Capítulo 1: O Efeito Cappuccino
Helena
Há dias em que a gravidade parece funcionar com o dobro de força contra mim. Hoje era um desses dias.
A chuva que desabava lá fora parecia decidida a lavar a cidade inteira, e o meu guarda-chuva — que tinha visto dias melhores — resolveu quebrar uma das hastes logo no primeiro quarteirão. Quando finalmente empurrei a porta de madeira pesada da Páginas de Outono, eu parecia um projeto de náufraga: cabelos ruivos grudados na testa, a barra da calça encharcada e os braços tentando, pateticamente, equilibrar três livros pesados da faculdade e o meu copo térmico de café.
O cheiro de grãos torrados e papel antigo me acolheu como um abraço. Eu amava aquele lugar justamente por isso; era o único canto da cidade que parecia imune à pressa do mundo. Tudo o que eu queria era achar uma mesa vazia no fundo, me secar com um guardanapo e fingir que eu era uma pessoa normal e elegante que lê em cafeterias em dias de chuva.
Avistei uma poltrona livre perto da janela dos fundos. Ajustei os livros nos braços, respirei fundo e dei o primeiro passo.
E foi aí que o meu dia resolveu seguir o roteiro clássico do meu pior pesadelo.
Meu pé esquerdo de alguma forma se enroscou no pé de uma mesa de ferro. Senti o mundo inclinar. Em uma fração de segundo, os livros escorregaram dos meus braços, o copo térmico voou da minha mão e eu só consegui pensar: Por favor, que eu não quebre um dente.
Beatriz
A vida, para mim, funciona melhor quando está organizada em linhas retas. Planilhas, prazos, metas. Eu gosto da previsibilidade. Se eu sei o que vai acontecer em seguida, eu consigo me preparar.
Naquela tarde de quinta-feira, a minha única meta era revisar o relatório financeiro do mês antes do prazo final. Escolhi a mesa do canto da cafeteria exatamente porque o som da chuva no vidro e o tilintar suave das xícaras criavam um ruído branco perfeito para a minha concentração. Eu estava no meu terceiro gole de um cappuccino perfeitamente polvilhado com canela quando o caos entrou pela porta.
Bem, o "caos" na verdade tinha a forma de uma garota ruiva que parecia ter lutado contra um furacão — e perdido. Fiquei observando de relance, por cima da tela do notebook, enquanto ela tentava fechar um guarda-chuva que claramente implorava para ser aposentado. Havia algo de muito expressivo nela; o jeito como ela revirou os olhos para o próprio casaco molhado me fez soltar um sorriso discreto.
Voltei os olhos para a minha planilha. Linha 42, coluna B...
Um estrondo abafado me fez dar um pulo na cadeira.
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, um líquido escuro espirrou pelo tampo da minha mesa de madeira, e um calhamaço de páginas encadernadas aterrissou com um baque seco exatamente em cima do meu teclado, fechando a minha planilha de investimentos.
Pisquei, estática. Olhei para o teclado. Olhei para o chão.
Caída de joelhos, com os cabelos ruivos cobrindo o rosto e uma expressão de puro pânico, estava a garota do guarda-chuva.
— Meu Deus, me desculpa! Eu sou uma tragédia ambulante! — as palavras saíram da boca dela em um único fôlego, o rosto ganhando um tom de vermelho tão intenso que quase competia com a cor do cabelo dela. Ela parecia querer que o chão de madeira se abrisse e a engolisse viva.
Olhei para a bagunça. O relatório que passei duas horas montando estava salvo na nuvem, o notebook não parecia ter sofrido nenhum dano permanente, e o café derramado tinha passado longe da minha roupa. Olhei de volta para ela, que agora tentava recolher os outros livros com as mãos trêmulas.
Toda a minha irritação programada simplesmente evaporou. Em vez disso, uma risada leve e completamente espontânea escapou do meu peito. Há quanto tempo eu não ria de um imprevisto?
— Está tudo bem — mudei o tom de voz, tentando acalmá-la, e me abaixei para pegar o livro que ainda estava em cima do meu computador. Quando li o título na capa dura, meu coração deu um pequeno salto. — Bem, pelo menos o seu gosto literário é excelente. Esse é o meu romance favorito.
Ela congelou na minha frente, com as mãos cheias de papéis, me encarando com os olhos castanhos mais arregalados e expressivos que eu já tinha visto na vida.








