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Confiança ou morte

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Summary

Henrich não se lembra de absolutamente nada além do próprio nome. Sem eira nem beira, ele é resgatado das ruas por Katherina, uma mulher misteriosa que afirma ser sua namorada e o leva para uma cabana isolada. Lá também vive Herium, o irmão de Katherina, um homem hostil e imprevisível. À medida que os dias passam em um isolamento forçado, a linha entre o cuidado e a paranoia começa a desaparecer. Um celular quebrado misteriosamente, tonturas inexplicáveis logo após os jantares e um ambiente tenso revelam que aquela "família" esconde segredos perigosos. Quando acusações de assassinato vêm à tona e alianças duvidosas começam a se formar, Henrich percebe que está preso em uma teia de mentiras. Em quem confiar quando você não pode confiar nem na própria mente? Para descobrir quem realmente é, ele precisará escapar de um lugar onde cada passo seu está sendo vigiado.

Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

A cabana e a dor de cabeça.

Senti um vazio de novo, essa sensação que retorna, ela que me faz esquecer o presente e pensar no passado. Sentado no chão, pessoas passam e olham com desprezo. Não me lembro de nada além do meu nome, não sei ler, não tenho rumo. Perdido e mergulhado em pensamentos confusos, escuto um chamado ao meu nome. Me viro em direção da voz, meu olhar encontra um rosto doce. Seus cabelos ondulados se misturavam com o ambiente ao redor; seu olhar era inconfundivelmente conhecido. De onde?

Uma puxada no ombro me distrai por um segundo.

— Henrich, vamos para casa.

Antes que eu pudesse reagir e aceitar ou negar o convite, ela me puxara pelas ruas por um tempo e levou-me em direção a uma cabana. Não era tão velha, mas era afastada da cidade. Enquanto minhas pernas pareciam se recusar a seguir o caminho, minha mente só pensava que seria o melhor para mim. Além disso, ela sabia o meu nome, e o que uma mulher tão linda e aparentemente frágil seria capaz de fazer contra mim?

Quando chegamos, meus olhos se prenderam ao homem alto no interior da cabana. A estrutura de madeira era estranhamente aconchegante, como se estivesse pronta para a minha chegada, que não parecia ser esperada pelo homem de dentro.

— O que é isso, Katherina?

Seu rosto irritado e cansado me fazia tentar entender que tipo de pessoa ele era. Suas roupas eram largas, apesar de seu tamanho. O cigarro em suas mãos não estava aceso, e ele não parecia querer acendê-lo, mas mesmo assim o levara à boca.

— "Isso" é o Henrich, meu namorado — ela responde. Um sorriso instantâneo surge em meus lábios. — Não se lembra dele? — ela complementa.

Ele resmunga enquanto Katherina me levava para dentro da casa, chegando até um cômodo com escadas de madeira. Ela fez um gesto para que eu subisse. Diferente da sensação que tive quando vi aquela mulher pela primeira vez, eu tinha certeza de que nunca havia entrado lá. Ela me mostrou um sorriso que parecia sincero e me deu algumas roupas limpas para que eu pudesse vestir.

Antes de sair, Katherina se virou para mim novamente.

— Tem algo com você que te faça lembrar de algo sobre você mesmo?

Olho em meus bolsos, encontrando um dispositivo celular que é rapidamente tirado de minhas mãos antes de ser derrubado por Katherina. Sinto um arrepio, como se eu não devesse estar nessa casa, como se eu não tivesse o controle de ações ou emoções.

— Ah, me perdoe, pareceu proposital?

Talvez, naquele momento, eu tenha até pensado em dizer a verdade, mas por educação ou algo maior, respondi que não. Ela então se vira em direção à escada, saindo silenciosamente e me encarando até onde conseguia. Depois que aquela mulher saiu de minha visão, eu só conseguia pensar em quão estranho era aquilo.

