Bootcamp
Meu nariz estava colado no vidro frio, observando os campos que antes transbordavam vida e cor — grama verde fresca e girassóis gigantes — se transformarem em espaços abertos e marrons, nada além de morros de lama e trincheiras.
Estávamos a quilômetros da civilização, mas as rodas do carro não paravam de girar, nos levando cada vez mais fundo no abismo.
“Vamos fazer uma entrada triunfal, Harper?”
Desviei os olhos sombrios da janela e encarei meu tio pelo retrovisor.
Havia um traço de diversão no rosto dele. Estava gostando daquilo — do meu sofrimento. Estreitei os olhos e mantive os lábios cerrados, negando a ele a satisfação de uma reação.
Mas ele interpretou meu silêncio como um sim.
Em segundos, seu dedo acionou o botão no painel, e o carro ganhou vida, ensurdecedor com o som estridente das sirenes.
Desviei o olhar da risada vibrante dele e voltei a focar na estrada. Dessa vez, contra o asfalto desolado, refletia uma luz azul contínua, que nos acompanhou até o Bootcamp.
Enquanto meu tio dirigia por uma estrada de terra, passamos por um pelotão marchando em fila reta. Nenhum corpo estava fora do lugar, nem um pouco. O grupo mantinha-se compacto e uniforme. Encolhi-me no banco de trás do carro de patrulha, mas meu tio reduziu a velocidade de propósito, só para dar uma boa olhada.
“Puta merda, Harper, você se meteu numa enrascada das bravas. Não tem jeito de você sobreviver a isso. Vai parar na cadeia num piscar de olhos.” Meu tio não tinha nenhum pudor em expressar suas opiniões e dúvidas internas.
Ele parou ao lado de dois homens. Um deles era bem mais velho, mas dava para ver que estava em plena forma física.
O outro parecia ter mais ou menos a minha idade, talvez um pouco mais, mas o corpo dele gritava que era atleta.
Os dois vestiam o mesmo uniforme: calças camufladas verdes, uma camiseta verde justa e botas bege.
Meu tio destravou a porta e a abriu para eu sair. Tropecei ao me levantar e fiquei parada, encarando o homem mais velho, que parecia forte o suficiente para estar no comando.
“Harper Williams, nova recruta.” Meu tio disse, apertando a mão dos dois.
O homem mais velho deu a volta ao meu redor, me examinando de cima a baixo antes de voltar à posição inicial.
O cabelo dele era grisalho e curto, penteado para trás e impecável. Os traços eram afiados, e a carranca parecia permanente.
Ele exalava poder e autoridade, os olhos escuros sem nenhum traço de humanidade. Só a postura dele já faria homens feitos chorarem.
O mais novo permanecia completamente imóvel.
Os olhos fixos à frente, as mãos firmemente pressionadas atrás das costas.
Era como um robô, o robô mais lindo que eu já tinha visto.
Tinha o maxilar definido e o cabelo castanho-claro, quase loiro, curto e impecável, sem um fio fora do lugar.
“Tenente-Comandante.” O mais velho assentiu na direção do mais novo, que não moveu um músculo, nem sequer um piscar de olhos.
“Comandante.” Ele apontou os polegares firmes para o próprio peito.
A voz era grave e projetada com força.
“Olhos baixos, Williams.” Ele berrou, cuspindo saliva ao pronunciar as palavras com tanta rispidez.
Olhei para os meus tênis brancos, que já estavam sujos de terra seca. A boca se contraiu de irritação, e suspirei baixinho, tomando cuidado para que nenhum dos dois ouvisse.
“Tire as algemas dela.” Ele ordenou diretamente ao meu tio, que finalmente girou a pequena chave na fechadura que prendia meus pulsos e soltou minha mão.
Naturalmente, esfreguei os pulsos, tentando aliviar o formigamento causado pelas algemas pesadas, e ergui os olhos para encarar o comandante.
“Olhos baixos, Williams.” Ele gritou, fazendo meu corpo estremecer de susto.
Desviei o olhar na mesma hora.
“Você não deve olhar diretamente para nenhum oficial superior, a menos que seja instruída a fazê-lo.” Ele soprou um apito, o que instintivamente me fez querer erguer os olhos, mas controlei o impulso. “O Tenente vai levá-la ao alojamento.”
“Tá bom.” Falei para os meus sapatos.
O comandante suspirou fundo.
“Olhe para mim, Williams.” Ele berrou. Ergui os olhos para encontrar os dele. Ele tinha quatro dedos apoiados na testa, como uma continência. “Você responde ‘Sim, senhor’. Entendeu?”
