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Assassinato no Palacete Imperial

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Summary

Petrópolis, 1887. O Império Brasileiro vive seus últimos suspiros. Nos elegantes salões da elite, brindes escondem conspirações e sorrisos mascaram interesses. Convidado para um baile da aristocracia imperial, o professor de filosofia Augusto Drummond jamais imaginaria que testemunharia um assassinato. Quando um diplomata português morre diante de dezenas de convidados, a explicação oficial é simples: ataque do coração. Drummond, porém, percebe detalhes que ninguém mais nota. Pouco antes de morrer, a vítima lhe confidenciou: "Os documentos já estão em lugar seguro." A partir daí, o professor mergulha em uma investigação que revela muito mais que um homicídio. Documentos secretos apontam para um esquema clandestino de tráfico de escravizados, envolvendo os nomes mais poderosos do Império. Em uma sociedade construída sobre aparências, a verdade pode ser mais perigosa que o próprio veneno. Com a ajuda da inteligente Beatriz Figueiredo, Drummond precisa descobrir quem matou o diplomata antes que o próximo corpo seja o seu. Entre bailes, conspirações e segredos, cada capítulo aproxima o leitor de uma pergunta inevitável: Quem está mentindo... e até onde alguém é capaz de ir para proteger o passado? Para fãs de mistérios históricos no estilo Sherlock Holmes, Hercule Poirot e Umberto Eco. Série Augusto Drummond — Volume 1 Todos os Direitos Reservados

Status
Ongoing
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - O convite ao palacete

A ferrovia subia a serra em curvas que pareciam pedir desculpas pela ousadia. Drummond olhava pela janela do vagão e via a neblina engolir o Rio de Janeiro pedaço por pedaço, primeiro os armazéns do porto, depois os telhados, depois o contorno úmido da baía, até que não restou nada além de mata fechada e o cheiro de terra molhada que entrava pela fresta da janela mesmo quando ela estava fechada.

O convite repousava dobrado no bolso interno do paletó. Ele não precisava relê-lo. Havia memorizado cada palavra na tarde anterior, incluindo a caligrafia inclinada para a esquerda do Conselheiro Albuquerque — o homem que assinava como se a caneta lhe custasse esforço físico — e a frase que lhe causava, ainda agora, uma sensação de dente partido na boca: sua presença certamente animará a conversação. Não honrará. Não engrandecerá. Animará. Como um malabarista. Como um macaco amestrado com diploma.

Drummond dobrou os dedos sobre o joelho e contou até quatro.

O vagão balançou numa curva e o homem sentado à sua frente — gordo, bigodudo, com uma corrente de ouro no colete que relampejou quando o sol fez o que raramente fazia naquele mês — agarrou a aba do chapéu como se o trem pretendesse roubá-lo.

"Vai ao baile dos Figueiredo?"

Drummond olhou para ele. O homem tinha o tipo de face que parecia sempre prestes a dar uma boa notícia.

"Vou."

"Está na moda dizer que não se vai." O homem puxou a corrente do colete com dois dedos, um gesto que não tinha propósito além de confirmar que a corrente existia. "Mas todo mundo vai. A febre amarela resolve muita coisa no Rio — clareia o calendário de um modo que o decoro nunca conseguiria."

Drummond não respondeu. O homem tomou o silêncio como encorajamento.

"O senhor é político?"

"Professor."

O homem piscou. Guardou a corrente com os dois dedos. Virou o rosto para a janela.

Drummond voltou-se para a mata.

O palacete apareceu depois de uma curva que a estrada de terra fazia com ar de apresentação — como se a vegetação tivesse se abrido de propósito para dar efeito ao que vinha a seguir. As lanternas nas sacadas já estavam acesas, embora o sol ainda existisse em algum lugar atrás das nuvens. A fachada neoclássica era muito branca para aquela luz, com os detalhes góticos das janelas criando uma contradição que o arquiteto provavelmente chamara de ecletismo e que Drummond chamou, para si mesmo, de ansiedade.

O jardim à francesa estava impecável. Grama aparada com uma precisão que exigia esforço humano diário e invisível, dois canteiros simétricos de hortênsias que a neblina da serra tornava ligeiramente fantasmagóricas, uma fonte no centro que funcionava mas que ninguém escutaria esta noite por causa da orquestra. Drummond desceu da carruagem e ficou parado um instante no caminho de pedras, olhando para cima.

A casa olhava de volta.

Não com hostilidade — era mais sutil que isso. Era a indiferença calculada de quem sabe que o visitante precisará dela mais do que ela precisará do visitante.

