É Terrível Não Ter Nada Pelo Que Esperar

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Resumo

Um homem desesperançado escreve, em um diário, sobre suas frustrações em seus últimos dias de vida.

Status
Completo
Capítulos
12
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

26 de junho de 2033

Aconteceu hoje o que temia, mas que era inevitável: fui demitido da Sinclair Co. Não houve hostilidades, a não ser o rosto sem expressão que denota “você não é bem vindo aqui” típico de qualquer executivo quando interage com outra pessoa que não seja seu superior. Se meus pais ainda estivessem vivos teriam me repreendido por não ter mantido uma posição mais firme e trabalhado mais e ainda estariam me chicoteando para ir atrás de outro lugar pra trabalhar e constantemente falando como é “fácil” porque sou um analista de sistemas e isso supostamente me garante boas condições de vida.


Mas não.


A verdade é que eu não quero mais trabalhar. Aliás, faz meses que me sinto assim. Não é que eu não goste do que faço, mas a verdade é que não faz sentido eu continuar com essa vida. Que importa se ganho 86 mil dólares ao ano? Quero deixar algo bem claro: eu não sou feliz e nunca vou ser feliz.


Acontece que eu tive uma epifania há quase um ano. Eu estava sentado à escrivaninha em que trabalhava na Sinclair, morrendo de tédio e navegando por algumas redes sociais. Eu estava atolado até o pescoço de trabalho, mas não podia fazer nada pois dependia de alguns dados vitais sobre a performance dos novos motores, que a empresa estava desenvolvendo, nos testes (dane-se o modelo e dane-se a Sinclair) e Ben, que ia apurar tudo isso, já estava adiando aquilo pela terceira vez. Aquilo me deixava nervoso, mas não havia nada que eu pudesse fazer.


Foi então que eu reparei uma coisa naquelas redes sociais: todo mundo era igual. Nada de novo nisso. Você já deve ter visto algum documentário ou artigo que fale de como as elas acarretam isso nas pessoas. Mas o que me chocou é como ninguém parecia ter personalidade própria, sempre reverberam as mesmas opiniões. É meio complicado de demonstrar isso, mas se você olhar bem vai perceber que as pessoas seguem certa linha de pensamento não porque necessariamente concordam com isso, mas porque é a opinião popular. Porque tem medo de ter que defender uma ponto de vista, ainda que perfeitamente correto, sozinhos contra a grande hive-mind da sociedade .E não é só isso, até em aparência essas pessoas parecem iguais.

Mulheres de silicone e pó.


Homens fracos e ambiciosos.

Jovens de cabelos multicolores e roupas heterodoxas.

Todas essas pessoas se esforçando e gastando dinheiro para chamarem atenção e se sentirem especiais na sociedade.


Mas todas tão iguais.


É a grande ironia de nossa era. Na tentativa de parecer um individuo único e especial todos acabam convergindo para as mesmas modas e parecendo exatamente como o próximo. Não é algo exatamente novo, mas acredito que foi justamente o advento dessas redes sociais que intensificou isso; que possibilitou essa corrida ao fútil. Não quero me gabar, mas eu sinceramente acho que tenho mais individualidade que todas essas pessoas, não acho que sou especial, apenas faço o que gosto porque gosto.


Em seguida, fiquei encarando a rua lá em baixo pela janela à minha direita e fiquei pensando naquilo. Pra onde minha vida estava indo? Eu fazia o que gosto, tinha o emprego dos meus sonhos, mas por que isso importava? Eu só tenho cinco amigos e os cinco são homens, não tenho relacionamento com alguém a anos, meus pais estão mortos e outros familiares nem se lembram de mim no meu aniversário. Estou praticamente sozinho na maior parte do tempo. Pode parecer mórbido, mas naquele dia eu cheguei à conclusão fatal:eu não tenho motivos para viver, não tenho motivos para trabalhar e não tenho motivos para fingir que o contrário é verdadeiro. Pra onde eu iria? Todas essas pessoas são robôs, pessoas que gostem de mim são raras e eu só posso buscar consolo para minha solidão em um mar de falsidade e personalidades rasas. E o pior de tudo é que elas estão destruindo a beleza desse mundo, não diretamente, mas porque suas mentalidades os induzem aisso. Não posso ficar bravo com eles. Não faz sentido ficar bravo com maquinas. Não faz sentido viver por um cadáver.


Depois parei de trabalhar. Não ligava mais. Mesmo quando oportunidades de crescimento apareceram para mim. Saia por ai e tentava encontrar migalhas de alegria. Fazia apenas o mínimo para ganhar dinheiro. Viajei, saboreei pratos que nunca havia provado, sai com meus amigos... Nada resolveu. Apenas vi a beleza desaparecendo deste mundo velho e que talvez Agora estou desempregado.quem vier depois de mim nunca presencie.


Agora estou desempregado.

Não vou fazer nada. Não vou mais trabalhar. Deu para mim. Vou apenas viver do dinheiro que guardei sei lá para o que enquanto ele durar. Meu apartamento é agora minha tumba, meu mausoléu.


Eles que fiquem com esse mundo. E eu fico com minha individualidade.