“Sim.”
Falei sem confiança. O rosto dele ficava mais furioso a cada segundo, e juro que o outro cara teve um leve tremor de diversão nos lábios, mas desapareceu tão rápido quanto apareceu.
“Senhor.” Acrescentei, nervosa.
Meu tio deu uma risadinha ao meu lado, e balancei a cabeça.
“Sim, senhor.” Corrigi.
O comandante balançou a cabeça, exasperado.
“Saia daqui.” Ele berrou, afastando-se.
O mais novo, que até então eu tinha certeza de que era uma estátua, relaxou um pouco a postura e começou a andar com passos uniformes, afastando-se do comandante.
Segui atrás, correndo um pouco para acompanhar o ritmo dos passos dele. Mantive a cabeça baixa, mas isso não me impediu de dar umas olhadinhas furtivas para a estátua bonita.
A aparência dele era ultra rígida, não só fisicamente, mas tudo nele parecia impenetrável e proibido. Não demonstrava emoção nos olhos, o rosto permanecia sempre frio e inexpressivo. O traseiro era estoico e inalcançável. Com certeza, era um robô.
Ele me levou até um grande galpão de madeira, mas antes de entrar, virou algumas folhas presas a uma prancheta na frente do prédio.
“Bloco de chuveiros”, murmurou, apontando com dois dedos fortes para um pequeno prédio de tijolos do outro lado.
“Seu horário é às quatro da manhã. Você só pode tomar banho no horário determinado no cronograma, porque os chuveiros são compartilhados em rodízio entre os alojamentos.”
“Tá bom.” Respondi, sem prestar muita atenção. Nunca fui de seguir regras — daí o Bootcamp. Ele bateu a bota bege pesada no chão e me encarou com olhos hipnotizantes.
“Você acabou de ganhar cinco voltas extras na pista amanhã, Williams. Endireite a postura, baixe os olhos e mostre respeito ao seu Tenente.”
A urgência na voz dele me fez agir. Lembrei da frase idiota que tinha que usar para responder aos oficiais superiores.
“Sim, senhor.”
“Refeitório.” Ele apontou para um prédio maior de tijolos, não muito longe do bloco de chuveiros.
Ergui os olhos por alguns segundos para olhar antes de baixá-los novamente.
“Bloco feminino.” Olhei de novo na direção que ele apontava.
“E, por último, os alojamentos dos oficiais. Proibido para criminosos.”
“Criminosos?” Questionei, erguendo a cabeça para encará-lo. Meus olhos brilharam de diversão. Claro que era isso que éramos, mas não esperava que ele dissesse tão abertamente, especialmente depois de ter mantido um tom tão profissional até então.
“Soldados.” Ele corrigiu, e a expressão endureceu de novo. “Você acabou de ganhar mais dez voltas extras amanhã por me questionar e por me olhar. Olhos baixos, soldado.”
Meu Deus, como eu o odiava.
Ele abriu a porta do galpão e entrou. Era um cômodo comprido e sem decoração. Oito camas individuais estavam enfileiradas, quatro de cada lado. Cada cama tinha um cobertor marrom de fibra, que parecia desconfortável e coçava só de olhar.
Aos pés de cada cama, havia uma garota. Todas vestiam o mesmo uniforme: calças camufladas, camiseta verde, botas pretas pesadas e um cinto grosso. Estavam em posição de sentido, imóveis, olhando fixamente para a frente. Nenhuma delas moveu os olhos para nos encarar. As mãos estavam apoiadas na testa, em continência.
O tenente entrou no cômodo e parou brevemente diante de cada uma, examinando-as de cima a baixo antes de passar para a próxima. Nenhuma delas mudou de postura ou o encarou diretamente. Nenhuma o desafiou.
“Suas botas precisam brilhar mais, Rodgers.” Ele berrou para a última garota.
“Sim, senhor.” Ela respondeu na hora.
Ele então se posicionou no fundo do cômodo, ergueu a mão em continência e gritou: “À vontade, soldados.” As garotas baixaram os braços e relaxaram, mas só um pouco. Ainda mantinham os olhos fixos à frente.
“Harper Williams, nova recruta.” O Tenente anunciou com voz firme. Pegou um uniforme recém-dobrado da cama e me entregou. “Uniforme. Cama. Nos vemos às cinco da manhã.”
Observei enquanto ele praticamente marchou para fora, batendo a porta atrás de si.
Foi então que todos os olhos se voltaram para mim.