Um criado tomou sua pequena mala. Outro apareceu com uma bandeja de prata vazia, apenas para existir. Drummond entrou.

O salão de baile era uma afirmação filosófica sobre a natureza da luz. Lustres de cristal multiplicavam as velas em ângulos que transformavam cada pessoa em três ou quatro versões de si mesma — a versão iluminada, a versão na sombra, a versão no espelho ao fundo. A orquestra ainda afinava os instrumentos, um processo que soava como uma conversa iniciada em dez línguas diferentes. O cheiro era de colônia francesa, de flores cortadas e de algo mais escuro embaixo de tudo isso — madeira velha, talvez. Ou história.

Drummond pegou uma taça de champanhe da bandeja do criado mais próximo e ficou parado à margem do salão.

A elite do Império entrava em grupos de três e quatro, cada grupo com sua geometria própria: quem ficava no centro e quem ficava ligeiramente atrás, quem falava e quem sorria, quem olhava para a porta quando entrava alguém novo e quem deliberadamente não olhava. Drummond havia aprendido, anos atrás, que o poder raramente ocupa o centro de uma sala. Ocupa o ponto de onde o centro pode ser observado sem esforço aparente.

Duas mulheres de meia-idade trocaram uma olhada ao vê-lo. Não de hostilidade — de classificação. O paletó era correto. A gravata estava levemente torta. Ele registrou os olhos delas com a precisão de quem anota uma data.

"Professor Drummond."

O Conselheiro Albuquerque atravessou a sala com a elegância de quem praticou elegância até o ponto em que ela deixou de custar esforço. Sessenta anos de postura impecável, costeletas brancas aparadas com milimétrica seriedade, sorriso que chegava à boca meio segundo antes de chegar aos olhos — e que saía pelos mesmos meios, em ordem inversa.

"Conselheiro." Drummond inclinou a cabeça na medida exata. "Uma noite notável."

"Petrópolis tem dessas." O Conselheiro pegou uma taça da bandeja de um criado sem olhar para o criado. "Como foi a viagem?"

"A ferrovia tem melhorado."

"Dom Pedro insiste." Um gesto vago em direção à orquestra, que agora havia concordado numa nota comum. "O senhor conhece muitas pessoas aqui?"

Era uma pergunta com dente. Drummond bebeu um gole e considerou a resposta que o Conselheiro esperava — não, Conselheiro, o senhor foi muito gentil em me incluir — e a resposta que tinha vontade de dar.

"Conheço os livros de algumas." Pausa. "O que às vezes é mais revelador."

O Conselheiro riu. Era um riso genuíno — Drummond lhe concedeu isso. O homem lia Gaboriau e Wilkie Collins, estava escrito no convite entre as linhas, e tinha a inteligência suficiente para apreciar uma resposta bem talhada mesmo quando era à sua custa.

"O senhor vai me divertir esta noite."

"Farei o possível."

O Conselheiro já se virava para outra direção, um mestre de obras verificando os andares. Drummond ficou com a taça e o salão e a sensação de que acabara de ser catalogado.

A orquestra começou com uma valsa de Strauss que todo mundo reconheceu e que ninguém comentou, porque comentar seria admitir que reconhecera. Os pares começaram a circular. Drummond encostou o ombro numa coluna perto da parede do fundo e observou o mapa que se formava.

O Conselheiro gravitava em torno de dois homens de casaca que pareciam Senado puro — o tipo de pessoa que existia mais como instituição do que como indivíduo. Uma mulher de luto rigoroso — vestido preto, broche de ônix, luvas até os cotovelos — circulava pelos limites do salão com uma economia de movimentos que chamava a atenção precisamente por não tentar chamá-la. Um rapaz de barba por fazer e cabelos crespos que nenhum produto havia tentado domar ficava de pé perto da entrada lateral, um copo na mão, com a expressão de quem veio pagar uma dívida e ainda não decidiu se vai.

E no canto mais afastado do salão, onde a luz de dois lustres criava uma penumbra acidental, um homem corpulento de bigode branco segurava sua taça sem beber.

Drummond olhou para ele uma vez. Olhou para a orquestra. Olhou de volta.

O homem não olhava para a música. Não olhava para os pares que dançavam. Seus olhos azul-acinzentados varriam a sala com o tipo de atenção que pertence a quem espera por alguém — e teme que esse alguém apareça.

Drummond pegou uma segunda taça de champanhe que não tinha intenção de beber e começou a atravessar o salão.

