Capítulo 1: A Gravidade do Silício
Capítulo 1: A Gravidade do Silício
O céu acima da Baía de Monterey não se importava com contratos de confidencialidade.
A dois mil pés de altitude, dentro da cabine barulhenta do seu Piper Cruiser bimotor, Gary Kildall finalmente conseguia respirar. Ali em cima, o mundo fazia sentido. O vento que cortava as asas do avião seguia leis matemáticas claras, imutáveis e limpas — exatamente como a arquitetura do seu código. Lá embaixo, a névoa cobria a costa da Califórnia, transformando as sedes das primeiras gigantes da tecnologia em borrões cinzentos.
Gary esticou os dedos longos, ainda sujos de graxa de motor e poeira de circuitos, e firmou o manche. Ele não era apenas um homem pilotando; era um homem fugindo.
No painel de instrumentos do avião, o rádio estalou. A voz de sua esposa, Dorothy, emergiu do chiado, distorcida pela estática, mas carregada com uma urgência que fez o estômago de Gary contrair.
— Gary? Você precisa descer. Agora.
Gary pressionou o botão do comunicador. Sua voz saiu calma, deliberadamente lenta, o oposto exato do pânico que começava a circular na base da pista.
— O vento está perfeito aqui em cima, Dorothy. Se eu descer agora, perco a janela térmica.
— Gary, escute bem — a voz dela baixou de tom, quase um sussurro tenso. — Eles chegaram. Estão na sala de estar. Três deles.
Gary olhou pelo vidro da cabine. Ele sabia exatamente quem eram “eles”. Homens de terno azul-escuro, camisas brancas engomadas e gravatas que pareciam nós de marinheiro. Homens da IBM. Representantes da maior corporação de computadores do planeta, enviados diretamente de Armonk, Nova York, com maletas de couro legítimo e um calhamaço de papéis que exigiam que Gary assinasse sua própria rendição intelectual antes mesmo de começarem a conversar.
Eles queriam o CP/M. Queriam o sistema operacional que Gary havia esculpido do nada em sua garagem. A linguagem que fazia o ferro frio dos microcomputadores conversar com os impulsos elétricos. O coração do futuro.
— Diga a eles para falarem com nossos advogados, Dorothy. Eu não assino acordos de não-divulgação predatórios. Eles querem o meu software? Que joguem pelas minhas regras.
— Eles não têm tempo, Gary. E tem mais uma coisa... — Dorothy hesitou por um segundo que pareceu durar horas. — O garoto de Seattle ligou de novo.
Gary franziu o cenho. Bill Gates.
O jovem e pragmático dono da Microsoft, o sujeito que mal sabia programar um sistema operacional inteiro, mas que conhecia cada brecha legal do mercado de software, tinha sido o responsável por passar o contato de Gary para a IBM. “Eles precisam de um sistema, Gary. Eu avisei que você é o cara”, dissera Gates na véspera, com aquela voz anasalada e uma cortesia que sempre cheirava a emboscada.
— O que o Bill queria? — perguntou Gary, inclinando o avião levemente para a esquerda, iniciando uma curva sobre a água escura do Pacífico.
— Ele só queria saber se você já tinha descido para assinar. Ele parecia... interessado demais.
Gary soltou um riso seco que foi abafado pelo ronco dos motores. Naquele momento, a milhas dali, em um escritório estéril em Seattle, Bill Gates estava com os pés em cima da mesa, o telefone colado ao ouvido, esperando o primeiro sinal de fraqueza. Ao contrário de Gary, Gates não olhava para as nuvens; ele olhava para o tabuleiro.
Lá embaixo, os três ternos escuros da IBM olhavam para o relógio de ouro em seus pulsos, impacientes. O futuro da computação pessoal estava prestes a ser decidido nas próximas duas horas, e o único homem capaz de entregá-lo preferia a pureza do vento à lama do mercado de ações.
Gary empurrou o manche para a frente. O bico do avião apontou para a névoa. Era hora de descer para o ninho de cobras.








