CAPÍTULO 1: Outro mundo
Uma melodia longa e melancólica de uma flauta propagava-se pelo ar. Uma menina pequena a tocava, acima do escorregador, pressionando seus dedos cobertos de terra em cada furo de tom.
— O que achou? — perguntou, esboçando um sorriso radiante a seu irmão.
Rodrigo, um jovem de 22 anos, reagiu em um silêncio ensurdecedor, com lágrimas partindo dos seus olhos desgastados até cair ao queixo.
— Por que tá parado aí? Não me ouviu, não?
Ele passa a mão sob o rosto, enxugando as lágrimas.
— Ouvi sim, isso foi incrível, Laura! — Ele segura a mão de sua irmã, suja de terra, e se limpa na camisa. — Já está tarde, lave suas mãos e vamos embora. Temos que acordar cedo amanhã.
O barulho do despertador o interrompe. Rodrigo sobressaltou-se em sua cama, com os olhos semiabertos. Olhou sua escrivaninha de madeira riscada, sua cadeira de escritório quebrada e a porta de seu guarda-roupa quase pulando pra fora.
— De novo... esse sonho — murmurou, levantando-se da cama e caminhando ao quarto de sua irmã.
— Laura, tá na hora. Vamos — chamou, batendo quatro vezes na porta.
Ela abriu, vestida com seu uniforme escolar e com sua bolsa preparada.
— Eu já tô pronta — Ela o olhou, com o rosto contraído. — Você não se arrumou? Faltam 20 minutos.
Suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente. Rodrigo correu até a sala e olhou o relógio:
6:40
— Por que não me avisou antes, droga!
Desajeitado, correu até seu quarto e se trocou em um piscar de olhos. Laura o esperava, rindo dos movimentos desengonçados dele.
— Sabia que os alienígenas não vieram do espaço? Eles vieram do mar.
— Não é hora para isso, a gente vai se atrasar! — ele rosnou, enfiando o pé às pressas no sapato.
— Você quase nem liga para o que eu digo, chato. — Ela virou as costas, com os braços cruzados.
— Pronto, vamos para o carro. — Ele abriu a porta da frente, tentou virar a chave várias vezes para fechá-la. — Não tá indo, droga, vai!
Após poucas tentativas, desistiu e levou a chave consigo. Entrou no carro, colocou sua irmã no banco de trás e girou a chave, pisando no acelerador o máximo que pôde.
Ao chegar na escola com a visão ofuscada pelo sol, o estacionamento estava cheio. Com o sangue fervendo, estacionou no meio da rua, destrancou o carro e ajustou a alça da mochila dela no ombro rapidamente.
— Se cuida, Laura. Tchau — acenou sua mão bruscamente, pisando no acelerador.
Na calçada, ela acenou lentamente de volta, com os olhos caídos.
— Laura, finalmente você apareceu de novo. Já achei que tivesse mudado de escola — o diretor a recebeu em frente ao portão de ferro enferrujado. — Entre, a aula já vai começar. Sua sala é do terceiro ano, do fundamental, lembra?
— E como eu ia esquecer isso? — retrucou, andando à sua sala, enquanto ele desviou o olhar, constrangido.
Ela chega em sua sala, com cartazes aleatórios pendurados na porta por fita adesiva. Bate três vezes antes de entrar.
— Entre! — a professora exclama.
Ao abrir, viu diversos lugares desocupados — metade da turma não vinha mais.
Ela se sentou na cadeira mais próxima e retirou seus materiais da mochila, um a um, enquanto crianças berravam à tona em seus tímpanos.
— Ei, qual seu nome, garota? — A menina tinha cabelo preto, liso e úmido, com olhos tão verdes a ponto de cheirar a mato fresco. Sua expressão era mais hostil do que um lobo faminto.
— Meu nome é Laura. Esses olhos são reais mesmo? — perguntou, sem nenhuma expressão.
Ela respirou fundo e bateu seu pé na mesa de Laura, derrubando seus lápis.
— E por que não seria? Tá com inveja?
— É mais fácil ter inveja de qualquer um do que de você — retrucou, roubando dois lápis da garota e os quebrando, com um olhar fulminante. — Agora estamos quites? Ou vai continuar?
A menina acenou lentamente com a cabeça.
— Só vou me desculpar porque gostei das suas tranças — elogiou, soltando um riso frouxo. — Meu nome é Beatriz, e eu gostei de você. Vou ser sua nova melhor amiga a partir de hoje.
Beatriz ergueu a mão para sua amiga, e Laura ergueu também, desconfiada. As duas apertaram as mãos uma da outra.
— Anda mais rápido, vai!
