Prólogo
Beirava às dez da noite e, consequentemente, o Fix Burger estava vazio, com apenas sete pessoas distribuídas em duas mesas distantes. Elizabeth, como em todos os últimos dias, estava ansiosa, pois sabia que era o horário em que ele apareceria. Seus pensamentos mal se interligavam dentro de sua cabeça, mas todos eles cessaram na hora em que aqueles lindos olhos azuis cruzaram a porta de entrada.
— Boa noite para minhas garotas favoritas! — Jason indagou e logo aproximou-se de Dana e Naomi, que já o esperavam com largos sorrisos. Ele passou por trás do balcão e as abraçou ao mesmo tempo; em seguida, beijou a testa de cada uma delas.
— Vai querer o de sempre? — Naomi o questionou.
— Você me conhece, Na! — ele piscou para ela, que prontamente foi para a cozinha preparar seu jantar.
Imediatamente seu olhar se encontrou com o de Elizabeth e o rapaz aproximou-se dela, pousando a mão esquerda em sua cintura e repetindo o beijo na testa que dera nas meninas segundos antes.
— Como está minha garota favorita um pouco mais favorita do que as outras? — ele fitou-a com olhos profundos e ela corou.
— Estou bem. — Elizabeth respondeu com um sorriso tímido. Estava nervosa pela proximidade de Jason.
Um casal adentrou a lanchonete e Dana foi propositalmente atendê-los para deixar Elizabeth e Jason a sós no balcão.
— Você sabe que o senhor Johnson não gosta das suas entradas no balcão. — A morena o advertiu calmamente e ele a obedeceu, saindo de trás do balcão e sentando-se em um banco de frente para ela.
— Eu acho que ele já se acostumou. Tem dia que ele nem reclama. Ele sabe que eu sou o cliente mais fiel dele! — Jason disse convencidamente e Elizabeth não conseguiu segurar sua risada.
— Qualquer dia desses eu ainda gravo essa sua risada de bebê para pôr como meu toque de celular. — Ele brincou, fazendo-a corar novamente.
Elizabeth o achava incrível. Por mais que fingisse não se importar, ela não conseguia esconder que estava se apaixonando cada vez mais por ele.
Ao perceber que deixara Elizabeth envergonhada, Jason mudou drasticamente o rumo do assunto.
— Como estão os preparativos para o baile? Já desistiu de ir com o babaca do seu ex?
Elizabeth o fitou seriamente.
— Não vamos começar com isso de novo, né? — ela pediu.
— Eu já disse que posso ser uma companhia melhor do que ele...
— E eu já disse que você não precisa fazer isso. Você é um universitário, Jason. Já teve o seu baile de formatura e já passou da fase de ir a bailes de colegiais.
— Por você eu voltaria para essa fase. — Ele justificou-se com um lindo sorriso ao final.
Jason era estudante da Universidade de Stanford, e teria um promissor futuro como médico. Havia mais ou menos cinco meses, ele se mudara para um apartamento próximo ao Fix Burger e começara a frequentar a lanchonete todas as noites após as aulas. Para Elizabeth, inicialmente ele pareceu apenas mais um idiota que ficava cortejando as garçonetes; entretanto, os dias de longas conversas a fizeram perceber que ele tinha algo de diferente dos demais. Era como se os dois fossem melhores amigos de longa data, mesmo que seus encontros se limitassem a duas horas por dia no ambiente de trabalho de Elizabeth.
Jason era um cavalheiro com Naomi e Dana, entretanto sempre demonstrou expressamente seu interesse por Elizabeth, mas ela nunca levou suas investidas a sério, até porque, dois meses atrás, ainda namorava Peter, seu primeiro namorado oficial. Após o término, Elizabeth abriu sua mente e principalmente seu coração, e percebeu que se sentia diferente em relação a Jason, mas nunca chegou a aceitar os convites dele para terem um encontro de verdade, pois não se sentia preparada para um relacionamento novo.
— Obrigada, Jason, não precisa. Eu já me decidi... — Elizabeth reafirmou sua decisão acerca do baile e lançou um olhar definitivo para ele.
— Ok, não toco mais no assunto, mas, por favor, não caia na dele de novo. — Ele a alertou e Elizabeth assentiu prontamente.
