Chapter 1
Oi! Para começar, eu quero dizer — Não, essa não é aquela história clichê de “ele gosta dela então rouba o diário” ou “ele está tentando chamar a atenção dela”. Não esperem por isso. A simplicidade é algo esperado em histórias como esta, mas não na minha.
OUTRA coisa que eu vou deixar clara: Não esperem uma grande reviravolta no desenvolvimento dos meus personagens logo nos primeiros 10 a 15 capítulos do livro. Há muitos capítulos por um motivo.
Agora, sem mais delongas... Espero que vocês gostem da minha história, amores! 🤍
EU ME LEMBRO da primeira vez que assisti a um filme de romance. Era meloso, mas ainda assim romântico.
Ainda tenho a cena gravada na minha cabeça. A garota estava afogada em lágrimas enquanto o namorado arrumava as malas depois de uma briga feia. Eles continuaram se ignorando por semanas, apenas para voltarem atrás ao perceberem que o amor deles era insubstituível. Lembro-me de perguntar a mim mesma: “Quem se submeteria a tanta dor só para estar com alguém?”.
Na época, eu era apenas uma criança. Mas, meses atrás, recebi meu próprio gostinho do amor. Não foi um desses arrebatadores, do tipo “morreria por você” com o coração batendo forte no peito. Não, foi algo completamente diferente.
A última vez que vi o sorriso falso da minha mãe foi diante do juiz. Aquele dia foi um dos melhores que já vivi. Tudo parecia novo. Ver os braços do meu pai abertos para mim quando o juiz decretou a guarda. Ouvir a objeção da minha mãe. Abraçar Ryland pela primeira vez. Observar pela janela do carro enquanto nos afastávamos do meu inferno.
Eu apreciava todo o esforço que os dois faziam, mas minha mente já tinha chegado a uma conclusão muito antes disso.
Tudo não passava de uma piada.
As frases ridículas que as escolas colavam nas paredes, os padrões que filmes e livros criavam, altos demais até para sonhar. Os sorrisos e risadas temporários, a ideia de que coisas como famílias felizes e relacionamentos existiam.
Tudo uma piada.
Uma piada terrível com a humanidade que outros — assim como eu — não achavam nada engraçada.
Minha família tinha me decepcionado muito antes de qualquer relacionamento. Era tudo um ciclo repetitivo. Eu tentava me convencer de que, depois do ensino fundamental, talvez pudesse me reinventar e mudar a imagem que via no espelho.
Que piada.
Um pensamento ficou martelando na minha cabeça quando avistei a nova escola de ensino médio que eu frequentaria pelo resto do ano letivo. Eu dei uma risadinha. Talvez, perdoar aqueles que me machucaram no passado teria me impedido de vir parar aqui.
“Respire, Kimberly, tudo vai ficar bem”, consolei-me.
Meu cabelo castanho começou a chicotear meu rosto enquanto eu caminhava em direção à entrada. Sem tirar os olhos do concreto, segui em frente até as portas.
Praguejei quando meus óculos caíram do meu rosto. Pelos meus fones de ouvido, pude ouvir algumas risadinhas e cochichos. Senti meus dentes quase rasgarem meu lábio inferior enquanto apressava o passo até a porta. Preciso consertá-los, resmunguei para mim mesma enquanto tentava equilibrar meus livros e ajustar os óculos caindo.
Então, aconteceu. Como se um terremoto tivesse atingido a escola, eu estava de joelhos antes mesmo de perceber.
Todos os objetos que eu carregava me cercavam como um quebra-cabeça que não se encaixava. Uma dor latejante se espalhou por toda a minha parte inferior.
Especialmente na minha bunda.
“Merda”, praguejei baixinho.
Minhas bochechas estavam vermelhas. Os olhares que eu já tinha atraído nos míseros três minutos que estava ali eram impressionantes.
“A pateta nem consegue levantar a cabeça para andar direito”, comentou uma voz feminina.
