Monstros Entre Nós by Mary at Inkitt
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Monstros Entre Nós

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Summary

Monstros existem? Quando crianças, provavelmente já fizemos essa pergunta aos nossos pais ou a outra pessoa. Sentíamos medo quando escutavamos histórias de terror sobre lendas urbanas locais e outros tipos de histórias fantasiosas que nos faziam perder o sono. Mas monstros realmente existem. E não, não são monstros fantasiosos. Eles parecem exatamente como eu e você e convivem entre nós. Acompanhe nesse suspense leve situações recheadas de tensão e que fará você se identificar com os personagens.

Genre
Thriller
Author
Mary
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

Capítulo 1: Não Totalmente Sozinho

QUAL O seu maior medo? Todos nós temos medo de alguma coisa, as vezes exageradamente, que é o caso das fobias. Medo de altura, medo de aranhas, medo de agulhas. Tais medos são comuns e causam uma certa medida de ansiedade, mas é algo que podemos controlar e evitar. Contudo, existe algo muito mais sombrio no mundo na qual todos nós possuímos o mesmo medo em comum e é algo que não está sob nosso controle… o medo do ser humano.

SIM, seres humanos são bizarros.

APESAR de sermos complexos, principalmente nossa mente, não podemos nos entender completamente, por isso humanos são imprevisíveis e infelizmente, perigosos. Com o passar dos anos e décadas, a raça humana tem se tornado os verdadeiros monstros da sociedade, cometendo atos repugnantes e hediondos que às vezes nos leva a questionar onde iremos parar. Só um ser divino tem a verdadeira resposta e entende cada um de nós como nenhum outro.

NOSSA verdadeira opção é somente sobreviver entre esses monstros que andam em meio a nós e que até em algumas situações, convivem conosco. Alguns estão em nosso ambiente de trabalho, escola, vizinhança e até mesmo dentro da própria família. Alguns deles têm a mente mais maligna do que outros e não possuem escrúpulos para fazer o que fazem.

PODEMOS nos deparar com esse tipo de pessoas em qualquer lugar, em situações que sequer esperávamos e que não procuramos estar, mas a realidade é essa: há monstros entre nós e o perigo existe até onde se menos espera.


Illinois, Chicago

Segunda-feira, 31 de março

18:00 P.M

COREY MILLER está no tédio com tanto dever de casa e trabalho escolares. O garoto exala um suspiro na qual revela seu humor atual. Ele passa uma mão por seu cabelo castanho, resolvendo dar uma pausa nessas atividades. Antes que ele possa se levantar da cadeira, o som familiar de notificação de mensagem chega em seu celular, que está em cima da escrivaninha, e o mesmo pega para conferir, vendo que é uma mensagem de sua mãe, Sarah Miller.

“Tenha cuidado aí em casa sozinho. Tranque todas as portas e não atenda desconhecidos.”

enviada às 18:01 P.M

SIM, COREY está sozinho em casa nesse final de semana. Por que? Seus pais precisaram viajar por questões de trabalho e, há uns dias atrás quando o casal informou isso ao filho, houve até mesmo o que Corey considerou, desnecessária discussão sobre se ele deveria ficar em casa sozinho ou não. É verdade, muitos pais não gostam que os filhos fiquem sozinhos em casa porque temem pela segurança deles, mas ainda assim… Corey argumentou que já tinha 14 anos e que sabe se virar sozinho muito bem. No fim, seus pais cederam aos seus argumentos e confiam no garoto para que ele se comporte e fique bem sozinho. Apesar da preocupação, eles sabem que o adolescente é bem comportado, educado e não se envolve em problemas. Portanto, eles creem que Corey será responsável.