Peter Morales, ex-namorado de Elizabeth, era um colega de classe da morena que, desde sua chegada à escola, já havia demonstrado interesse em ficar com ela. Ela, mais jovem e ciente de suas "habilidades de sedução", fez-se de difícil durante um tempo até ceder às investidas do rapaz. O início do namoro pareceu satisfatório para os dois. Não é como se Elizabeth o amasse, mas aproveitava sua companhia. Com o tempo, porém, o relacionamento foi se desgastando, até chegar ao ponto em que o rapaz a traiu diversas vezes e ela, tola, o perdoava sempre. O relacionamento abusivo durou cerca de três anos, até Elizabeth finalmente se cansar e terminar de vez com o rapaz.
O problema, no entanto, foi que Peter havia a convidado para o baile antes de terminarem e, implicitamente, o convite foi anulado com o término. Mas os pais de Elizabeth amavam Peter e nunca souberam das traições do rapaz. Por insistência deles, Elizabeth aceitou acompanhá-lo com a condição de nunca mais interagirem após o evento.
A morena estava ansiosa pelo baile, não por ele em si, mas pelo que viria depois: a liberdade, o término oficial e a possibilidade de ficar com Jason.
— Ei, olhe para mim. — Jason segurou carinhosamente as mãos de Elizabeth, fazendo todo seu corpo se arrepiar. — Quando vamos sair? Você sabe que eu adoro nossas conversas noturnas no seu trabalho e, sem sombra de dúvidas, adoro te ver nesse vestidinho de garçonete, mas a gente podia tentar algo diferente.
Elizabeth riu com sua indiscrição e afastou lentamente suas mãos das dele; estava com receio de começar as coisas entre eles rápido demais.
Jason, percebendo o afastamento de Elizabeth, ajeitou-se no banco de modo que se aproximasse mais ainda dela.
— Me diz a verdade: você ainda sente algo pelo Peter? Porque, se sim, eu posso te fazer esquecê-lo bem rápido.
Ela riu.
— Não, eu e Peter acabamos. Eu não quero nunca mais voltar com ele.
Elizabeth o encarou e seus olhos verdes significaram muito para Jason naquele momento; ele abriu um lindo sorriso que Elizabeth compartilhou.
— Então eu te busco amanhã às oito, porque amanhã é seu sábado de folga. — Ele falou e Elizabeth se surpreendeu.
— Como você sabe que é o meu sábado de folga? — perguntou divertidamente.
— Eu decorei suas folgas, Liz! São meses de tentativa! Eu vigiava seus dias de folga para te chamar para sair e você não arrumar uma desculpa, mas sempre tinha uma... — Jason fez beicinho e Elizabeth riu de sua palhaçada. — Eu prometo que, se você não gostar, eu nunca mais te procuro, mesmo sabendo que não é isso que você quer. — Ele indagou convencidamente.
— Como você se acha! Está lendo mentes agora, doutor? — Elizabeth perguntou em tom de flerte.
— Eu sempre li! Bom, só a das mulheres. Ou melhor, das interessantes.
Ele brincou e ela negou com a cabeça enquanto ria bobamente.
Jason analisava cada traço de sua feição, seu sorriso, as sobrancelhas perfeitas, as bochechas coradas e aqueles olhos verdes hipnotizantes e tão significativos. Ele aproximou-se lentamente dela e os olhares se encontraram; logo depois, as bocas se selaram. Não era o primeiro beijo que compartilhavam, mas definitivamente era o mais verdadeiro e apaixonado.
Elizabeth pensou por um momento em se afastar, mas Jason parecia ter previsto isso e pôs uma de suas mãos no queixo dela para que o beijo se prolongasse. Uma falsa coçada de garganta foi o que os afastou, envergonhados, e Naomi sorria ironicamente com a comida de Jason em mãos.
— Percebi que você se serviu antes da minha chegada. — Ela brincou e Elizabeth a repreendeu com o olhar, extremamente constrangida.
— Desculpa, Na, eu não aguentei esperar. — Jason entrou na brincadeira, fazendo-as rir.
Habitualmente, Jason jantou conversando com as meninas enquanto o movimento no Fix Burger era ameno; quase não tinham mais tarefas. Para Elizabeth, a noite estava perfeita. Sua relação com Jason havia subido um novo degrau e nada poderia estragar o que ela estava sentindo... pelo menos era o que pensava, pois algo aconteceu.
