Prólogo
Prólogo: O Preço do Teatro
Tacoma, Washington – EUA
12 de Novembro | Domingo, 16h42
Melvin Vance
O som do meu próprio coração era o barulho mais alto daquele corredor.
Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.
Um eco abafado, frenético, batendo contra as minhas costelas como um pássaro enjaulado tentando quebrar as próprias asas para escapar. O ar no andar dos alojamentos parecia denso, impregnado com aquele cheiro característico de tinta barata e desinfetante de limão, mas que agora só me dava náuseas. Minhas mãos estavam frias. Tão frias que a ponta dos meus dedos mal conseguia sentir a textura do papel pardo do envelope que eu segurava contra o peito.
O envelope. O maldito envelope de dinheiro que eu tinha pegado na gaveta da Joanne.
Eu tinha ido até o quarto da minha irmã gêmea com um sorriso bobo no rosto. Queria fazer uma surpresa, pegar um casaco emprestado, talvez roubar um dos doces que ela guardava no armário e rir da última fofoca do campus. Eu era o Melvin, afinal. O gêmeo invisível, o garoto que passava os dias enfurnado na biblioteca, o nerd que misteriosamente — por um milagre absoluto do destino — tinha sido "notado" por David Christensen, o cara mais cobiçado, intimidador e inalcançável da faculdade. Eu estava feliz. Pela primeira vez na vida, eu me sentia parte do mundo real, e não apenas uma sombra que Joanne carregava por aí.
Mas a gaveta dela estava entreaberta. E o papel timbrado com o nome do banco se projetava para fora, me chamando. Quando puxei, vi a quantia. Uma quantia absurda que Joanne não tinha por que movimentar. E, junto ao dinheiro, um bilhete com uma letra rápida, apressada, que eu reconheceria em qualquer lugar. A letra do David.
“A primeira parte. O resto quando o semestre acabar.”
Minha mente não conseguiu processar de imediato. O cérebro humano tem um mecanismo de defesa patético que tenta transformar a pior das realidades em um mal-entendido bobo. "É um empréstimo", pensei, enquanto minhas pernas me arrastavam, no piloto automático, em direção ao quarto do David. "Eles estão organizando alguma festa da fraternidade juntos. É isso. David só precisava de dinheiro e Joanne ajudou."
Mas quanto mais eu me aproximava da porta número 214, mais o peso do envelope na minha mão parecia queimar a minha pele.
Agora, eu estava parado exatamente ali. A poucos centímetros da madeira compensada descascada. Eu conseguia ver os riscos na pintura, a maçaneta de metal fosco. E, através da fresta da porta que não estava completamente trancada, as vozes vinham até mim.
A voz do David. Aquela mesma voz rouca, firme, que na noite anterior tinha sussurrado no meu ouvido que eu era a única coisa real na vida dele. Aquela voz que me fez flutuar, que desarmou todas as minhas defesas e me fez entregar cada pedaço da minha alma vulnerável.
— Eu não dou a mínima para o que você planejou, Joanne! — o tom dele estava abafado, mas carregado de uma violência contida, uma urgência que me fez congelar no lugar. — Acabou. O prazo expirou ontem.
Eu prendi a respiração. O envelope em minhas mãos estalou de leve. Aproximei o ouvido da fresta, o estômago despencando em um abismo sem fim.
— David, por favor, seja racional — a voz da minha irmã respondeu, vinda de dentro do quarto dele. Ela parecia irritada, mas também assustada. — Só faltam algumas semanas para o fim do semestre. Se você sumir agora, ele vai desconfiar. O Theodore já está quase me pedindo em namoro oficial, o plano funcionou! Só mantém o teatro por mais um mês!
Teatro.
Plano.
Theodore.
As palavras flutuavam no ar do corredor como estilhaços de vidro. Eu tentei respirar, mas meus pulmões se recusavam a expandir. O oxigênio simplesmente sumiu do corredor.
