Prólogo : A noite da morte
Eu não posso me lembrar dela; eu a esqueci. Mas isso era impossível, pois seu rosto era idêntico ao meu, como uma sombra má que me segue sempre à espreita pela escuridão.
Ela era uma versão de mim, a versão defeituosa que sempre quis tudo o que era meu. Ela destruiu tudo o que eu tinha, mas nada saciava sua cobiça. Se não bastasse ter o meu rosto, o que ela mais queria de mim? Ela queria o meu homem. O calor de seu corpo no dela, os seus beijos em sua boca, e ouvir suas juras de amor em seu ouvido. Ela é simplesmente fraca, viu ele escapar das suas mãos e ir para os braços de outra mulher.
Mas o que me restava? Aquela mulher de cabelos vermelhos levou tudo o que eu tinha: meus pais, o meu amor e a minha própria razão de viver. Desde aquele dia, não houve resquício de sanidade que se visse nos meus olhos.
Essa noite, ela estava aqui diante de mim. Ela me olhava com o seu olhar inocente e simplório; vê-la na minha frente me causava arrepios, me deixava vulnerável, mas eu não podia fazer nada. Meus dedos começavam a tremer ainda mais, e as lágrimas já começavam a escorrer.
Com passos lentos, ela se aproximou de mim, empunhou seu punhal e acertou em minha barriga. Eu não sentia nada; era como uma tortura. Meu sangue jorrava pela sala e ela olhava para mim.
— Elise... você merece a morte, merece toda a desgraça que já caiu sobre sua vida. Você acha que tem tudo sob controle, que tudo o que fizemos não trará consequências, que o sangue daquela menina não está nas nossas mãos. Mas estão sim, você quis que ela morresse tanto quanto eu. Sabe uma coisa, patinho feio? Posso até guardar todos os sentimentos ruins, mas é você quem controla nossos impulsos e nossas decisões.
Ela levantou meu pescoço, então olhei em seus olhos, cinza-claro como o luar que pinta a noite através da minha janela. Seu nariz pontudo e mesquinho, e seus lábios sangrentos esboçam um sorriso de escárnio para mim.
Começo a tossir sangue e ela joga a minha cabeça para o lado. Com brutalidade, me empurra ao chão, já próxima à minha janela. A luz reflete em seu rosto; um arrepio acompanhado da dor percorre o meu corpo, pois é como olhar para um espelho. De repente, ela me levanta para perto da janela e me joga de lá.
Sinto o impacto do meu corpo com o chão; tudo dói, e é difícil respirar. Abro os olhos, procurando-a, tento vê-la na janela, mas percebo-a ali, deitada ao meu lado, caída, morrendo lentamente como eu.