Meu celular estava quebrado em muitos pedaços no chão daquele quarto. Eu só queria ser qualquer pessoa do mundo, menos eu mesmo. Por que me sentia tão ameaçado naquele lugar? Se eu realmente morasse ali, por que não havia nada que parecia ser meu? Onde estivera a não ser em casa por um período de tempo que nem consegui contar? Eu me perguntava por que tinha que seguir essa mulher, aonde fui parar? Mas não importava, eu nem fazia ideia de quem era, por isso faria o que fosse preciso para descobrir. Mas eu realmente precisava?

Eu não queria descer, mas fui obrigado por mim mesmo. Depois de colocar as roupas emprestadas, desci por aquela escada que parecia que ia cair a qualquer momento. A cada degrau, sentia uma sensação estranhamente quente e embriagante, como se meu corpo estivesse condenado, seguida por uma tontura nauseante e dor de cabeça, acompanhada por um cheiro doce no ambiente.

Ao finalmente descer a escada, vou correndo para a sala de jantar, onde parecia ser o único cômodo com movimentação. Sorrisos falsos e cheios de irrealidade tomam minha mente. Ouço gargalhadas vindas de aparentemente lugar nenhum; cores se misturam, se tornam vivas e sobem para, imediatamente, caírem no chão. O estrondo é tão alto que caio no chão de forma repentina. Com as mãos em meus ouvidos, vejo o ambiente ao redor escurecer. Eu queria, queria gritar para que alguém ouvisse meu desespero, mas nada saiu. Aonde estavam as pessoas na sala? Isso não estava certo. Eu não queria me render para a escuridão, mas era o que eu podia fazer. Desisti de lutar e apaguei.

Quando acordei, estava em um carro sendo levado para algum lugar. Para onde? O que aconteceu? Com certeza não foi algo normal. Olho ao redor e vejo as mesmas duas pessoas de mais cedo. Eu queria que tivesse sido só mais um sonho ruim, mas, pelo visto, não foi.

— Katherina, seu namorado está acordado de novo.

Escuto aquela mesma voz de antes, uma voz tão áspera que me fez arrepiar. Era ele mesmo, aquele homem de antes que, dessa vez, parecia estar menos estressado. Me viro para que possa ver o banco ao lado, e lá estava ela, a mulher mais linda que conheci (ou de que me lembro). Ela me dá um sorriso despreocupado, de alívio, então olha pela janela e diz suavemente:

— Vamos ver o que aconteceu com você, estamos indo a um médico que conheço. Mas eu ainda suspeito que sua reação possa ser devido a um produto de limpeza que devo ter despejado demais.

Ouvi-la falando era quase impossível, já que a minha concentração já não era muito boa. Era confortável ficar no carro ouvindo o barulho das pessoas de fora. O mundo é tão grande e colorido, e é tão engraçado e estranho pensar que todas as pessoas que vejo têm vidas diferentes. Depois de um tempo pensando, finalmente chegamos ao hospital. Katherina relatou a situação enquanto eu estava sentado na recepção. Então, ela me disse que nos mandaram esperar por mais sintomas e simplesmente voltamos para casa, com um remédio que tomei praticamente todos os dias depois daquilo. Mas isso não está certo, certeza de que o que aconteceu não foi normal.


Já faziam alguns dias que eu estava nessa casa, então me acostumei com a minha nova realidade, que de algum jeito era boa. Sempre que eu acordava, já tinha café da manhã pronto e o cheiro era ótimo, mas essa casa me deixava desconfortável de alguma forma. Descobri que o homem dentro da casa se chama Herium e é irmão de Katherina, depois de algumas conversas constrangedoras de quando ela não estava em casa. Ela sempre se recusava a me deixar sair ou me deixar sozinho. Eu me sentia uma criança pequena que precisava de proteção constante, mas até que ela saía bastante devido ao trabalho, do qual ela nunca me contou a função.

Com tantas conversas estranhas e às vezes engraçadas, até que eu e Herium éramos amigos, mas eu não confiava nele. Sentia que estava sempre me escondendo algo... algo sobre mim que eu precisava saber.

