prometi a mim mesma conversar com ele amanhã, só nós dois, para que eu pudesse encontrar um meio-termo e tornar possível trabalharmos juntos.
Ethan
Então esse era o nome dele.