Sexo Sagrado

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Dizem que o sexo não é sagrado. Hã. Estão todos errados. Afinal, por que as pessoas confundiriam tanto o sexo com o amor, e por tantos anos? O amor em si não é uma das definições para Deus? Idiotas. O maior clichê de todos os tempos e ninguém quer ouvir. Por exemplo: estou aqui na cama com esta morena gata, e é só ouvi-la enquanto fazemos sexo: – Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Jesus Cristo! Ahhhh! Meu Deus! Como isso não seria sagrado?! Eles devem ser surdos.

Status
Completo
Capítulos
13
Classificação
3.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

CAPÍTULO 1

Dizem que o sexo não é sagrado.

Humpf.

Estão todos errados.

Afinal, por que as pessoas confundiriam tanto o sexo com o amor, e por tantos anos?

O amor não é, ele mesmo, uma das definições de Deus?

Idiotas.

O maior clichê de todos os tempos e ninguém dá ouvidos.

Por exemplo: estou aqui na cama com essa morena gostosa, e é só escutar o que ela diz enquanto fazemos sexo:

– Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Jesus Cristo! Ahhhh! Meu Deus!

Como isso não seria sagrado?!

Eles devem ser surdos.

Essa mesma morena acabou de virar uma santa.

A cama parece estar se desparafusando. Nhec. Nhec. Nhec.

– Ai, Mãe!

Isso vai para a mãe de Deus. Como um apelido para "Nossa Senhora". É como se ela tivesse ido à confissão e o padre tivesse mandado ela dizer todos os nomes sagrados que conhecesse para ser perdoada.

Quanto a esses nomes errados, depois de um tempo parei de me importar com eles na cama.

Você se acostuma com essa orgia sodomita de nomes.

Algumas pessoas sonham em ter vários parceiros ao mesmo tempo.

Pelo menos elas os convidam, e bem alto.

– Ai, Jesus!!!

E depois dizem que ele não teve mulher nenhuma...

Todas elas clamam pelo Seu nome sagrado.

O chão de madeira está começando a ser arranhado pelo pé da cama. Crieck. Crieck. Crieck.

Quem dera minha mãe tivesse me batizado de Jesus.

Esse problema de chamar o nome errado seria resolvido em 90% das vezes: na cama, no chão, na cozinha, na sala, no carro, naquele banheiro de boate... e 100% das vezes nas igrejas também. Se você tirar as mulheres que não são de falar, menos de 10% sentiriam falta do seu nome.

Eu fico quieto.

Meus olhos estão abertos.

Mas consigo ver as íris da morena revirando sob as pálpebras, nos seus olhos semicerrados.

Você deve estar se perguntando: "Por que 'morena'?".

Ao que eu respondo: "Cuida da porra da sua vida!".

A verdade é que eu não sei que porra de nome ela tem.

Melhor não dizer nada do que gritar: "Meu Deus! Jesus! Ah, Cristo!".

Então, nada de nomes.

Amor anônimo.

Afinal, se os dois dizem o mesmo nome um para o outro... isso me faz pensar.

Sexo com você mesmo não é masturbação? Droga.

E nenhum desses nomes é o nosso.

Nem Jesus.

Nem Cristo.

Nem Deus.

Nem Maria.

Nem Mãe.

Nem o seu.

Nem o meu.

Faz algumas centenas de anos que não vemos essas pessoas. Algumas, até milênios. E aqui estamos nós, gritando seus nomes aos céus!

E nem me fale de visões em nuvens, borra de café ou na porra da fumaça do World Trade Center.

Meu suor está pingando. Ploc. Ploc. Ploc.

É aquele tipo de sexo com o qual você concorda apenas trocando olhares em uma festa.

E dizem que amor à primeira vista é uma maravilha.

Tolos... Não sabem o que dizem.

Sexo à primeira vista... Isso sim é bom!

Quando ela para de invocar os céus, chegam os gemidos infernais. Para quem não disse nada enquanto transava, aquilo é um grande exercício de vogais que nunca usamos no dia a dia.