ELE responde a mensagem de sua mãe com um simples “okay” e coloca o celular no bolso, levantando-se da cadeira em seguida. Os pés de Corey tocam o carpete suave de seu quarto enquanto ele anda em passos calmos em direção á porta. Abrindo e se retirando do cômodo, a luz amarelada gentil da lâmpada do segundo andar ilumina aquele espaço, se misturando com a luz dourada do pôr-do-sol lá fora, na qual vai desaparecendo pouco a pouco. Corey está prestes a seguir até a escada para descer ao primeiro andar, mas interrompe abruptamente seus passos quando algo chama sua atenção lá fora. O adolescente vira seu rosto na direção de uma das janelas do segundo andar e se aproxima, seu corpo magro encostando em uma mesa estreita e decorativa cujo tem um pequeno vaso com uma planta e um livro de capa escura. Corey afasta a cortina um pouco para o lado, a visão da vizinhança naquele bairro suburbano e nobre o faz se lembrar de alguns vizinhos inconvenientes. Todavia, o que chamou mesmo a atenção dele foi uma figura desconhecida lá fora, no terreno de sua família. A cor alaranjada do céu na qual já está sendo ofuscada pela luz escura da noite impedem Corey de identificar quem é aquela pessoa.

O DESCONHECIDO usa um moletom de frio, de cor preta, calças também escuras e um boné, o que justamente bloqueia qualquer visão que possa ter de sua fisionomia. Corey permanece o observando com atenção por meio da janela. O homem somente move lentamente sua cabeça para ambos os lados, como se estivesse procurando alguma coisa e após alguns segundos, se retira daquela área externa da garagem, indo para a casa vizinha… bizarro, para dizer o mínimo. A atenção de Corey é desviada quando um som familiar ressoa em seu estômago. Um ronco. A fome veio na hora certa. Afastando-se da janela, o garoto retoma seus passos para a escada, descendo até o primeiro andar da espaçosa casa. Mas antes que Corey possa continuar até a cozinha, ele recebe uma mensagem. O som abafado da notificação do seu celular alcança seus ouvidos. Ele tira o aparelho de seu bolso e verifica, vendo que é uma mensagem de seu amigo, Aiden Smith.

“Vou falar com meus pais e depois te dou uma confirmação.”

enviada às 18:08 P.M

É MESMO. Corey quase esqueceu que havia convidado Aiden para vir á sua casa e assim ambos passariam um tempo juntos jogando videogame e esqueceriam do resto do mundo. Ele pediu permissão aos seus pais mais cedo e os mesmos também não viram nenhum problema nisso, contanto que os dois garotos não fizessem barulhos altos demais ao ponto de incomodar os vizinhos. Corey começa a digitar para responder o amigo, mas interrompe o movimento rápido de seus dedos quando podia jurar que por meio de sua visão periférica, ele viu algo preto na janela, que passou bem rápido, um vulto. O adolescente foca seus olhos castanhos claros na janela ali do primeiro andar ao lado da porta da frente, onde tem certeza que viu tal figura. Corey faz uma leve carranca no rosto e ergue uma sobrancelha, uma sensação de desconforto o domina por um momento. A quietude de sua casa e o fato de estar em solitude só reforça a sua imaginação correr solta, o levando a crer que está sendo observado. Ele sente seu coração acelerar, tal sensação só aumentando. Segurando seu celular na mão, Corey anda até a porta da frente, a abrindo e seus pés o levam para a varanda externa, que é decorada por alguns vasos maiores de flores nas duas pontas laterais e há um banco para duas pessoas sentarem.

ELE SENTE imediatamente o vento frio bater gentilmente em seu rosto, bagunçando um pouco seu cabelo castanho e olha para o lado, tendo a certeza de que viu o tal vulto na janela direita. O silêncio na vizinhança não ajuda, deixando tudo ainda mais desconfortável. A ascensão da noite deixa tudo ainda mais imprevisível e há poucos postes iluminando as calçadas. Corey olha ao redor, tentando buscar respostas para o que viu. Será que aquela figura correu para o quintal lá de trás? O garoto engole em seco e lentamente anda até os poucos degraus da escadinha da varanda, descendo e a cada passo, a madeira range levemente. Os passos de Corey estão cautelosos, lentos. O coração dele bate rápido no peito e um nervosismo o domina sem ele saber o porquê exatamente. Ele está sentindo medo? As emoções são mistas conforme ele se aproxima da área externa da garagem, onde há uma passagem ao lado que oferece acesso para o jardim lá de trás. A cada passo o nervosismo só aumenta e o único som é o de seus pés pisando na grama do terreno. Corey pode até ouvir seus batimentos cardíacos alcançarem seus ouvidos, o ar da noite o envolvendo até que ele quase está prestes a dobrar para a passagem do quintal…