“Boa, Natasha”, outra garota elogiou o insulto.
Mesmo com meu emocional em frangalhos, consegui olhar para cima a tempo de associar um nome àquela figura.
A aparência da Natasha era bonita, embora fosse inútil sem uma beleza interior. E eu podia notar que isso era algo que faltava nela.
A garota bonita estava parada ali com os braços cruzados sobre o peito. Seu cabelo castanho e liso era cortado de forma reta até o início das costas. Ela tinha os olhos azuis mais brilhantes que já vi. Sua pele impecável e cremosa não chegava perto da minha pele oleosa.
O cabelo delas era alinhado e bem arrumado. Eu nem podia começar a comparar. Eu tinha desistido da minha aparência há um tempo, quando as coisas eram diferentes na minha vida. Já faziam meses, mas eu ainda não tinha conseguido me ajustar direito.
Eu me contentava com meus olhos castanhos sem brilho, meu corpo levemente acima do peso e meu rosto sem graça. Mesmo que isso me incomodasse — como acontecia em alguns dias —, não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.
“Será que ela tropeçou nos próprios pés?”, ouvi o deboche vindo da mesma direção do insulto anterior.
Analisei cuidadosamente o grupo onde a Natasha estava. Todas se encaixavam no perfil de lindas, ricas, esnobes e populares. A única coisa que mudava era a escolha das roupas para aquele dia e a variação da cor dos olhos e do cabelo. As roupas delas pareciam um luxo que eu jamais poderia sonhar em pagar.
Decidi apostar em uma blusa branca e um par de jeans que já estavam desbotando. Lá em Illinois, eu costumava usar um moletom e calça de agasalho. Mas meu pai não aceitaria isso no meu primeiro dia em uma escola nova. A parte de cima até que era formal, mas eu simplesmente não conseguia me desfazer dos meus tênis de confiança.
Pelos fones de ouvido, eu ainda ouvia as risadas cruéis. Segurei meus livros contra o corpo como se pudessem me proteger daquelas provocações.
Eu não tinha nada para sentir falta em Illinois, exceto por uma única coisa. A escola. Eu também não tinha amigos lá, mas ninguém me incomodava ou me insultava se eu fosse para a biblioteca no almoço ou se sentasse sozinha todos os dias. E eu estava mais do que bem com isso.
Olhei para cima e vi um homem bastante alto caminhando em minha direção. Ele estava com o rosto vermelho, parecendo um bebê prestes a fazer uma birra. “Chega! Por que ninguém está ajudando esta jovem em vez de rir como um bando de animais?”
“Você está bem, Kimberly?”, ele perguntou enquanto oferecia um sorriso de confiança.
Devagar, mas com certeza, desviei meu olhar da grama verde. A expressão do homem transmitia desculpas, que aceitei com um pequeno sorriso.
“Eu sou o Sr. Collision, e serei o seu diretor no seu último ano. Peço desculpas pelo comportamento dos meus alunos”, disse ele com uma expressão sincera.
Apenas balancei a cabeça em resposta, minha voz escondida junto com minha confiança. Minha garganta estava seca como o deserto do Saara.
Eventualmente, encontrei a voz com a qual nasci.
“Obrigada”, eu disse.
O exterior da escola estava vazio agora, graças ao diretor. Minha confiança aumentou ao ver os alunos deixando a área. Olhei em volta, ofuscada pela beleza da escola.
Árvores antigas protegiam a escola da luz do sol que castigava o ambiente. A grama estava aparada bem rente. O prédio, nas cores laranja e preto, era enorme e se estendia até onde a vista alcançava, quase encontrando o imenso campo de futebol americano atrás. O lugar era, sem dúvida, muito bem cuidado.
Enquanto meus olhos continuavam a observar os arredores, eles pousaram em alguém específico no estacionamento. Um alguém muito atraente, por sinal.
Analisei-o com atenção.
