Capítulo 1 - Trinta minutos
Essa história fala sobre reconstrução, sobre amar com medo e sobre escolher ficar quando ir embora parece mais seguro. Espero que a Clara te faça acreditar que o que sobrou de você também pode ser amado.
Olho no celular.
Tarde demais.
O cliente se estendeu, o trânsito travou... mas nada disso importa agora.
Abro a porta.
O silêncio me atinge primeiro. Pesado. Familiar.
— Achei que você não ia voltar pra casa hoje.
A voz dele atravessa a sala, fria como sempre.
Reviro os olhos, cansada demais pra começar aquilo de novo.
— Não — respondo, seca. — Você não achou.
Passo por ele.
— Esse é o seu problema, Clara. Você não liga pra mais nada. Só vive dentro daquele lugar que você chama de escritório.
Tiro os sapatos, meu sangue esquenta a cada palavra ácida lançada nas minhas costas.
— Aquela porcaria que só dá prejuízo — ele continua, o desdém transbordando. — E eu não falo só de dinheiro.
Fecho os olhos, entendendo exatamente onde ele quer chegar.
É sempre assim. Sempre.
Ele invade o quarto, ocupando o espaço com a própria crueldade.
— Eu sempre falo e sempre falei. Fica em casa, nós não precisamos disso, o que falta pra você aqui?
Ele não espera resposta.
Explode.
Levanta as duas mãos no ar.
— Você não passa de uma egoísta, tudo poderia ser diferente se você fizesse o que eu digo.
As lágrimas queimam.
Não só de tristeza.
É raiva.
— Para! — aviso, a voz falhando.
Ele dá um passo à frente.
— E você me escuta? Não.
Ele inspira, escolhendo exatamente onde ferir.
— Tudo que aconteceu é culpa sua!
O grito dele bate com tudo em mim e o mundo para logo depois.
Não consigo respirar.
O ar não entra.
Coloco a mão no peito, me apoiando na cama.
Hoje você passou de todos os limites.
— CALA A BOCA MARCELO!
— Eu já tenho dinheiro mais que suficiente pra nós dois. Você não precisa daquele lugar... tudo que aconteceu foi por um capricho seu.
Ele aponta o dedo pra mim completamente exaltado.
— Você não passa de uma mimada.
Arranco a blusa e jogo em cima da cama.
— SAI DAQUI! SAI! Eu não quero ver você nunca mais!
O grito rasga a minha garganta.
— EU ODEIO VOCÊ! EU ODEIO!
Ele recua, o susto estampado no rosto por um segundo, mas logo o olhar endurece.
— Eu vou sair, Clara.
Marcelo se aproxima, o rosto quase colado ao meu.
Um frio percorre meu corpo imediatamente.
A voz dele sai baixa, mas isso não significa que ele esteja arrependido.
— Vou te dar trinta minutos.
— E quando eu voltar... não quero você na MINHA casa nem mais um segundo.
Ele ainda continua me olhando, como se estivesse avaliando, então se vira e sai, batendo a porta forte.
O ar volta a circular. Solto o fôlego de uma vez.
Mesmo assim, meu corpo não acompanha.
A respiração falha.
O coração dispara.
Eu quase achei que ele não fosse parar aqui.
Chega.
Corro para o closet e pego a primeira mala que eu vejo. Começo a jogar qualquer coisa que encontro pela frente.
Eu não volto mais pra essa casa.
Fecho a mala e começo a caminhar para fora da mansão. Preciso chamar um carro, mas não tenho para onde ir. Com toda certeza ele já tirou os limites do cartão.
Nada de hotel pra mim, ele quer me ver implorar.
Nada de amigos também, porque todos são seus.
Coloco o endereço do escritório no aplicativo e o carro não demora.
O caminho é silencioso. Só do lado de fora.
Porque aqui dentro de mim... nada para.
O que eu vou fazer? Vou conseguir sozinha?
Fecho os olhos e as lágrimas voltam a cair.
Eu não posso mais viver assim.
Não posso continuar à mercê dele.
Ouvir coisas que não são verdades.
Ter a minha dor invalidada o tempo todo.
Não posso mais acreditar que sem ele eu não consiga seguir em frente, eu sei que posso.
Dessa vez eu não vou deixar o medo me vencer.
Eu não vou mais voltar.
O motorista para e eu desço.
Ele não faz perguntas e eu agradeço por isso.
Entro segurando a mala contra o próprio corpo.
O espaço parece pequeno, está escuro e frio.
Na minha sala, olho para o sofá. Por enquanto, vai ser minha cama.
Mesmo assim... é melhor do que qualquer coisa naquela casa.
Um dia eu acreditei em nós.
Mas isso já faz muito tempo.
Eu preciso aceitar que você não é o homem que um dia eu acreditei que seria o meu porto seguro.
Agora você não passa de alguém que eu tenho medo.
Me deito no sofá, puxando uma almofada, e encolho as pernas contra o peito.
O silêncio aqui é diferente.
Não sufoca.
Mesmo assim... eu não consigo relaxar.
Fecho os olhos.
Hoje eu fui embora.
Mas eu sei que isso não acabou.
Marcelo não vai aceitar.
Ele nunca aceita.
Um arrepio percorre meu corpo.
Eu estou livre...
ou só o começo de uma guerra?