UM LATIDO. Um latido tira Corey de seu transe e o assusta, fazendo com que o mesmo até dê um pequeno pulo. O adolescente olha para o lado, vendo que é um homem lá na calçada da rua passeando com seu cachorro, na qual por algum motivo, late em direção á casa de Corey. Ele solta um longo suspiro, percebendo que estava segurando sua respiração por um momento e passa uma mão por seu cabelo castanho, acalmando-se. Tinha mesmo alguém ali na janela? Ou foi só sua imaginação? Será que ficar sozinho em casa esteja o deixando com medo? Medo? Não. Corey se recusa a sentir medo por uma bobagem dessas, não há razão para isso. Contudo, tal sensação de estar sendo observado ainda não desapareceu de seu ser. Ele decide ignorar isso e novamente ouve seu estômago roncar.

— É a fome — Ele conclui para si mesmo, achando qualquer explicação que cubra tudo isso que está sentindo e o que acabou de acontecer. Corey volta para dentro de casa, trancando a porta e vai para a cozinha, esquecendo até mesmo de responder Aiden. Seus olhos identificam um jornal em cima do balcão na qual seus pais pegaram cedo de manhã, é algo que não interessa o jovem, mas pelo olhar rápido que deu, só viu algo sobre um terapeuta famoso chamado Chase Carter.

DEIXANDO seu celular em cima do balcão, Corey se aproxima da geladeira, a abrindo e aquele ar gelado imediatamente acaricia seu rosto comprido. Ele verifica por algo que possa forrar seu estômago até mais tarde, quando for horário do jantar e acha algo. Um cachorro-quente de ontem que seu pai não quis comer. Com um sorriso contente em seus lábios finos, Corey pega o prato com o cachorro-quente e leva até o micro-ondas, pondo para esquentar por 30 segundos. O garoto aguarda pacientemente, se encostando em uma das bancadas, até que seus ouvidos identificam outro som.

ALGO NO quintal lá de trás caiu, um som meio metálico. Corey olha na direção e por algum motivo, seu coração acelera de novo. Deixando a cozinha, o adolescente se movimenta até a porta que dá acesso para o quintal e abre, pisando para lá. Corey olha ao redor, vendo as plantas em seu devido lugar, algumas ferramentas de jardinagem também no mesmo lugar. Mas então, ele nota que o balde grande de lixo está caído no chão. Estranho, mas Corey conclui que foi o vento. O adolescente se aproxima, levantando o balde novamente e o tampando. Antes de entrar, ele olha novamente ao redor, a sensação estranha crescendo dentro dele.

— Por que essa noite tá tão esquisita? — Corey se pergunta. Justo no dia em que ele fica sozinho em casa pela primeira vez, coisas estranhas assim acontecem. A vida definitivamente sabe brincar.

OS pensamentos dele são interrompidos quando o som de apito do micro-ondas ressoa lá na cozinha, indicando que o cachorro-quente está esquentado. Corey se anima, a sensação estranha o abandonando e sendo substituída pelo entusiasmo em comer. O garoto entra em casa novamente e tranca aquela porta para o quintal. Voltando para a cozinha, Corey abre o micro-ondas, tirando o prato quente com seu lanche lá de dentro, o vidro do prato esquenta sua mão mas nada que ele não aguente. A fome está falando mais alto. Ele pega na geladeira um suco, que tem quase certeza que é de limão e põe em um copo. Com seu lanche pronto, Corey vai para a sala de estar, onde coloca seu prato e o copo em cima da mesinha ali e senta no sofá, ligando a televisão para comer enquanto assiste.

ANTES QUE ele possa acessar alguma plataforma para assistir a um filme ou série, o mesmo se depara com uma notícia do jornal de Chicago.