Seu corpo bronzeado era esculpido em músculos; não muitos, mas o suficiente para fazer alguém pensar duas vezes antes de enfrentá-lo. Seu pescoço era decorado com várias tatuagens, assim como seus braços. Observei enquanto uma brisa de verão soprava seu cabelo preto como azeviche para trás da testa. Ele tinha aquele visual de quem acabou de acordar, que parece funcionar tão bem em homens bonitos. Como se sua aparência já não fosse uma bênção pública suficiente, seu rosto parecia ter sido esculpido, feito sob medida por um deus romano. Suas maçãs do rosto estavam em perfeita harmonia com seu nariz levemente torto. Tudo nele era simplesmente perfeito.
Eu encarei por tempo demais.
Seus olhos encontraram os meus, atraindo-me para o olhar mais profundo da história. Capturei um vislumbre de seus olhos, que eram quase um espresso quente, com pontos de canela no centro. Era como se uma barra de chocolate caramelizado tivesse derretido na cor dos olhos dele, criando um tom específico, feito só para ele.
Senti minhas bochechas pesarem, ruborizando. Voltei minha atenção para meus tênis sujos de terra.
Imediatamente, comecei a me remexer, desconfortável sob seu olhar intenso. Amaldiçoei minha estupidez. Por que tive que olhar para ele por tanto tempo?
Questões de dúvida me pesavam na cabeça. Continuei mordendo meu lábio como se isso fosse fazer ele desviar o olhar.
“Srta. Wrighton?”, a voz do diretor chamou minha atenção.
Olhei para ele com uma expressão confusa. “Oh, s-sim, senhor?”
Alguns de seus dentes faltavam, mas eu não deixei de notar o sorriso gentil que ele ainda fazia. “Existe um verdadeiro país das maravilhas nessa mente sua, Kimberly?”
Pela primeira vez desde que cheguei à cidade, eu sorri. “Sim, senhor.”
Ele apontou para sua sala isolada. “Você deve seguir em frente e ir para suas aulas. Se precisar de ajuda, meu escritório é bem ali”, ele ofereceu.
Agradeci novamente. Com o horário pressionado contra minhas palmas suadas, comecei a correr para minha primeira aula do dia. Antes que eu entrasse totalmente, ouvi o Sr. Collision gritar com tom de desdém: “Tire esse cigarro da boca agora, Kade, e vá para a aula, filho!”
Eu me virei e vi os olhos de Kade concentrados em algo ou alguém. Então, percebi que o algo que ele encarava era eu.
Ok.
Meu coração saltou no peito. Fiquei mexendo mecanicamente no papel nas minhas mãos, rezando para que isso ajudasse a prevenir um ataque de pânico.
Apressei o passo quando outro sinal tocou, o que eu imaginei sinalizar que eu estava atrasada. Para meu azar, não conseguia encontrar minha sala. Depois de uma conversa estranha com um professor, consegui achar a primeira aula.
Entrei na sala da Sra. Lillian com aquele papel frio entre os dedos.
A Sra. Lillian demonstrou desinteresse quando entrei na sala. Graças a Deus ela não me fez me apresentar.
Caminhei pelos corredores, contando cada passo que dava. Continuei me alertando sobre as consequências que aconteceriam se eu conseguisse me envergonhar novamente.
Claro, eu nunca me ouvia.
Quando tentei dar outro passo, não demorou muito para perceber que minha mochila tinha enganchado na quina da mesa. Mentalmente, dei um tapa na própria testa, sentindo o rubor nas bochechas escurecer.
Consegui puxar a alça velha. Como se fosse fácil assim, pensei. Meus livros e diários caíram da bolsa, pesando ainda mais sobre mim.
Ajoelhada, apressei-me a jogar os livros dentro da mochila antes que eu me humilhasse ainda mais.
Entre meus pensamentos de autocritica, pude ouvir as risadas do grupo de garotas atrás de mim. Em sussurros, risadinhas irritantes e olhares de lado, elas continuaram a me provocar.
