Capítulo 0 - O Nascimento da Serpente
Local: Cidade Baía Cinza - 11 anos atrás
Apolo vivia com a tia desde que se entendia por gente. Um apartamento pequeno, cheiro de café velho, pilhas de livros sobre eletrônica, anatomia, circuitos e engenharia espalhados por todos os cantos. Enquanto os outros garotos jogavam futebol ou assistiam desenhos, ele montava braços robóticos com sucata e testava chips de leitura neural em si mesmo.
Aos treze, ele já tinha mapeado o próprio sistema nervoso. Aos quinze, começou a inserir melhoramentos discretos no próprio corpo. Nada exagerado. Nada visível. Ainda não.
Ele não queria ser super. Ele só queria parar de sentir.
Mas o que o moldou não foi a genialidade. Foi o fracasso.
Dois anos depois.
Ele tinha dezessete anos quando o mundo, como ele o conhecia, implodiu.
O sol já se punha sobre Baía Cinza, pintando o céu com tons de um laranja sujo, quando Apolo e Aysha deixaram o burburinho do mercado. Ela carregava uma sacola leve de feira, ele, a mochila pesada com os livros de sempre. O ar, mesmo com a brisa tímida, carregava o calor elétrico da periferia, mas a presença dela parecia dissipar qualquer opressão.
— Certo, gênio. Que invenção louca você está pensando em desmontar hoje? — Aysha perguntou, virando-se para ele com um sorriso leve que acendia os olhos escuros.
Apolo apenas deu de ombros, sem tirar os olhos do mapa neural em seu tablet. — Talvez a forma como o meu cérebro processa sarcasmo barato. Ainda não entendi por que não o bloqueia.
Ela riu, um som cristalino que sempre o pegava de surpresa. — Ah, então você admite que sou engraçada. Isso é um avanço para o Dr. Apolo.
— Não disse isso. Disse que é barato. — Ele ergueu uma sobrancelha, um fantasma de um sorriso brincando nos lábios.
— Mesma coisa para você. — Ela deu um tapa leve no braço dele, sem quebrar o ritmo da caminhada. — Falando sério, vai testar aquele chip de memória que você está obcecado? Não quero ver você tendo flashes da sua tia te obrigando a comer beterraba de novo.
Ele fechou o tablet, guardando-o na mochila. Pela primeira vez naquele dia, seus olhos, geralmente tão focados, encontraram os dela. — É um pequeno ajuste. E não foi beterraba. Foi quiabo. Muito pior.
Aysha fez uma careta. — Ah, quiabo! Intragável. Aposto que o Demetrius te obrigou a comer.
— Não. Eu estava tentando mapear a resistência do meu paladar a texturas estranhas. — Apolo disse, sério, mas um lampejo de humor cruzou seu olhar.
Ela balançou a cabeça, rindo de novo. — Você é inacreditável, Apolo. Mas é o meu inacreditável.
Ele não respondeu, apenas a olhou por um momento, um calor diferente do sol poente começando a se espalhar em seu peito. Aysha era assim. A única pessoa que conseguia fazê-lo sorrir sem que ele percebesse. Ela era a leveza na gravidade de seu mundo.
Caminharam juntos pela velha ponte de metal, cujas vigas rangiam sob seus pés. O ar, abafado pelo calor elétrico da periferia, parecia carregar o prenúncio do que viria.
— Vai na frente. Vou cortar caminho pelo beco e pegar a ferramenta que deixei na loja do Miguel — ele disse, a voz mais rouca do que o habitual, a urgência pesando em cada palavra.
Ela o olhou, um vislumbre de desconfiança nublando seus olhos escuros. — Promete que não vai demorar?
Ele ofereceu um sorriso de lado, aquele sorriso meio torto que ela conhecia tão bem, que dizia “confie em mim, mas não me pergunte como”. — Dois minutos. Três no máximo.
Três minutos. Três minutos foram a eternidade necessária para que o universo se desintegrasse.
Quando ele irrompeu de volta pela lateral da ponte, o som cortou o ar abafado como uma lâmina: um grito. Seguido de perto pelo rugido de um carro preto, rasgando a contramão. Dois homens. Armas empunhadas. Um assalto. Um tiro.
Apolo correu, o asfalto sob seus pés um borrão. Caiu de joelhos ao lado dela. O corpo miúdo de Aysha, agora tão pesado, no chão. O sangue, um riacho quente e pegajoso, escorrendo por suas mãos, manchando sua pele, sua sanidade. Os olhos dela, abertos, fixos nele, ainda buscando-o, ainda tentando alcançá-lo.
— Me desculpa... — ele repetia, a voz rasgada, apertando o ferimento com a fúria desesperada de quem tenta rebobinar o tempo, desfazer o irremediável.
— Tá tudo bem, Apo... você voltou... — ela sussurrou, um fio de voz quase inaudível, um sorriso tênue e doloroso nos lábios.
Ela morreu antes da ambulância chegar.
E ali, sob o céu escarlate de Baía Cinza, Apolo morreu também.
Naquela mesma noite, ele entrou em seu quarto, o santuário de sua infância. Cada braço robótico, cada chip neural, cada diagrama, tudo o que ele havia construído, tudo o que o definia, foi destruído em um frenesi de dor e desespero. Ele reiniciou o que restava de si.
3 meses depois
Ele já não sentia dor.. Só silêncio.