— O criminoso Adam Nelson, acusado de mais de 10 assassinatos e invasão domiciliar, escapou da prisão há duas noites atrás…

A REPORTAGEM mostra a foto do criminoso. Adam tem um rosto mais maduro, parecendo estar na faixa dos 34 anos. Ele tem a pele mais amarelada, seu rosto possui algumas rugas, principalmente na região dos olhos, que são escuros. Os lábios do homem são finos e o nariz dele é um pouco comprido. O cabelo dele é castanho escuro.

— As autoridades continuam a procura do criminoso e até o capturarem, a polícia de Illinois pede para que todos tranquem suas portas e…

COREY interrompe a notícia, não dando tanta importância e acessa a plataforma para começar a assistir. Enquanto come, o garoto não ouve quando seu celular, lá em cima do balcão da cozinha, apita um som de notificação de mensagem.

▪︎

19:10 P.M

COREY continua assistindo ali na sala estar, nem tendo visto o tempo passar e completamente distraído. Ele ri levemente de algumas cenas do seriado que está assistindo, aproveitando um bom tempo ali. Ele nunca achou que ficar sozinho fosse tão bom. O silêncio na casa, somente com sua movimentação o deixa bastante em paz e a ausência dos seus pais o permite ter um pouco de sossego.

— Eles podiam viajar assim mais vezes — O garoto pensa para si mesmo enquanto há um sorriso de satisfação em seus lábios.

TODAVIA, A paz que Corey está sentindo é quebrada quando o som da campainha é tocada e isso faz o adolescente se arrepiar um pouco por alguma razão. Quem poderia ser? Que ele lembre, seus pais avisaram que ninguém viria aqui. Até que ele lembra. Pode ser seu amigo, Aiden.

LEVANTANDO do sofá, Corey vai até a porta da frente e antes de abrir, resolve questionar.

— Quem é? — O garoto indaga, aguardando a resposta do lado de fora.

— Sua pizza tamanho médio, senhor — A pessoa, supostamente entregador, responde. Corey faz uma leve carranca. Pizza? Ele não fez nenhum pedido.

— Eu não pedi pizza, deve ser engano — Corey retruca, sentindo novamente um arrepio.

— Mas o endereço é este, senhor. Foi pedida uma pizza para cá — O homem insiste e Corey sente seu coração dá uma batida rápida.

O adolescente não fala mais nada, pensando que tipo de engano é esse. Seu pensamento é cortado quando o suposto entregador lá fora se pronuncia novamente.

— Está é a Boulleivard Roadway, 12. Correto? — Ele indaga. É, realmente o endereço e número da casa estão corretos.

— Sim, isso mesmo — Corey confirma.

— Foi pedida em nome de… — Ele demora um pouco para revelar, provavelmente conferindo quem pediu.

— Joey Miller — O entregador revela o nome e nesse momento, Corey solta um suspiro que não tinha ideia de que estava segurando, sentindo um profundo alívio.

SEU PAI pediu a pizza e isso traz certo conforto para o garoto. Ele abre a porta, deparando-se com o entregador cara a cara. É um homem de altura mediana, usando o uniforme vermelho e amarelo, juntamente com um boné das mesmas cores em sua cabeça e a enorme bolsa de entregas em suas costas. O rosto dele é fino, o queixo meio quadrado e relativamente é um homem jovem. Ele entrega a caixa de pizza para Corey.

— Obrigado — O garoto agradece e percebe que o entregador está encarando.

— Você está sozinho em casa? — O homem pergunta. Tá, definitivamente é uma pergunta estranha.

— Por que? — Corey refuta, arqueando levemente uma sobrancelha.

— Por nada. Não sei se você viu nas notícias mas aquele fugitivo, o Adam Nelson, está por aí. Acho que ficar sozinho em casa não é uma boa opção.

AS MÃOS de Corey apertam levemente a caixa de pizza que está segurando, um nervosismo bateu com as palavras desse entregador. Ele está insinuando que o tal do Adam Nelson virá invadir a casa?

— Acho difícil. Esse cara está mais pela região urbana de Illinois. Aqui é um bairro tranquilo e nunca aconteceu nada — Corey argumenta, tentando parecer tranquilo mas a breve pausa em suas palavras traem suas verdadeiras emoções, é nítido que ele está tentando se assegurar.