Em meio à conversa animada dos quatro, ouviram-se dois tiros seguidos e, pelo som, pareciam bem perto. Imediatamente as meninas se abaixaram atrás do balcão e Jason e os três outros clientes presentes os seguiram. Elizabeth tremia bastante e Jason, percebendo, apertou a mão dela à sua.
— Vai ficar tudo bem. — Ele garantiu, beijando a testa de Elizabeth em seguida.
Quando ela olhou para Naomi e Dana abraçadas, tomou outro susto com um violento abrir de portas e com os gritos desesperados de uma mulher e um bebê.
— Socorro!!! Ele está atrás da minha filha!!!
Assim que a mulher gritou tal frase em meio aos prantos, Jason ensaiou levantar-se, mas involuntariamente Elizabeth o impediu ao apertar sua mão na dele, começando a chorar em seguida.
— Calma, eu preciso ver o que está acontecendo. Tem um bebê chorando, ele pode estar ferido. — Jason se justificou e levantou cautelosamente.
Ao mesmo tempo, a porta foi aberta novamente e, de baixo, Elizabeth viu Jason levantar os braços em rendição, causando um frio inexplicável em seu estômago; ela sabia que o autor dos tiros estava presente. Dana puxou Elizabeth com força para seus braços e ela abaixou a cabeça, chorando intensamente.
— Não deixa ele pegar a minha filha, ele é doente!!! — a mulher gritou em meio ao som quase ensurdecedor do choro do bebê.
— Ela é minha filha também!!! — o homem que apontava a arma para a mulher com o bebê gritou de volta.
— Senhor, tente se acalmar. É a sua filha que está aqui, você não quer machucá-la. — Jason afirmou lenta e cautelosamente, ainda com os braços levantados.
— Não se aproxime senão eu atiro em você, moleque!!! — O homem gritou, fazendo Elizabeth se arrepiar novamente. — Ela só sai daqui viva se for comigo!!!
— Não deixa ele levar minha filha!!! — A mulher repetia constantemente.
Jason movimentava-se de maneira imperceptível, com a intenção de chegar até a mulher para protegê-la.
— Se afasta dela!!! — O homem o ameaçou, apontando a arma para ele em seguida.
A mão que segurava a arma não era firme, mas, ainda assim, Jason temia. Foi em questão de segundos que Elizabeth ouviu mais um tiro, dessa vez bem alto. Dana apertou ela e Naomi em seus braços com tanta força que os braços das amigas chegaram a doer, mas aquela dor era imperceptível naquele momento.
Após o tiro, a mulher começou a gritar e Elizabeth, impaciente com o breve silêncio, quis levantar, mas o mesmo braço que a envolvia a impediu.
— O que você fez com ele!!! — A mulher gritou.
E foi aí que o tempo parou para Elizabeth. Sua mente ficou distante por segundos e só voltou ao ouvir mais um tiro.
— Alguém me ajuda!!! Alguém me ajuda!!!
Rapidamente, um dos clientes se levantou e impulsionou a saída dos demais e das meninas. O cenário era deplorável: o homem estava atirado no chão com um buraco na cabeça, causado pelo tiro, e uma poça de sangue o cobria. Próximo a ele estava Jason, caído, com a barriga ensanguentada.
Elizabeth correu até ele, tentando deixar sua cabeça confortável em seu colo.
— A ambulância está a caminho! — um dos clientes avisou.
— Por que você saiu de lá?! — Elizabeth questionou Jason enquanto suas lágrimas caíam sobre ele.
— Eu... — Jason tentou iniciar algo, mas não aguentava falar; o tiro havia sido bem próximo ao seu coração.
— Não precisa falar nada, está tudo bem. — Elizabeth acariciava seu rosto enquanto tentava afirmar para si mesma o que havia dito a Jason.
— Você não me resp... me respondeu... não disse... se aceita... sair... comigo...
— Mas é claro que eu aceito sair com você, Jason! Daqui a pouco você vai ser tratado e vamos ter o melhor encontro de nossas vidas! — Elizabeth forçou um sorriso apenas para confortá-lo, e ele retribuiu como pôde antes de não restar mais nenhuma expressão em seu rosto.






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