A dor havia evaporado, substituída por um vazio que era quase sagrado. Silêncio. Não o silêncio da paz, mas o silêncio cortante de uma máquina que opera sem emoções, sem ruídos desnecessários. O mundo havia se transformado em código. Ele vivia em uma névoa de noites insones, alimentado apenas por café frio e a obsessão em criar. Microchips complexos, com intrincados sistemas de segurança e monitoramento, nasciam de suas mãos. Não para proteger os outros, não para corrigir a injustiça do mundo. Mas para que ele nunca mais fosse fraco. Nunca mais fosse vulnerável. Tudo feito por ele. Nenhum governo. Nenhum laboratório. Apenas a fúria crua e fria de alguém que havia abdicado de sua humanidade.
Apolo morreu ali.
Em seu quarto, o cheiro azedo de cachaça barata misturava-se ao odor metálico de componentes eletrônicos queimados e ao suor antigo. Pilhas de garrafas vazias, algumas derrubadas, rolavam pelo chão empoeirado, ao lado de caixas de pizza amassadas e fios emaranhados. Sob a luz fria e pálida de uma lâmpada de bancada, Apolo estava curvado sobre a mesa, os dedos tremendo enquanto tentava soldar fios minúsculos em uma placa de circuito. A garrafa de branquinha ao lado, quase vazia, explicava o balanço inconstante do corpo dele. Ele estava uma pilha de ossos e fúria, os cabelos bagunçados grudados na testa, as olheiras fundas como cavernas.
A porta rangeu, e Demetrius, Hera e Natasha entraram. Demetrius segurava um copo de água, Hera, um prato com sanduíches. Natasha, a mais direta, foi até a mesa.
— Apolo, você precisa parar — Natasha disse, a voz cheia de uma urgência que se misturava com preocupação genuína. — Você está se matando.
Apolo não levantou a cabeça, a solda chiava, soltando uma fumaça irritante. — Não estou me matando. Estou me reconstruindo, porra.
— Não desse jeito — Demetrius se aproximou, o copo na mão estendida, a voz contida, mas firme. — Bebe isso. Come alguma coisa. Você não come há dias.
— Não preciso dessa merda! — Apolo respondeu, a voz arrastada, quase um rosnado, com um tom de quem está à beira do colapso. — Preciso disso aqui. Preciso terminar essa porra.
Ele tentou apertar uma peça, mas os dedos falharam, e o componente escorregou, caindo no chão com um pequeno estalo. Apolo jogou a ferramenta na mesa com um barulho seco.
— DESGRAÇA! — ele gritou, socando a mesa, a dor na voz mais alta que a raiva.
— Deixa a gente te ajudar, Apo. A gente sabe que é difícil, mas você não precisa passar por isso sozinho — Hera disse, a voz suave, mas firme, os olhos marejados de cansaço e tristeza. Ela se agachou e pegou o componente caído, tentando estendê-lo para ele.
Apolo finalmente ergueu o olhar. Seus olhos estavam injetados, distantes, sem vida, como túneis escuros que levavam ao nada. — Ninguém pode ajudar. Ninguém. Vocês não entendem a porra do que eu preciso.
— Entendemos sim, que você está sofrendo — Natasha insistiu, gesticulando para a bagunça ao redor, para as garrafas, para o corpo trêmulo do amigo. — Olhe para você! Isso não é o Apolo!
— O Apolo morreu. — A voz dele era fria, cortante, sem emoção, um eco do que Demetrius ouviria mais tarde na viela, mas agora com um peso ainda maior de finalidade. — Ele não serve para a porra do que precisa ser feito.
Demetrius suspirou, derrotado, recuando um passo, a impotência visível em seu rosto. Natasha apenas o olhava, a raiva murchando em desespero, sem saber mais o que dizer ou fazer.
Foi Hera quem se moveu. Ela se aproximou, e ignorando os restos de chips, os fios desencapados e o cheiro repugnante de álcool e miséria, puxou Apolo em um abraço apertado. Ele permaneceu rígido, duro como pedra, mas ela não se afastou. A cabeça dela estava encostada em seu ombro, e ele podia sentir as lágrimas molhando sua camisa, quentes, contrastando com o gelo dentro dele.
— Fica bem, Apo. — A voz dela era um sussurro, que parecia vir de muito longe, de um lugar que ele havia esquecido, um resquício de uma vida que parecia ter existido em outra dimensão. — A gente precisa de você.
Ele não respondeu, mas por um instante, apenas por um breve, quase imperceptível instante, o peso dela contra ele fez o mundo de código e silêncio parecer menos absoluto. Uma fresta, uma mínima fresta de luz.
Uma semana depois
Demetrius e Apolo caminhavam lado a lado por uma viela silenciosa. O amigo, mesmo acostumado à escuridão, percebia os olhos distantes do outro.
— É normal se sentir fraco, Apolo. Você é humano. Por isso se sente assim. — disse Demetrius, com a voz baixa.
Apolo parou. Os olhos fixos em um ponto invisível à frente, além do que qualquer um podia ver. E então, ele murmurou, a voz sem qualquer resquício da velha dor, apenas uma frieza cortante:
— Não... eu só sou fraco. Só por isso que eu ainda sou humano.
Demetrius não respondeu. Apenas assentiu, respeitando o peso daquilo.
Demetrius não respondeu. Apenas assentiu lentamente, um reconhecimento sombrio do peso daquelas palavras.
Apolo seguiu em frente.
Não mais como um garoto que sonhava em construir o mundo.
Não mais como um homem capaz de sentir.
Mas como o monstro que estava, metodicamente, construindo a si mesmo.
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