— Você não está entendendo — David rosnou, e eu consegui ouvir o som de passos pesados dentro do quarto, o estalar de seus nós de dedos, uma mania que ele tinha quando estava desesperado. — Eu preciso acabar com esse contrato agora. Eu vou devolver cada centavo daquela merda de dinheiro que você colocou na minha conta. Eu preciso dar um fim nisso antes que o Melvin descubra. Se ele souber da verdade... se ele souber como isso começou... eu perco ele para sempre, Joanne. E eu não vou perder o Melvin por causa de uma idiotice que eu aceitei por puro cinismo.
Contrato.
Dinheiro.
Antes que o Melvin descubra.
O mundo ao meu redor começou a perder a cor, desbotando até se transformar em um cinza estático e frio. Cada palavra era um prego martelado diretamente na minha testa. Então, o milagre não era um milagre. O interesse repentino, as sentadas na minha mesa na biblioteca, os olhares intensos nos corredores, as caronas, a lanchonete... o beijo no estacionamento escuro. Tudo. Tudo tinha sido orquestrado. Minha irmã tinha comprado um namorado para mim para que eu saísse do quarto e ela pudesse viver o romance dela sem culpa. E David Christensen, o bad boy inatingível, tinha uma etiqueta de preço.
Eu era um projeto de caridade. Uma piada paga.
Uma onda de calor violenta, misturada com uma náusea insuportável, subiu pelo meu peito, substituindo o congelamento pelo mais puro e destrutivo desespero. Eu não conseguia mais ficar ali, parado, ouvindo eles negociarem os termos da minha humilhação.
Minha mão agiu antes que minha mente pudesse me conter. Eu não bati. Eu empurrei a porta com força.
O baque da madeira contra a parede interna ecoou pelo quarto como um tiro de misericórdia.
Joanne deu um sobressalto, a mão voando para a boca, os olhos castanhos — tão iguais aos meus — arregalando-se em um terror absoluto. Mas eu não olhei para ela. Meus olhos foram direto para ele.
David estava parado perto da janela. Ele usava aquela jaqueta de couro escura que eu adorava enterrar o rosto quando ele me abraçava. O cabelo estava bagunçado, os lábios entreabertos. Quando ele se virou e me viu parado ali, segurando o envelope pardo, toda a cor sumiu do seu rosto.
A postura imponente de David Christensen desmoronou em um segundo. Seus ombros caíram. Seus olhos, geralmente tão expressivos e intensos, se transformaram em duas poças de pânico e, acima de tudo, de uma culpa esmagadora, dilacerante. Ele parecia um homem diante do seu próprio pelotão de fuzilamento.
Ele sabia que eu tinha ouvido. Ele viu o envelope.
— Melvin... — a voz dele saiu como um sopro, frágil, completamente desprovida daquela segurança habitual. Ele deu um passo à frente, estendendo a mão direita, os dedos tremendo de leve. — Não... por favor, me ouve...
Aquela expressão de culpa nos olhos dele foi o golpe final. Se houvesse qualquer resquício de dúvida em mim, qualquer esperança patética de que eu tivesse entendido errado, ela morreu ali, vendo o remorso estampado na cara do homem que eu amava. O castelo de cartas que eu tinha construído com tanta dedicação tinha acabado de desabar, e os escombros estavam me sufocando.
Eu olhei para o envelope na minha mão. Olhei para a minha irmã. Olhei para David.
Minha boca se abriu, mas som nenhum saiu. Minha garganta parecia cheia de areia. A dor era tão física, tão dilacerante no centro do meu peito, que achei que fosse cair de joelhos e morrer ali mesmo, no chão daquele alojamento.
Mas eu não caí.
Eu apenas apertei o envelope, sentindo o papel rasgar sob a pressão dos meus dedos, enquanto a minha mente, incapaz de suportar o impacto daquela realidade terrível, começava a girar, a andar para trás, me puxando à força para longe daquele quarto, para longe daquela dor... me jogando de volta para onde tudo tinha começado, meses atrás.
Quando eu ainda era apenas o Melvin invisível.
Antes de o script ser escrito.
Meses antes...








