Capítulo 1 - Mármore

O nascimento da beleza é sempre uma farsa geométrica.
A profanação, por outro lado, possui uma honestidade quase cirúrgica.
Era o que eu pensava enquanto organizava os projetores na sala escura do subsolo.
O curso de sábado à tarde atraía um público distinto daquele da universidade — menos preocupado com créditos acadêmicos, mais ávido por uma transcendência difusa que a rotina moderna lhes subtraía.
Eu mantinha a distância habitual.
O terno escuro, o timbre controlado e a linha rígida dos meus ombros funcionavam como a moldura de um quadro que ninguém deveria ousar tocar.
Se interpretavam minha austeridade como arrogância, tanto melhor.
A arrogância afasta.
O isolamento preserva.
— Hoje — comecei, projetando a imagem na parede de pedra — não falaremos da Primavera ou do Nascimento de Vênus sob a ótica confortável dos manuais.
Pausa.
— Falaremos sobre Sandro Botticelli e a profanação do corpo através do desespero.
A luz cortou a sala.
A imagem surgiu.
Não era uma de suas composições etéreas, mas uma obra tardia, quase sufocante: uma mulher sentada nos degraus frios de um palácio, o rosto oculto entre as mãos, as vestes desfeitas diante de uma porta monumental e trancada.
— Observem a arquitetura — disse, começando a caminhar. — Ela não abriga. Ela oprime.
Mantive as mãos presas atrás das costas.
Sempre presas.
— Botticelli, que outrora celebrou a carne com leveza quase indecente, aqui a submete.
— Ele já não pinta o desejo.
— Pinta a culpa que vem depois.
Evitei olhar diretamente para o grupo.
Olhos são convites.
E eu não aceitava convites.
— Influenciado por Savonarola, o corpo deixa de ser elevação e passa a ser problema.
— Algo a ser corrigido.
— Controlado.
— Contido até desaparecer.
Parei diante da projeção.
Perto demais outra vez.
Percebi.
Não recuei imediatamente.
— Reparem nas vestes — continuei. — Não há fluidez.
— O tecido quebra, endurece, cria ângulos que parecem ferir o corpo que cobre.
— Como se o próprio ato de existir dentro daquela matéria já fosse um erro.
Uma cadeira rangeu ao fundo.
Alguém mudou de posição.
Registrei.
Ignorei.
— A dor não está na exposição — minha voz baixou, forçando o grupo a inclinar-se levemente para frente —
Pausa.
— mas na recusa.
— Naquilo que é negado.
— A porta fechada não apenas impede a entrada...
Silêncio.
— Ela define um limite.
Passei a língua discretamente pelos lábios secos.
— E tudo o que existe além dele deixa de pertencer a quem está aqui.
O silêncio se adensou.
Denso o suficiente para ser percebido.

Na quarta fileira, ligeiramente deslocada para a esquerda para escapar da luz direta da projeção, Lila não piscava.
Era sua quarta aula consecutiva.
Os afrescos nas paredes já não a distraíam.
Ou talvez distraíssem — mas de outro modo.
Como se fizessem parte de um fundo distante, quase líquido, onde as coisas existiam sem exigir atenção completa.
Nada ali a chamava de verdade.
Exceto ele.
Toda a sua atenção convergia para o homem no tablado — não como uma escolha, mas como um pequeno desvio inevitável.
Como quando o olhar encontra luz sobre água e demora mais do que deveria.