Eu não me lembro da última vez que saí de casa por vontade própria, mas queria conhecer o mundo além dali. Era ruim ficar sozinho com Herium; ele sempre tentava se aproximar de mim de algum jeito estranho, mas eu não gosto de toques ou abraços. Ele parecia perceber, apesar de nunca ter me pedido. Eu gostava de caminhar pela casa quando Katherina estava fora, ir para o segundo andar, olhar pela varanda e me imaginar em algum cenário fictício, em um mundo distante. Também gostava de conhecer um pouco mais da casa a cada dia, por exemplo, o quintal de trás que tinha uma casinha da qual nunca consegui achar a chave, ou um quarto que nunca vi aberto, mas nunca lembrava de pedir para Katherina abrir para mim.

Um dia, enquanto Katherina estava fora de casa, Herium me contava fatos desinteressantes sobre times de futebol, o que eu odiava, mas quando estávamos nós dois sozinhos, isso era a melhor coisa que ele podia dizer. Eram 23 horas e ele parecia amigável até demais. Quando a nossa conversa entediante pareceu ter terminado, fui me deitar e descansar um pouco à espera de Katherina, e então recebi um convite inesperado.

— Você não quer sair um pouco de casa? Só fica aqui sempre — ele me disse com um olhar estranho. Confesso que tenho um medo dele, mas o que eu mais queria era sair um pouco.

— A Katherina não gostaria disso... mas para onde você me levaria?

— É uma surpresa. Se arrume e eu te espero no carro.

Eu definitivamente não gosto de surpresas, mas fui trocar de roupa rápido para que ele não ficasse esperando. Ele sempre foi tão estranho e grosso comigo que pensei que ele nem gostava de mim; às vezes zombava de mim discretamente, me chamando de fraco em várias situações. Talvez quisesse se redimir comigo? Terminei de me vestir. Por um segundo, achei que ele me enganaria, me deixaria sozinho e iria embora sem mim, mas ele estava lá. Ele buzinou para que eu entrasse no carro, então abri a porta e me sentei.

— Para onde nós vamos então? — perguntei confuso.

Isso era tão esquisito, era como se fôssemos amigos? Eu odiava esse cara, mas queria sair de casa e descobrir mais sobre mim — o que qualquer um com uma memória apagada e falha, jogado em uma cabana desconhecida, faria.

— Já disse que é um segredo. Quero conversar com você fora de casa, em um lugar mais confortável; as paredes têm ouvidos. Aproveite, eu não faria isso para qualquer pessoa, "cunhado".

Então me calei e fomos para esse tal lugar. Enquanto ele dirigia, conseguia ver o quão longe aquele lugar era da cidade, bem mais do que eu me lembrava. Passamos por tantos lugares bonitos que eu torcia para que fossem o lugar surpresa. Era bem mais do que eu esperava: era o lugar que Katherina sempre dizia querer ir comigo, onde dizia juntar dinheiro toda semana para que pudesse me levar, o restaurante mais caro da cidade. Eu não tinha entendido no começo, mas aquilo parecia um dos encontros que eu via em filmes de romance com Katherina, e me sentia mal por não amá-la de verdade. Não sabia que isso realmente acontecia na vida real, mas éramos dois homens, eu não conseguia entender.

Então, saí do carro e esperei que ele saísse. Quando saiu, entrou rápido sem me esperar e se sentou em uma mesa com duas cadeiras. Fui atrás dele.

— O que é isso? Essa é a surpresa?

— Claro, não gostou? Estamos saindo como amigos, finalmente — ele me disse sorrindo.

— E o que você queria me dizer antes? Pode me falar agora, não estamos mais em casa — eu digo, um pouco irritado e cansado. Eu realmente estava com sono, e queria que minha primeira vez nesse restaurante fosse com a Katherina, só nós dois.

Depois de um longo tempo conversando com Herium, percebi que ele não era tão ruim; na verdade, nos dávamos bem. Voltamos para casa e fui direto para a cama, sem nem pensar no que ele não havia me dito, e desmaiei de sono.

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