Divórcio
"Daisy, anda logo, vamos nos atrasar para o casamento!" Amanda gritou o nome de sua melhor amiga, Daisy, que já estava se arrumando há mais de uma hora.
Se havia algo que deixava Amanda amargurada com Daisy nesta vida, era o nível absurdo de atraso dela sempre que iam sair.
Daisy sorriu, um tanto displicente, lá do seu quarto, onde ainda lutava para passar o batom vermelho. Ela deixou o bastão cair e deu leves batidinhas com os dedos nos lábios para igualar a cor. Sabia o quanto sua demora irritava a querida amiga, então não perdeu tanto tempo quanto levaria para aplicar um tom nude sobre o vermelho e fazer um degradê antes de correr ao closet para escolher os sapatos.
"Daisy!"
"Eu juro, já estou terminando, só mais um minuto!" respondeu ela, travessa, remexendo suas araras de roupas.
"Você disse isso há trinta minutos!" retrucou a outra, soltando um suspiro audível enquanto se jogava no estofado de couro da sala para esperar. Conhecendo a amiga, sabia que levaria mais uns trinta minutos até ela sair.
Daisy revirava suas sapateiras, jogando um par para lá e outro para cá enquanto procurava a cor certa para combinar com seu vestido vermelho de tule. Moda era algo em que ela jamais poderia errar, mas se tivesse que machucar o coração da amiga por mais alguns minutos, então que valesse a pena.
A culpa era toda dela, Daisy refletiu. Ela tinha dito que não conseguiria ir a esse casamento, mas Amanda insistiu. Tudo começou três semanas atrás, quando Amanda voltou da aula de dança toda animada por ter conhecido uma nova parceira lésbica e contou a Daisy que a tal garota era bi e que se casaria no terceiro sábado, que, por coincidência, era hoje.
A princípio, Daisy recusou, dizendo que não queria estar presente para ver Amanda se casar com outra lésbica depois de tê-la visto sofrer tanto na primeira vez. Mas Amanda insistiu, dizendo que queria estar lá pela nova amiga porque ela foi sincera desde o início, ao contrário da primeira. E foi assim que ela se viu nessa situação embaraçosa.
Exatamente como Amanda previu, passaram-se trinta minutos até que Daisy saísse apressada do quarto, possivelmente mais gata do que a própria noiva.
"Daisy!" Amanda exclamou, alarmada. "Como você consegue estar mais elegante que a noiva? Eu te disse para ter bom senso com a moda hoje! Ai, meu Deus..." Ela bufou e se levantou, sem coragem de pedir que Daisy voltasse para se trocar, sob o risco de perderem o casamento de vez.
"Desculpa, Mandy..." Daisy arrastou as palavras, prendendo a respiração e tentando não rir enquanto seguia Amanda para fora do apartamento. "Você sabe que eu não conseguiria me vestir abaixo do meu padrão só para ser considerada," ela divagou enquanto chegavam ao Chevrolet preto lá fora, e a porta traseira deslizou para que entrassem.
Daisy Raven Richards é uma designer de moda renomada que largou a carreira de modelo e entrou no ramo fashion após sofrer um divórcio terrível de seu marido, que a acusou de traição no dia em que ela contou que estava grávida. Foi um golpe duro que ela não acha que jamais superará, não importa o quanto tente.
Ethan era tudo para ela. Ela literalmente adorava o chão por onde ele pisava, e ainda assim, naquele mesmo dia, ele ficou diante dela, olhou no fundo dos seus olhos e disse que tinha acabado.
No início, ela achou que fosse uma brincadeira, já que viviam pregando peças um no outro. Uma vez, ela ligou para ele dizendo que ia se enforcar para testar o amor dele; na verdade, ela estava em casa tomando um copo de limonada. Desesperado, o pobre homem correu do trabalho para casa e ficou tão furioso que ela teve que mentir sobre aquilo. Ele prometeu dar o troco e demorou um bom tempo até que o fizesse.
Então, naquele dia, quando ele a acusou de traição e declarou a intenção de se divorciar, Daisy não levou a sério, até que na manhã seguinte ele saiu de casa. Uma semana depois, quase sofrendo um aborto espontâneo de tanto pensar que algo ruim tinha acontecido com ele, o advogado deles chegou com os papéis do divórcio. Aquele foi o pior dia da sua vida e o momento em que ela realmente acreditou que não era brincadeira.
Hoje faria cinco anos, e o filho deles estava em um internato em algum lugar do Pacífico. Ethan destruiu sua vida depois disso e ela jurou que, custe o que custar, nunca mais entregaria seu coração a outro homem. E, se algum dia se casasse de novo, seria sem emoções, apenas pela segurança financeira dela e de seu filho.
De alguma forma, o casamento a lembrava de Ethan. Seu amor perdido.
"Daisy!"
Ela deu um sobressalto e respirou fundo ao se virar para encarar a amiga.
"Eu estou falando com você, está tudo bem?" Amanda arriscou, com uma expressão preocupada.
"Sim..." Ela assentiu fervorosamente e olhou para a estrada. "Espero que o marido da sua amiga não acorde um dia e a acuse de traição."
Amanda deu uma risada sarcástica, sabendo por que a amiga disse aquilo. Sua mão encontrou a de Daisy, num gesto suave: "Você precisa aprender a perdoar, um dia, para ter uma chance de encontrar o amor verdadeiro de novo."
