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O Imperador e a Exilada

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Summary

Criado sob a sombra do massacre de sua família e moldado pelo cinismo do velho imperador Tibério, Máximo Cássio Varro assume o trono de Roma como o governante perfeito. Para consolidar seu poder, ele se casa com a jovem e leal aristocrata Domícia Valéria. Mas o coração do novo Augusto é um território impenetrável, governado pelos traumas do passado. A estabilidade do palácio desmorona com a chegada de Lívia, uma mulher tão bela quanto perigosamente ambiciosa. Ao se tornar amante do imperador, Lívia orquestra uma teia implacável de intrigas políticas, alimentando a paranoia de Máximo e isolando a imperatriz. Incapaz de gerar um herdeiro e cercada por inimigos, Domícia Valéria é falsamente acusada de traição e exilada para os penhascos solitários de Capri. Nesta dança mortal por poder e sobrevivência, Máximo descobrirá que a maior traição não nasceu nos corredores do Senado, mas nos lençóis de sua própria cama — e que o preço absoluto do trono é a destruição da única pessoa que verdadeiramente o amou.

Genre
Drama
Author
Mayara
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 —A Noite do Massacre

A noite sobre as colinas de Roma costumava trazer o silêncio dos pomares e o sussurro do vento entre os ciprestes. Naquela primavera, contudo, o ar carregava o cheiro acre do ferro e do medo. Na vila da família Varro, afastada do burburinho barulhento do Fórum, o silêncio não era de paz, mas de pressentimento. Os deuses pareciam ter virado o rosto para a casa que, por gerações, servira à República com honra.

Máximo tinha apenas cinco anos, mas sua mente registrava o mundo com uma precisão cirúrgica, quase fria para uma criança. Ele estava sentado no chão de mármore do pátio interno, observando a água da fonte refletir a lua pálida. Ele não chorava pelo cansaço do dia; apenas observava.

— Venha, meu pequeno general — chamou Agripina, sua ama de leite, uma mulher de braços fortes e olhos permanentemente cansados. Ela trazia uma túnica limpa de lã. — O sereno da noite traz as febres da sementeira. Seu pai quer vê-lo antes de recolher-se.

O menino levantou-se sem protestar. Ele segurou a mão calejada da escrava e deixou-se guiar pelos corredores iluminados por lamparinas de bronze. As paredes exibiam os bustos de cera de seus antepassados, homens de olhar severo que pareciam vigiar cada passo da linhagem.

No tablinio, o escritório da casa, o patrício Cássio Varro relia pergaminhos sob a luz de três grandes velas. Seu rosto, geralmente firme, estava marcado por vincos profundos de preocupação. Ao lado dele, sua esposa, Aurélia, ajeitava uma estola sobre os ombros, o olhar perdido nas chamas.

— Ele está aqui, senhor — anunciou Agripina, fazendo uma leve reverência antes de se afastar para o canto da sala.

Cássio ergueu os olhos e, por um breve instante, a rigidez de suas feições relaxou. Ele estendeu os braços para o filho. Máximo aproximou-se com passos firmes.

— Máximo — disse o pai, a voz grave ecoando suavemente nas paredes de pedra. — Olhe para mim. O que você vê nestes rolos de papiro?

O menino olhou para as letras escuras e elegantes.

— Palavras, pai. Nomes.

— Mais do que nomes, meu filho. Isto é a história da nossa família. E, em Roma, a história pode ser uma armadura ou uma sentença de morte. Homens pequenos, movidos pela inveja e pelo veneno do palácio imperial, sussurram mentiras nos ouvidos do César. Eles dizem que conspiramos. Dizem que desejamos o que pertence ao trono.

Aurélia aproximou-se, ajoelhando-se para ficar na altura do menino. Suas mãos tremiam levemente quando tocaram o rosto de Máximo.

— Não importa o que digam nas ruas, Máximo. Você carrega o sangue dos Varro. Lembre-se sempre de quem nós somos. Prometa-me.

Antes que a criança pudesse responder, o silêncio da noite foi estraçalhado.