— Pessoas são imprevisíveis. O perigo existe onde se menos espera — O entregador responde, suas palavras e tom de voz vieram acompanhadas com um toque de aviso sinistro. Um silêncio desconfortável surge entre eles por um breve momento até o entregador falar de novo.

— Mas enfim, espero que tenha uma boa noite e aproveite a pizza! — O homem fala, agora com um sorriso mais simpático e se retira da varanda da frente, voltando para o carro do estabelecimento e indo embora enquanto Corey o observa. Que diabos de conversa estranha foi essa?

A MENTE de Corey ainda processa o que o entregador disse e o garoto volta para dentro de casa, trancando a porta da frente mais uma vez. O cheiro da pizza invade as narinas do adolescente, o seduzindo instantaneamente e ele decide que irá comer. Indo para a cozinha, Corey então vê seu celular em cima da bancada e se dá conta de que o esqueceu ali.

PEGANDO para conferir as mensagens, vê que há uma de seu pai, Joey, e a outra é de Aiden.

“Fique a espera da pizza, amigão. Daqui a pouco chegará aí.”

enviada às 18:30 P.M

“Foi mal, Corey. Não vou poder ir hoje. Te vejo na escola segunda-feira.”

enviada às 18:24 P.M

VENDO agora essas mensagens, a de seu pai principalmente, Corey não consegue evitar em sentir um pouco de vergonha por ter ficado com medo do entregador de pizza. É algo que ele considera seriamente em guardar como segredo pelo resto da vida. Todavia, não irá negar que o breve papo que teve com aquele homem foi bizarro. Já com Aiden, se sente um pouco decepcionado visto que o mesmo não poderá vir mas ficará de boa com isso. Pondo três pedaços de pizza em um prato, Corey vai para a sala de estar novamente e senta no sofá, voltando a assistir enquanto saboreia da deliciosa calabresa e o queijo misturados, a massa crocante e fofinha derretendo na boca.

O FOCO do adolescente na pizza e no seriado o levam a se distrair do mundo ao redor e Corey não ouve quando a porta que dá acesso lá para o quintal é aberta e bate ao fundo, devagar, mas daria para ter ouvido se o garoto não estivesse tão distraído. O vulto que Corey pensou ter visto mais cedo na janela não foi só sua imaginação e agora a figura desconhecida, passa lá atrás até uma porta embaixo da escada onde há algumas ferramentas guardadas e abre, entrando dentro para ocultar sua presença, seus passos macios e sigilosos como de um gato. Contudo, Corey não percebe devido ao sofá estar na direção oposta para a entrada e continua comendo e assistindo, alheio ao perigo tão próximo de si.

▪︎

20:05 P.M

DESLIGANDO a televisão, Corey levanta do sofá, pegando o prato sujo onde comeu a pizza e também o outro prato que estava o cachorro-quente e o copo de suco. Ele vai até a cozinha, pondo essas coisas sujas dentro da pia, começando a lavar para deixar tudo organizado, o fato de estar de costas ao fundo atrás o torna ainda mais vulnerável. Enquanto ele faz isso, aquela porta embaixo da escada é aberta sigilosamente, a madeira mal rangendo, até que o sujeito encapuzado sobe para o segundo andar com passos calculados, sem sequer ter dado alguma chance para o adolescente suspeitar de sua presença, agindo como um predador. Quando Corey termina de lavar as coisas da pia, o garoto enxuga as mãos e desliga a luz dali. Antes de subir, o mesmo também desliga a luz da sala de estar e sobe as escadas, decidindo voltar para seu quarto e continuar seus deveres escolares. Quando chega ao segundo andar, o garoto olha para o lado e se surpreende um pouco ao ver a porta do quarto de seus pais aberta. Já estava assim? Se sim, o garoto estranha. Ele sabe que seus pais, quando saem, sempre deixam a porta de seu quarto fechada. Corey decide se aproximar para puxar a porta e fechá-la. Ele confere a situação dentro do quarto, vendo que está tudo em ordem. A cama de casal no centro está arrumada como de costume, o criado-mudo é ocupado por um abajur, despertador e alguns papéis em cima. Nada fora do comum. Ou pelo menos é o que Corey acha. A luz da lua lá fora, penetrando no cômodo por meio janela até que é bonita, mas por algum motivo naquela noite, torna o ambiente sombrio. Fechando a porta, Corey se vira, voltando a andar até seu quarto e ao chegar, fecha a porta atrás de si e olha para sua escrivaninha repleta de canetas, livros e seu caderno. Responsabilidades estudantis o aguardam.