Havia algo ali.
Não exatamente beleza.
Peso.
E Lila não estava acostumada ao peso.
Sempre vivera sob o signo do allegro — da leveza que antecede o pensamento, dos gestos que surgem antes da decisão, dos sorrisos oferecidos ao avô entre uma xícara de café e outra.
Como se a vida fosse algo que se atravessa com delicadeza suficiente para não marcar.
Aquilo, porém, não era leve.
E, ainda assim, a prendia.
Frederico não a convidava.
Não a acolhia.
Não a via.
E, mesmo assim, algo nele parecia dobrar o espaço ao redor.
Como se a sala, discretamente, passasse a existir em função da presença dele.
Lila inclinou levemente a cabeça.
Observando.
Não como quem analisa.
Como quem tenta escutar algo que ainda não tem forma.
A linha do maxilar dele permanecia tensa, mesmo quando descrevia a mistura de pigmentos.
As mãos — como nas aulas anteriores — nunca se descruzavam completamente.
Como se segurassem algo invisível.
Ou impedissem algo de escapar.
A ideia surgiu sem esforço.
E ficou.
Lila franziu levemente a testa.
Não por dúvida.
Por sensação.
Para alguém que sempre existira no movimento — onde o corpo sabe antes, onde o gesto nasce pronto, onde o mundo não exige contenção — aquilo era estranho.
Não era frieza.
Era vigilância.
Uma coreografia rígida de quem se observa o tempo inteiro.
Um corpo que não se permite esquecer de si.
— Professor — uma voz rompeu o silêncio.
Lila demorou um segundo a voltar.
Como quem retorna de um lugar sem nome.
— Pode-se dizer que Botticelli se arrependeu da beleza que pintou na juventude?
Ela virou o rosto.
Mas não para o aluno.
Para ele.
O quase-sorriso surgiu no canto da boca de Frederico — breve, contido, interrompido antes de existir por completo.
Não era humor.
Era contenção.
Outra vez.
O olhar dele percorreu a sala.
Sem tocar.
Passou por ela.
Sem parar.
E, por alguma razão que Lila não tentou entender — porque entender exigiria peso demais — isso a afetou.
Como uma corrente de ar frio em um ambiente fechado.
— O arrependimento é uma categoria teológica, não artística — respondeu ele.
A voz veio mais próxima dessa vez.
Mais definida.
Como se tivesse atravessado alguma camada invisível até alcançá-la.
Lila sentiu o próprio ritmo interno mudar.
Não mais leve.
Mais atento.
— Botticelli não se arrependeu da beleza.
— Ele apenas compreendeu que ela não era suficiente para salvá-lo do caos.
Pausa.
— Quando você sente além do que a moldura suporta...
Lila prendeu a respiração.
— a única alternativa não é preservar.
Silêncio.
— É rasgar.
O silêncio que se seguiu não era ausência.
Era presença demais.
Denso.
Como o instante antes de um movimento que ainda não começou — mas já existe.
Algo naquela frase não chegou como pensamento.
Chegou como sensação.
E, sem saber exatamente por quê, Lila lembrou das cartas que escrevia à noite.
Palavras escolhidas com cuidado excessivo para alguém que ainda não existia.
Mas que, de algum modo, ela esperava reconhecer.
“Espero que saiba chegar devagar...”
Devagar.
Ali, porém, nada parecia realmente lento.
Havia algo sob a superfície.
Algo que não cabia.
E isso a inquietou — não como medo, mas como deslocamento.
Frederico já havia mudado o slide.
Falava agora da Divina Comédia, dos círculos do Inferno, com a precisão de quem descreve não um conceito...
Mas um território conhecido.
Lila inclinou mais um pouco a cabeça.
Quase imperceptível.
Observando.
Não o conteúdo.
Mas o intervalo entre as palavras.
O que não era dito.
Que tipo de dor exige tanta forma?
Que tipo de impulso precisa ser contido com tamanha exatidão?
E então, pela primeira vez, algo atravessou seu pensamento com suavidade suficiente para não ser recusado:
E se aquilo que ele guarda...
não quiser ser salvo?
Lila não se moveu.
Mas algo nela — leve como sempre — deixou de ser apenas leve.
E começou, silenciosamente, a prestar atenção no peso.









Amei a escrita! Delicada e poética!
Mas esse amor, vai acontecer?
com tantas diferenças entre eles?
louca pra saber 😁
Enredo envolvente. Mas ele parece realmente um mármore a passar pelo corte! Tomara qjw Lá consiga com toda sua fluidez.