Sentei-me no fundo, isolada de todos. Imediatamente tirei meus fones de ouvido novamente.
Meu lápis número 2 bem apontado decorava o papel com um desenho que só eu saberia descrever. O pânico que começava a subir por mim se acomodou em um lugar confortável assim que as letras de *May I Have This Dance* começaram a tocar nos meus fones.
Eu estava quase terminando minha versão do Gato de Cheshire quando senti alguém se sentar na cadeira ao meu lado. Pulei de susto, olhando para a pessoa com uma expressão perplexa.
“O que você está desenhando aí?”, perguntou a garota de voz aguda.
Tive uma boa leitura da aparência dela pelo canto do olho. Sua franja loira caía sobre as sobrancelhas claras. Observei suas unhas perfeitamente feitas batucarem contra a mesa à nossa frente. Suas roupas estavam claramente no estilo que estava na moda no momento.
Dei de ombros em resposta. Eu sabia que ela não estava tentando ser amigável; era mais pura ignorância do que qualquer outra coisa.
Voltei a esboçar meu novo desenho enquanto ela continuava a dar olhares rápidos para ele. Minha versão do Gato de Cheshire estava em um galho de árvore abandonado que se estendia a partir do canto da folha.
“Mhm. Passa uma maquiagem e você vai ter uma gêmea”, ela insultou.
Observei enquanto ela se levantava e voltava para seu grupo de amigas risonhas. Reagi apertando meu lápis, meus nós dos dedos ficando brancos e começando a doer enquanto eu a observava.
Mordi meu lábio trêmulo, as palavras dela atingindo meu coração. Uma quantidade considerável de espinhos invisíveis rasgou meu peito enquanto as risadas constantes delas me atingiam como arco e flecha.
Essa era uma das piores dores de todas. Lágrimas silenciosas.
Aquele aperto terrível no fundo da garganta. Aquele cerrar de olhos que você precisava segurar para impedir que as lágrimas caíssem. Isso era o pior.
Conforme a aula prosseguia, as garotas continuavam a me provocar, assim como algumas pessoas ao redor delas. A professora não fez nada, mesmo que tivesse notado.
Só falta um ano.
***
O dia passou em um ritmo agoniantemente lento. Fui chamada por apelidos, olhada de um jeito estranho e alvo de risadas tantas vezes que parei de prestar atenção.
Para os professores que não estavam nem aí para o aprendizado dos alunos, eu apenas colocava meus fones de ouvido e me concentrava nos meus pequenos desenhos.
Justo quando achei que as coisas não poderiam piorar, chegou a hora do almoço.
Os alunos corriam em grandes grupos para o refeitório, enquanto eu ficava para trás. Assim que entrei no local, porém, senti a pressão esmagadora da socialização atingir minha personalidade introvertida.
"É, acho que vou comer lá fora mesmo", sussurrei para mim mesma.
Virei-me e atravessei as portas do refeitório. De olhos baixos, caminhei rápido para sair. Dei um pulo quando senti meu rosto colidir com uma parede.
Afastei-me imediatamente, sentindo alguém pairar sobre mim, tanto em altura quanto em peso.
"Eita", eu disse, atordoada de vergonha.
"Você pode olhar por onde anda?", uma voz grave disse com um tom grosseiro.
Levantei os olhos lentamente, cheia de expectativa.
Kade.
Seus olhos cor de chocolate me encaravam com o que parecia ser irritação. "Sai da frente." Sua expressão era neutra, a definição de ilegível.
Fiquei congelada no lugar. Eu não estava tentando cair de amores por ele, mas havia algo nele que era tão familiar.
"Estou te dando mais uma chance, sai porra da minha frente", ele me avisou.
Saí do transe rapidamente. Eu não estava nem aí para o quão gato ele era. Se a personalidade dele não combinasse com sua beleza, então eu nem faria questão de me associar a ele.
Um sorriso de lado ocupou todo o seu rosto. Ele inclinou a cabeça, seu cabelo preto como a meia-noite acompanhando o movimento. "Tudo bem então, isso só facilita as coisas para mim."