— Que saco — O garoto resmunga e sem mais opção, senta na cadeira, aproximando seu corpo da escrivaninha, focando agora em seus deveres.

▪︎

21:11 P.M

APÓS O que pareceu uma eternidade, ele finalmente termina suas lições de casa e se recosta preguiçosamente na cadeira, esticando seus braços para cima, soltando um bocejo que revela seu cansaço. Corey fecha os livros e seu caderno na escrivaninha, deixando-os daquele jeito mesmo e levanta, decidindo ir beber um pouco de água antes de deitar na cama. O garoto se dirige para a porta de seu quarto, abrindo e caminha pelo corredor do segundo andar até chegar á escada. A luz da lua invadindo por meio das janelas atinge suavemente o rosto de Corey, sendo seguido por sua sombra. Ele para abruptamente seus passos suaves no carpete bege e seu batimento cardíaco acelera.

A PORTA do quarto de seus pais está entreaberta.

POR UM momento, Corey fica paralisado. Ele fechou a porta a uma hora atrás, ele tem certeza disso, certo? Possibilidades surgem em sua mente. Ele se pergunta se foi o vento… mas não, impossível. A janela do quarto de seus pais está fechada e não há nenhuma outra entrada de vento. E então, uma hipótese maluca cruza por sua mente.

FANTASMAS.

COREY balança a cabeça levemente com tal pensamento. Ele já concluiu para si mesmo outras vezes que não acredita nessa baboseira. Talvez estar sozinho em casa pela primeira vez o esteja deixando maluco. Aproximando-se da porta, o adolescente fecha e suspira fundo, se recompondo. Retomando seu caminho para a escada, Corey desce para o primeiro andar, o som do relógio na parede toca ao fundo, quebrando um pouco da quietude da casa. O adolescente não liga em acender as luzes enquanto faz seu caminho lá para baixo, permitindo que a escuridão do ambiente domine. Isso nunca foi um motivo de desconforto para Corey, mas esta noite está o deixando com uma sensação ruim no estômago. Ele abre a geladeira e se serve com um copo de água, enquanto que pela janela da cozinha é possível ver a vizinhança lá fora. Tudo está silencioso e cada vizinho está quieto em seu próprio lugar. Por um momento, ele pôde jurar que ouviu passos lá fora, mas não tem certeza. Assim que termina de beber água, o adolescente deixa o copo em cima da pia e anda até a escada novamente, subindo de volta para o segundo andar enquanto a escuridão o rodeia, o cercando como um curral. O garoto pisa em um dos degraus na qual a madeira range suavemente e isso o assusta por um momento com o som inesperado, mas ele rapidamente se recompõe. Corey chega ao segundo andar e vira seu olhar na direção do quarto de seus pais, vendo que a porta está fechada como deixou e isso o alivia, talvez não haja nada estranho.

ENTRANDO em seu quarto, ele fecha a porta e vai até sua cama, sentando para finalmente poder deitar e descansar. Todavia, o som de notificação de mensagem do seu celular toca, chamando sua atenção. Corey grunhe um pouco de frustração mas pega para verificar, vendo que se trata de uma mensagem de sua mãe e pela aba na tela, ele nota que a mesma o enviou uma foto e a seguinte mensagem:

“Corey, quem é esse?”

enviada às 21:25 P.M

ELE VÊ tal mensagem e ao analisar a foto, Corey sente que seu coração congelou e seu corpo paralisa.