Já haviam se passado 32 minutos desde que Rodrigo saiu de casa. Ele trabalha no supermercado Starcolder no centro da cidade. Além do motor falhar, a roda do carro já furou duas vezes. Ao chegar, estacionou o carro sem controle sob sua respiração, abriu-o ligeiramente, correndo até seu depósito. Lá, viu seus colegas segurando baldes enquanto pisavam em enormes poças de água.
— O que aconteceu aqui?
Em sua frente, seu chefe o encarava. Naquele momento, ele quis se trancar em uma caixa e nunca mais abrir.
— Você atrasou novamente. Que porcaria, hein! Será que um dia você vai chegar mais cedo? Um único dia!?
Com a visão turvada pelo ódio, respirou fundo e o respondeu:
— Me desculpe...
— Não tem essa de desculpa. Se você se atrasar de novo, estará na rua!
Calado, continuou seu caminho a seu armário número 12. O lugar cheirava a papelão e mofo, e pra piorar, seu colega Joaquim, um jovem de 19 anos, o seguiu.
— Caramba... que esporro.
— Vai ficar me seguindo ou vai trabalhar? — rosnou, enquanto Joaquim disfarçadamente ria.
— Eu só tô tentando saber o que houve, ué. Tem problema se preocupar com os amigos? Por que atrasou hoje?
— Nada demais — disse, cerrando seus punhos.
— Tá bom, então. Precisamos arrumar essa bagunça, tá vazando água em todo lugar aqui.
O tempo voou, e o pôr do sol surgiu mais cedo.
Na escola, Beatriz guardou seus materiais. O sinal tocou, e as crianças saíram atropelando tudo no caminho.
— Laura, você não vai guardar seus materiais?
Distraída em meio à multidão, encolheu os ombros.
— Eu não vou embora agora, só vou embora depois.
— Depois quando? Já vai anoitecer.
— Tenho que esperar meu irmão me buscar. Ele chega só depois.
Beatriz arregalou os olhos, indignada.
— E você vai ficar esperando aqui? Vai ouvir seu irmão? Não achei que você fosse tão boba. Por que não vai sozinha?
— Eu não posso ir. Nenhuma criança pode.
— Então vai comigo. Eu te levo. Você é chata, mas ainda é minha nova melhor amiga.
Uma luz abriu nos olhos de Laura. Ela nunca havia ido sem que o irmão a buscasse.
— Entendi. Vou com você. Só quero ver a cara dele quando chegar em casa.
Ela arrumou seus materiais e os colocou na mochila, transbordando de felicidade.
As duas passaram pelo portão de ferro da escola, e Beatriz apontou para o carro de seu pai.
— Olha, é aquele ali! Meu pai vai te deixar na sua casa. Você só precisa dizer onde é pra ele que ele leva. — Beatriz abriu a porta para Laura entrar. — Pai, essa é a Laura, minha nova melhor amiga. Pode levar ela na casa dela?
O pai de sua amiga estava pálido, com uma jaqueta preta e uma boina. Seus olhos pareciam não ter cor alguma. Laura logo o estranhou: o homem não dizia qualquer palavra, nem mexia nenhum músculo.
— Tá tudo bem com seu pai, Beatriz?
— Está sim. Por quê?
O homem seguiu em diante, apenas movendo os braços para controlar o volante.
— Ufa, finalmente acabou nosso turno, não é, Rodrigo?
Ele destrancou seu armário e levou sua mochila.
— Não vai me dar tchau de novo, não? Tá bom, tchau.
Rodrigo abriu seu carro e o acelerou para buscar Laura. A luminosidade da lua estava mais forte naquela noite. Seu corpo estava tenso: fazia uma hora que deveria ter buscado sua irmã.
Quando chegou, percebeu os portões fechados. Franzio a testa, pois o portão devia ficar aberto — sua irmã estava lá.
Ele bateu no portão uma vez. Ninguém atendeu. Angustiado, bateu novamente, mas ninguém atendia. Começou a andar de um lado para o outro. Passaram-se 5 minutos, 10 minutos, 20 minutos, mas ninguém atendeu. Não havia mais ninguém na escola.
Seu coração estava martelando contra o peito. Ele ligou o carro e foi até sua casa rapidamente, tão rápido quanto um guepardo faminto. Quando chegou, pisou no freio e estacionou o carro sem cuidado nenhum. A primeira coisa que viu foi a porta aberta.
Para ele, qualquer som havia desaparecido. Seus passos eram curtos demais. Ele entrou: o ar estava gelado, mais gelado do que o normal.
Olhou a cozinha — não tinha ninguém.
Olhou a sala — não tinha ninguém.
Olhou seu quarto — não tinha ninguém.
O frio e o desespero aumentaram a cada passo e respiro que dava. No quarto de Laura, havia algo incomum.
Luminoso, frio e sereno.
Era um outro mundo.