Daisy tirou a mão debaixo da de Amanda e cruzou os braços sobre o peito, franzindo a testa para a rua. "Às vezes você fala como se estivesse sob o efeito de alguma droga!"
Amanda soltou uma risada debochada.
"Você sabe que isso não vai acontecer! Prefiro arrancar meus olhos do que entrar nessa de novo. Aprendi com a primeira. Tudo com que me importo agora é cuidar de mim e do meu filho! E, claro, da minha querida bebê, Ella." Ella era sua pequena cadelinha da raça Collier.
"Eu sabia que você diria isso, mas ainda assim, não vou parar de acreditar que um dia aparecerá o homem que vai mudar sua perspectiva. A Becky mudou a minha..."
Daisy bufou com rispidez. "E, no entanto, hoje ela está subindo ao altar com outra pessoa..."
"Eu respeitei a decisão dela de não ficar comigo. Afinal, ela prometeu continuar..."
"Te fodendo!" Daisy completou e caiu na gargalhada. "E aqui estou eu dizendo que um dia o marido dela a acusaria. Talvez, quando ele fizer isso, não esteja tão longe da verdade!"
"Daisy!" Amanda deu um tapa no braço dela. "Você não está sendo gentil."
"Tanto faz, Amanda. Não é como se eu estivesse cagando para isso. Talvez, quando esse dia chegar, ela finalmente seja sua, se o marido for um babaca como o meu ex e for gentil o suficiente para expulsá-la. Direto para os seus braços." A risada delas ecoou pelo carro.
"Talvez se você colocar dessa forma, eu possa rezar por esse dia..." Ela parou de falar conforme a risada diminuía, e Daisy murmurou em resposta.
Amanda e Daisy eram amigas desde a terceira série, quando os pais de Daisy se mudaram para o bairro em Belmonte, na época em que a mãe dela conseguiu um contrato na França. A mãe de Daisy se tornou amiga próxima da Sra. Anthonio, mãe de Amanda, e as crianças foram apresentadas depois que a Sra. Anthonio sugeriu à Sra. Richards que matriculasse sua filha na mesma escola que sua "princesa".
Foi assim que as duas crianças se tornaram inseparáveis, já que viviam no mesmo ambiente com suas mães. A primeira vez que Daisy descobriu que Amanda usava drogas e gostava de mulheres foi na faculdade, em uma festa de colega.
Foi ali que Daisy notou que a recusa de Amanda em ter um namorado, enquanto assistia incessantemente a pornô lésbico e ficava babando pela anatomia feminina, não era porque ela queria ser ginecologista, mas sim porque a garota realmente gostava de mulheres, mas ainda não tinha tido a oportunidade de expressar isso.
Naquele dia, havia uma garota chamada Florence, de Nova York, onde ficava a faculdade, que vivia pegando no pé de Amanda. Daisy achava aquilo irritante e queria afastar a garota, mas, para sua surpresa, Amanda gostava. Ela disse a Daisy que aquela garota a fazia se sentir viva.
A declaração deixou Daisy perplexa, mas ela entendeu naquela noite, na festa, quando flagrou Florence aninhada nos braços de Amanda, devorando seus seios fartos no banheiro feminino. Elas se separaram quando a viram, mas foi um alívio para Daisy, que depois deu uma bronca em Amanda por não ter contado nada.
Elas percorreram um longo caminho, da faculdade até a mudança definitiva para os EUA. Amanda chegou a se apaixonar por um homem da área e se casou. Pelo menos, foi o que ela disse a Daisy. Ele morreu sem saber que a esposa era lésbica.
Agora, após Daisy se aposentar da carreira de modelo, da qual Amanda era sua empresária, ambas comandam suas próprias marcas e cuidam de seus filhos, enquanto Amanda pula de uma mulher para outra, sendo seu "alvo" atual essa mulher cujo casamento elas iam prestigiar.
O carro entrou no estacionamento, as duas se olharam e sorriram. Daisy disse, como se fosse uma profecia: "Vamos invadir um casamento, irmã." Amanda, como a parceira leal que era, assentiu uma vez e desceu do carro.
Vários carros estacionados na frente da igreja mostravam que elas estavam atrasadas e precisavam correr para a única entrada.
"Todo mundo vai nos ver entrando, Daisy!" lamentou Amanda. "Foi por isso que eu pedi para você se apressar, mas..."
"Shiii, menos conversa e mais coragem. Quanto mais notadas, melhor. Viu só por que é bom ser gata? Agora vão nos admirar em vez de reclamar." Sem se abalar, Daisy abriu a porta da igreja de uma vez, e um alvoroço tomou conta do ambiente.
Elas pararam na porta e seus olhos voaram, preocupados, para o altar, onde o pastor as observava. Ele então disse: "Alguma de vocês tem algo a dizer que impeça este casamento de seguir em frente?" Ele as encarou.
Foi então que perceberam que tinham entrado justamente no momento em que o pastor perguntava se alguém tinha algo contra a união. Mas esse não era o problema; o problema é que, de pé no altar, segurando a mão da noiva morena, não estava outro senão o ex-marido de Daisy, Ethan. Quando ela olhou para Amanda, pelo pânico nos olhos da amiga, Daisy percebeu que ela também o tinha reconhecido, e ambas soltaram um grito.
"Ethan?!"
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