Um estalo violento ecoou da entrada principal, seguido pelo som metálico de ferro chocando-se contra o bronze. Gritos masculinos, curtos e desesperados, cortaram o ar. Eram os guardas da propriedade.

— Eles chegaram — sussurrou Aurélia, empalidecendo instantaneamente.

Cássio Varro levantou-se de um salto, desembainhando a espada curta que mantinha sob a mesa. Os nós de seus dedos ficaram brancos.

— Agripina! — berrou o patrício, a autoridade superando o pânico. — Pegue o menino. Agora! Pelas cozinhas, vá para os fundos da propriedade onde os colonos guardam as carroças de feno. Não olhe para trás.

— Senhor, eu não posso deixá-los... — a voz da ama embargou.

— Vá! — ordenou Cássio, empurrando-a. — Salve a única coisa que restará de nós.

Agripina agarrou Máximo pelo braço com uma força que o menino nunca sentira antes. Ela o arrastou para fora do escritório no exato momento em que as portas do átrio principal cediam. O som de passos pesados de botas militares e o tilintar de armaduras de ferro invadiram a casa.

Máximo olhou para trás por cima do ombro. Ele viu o vulto de seu pai avançar pelo corredor, a lâmina erguida contra sombras escuras que empunhavam gládios. Viu sua mãe correr na direção dos quartos onde seus irmãos mais velhos dormiam. O primeiro grito que ouviu não foi de um soldado, mas de seu irmão de dez anos, interrompido abruptamente por um baque surdo.

— Não olhe, Máximo! Pelos deuses, olhe para frente! — soluçou Agripina, puxando-o com violência pelas passagens de serviço.

O cheiro de fumaça começou a se espalhar. Os invasores ateavam fogo às cortinas e tapeçarias para apagar os rastros do crime. O palácio de mármore e memórias estava se transformando em uma pira funerária.

Eles alcançaram o pátio traseiro, onde a escuridão era mais densa. O ar frio da noite bateu no rosto de Máximo, limpando por um segundo o calor do incêndio. Ali perto, estacionada entre os estábulos, estava uma pesada carroça de madeira, carregada de sacos de grãos e palha que seriam levados ao mercado na manhã seguinte.

Com esforço, Agripina ergueu o menino e o jogou para dentro da estrutura de madeira.

— Fique no fundo, embaixo dos sacos. Não se mexa. Não chore. Se você fizer um som, eles nos matam — instruiu ela, a voz num sussurro frenético enquanto cobria o corpo pequeno com palha seca e tecidos grosseiros.

Máximo ficou ali, na escuridão sufocante, sentindo o cheiro de terra e poeira. Ele ouviu quando Agripina subiu na parte dianteira da carroça, soltou as rédeas dos cavalos e chicoteou os animais. O veículo deu um solavanco violento, iniciando uma fuga desesperada pelas estradas escuras e esburacadas que se afastavam da capital.

Os dias seguintes fundiram-se em um borrão de fome, frio e solavancos contínuos. A carroça avançava sem descanso, evitando as grandes vias pavimentadas onde as patrulhas pretorianas eram frequentes. Eles viajavam por caminhos de terra, entre bosques e campos de trigo.

Sempre que a carroça parava, Agripina enfiava um pedaço de pão seco e alguns goles de água na boca de Máximo. Ela mal falava, seus olhos estavam vermelhos e fixos na estrada atrás deles. A paranoia havia se tornado sua única companhia. O menino, surpreendendo a própria ama, não chorava. Ele permanecia no fundo do veículo, com os olhos bem abertos, processando o fim abrupto de seu mundo.

No quarto dia de fuga, quando o sol começava a declinar no horizonte, pintando o céu com tons de sangue e ouro, o desastre os alcançou.

O som de cascos de cavalos galopando em velocidade máxima começou a ecoar na retaguarda. Eram três cavaleiros. Seus mantos vermelhos e armaduras polidas não deixavam dúvidas: eram batedores enviados para terminar o serviço.

— Alerte a mulher na carroça! — gritou uma voz masculina à distância. — Ordem do Senado e do imperador! Parem o veículo!

