CHAPTER 1 — MAIS UM DIA
O despertador tocou às 6h da manhã como sempre — aquele som irritante que Aline já odiava antes mesmo de abrir os olhos.
Ela ficou deitada por alguns segundos, olhando pro teto do pequeno apartamento que dividia com Michele. O lugar não era grande coisa. As paredes tinham manchas amareladas, a janela do quarto deixava entrar um vento frio que nenhuma fita isolante conseguia segurar direito, e o cheiro de café velho impregnado no sofá da sala nunca saía por mais que ela lavasse as almofadas.
Mas era dela. Era o lugar onde ela se sentia, ao menos, um pouco segura.
— Aline, acorda logo senão vai se atrasar! — a voz de Michele ecoou do corredor, já animada demais pra aquela hora.
— Já tô acordada... — ela respondeu com a voz rouca, jogando o cobertor de lado.
Se levantou devagar, foi até o banheiro, olhou pro espelho. Cabelo loiro cacheado bagunçado, olhos azuis ainda pesados de sono. Ela passou água no rosto, respirou fundo.
Mais um dia.
Esse pensamento era o que ela repetia toda manhã como um mantra. Não porque a vida fosse boa. Mas porque era o que a mantinha em pé.
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Michele já estava na cozinha quando Aline saiu do banheiro com o uniforme da lanchonete — uma camiseta branca com o logo desbotado e uma calça preta que ela tinha remendado duas vezes no bolso traseiro.
— Tem café — Michele apontou pra xícara já separada na bancada sem nem olhar, mexendo no próprio cabelo na frente do espelhinho da geladeira.
— Obrigada. — Aline pegou a xícara e ficou encostada na bancada, tomando o café em silêncio.
Michele era sua melhor amiga desde os quinze anos. Tinha cabelo escuro, um sorriso fácil e uma energia que Aline nunca conseguiu explicar — do tipo que enchia o ambiente mesmo quando não falava nada. Eram opostas em quase tudo. Michele falava demais, Aline falava de menos. Michele ria até de coisa que não tinha graça, Aline sorria com cuidado, como se cada sorriso custasse algo.
Mas se tinha uma pessoa no mundo em que Aline confiava de verdade, era ela.
— Vai chover hoje — Michele disse, finalmente se virando. — Leva o casaco.
— Tô atrasada.
— Leva o casaco, Aline.
Ela largou a xícara na pia, pegou o casaco pendurado atrás da porta e saiu.
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O bairro ainda estava acordando quando ela pisou na rua.
As barracas de feira começavam a ser montadas na esquina, um cachorro vira-lata farejava o lixo perto do poste, e o ônibus — aquele mesmo 047 que ela pegava todo dia — já estava parado no ponto com a porta aberta, o motorista bocejando.
Ela correu.
Entrou ofegante, passou o cartão, foi até o fundo e ficou de pé segurando a barra de metal. O ônibus estava cheio do jeito de sempre — gente indo trabalhar, gente de fone de ouvido, gente olhando pro celular sem ver nada.
Aline olhou pela janela enquanto o ônibus avançava pelas ruas. Prédios velhos, muros pichados, uma padaria que estava sempre aberta, uma farmácia com o letreiro queimado na segunda letra. Ela conhecia cada detalhe daquele caminho. Tinha feito ele tantas vezes que seus olhos quase não registravam mais.
Dez minutos depois ela desceu.
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A Lanchonete do Carlos ficava numa rua de movimento médio — nem tão movimentada que ficasse cheia o tempo todo, nem tão vazia que justificasse fechar. Era um lugar simples: balcão de fórmica, quatro mesas com cadeiras plásticas, um cardápio na parede com preços escritos à mão e uma televisão no canto que ficava sempre no mesmo canal de notícias com o volume alto.
Aline entrou pela porta dos fundos como sempre, guardou o casaco no armário pequeno do corredor e amarrou o avental.
— Atrasada. — a voz veio antes mesmo que ela terminasse de virar.
Carlos estava encostado na porta da cozinha com os braços cruzados. Um homem velho, de uns sessenta anos, baixo, com barriga proeminente e cabelo grisalho ralo penteado pra cobrir a calvície. Ele tinha o jeito de quem passou a vida inteira mandando em gente menor e tinha gostado demais disso.
— Dois minutos — Aline respondeu sem desviar o olhar. — O ônibus atrasou.
— Não me interessa o ônibus. — ele se aproximou um passo. — Você entra às sete e meia. Não às sete e trinta e dois.
Ela não respondeu. Aprendeu faz tempo que responder só piorava.
Pegou o bloco de anotações e foi pro salão.
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A manhã correu sem grandes incidentes. Ela anotou pedidos, levou bandejas, recolheu copos, limpou mesa, sorriu pras pessoas que mereciam e ignorou as que não mereciam. O trabalho era mecânico o suficiente pra ela conseguir fazer no piloto automático, e era exatamente isso que ela precisava.
Foi por volta das dez da manhã que Carlos apareceu no salão.
Ela estava de costas, limpando o balcão, quando sentiu — antes de ver. Aquela sensação de alguém muito perto sem avisar. Ela se virou rápido.
Ele estava a menos de um metro dela.
— Você limpou as mesas do fundo? — ele perguntou, mas o tom não era de pergunta. Era de pretexto.
— Limpei. — ela deu um passo de lado, aumentando a distância.
Ele avançou junto.
— Carlos. — ela disse firme, olhando direto nos olhos dele. — Eu tenho trabalho pra fazer.
— Eu sei o que você tem que fazer. — ele disse baixo, com aquele sorriso que ela odiava — o tipo de sorriso que não era sorriso nenhum.
A mão dele se moveu em direção ao braço dela.
Aline se afastou antes que ele tocasse.
— Não. — ela disse. Uma palavra só. Clara.
O sorriso sumiu.
Ela sentiu antes de ver — a mudança no rosto dele, aquela escuridão que subia quando ele não conseguia o que queria. A mão que tinha ido em direção ao braço dela agora fechou o punho.
Não deu tempo de desviar.
A palmada no rosto veio rápida e seca, e por um segundo o mundo inteiro ficou em silêncio.
Ela ficou parada, a bochecha ardendo, olhando pro chão.
O salão estava vazio. Não tinha ninguém pra ver.
Era sempre assim.
— Vai trabalhar. — Carlos disse, como se nada tivesse acontecido, e voltou pra cozinha.
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Aline ficou parada por mais alguns segundos. Respirou. Uma vez. Duas.
Foi até o banheiro, abriu a torneira no frio e encostou os dedos no rosto. Não tinha marca visível. Nunca tinha. Ele sabia onde bater.
Ela olhou pro espelho.
Os mesmos olhos azuis da manhã. Só que agora sem o peso do sono — com outro peso. Aquele mais fundo, que ela carregava faz tempo e que não saía com água fria.
Mais um dia, ela pensou de novo.
Fechou a torneira. Ajeitou o avental.
E voltou a trabalhar.