O quê?
Dito isso, ele passou por mim com um sorriso diabólico no rosto. Em um estado de confusão, continuei minha missão de ir para fora. Decidi sentar embaixo de uma árvore vazia.
Enquanto começava a esboçar o chapéu do Chapeleiro Maluco, as palavras de Kade ainda ecoavam no fundo da minha mente.
"Isso só facilita as coisas para mim."
Franzi a testa ao repetir as palavras. Eu não fazia a menor ideia do que ele queria dizer. Também não tinha certeza se queria descobrir. Alguém como ele só me traria problemas, e eu só queria me formar sem nenhuma dor de cabeça.
Abri o zíper da minha mochila, em busca da coisa que guardava minhas inseguranças e meus segredos. Meu diário.
Mesmo faltando apenas um ano para eu ser adulta, aquele diário era tudo para mim. Era um lugar onde eu me sentia segura para expressar meus sentimentos verdadeiros. Onde eu era eu mesma.
Normalmente, eu nunca tentava mostrar meu diário em público, mas às vezes precisava me expressar. E, naquele momento, eu precisava ter um tempo com ele enquanto tinha a chance. Resmunguei quando percebi que teria que cavar mais fundo do que pretendia.
Depois de minutos procurando e remexendo, comecei a ficar preocupada. Tinha algo errado, muito errado.
Virei minha mochila de cabeça para baixo, despejando todo o conteúdo. Nada.
Isso era uma piada. Tinha que ser uma piada.
Senti lágrimas surgirem na garganta ao pensar no meu diário perdido junto com meu passado. Levou anos para eu conseguir colocar meu passado para fora, mesmo que fosse no papel.
Arrumei minhas coisas, tentando me apressar antes que o sinal do almoço tocasse. Corri para todas as salas em que estive hoje, perguntando aos professores se tinham visto um pequeno diário preto. Todos responderam que não, para minha decepção.
Enquanto estava perdida em pensamentos sobre onde ele poderia estar, um sinal alto começou a tocar por toda a escola. Olhei para cima soltando um palavrão de raiva.
Tentei respirar fundo e rezar para encontrá-lo. Ele não poderia ter ido tão longe, já que eu estava na escola há apenas algumas horas.
O resto do dia passou em um borrão, com minha mente vagando constantemente para onde meu diário poderia estar. Eu já sentia meu peito apertado, a ponto de ficar difícil respirar em um ritmo normal.
Finalmente, o último sinal tocou. Empurrei todos pelo caminho, à beira das lágrimas enquanto tentava sair o mais rápido possível. Cada passo que dava era com uma análise minuciosa dos arredores.
Comecei a caminhar pela calçada, a passos lentos. Senti minha raiva se transformar em fúria quando a primeira gota de chuva caiu na minha cabeça.
Claro, hoje era o dia em que eu não tinha trazido um casaco. Achei estranho decidir chover no verão, e em um dos meus piores dias, é claro.
Com a cabeça cheia de frustrações, coloquei meus fones de ouvido para escapar da realidade.
Por entre o som alto da música, um estrondo de trovão sinalizou para que eu apressasse o passo. Suspirei ao sentir que a distância para casa só aumentava.
Dei um grito de susto ao ouvir uma buzina alta atrás de mim. Virei-me bruscamente e vi que o carro vinha na minha direção.
Achei engraçado como, quando as pessoas veem situações perigosas na TV ou leem em livros, sempre dizem o que fariam ou não. Na realidade, quando estamos em perigo, você ou trava ou grita.
Eu fiz os dois.
Com um grito, meu corpo ficou paralisado. No último minuto, o carro esportivo diminuiu a velocidade até parar completamente.
Fiquei igual a um cervo diante dos faróis. Como os vidros eram escuros, não consegui identificar quem estava dirigindo.
O motorista baixou o vidro. Fiquei pasma ao ver que era Kade. "Entra."