– Uhm! I-um... Oah... mmmmmm.

Às vezes parece que me inscrevi numa aula de ioga de merda.

– Ah-ah-Ah-ah-Ah-ah-Ah-ah. – Ela baixa e aumenta o volume como se cantasse no meio de um rali Paris-Dakar; como se cantasse enquanto recebia uma massagem tailandesa de um imigrante coreano ilegal; como se cantasse na última viagem de um motorista de ônibus na porra de São Paulo.

Uma vogal para a vida. Outra vogal para a morte.

Outras sílabas e vogais sem sentido fonético.

E, repito, dizem que o sexo não é sagrado.

Mas ela já está falando em línguas!

Puta que pariu! Eles estão MUITO errados!

Bem, veja só. As pessoas começaram a falar em línguas exatamente quando Deus destruiu o grande falo com o qual queriam alcançar os céus.

Alcançar os céus com um pau de pedra gigante.

Lá vai ela de novo, como se cantasse no meio de um ataque cardíaco.

Viu só.

Sexo é santo.

Mas a bunda de Deus não é comum, e a de tanta gente também não é para ser violada sem permissão.

Fica a dica: não brinque com a bunda de Deus.

Isso só pode acabar mal.

Se você já leu essa merda sobre vampiros, deveria saber. Você tem que ter permissão para entrar na casa das pessoas.

Essa é a única lição que você aprenderá com essas histórias terríveis: educação.

E após um breve silêncio: "Você discorda? Quem se importa, porra?! Você comprou esse livro do caralho! Então você vai ouvir a minha merda! Essa é a minha porra de história! Senta a bunda e continua lendo em silêncio".

Mas quem pode culpar esses pecadores (você, os como você e os de Babel)? Afinal, depois do dilúvio, eles certamente gostariam de encontrar um refúgio da chuva de destruição divina, a santa máquina de lavar, a bacia sagrada de roupas sujas e manchadas, que lavaria toda a roupa suja da história com sangue, afogamento e sufocamento.

Ela me pede para não usar tanto o meu pau, para focar no chakra do plexo solar.

"Jesus Cristo", penso comigo mesmo. "Parece que tenho três cus para aguentar essa merda nos meus ouvidos agora!".

Ela quer a trindade até nisso.

Eu mando a morena calar a boca com um movimento de 180 graus.

Ela está de quatro.

Fico imaginando o que J.C. faria se estivesse no meu lugar.

E você vem argumentar que... Ah. Espere um segundo.

– Ah... gozei.

Sim. Essas deveriam ser as primeiras e as últimas palavras de todo homem dentro e fora da cama.

Poderia estar escrito na lápide dele: "Pior pai, pior filho e pior marido ainda, mas... ele gozou".

Olha a trindade aparecendo de novo.

Ser marido é o Espírito Santo.

Pronto. Joguem a terra.

Ele morreu bem.

Ele completou sua missão.

Sexo é sagrado, de fato.

Eu me retiro da morena e encaro o teto enquanto ela me abraça. O calor ainda contamina minha pele de dentro para fora. Impulsos elétricos explodem em pequenas convulsões ritmadas da nuca até a ponta de cada membro. Com os braços ainda em volta de mim, a morena coloca a mão no meu peito e beija meu ombro.

Por que tanta intimidade depois de uma simples trepada? Abraço?! Beijo?! As mulheres loucas que eu encontro...

A tristeza pós-sexo ataca, o vale de cada crista é alcançado, a gravidade volta ao normal, e um cigarro é tudo o que eu queria. O calor, a fumaça, os dedos cheios de algo tão importante quanto um crucifixo. Um totem, um poder, um refúgio. Os hormônios parecem morrer lentamente, perder o efeito, transmigrar do mundo onírico do sexo despertado, do sul para o norte, e de repente tudo é...

Preto e branco.

Pela janela vejo uma igreja com uma cruz acima dela. Olho para meu corpo todo molhado de sêmen e da morena e...

Faço o sinal da cruz.