HÁ UMA figura desconhecida lá na porta da frente, vestido exatamente da mesma forma que Corey o viu mais cedo na janela, usando o boné preto, moletom e suas outras peças escuras de roupa. O adolescente sente uma pontada em seu estômago, seu coração acelerando a mil e sua mente sequer processando o que está havendo, um arrepio percorre por todo seu corpo e seus olhos castanhos claros se arregalam. Essa imagem que sua mãe o enviou é das câmeras de segurança, na qual só ela e Joey têm acesso pelo celular. Corey sente como se estivesse faltando ar de seus pulmões por um momento. O som de notificação o tira de seu transe e ele verifica a próxima mensagem da sua mãe.

“Eu e seu pai só pudemos olhar as imagens das câmeras de segurança da casa agora. Se esconda. Não tente enfrentar ele.”

enviada às 21:27 P.M

O SOM da campainha lá embaixo faz o coração de Corey acelerar ainda mais. Ele jura que está quase explodindo dentro do seu peito. Em passos desesperados e imprudentes, o garoto desce para o primeiro andar, quase tropeçando nos degraus e se aproxima de uma das janelas, tirando a cortina de sua frente e olhando na direção da entrada, vendo o homem lá.

O DESCONHECIDO nota a presença do garoto na janela e o encara de volta, aquele rosto sem emoção e olhar gelado, calculista, quase faz Corey desmaiar ali mesmo, pois ele reconhece a aparência do homem. É o assassino procurado, Adam Nelson. Ele lembra que viu brevemente a reportagem sobre ele mais cedo na televisão e foi mostrada a foto da aparência do mesmo. E agora ele está aqui… brincando com Corey e pronto para matá-lo. Assustado, o adolescente se afasta da janela e com as mãos trêmulas e respirando pesadamente, envia uma mensagem para sua mãe.

“Mãe, chama a polícia. O homem que está tentando invadir é o assassino procurado.”

QUANDO ele termina de enviar a mensagem, quase derruba o celular de suas mãos quando o criminoso começa a bater forte na porta da frente, com claras intenções de assustar Corey antes de invadir completamente. O garoto se vira, voltando a subir as escadas enquanto sua mão segura no corrimão de madeira. Corey entra em seu quarto e fecha a porta, batendo com força e fazendo um som alto, a trancando imediatamente. Na sequência, ele se esconde embaixo da cama, sua respiração está acelerada e seu coração parece que vai sair para fora do peito. O som de notificação em seu celular ressoa e ele checa, vendo a resposta de sua mãe.

“Já chamei. Por favor, se esconda e não saia por nada nesse mundo. Eu sinto muito, meu bem, seu pai e eu estamos voltando imediatamente para casa.”

enviada às 21:39 P.M

COREY sente seu coração apertar com a resposta de sua mãe. Ela deve estar tão desesperada, certamente uma aflição que consumiria qualquer pai e mãe. Obedecendo-a, o garoto permanece ali embaixo da cama, sentindo que qualquer coisa que acontecerá a partir de agora será imprevisível. Um silêncio assustador reina por um momento e a única coisa que Corey pode ouvir é o som de sua respiração errática.

— Deus, por favor… — Corey murmura silenciosamente. É a única coisa que ele pode fazer, se agarrar a qualquer ser divino que exista nesse momento.

O SOM de vidro sendo quebrado lá fora o causa um espasmo, seguido de um arrepio. O desespero está comendo sua alma viva e os pensamentos ruins inundam sua mente como um oceano recheado de ondas violentas. Será que ele irá morrer? Será mais uma vítima desse assassino em série procurado? Os minutos à frente são incertos, imprevisíveis. Mas a cada segundo, o adolescente sente sua ansiedade se intensificar, como se estivesse sendo sufocado. Corey não consegue evitar que lágrimas surjam em seus olhos. Tudo que ele quer nesse momento… são seus pais.

— Cheguem logo, por favor — O garoto sussurra, sua voz levemente trêmula e quebrada. Ele nunca pensou em sua vida que desejaria tanto a presença de seus pais, seus protetores. Mas agora aqui está ele, em uma situação de vida ou morte, implorando mentalmente para que cheguem.