"Você quase me atropelou!", gritei para ele.
"Bem...", ele pausou, seus lábios curvados em um sorriso preguiçoso. "Não ande com fones de ouvido e isso não aconteceria, não é mesmo, querida?" Eu queria esbofetear aquela arrogância da cara dele.
Minha boca estava aberta, mas eu a fechei. Ele nem valia meu tempo. Coloquei o fone de volta no ouvido. Eu não ia pegar carona com um estranho, ainda mais um que parecia me odiar. Preferia pegar uma gripe a entrar naquele carro.
Um trovão estrondoso cortou o ar, me alertando da minha teimosia. Outra onda de chuva caiu do céu, encharcando meu cabelo que já estava molhado.
"Talvez uma carona não mate ninguém", convenci a mim mesma.
Assim que sentei, senti uma onda de calor bater no meu rosto. Aproveitando o calor, inclinei-me na direção da fonte.
Eu podia sentir os olhos dele me avaliando enquanto eu esfregava minhas mãos frias. "Sabe, nunca te vi por aqui antes", ele puxou conversa.
Senti uma sobrancelha erguer-se para ele. "Porque eu nunca estive aqui antes."
"É, deu para perceber pelo jeito que você agiu na escola", ele tocou no assunto da escola, algo sobre o qual eu não queria falar.
"Tá", respondi com um tom baixo.
Com uma mão no volante, ele virou a cabeça para mim por um momento. "Não é muito de falar, né?"
"O silêncio pode significar muito entre duas pessoas", afirmei, com os olhos fixos na janela molhada. "Além disso, eu sou observadora."
"Justo."
Sem dizer mais nada, recostei-me no banco. Fiquei em silêncio pelo resto do trajeto, contando cada placa que via através da janela embaçada pela chuva. Até agora, dezoito.
"Qual é o seu nome?", ele quebrou o silêncio.
"Kimberly", respondi em um sussurro.
"Ah, então Kimberly", eu não gostei do som do meu nome na boca dele. "Você não deveria ser tão má comigo, querida." Lancei um olhar confuso para ele.
Reuni coragem suficiente para roubar outro olhar para ele. "Por que isso?"
Ele girou o volante com uma mão e segurou com a outra enquanto encostava o carro no acostamento.
Quando ele se esticou para o meu lado, sua mão roçou meu joelho. Abafei um suspiro de surpresa, minhas costas coladas dolorosamente ao banco do carro.
Kade olhou para cima com um sorriso torto. "Relaxa, querida."
Ele estendeu a mão para o porta-luvas e tirou um livrinho. Um livro preto.
Meu diário.
"Então, sabe, eu encontrei essa belezinha esta manhã quando alguém estava sendo um pouco desastrada demais", sua risada era grave, mas não senti humor nenhum.
Meu coração disparou de um jeito que meu cérebro nem conseguiu acompanhar. A história da minha vida, meus medos, meus sucessos, meus fracassos, tudo estava lá. E esse babaca arrogante e cruel estava com ele.
Eu estava sonhando.
Meus olhos não saíram do diário. "Kade, isso não é uma brincadeira", avisei bem devagar.
Kade olhou em volta no carro, para o banco de trás. "Você ouve alguma risada? Eu não."
"Devolve para mim", avisei, embora ambos soubéssemos que minha ameaça não representava perigo algum para ele.
Ele fez um biquinho, com o lábio inferior projetado para fora. "Não, acho que vou ficar com ele por um tempo."
A barreira que escondia minhas lágrimas ameaçava cair a qualquer segundo. As diferentes possibilidades do que ele faria me sufocavam de medo.
Tentei pegá-lo, mas não havia esperança. "Vou chamar a polícia."
Seus olhos brilharam com malícia. "Por causa de um diário?"
Fingi arrogância. "É minha propriedade, você vai ter que devolver."