Agripina castigou os cavalos com o chicote, mas os animais da carroça estavam exaustos, com as patas feridas pela viagem ininterrupta. Os perseguidores aproximaram-se com facilidade, cercando o veículo de madeira em uma curva estreita da estrada flanqueada por oliveiras retorcidas.

Um dos soldados emparelhou seu cavalo e agarrou as rédeas da carroça, forçando uma parada brusca. O impacto jogou Máximo contra as paredes de madeira, mas ele se manteve escondido sob a palha, retendo o fôlego.

— Desça daí, mulher! — ordenou o líder dos soldados, um homem de rosto cicatrizado e olhar implacável. — Sabemos quem você carrega. Onde está o filhote de Cássio Varro?

Agripina desceu do banco da carroça devagar, erguendo as mãos trêmulas. Ela olhou para o soldado com uma mistura de terror e uma coragem desesperada que só os que nada mais têm a perder conseguem reunir.

— Não há nenhuma criança aqui, senhor — mentiu ela, a voz falhando. — Sou apenas uma serva levando suprimentos para as propriedades do sul. Veja por si mesmo. Só há grãos e palha.

O soldado riu, um som seco e sem humor. Ele apeou do cavalo e caminhou até a parte traseira da carroça, desembainhando seu gládio.

— Nós revistamos a vila. Contamos os corpos. Faltava o menino. E vizinhos viram uma carroça partir nos fundos da propriedade. Você acha que pode enganar Roma, sua escrava ignorante?

Ele ergueu a espada, preparando-se para enfiar a lâmina na palha da carroça para inspecioná-la.

Percebendo que o esconderijo seria descoberto em segundos, Agripina tomou sua decisão final. Com um grito de fúria, ela avançou contra o soldado, cravando as unhas no rosto dele e empurrando-o para longe do veículo.

— Corra! — ela gritou com todas as suas forças, embora soubesse que o menino não podia ouvi-la claramente sem se revelar.

O soldado cambaleou para trás, rugindo de dor quando o sangue começou a escorrer de suas bochechas arranhadas. Sua surpresa transformou-se instantaneamente em fúria assassina. Com um movimento rápido e preciso, ele girou o corpo e enterrou a lâmina curta no estômago da ama de leite.

O grito de Agripina foi cortado. Ela olhou para a carroça uma última vez, os olhos suplicantes, antes de desabar de joelhos na poeira da estrada.

— Mulher maldita — cuspiu o soldado, limpando o sangue do próprio rosto com as costas da mão. Ele olhou para os outros dois cavaleiros. — Vasculhem os arredores. Ela deve ter escondido a criança na mata antes de pararmos. Olhem atrás daquelas oliveiras!

Os homens começaram a berrar ordens uns aos outros, afastando-se da carroça para revistar os arbustos e as árvores ao longo da estrada, acreditando que a reação violenta da mulher fora uma tentativa de dar tempo para o menino fugir a pé.

Dentro da carroça, no silêncio do seu esconderijo, Máximo viu através de uma fresta na madeira o corpo de Agripina estendido no chão. A poeira da estrada misturava-se ao sangue escuro que manchava sua túnica de serva. Ela estava imóvel. A mulher que o alimentara, que o protegera do fogo e que sacrificara a própria vida por ele, agora era apenas um corpo sem vida sob o sol poente.

O menino não gritou. Não chamou por ela. Seus pequenos dedos apertaram o tecido da túnica que vestia até as unhas machucarem a própria pele. Uma frieza desconhecida e assustadora começou a se instalar em seu peito, congelando o medo e substituindo-o por algo rígido e indestrutível.

Aproveitando que os soldados estavam de costas, concentrados na busca entre as árvores, Máximo deslizou silenciosamente para fora da carroça pelo lado oposto. Ele moveu-se como uma sombra entre as folhagens baixas, sem fazer um único ruído, sumindo na vastidão do campo.

Aos cinco anos de idade, sob o céu que escurecia na Itália, Máximo Cássio Varro estava completamente sozinho no mundo.

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