PASSOS lá fora podem ser ouvidos, lentos e calculados, subindo as escadas e isso deixa Corey ainda mais aflito, mas ele sabe que precisa manter um pouco de controle. O adolescente fecha seus olhos, bem apertados, torcendo pra que Adam não venha ao seu quarto. Contudo, os passos do assassino estão chegando cada vez mais perto, o som do sapato dele tocando no carpete bege do segundo andar ressoa. O coração de Corey para quando ouve o homem se aproximar da porta de seu quarto e bater suavemente, claramente brincando com ele, como um predador em busca de sua presa.

— Ah Deus… ele vai me matar… — Corey afirma em pensamentos, tremendo completamente, em pânico. Ele tem certeza de que é o seu fim agora, o desfecho trágico de sua tenra vida.

MAS então, um som familiar vem vindo lá na rua.

O SOM de sirenes. É a polícia.

TAL som é como alguém ajudando Corey a carregar um peso enorme, porque o aliviou completamente. A ajuda finalmente chegou. O garoto então ouve quando Adam se movimenta em passos rápidos e urgentes, querendo claramente fugir. Mas então, Corey ouve quando a polícia chegou a tempo e ordena para que o criminoso fique parado antes que atirem. O adolescente engole em seco e lentamente, sai de debaixo de sua cama, decidindo ir para fora de casa e encontrar com os policiais.

SEUS passos são desconfiados, temerosos. A aflição ainda está em seu coração, o nó na garganta surgindo. Descendo as escadas para o primeiro andar, Corey nota que uma das janelas está quebrada, os cacos de vidro quebrados no chão e brilhando fracos. Voltando sua atenção para o lado de fora, o adolescente sai. Os oficiais logo notam a presença do garoto e se aproximam com preocupação.

— Você está bem, garoto? Ele te machucou? — O policial pergunta e por um momento, Corey está incapaz de responder. Tudo que acabou de acontecer ainda o deixou em choque, mas então, ele assente com a cabeça.

— S-sim… é… eu estou bem — Ele responde, balbuciando um pouco, seu tom de voz baixo e nervoso.

OS POLICIAIS ajudam Corey a se acalmar e o garoto senta ali na varanda da casa, as viaturas estacionadas lá na calçada enquanto as luzes vermelhas e azuis brilham por toda a vizinhança. Alguns vizinhos saem para fora, observando toda a situação com um misto de choque e medo. Era algo que ninguém esperava que acontecesse, especialmente naquele bairro que todos consideram tão tranquilo. Todos observam quando dois policiais algemam o temido assassino Adam Nelson, o levando para um dos carros. O olhar de Corey se cruza com o dele por um momento e um arrepio percorre pelo corpo do adolescente, ele sente seu sangue gelar com a expressão fria e indiferente daquele homem cujos olhos escuros são tão repletos de escuridão.

▪︎

23:06 P.M

AS HORAS passam. Duas viaturas permanecem ali com Corey, aguardando com ele os pais do mesmo chegarem. Não demorou muito mais para que um carro familiar, muito bem conhecido por Corey, estacione ali em frente, de qualquer jeito mesmo. Deste, o casal Sarah e Joey Miller retiram-se com rostos de pânico, preocupados por seu filho. O alívio que Corey sente naquele momento é inexplicável e o garoto levanta de onde está sentado.

— Corey! — Sarah é a primeira a gritar, sua voz tingida com medo e aflição.

— Filho! — Joey exclama em seguida. Ambos correm até seu garoto e o abraçam, esquentando o mesmo com o calor reconfortante e amoroso de seus corpos. Joey acaricia o cabelo dele enquanto Sarah o beija ternamente.

O ADOLESCENTE não fala nada, ainda aterrorizado com toda essa experiência. O medo, o pânico, o terror. Não resta dúvidas de que é algo que o marcará pelo resto da vida, talvez o fazendo concluir que até mesmo nunca mais queira ficar sozinho. Afinal, o medo não é ficar sozinho, mas sim o de não estar.

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The Grumpy Next Door

ccssppmm: A truly enchanting story. You start reading and you can't stop, I found myself reading with a smile on my face.I loved it.

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