Seus olhos castanhos destruíram minha fachada peça por peça. "Querida, minha mãe controla esta cidade inteira", ele riu, balançando o diário na minha frente. "Mas é fofo que você ache que alguém tentaria me parar."
Não disse nada. Meu corpo tremia de choque, mas eu não conseguia pensar em mais nenhuma ameaça. Ele estava no comando, por enquanto.
"Agora, vamos falar de acordos", sugeriu ele com um sorriso tão grande que até o gato de Cheshire sentiria inveja.
Decidi ficar em silêncio, com os olhos fixos nos meus punhos cerrados. Esperei ele continuar falando.
"Você faz o que eu digo e eu considero devolver essa porra para você."
"Mas, se você decidir ser uma espertinha como hoje e não fazer o que eu digo, então vamos apenas dizer que você não vai aproveitar seu tempo aqui, querida", sua ameaça foi clara e direta. "Seria uma pena se você passasse o último ano assim."
"Eu não vou fazer sexo com você nem com nenhum dos seus amigos, Kade", esclareci.
Kade bufou, seus dedos acariciando a capa do meu diário. "Sinto muito estragar seus planos, mas eu não dormiria com alguém que parece ou age como você nem em um milhão de anos", ele insultou, rindo em seguida.
Suas palavras atingiram meu coração. Só se misturaram com os outros insultos que eu tinha aguentado hoje. Eu sabia que não era atraente, mas ouvir isso de alguém ainda doía. Tentei dizer a mim mesma o contrário.
"Então, temos um acordo?"
Pesei cada uma das minhas opções com cuidado. E, na verdade, não havia outro jeito. Meu peito pesava de estresse ao imaginar cada uma das minhas anotações nas mãos de Kade.
"Ok", minha voz falhou no final da resposta.
Virei a cabeça bruscamente para o lado. Funguei de frustração enquanto olhava fixamente pela janela.
O que eu fiz para merecer isso?
Nada. Se foi porque eu não saí do meu lugar hoje, então ele era uma criança. Quem iria tão longe a ponto de expor a vida pessoal de alguém? Tinha que ser outra coisa, mas eu não me importava agora. Só me importava tê-lo de volta em minhas mãos e longe das dele.
Meu coração batia forte no peito ao pensar em todas as coisas no meu diário. Todos os segredos. Durante toda a minha vida, nunca tive com quem conversar, então escrever no diário era minha válvula de escape. Eu tinha permissão para ser eu mesma, sem desculpas. Agora, isso tinha acabado.
Dei as instruções para minha casa da maneira mais rápida possível. Tudo o que eu queria era chegar em casa e me concentrar no dever de casa ou em um livro novo. Era a única coisa que eu podia fazer agora.
Assim que ele colocou o carro em ponto morto, abri a porta. "Até logo, querida." Ele piscou para mim, antes que eu pulasse do carro dele tão rápido que quase caí.
Fechei a porta sem dizer mais uma palavra. A chuva fria picava minha pele como agulhas. Mas eu não esperava sentir. Eu estava entorpecida no momento, pela exaustão, pelo medo, por tudo.
Não tinha ninguém em casa, o que eu já suspeitava. Meu irmão, Ryland, estava trabalhando ou em suas aulas da faculdade. E meu pai deveria estar no trabalho.
As manhãs eram o principal momento em que eu conseguia vê-los. Mesmo lá em Illinois, conseguíamos tomar café da manhã juntos quase todas as manhãs, se não todas.
Fui para o meu quarto, largando minha mochila molhada no tapete vermelho-vinho. Imediatamente, peguei meu livro.
Mas, mesmo lendo, minha mente não conseguia esquecer o dia de hoje. Ou como deixei cair a mochila por engano. Ou como estraguei o resto do meu último ano do ensino médio. Ou como um estranho tem meu diário.
Meu erro.
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Oi pessoal! Esta é minha nova história e espero muito que vocês tenham gostado! O livro já está completo e publicado no Wattpad também! Vou publicar por aqui também! Vejo vocês no próximo capítulo 🤍