Havia uma arte em aproximar-se de alguém que não quer ser aproximado. Não era questão de velocidade — era de ângulo. Drummond chegou pelo lado em que o homem tinha o copo na mão, o que significava que qualquer recuo brusco derramaria champanhe no próprio paletó. Uma restrição pequena. Suficiente.

"A valsa está bem executada esta noite."

O homem olhou para ele. Os olhos azuis tinham marcas fundas nas comissuras — não de riso, mas do tipo de preocupação que dorme junto com a pessoa.

"Conheço o senhor?"

"Augusto Drummond. Professor de filosofia e retórica." Uma pausa. "Não, o senhor não me conhece. Mas li dois artigos seus sobre o sistema postal no Jornal do Commercio, quando o senhor ainda estava em Lisboa. Bom argumento sobre a dependência das rotas marítimas."

Era mentira apenas pela metade. Os artigos existiam. Drummond os havia lido num tédio de tarde chuvosa em São Paulo e havia esquecido quase tudo, exceto o sobrenome do autor.

O homem baixou a guarda um milímetro.

"Álvaro Saraiva." O aperto de mão foi forte, mas úmido. "Estou surpreso que alguém tenha lido."

"Os bons argumentos aparecem nos lugares onde não se espera."

Saraiva olhou para o salão. Para a porta. Para o Conselheiro, que naquele momento ria de algo com os dois homens de Senado — mas cujo riso durou meio segundo a mais do que o necessário, e cujos olhos fizeram uma varredura rápida e precisa da sala antes de voltar para o interlocutor.

"O senhor conhece bem esta gente?"

"O suficiente para entender o que não me dizem."

Saraiva girou a taça entre os dedos. O champanhe já estava quente — ele claramente não havia bebido nada desde que chegara. O lenço que mantinha na mão esquerda não era para o calor; agosto em Petrópolis não exigia lenço. Era para as mãos.

"Curioso lugar para se convidar um professor de filosofia."

"Curiosos são os lugares onde me convidam." Drummond inclinou a cabeça levemente. "O senhor não acha curioso que num baile cheio de conversas ninguém esteja de fato conversando?"

Saraiva olhou para ele de uma maneira diferente. Como quem recalibra uma distância.

A orquestra terminou a valsa. Aplausos breves, cerimoniais. O Conselheiro voltou a varrer a sala e desta vez os olhos pararam, por um intervalo que Drummond mediu com precisão, no ponto onde ele e Saraiva estavam.

Drummond ficou naquele canto por vinte minutos. Bebeu champanhe que não queria. Fez duas ou três observações sobre música, sobre a ferrovia, sobre um romance de Eça de Queirós que havia lido no trem — e Saraiva respondeu, por vezes com inteligência genuína, por vezes com frases que eram apenas barricadas de palavras. Conforme o senhor deve compreender. Não me interprete mal. O tipo de linguagem que uma pessoa usa quando está fazendo o máximo para dizer o mínimo.

Mas havia algo. Uma tensão que não era do champanhe nem da música nem da altitude de Petrópolis. Era do tipo que vive no espaço entre o que se sabe e o que se pode dizer.

A orquestra atacou uma polca. Três pares entraram na pista com o entusiasmo de quem cumpre uma obrigação prazerosa. Saraiva virou o rosto para acompanhar o movimento, e quando voltou, havia algo diferente na expressão — uma decisão tomada em três segundos, pequena e irrevogável.

"Os documentos." A voz era baixa. Não um sussurro — pior que isso, uma voz normal abaixada pela metade. "Já estão em lugar seguro."

Drummond não mexeu um músculo.

"Peço desculpa?"

"Não." Saraiva sacudiu a cabeça, devagar. Bebeu pela primeira vez aquela noite — um gole longo, como quem engole uma palavra. "Não peço desculpa. Só... queria que o senhor soubesse. Caso algo aconteça."

"Caso algo aconteça."

"Estas coisas têm uma maneira de..." Saraiva procurou o fim da frase. Não encontrou. "O senhor é um homem de raciocínio. Eu me lembro disso, da recepção em março. O senhor disse que a única prova de uma consciência honesta é o que a pessoa faz quando ninguém está olhando."

Drummond havia dito isso. Num jantar em casa de um editor do Rio, para uma audiência de cinco pessoas que bebiam vinho demais para prestar atenção em filosofia.

Saraiva guardou o lenço no bolso — um gesto que parecia definitivo, como fechar um livro — e se endireitou.

"Desfrute do baile, professor."

E atravessou o salão em direção à mesa de petiscos, com o passo pesado de um homem que acabou de fazer algo que não pode ser desfeito.

Drummond ficou parado com a taça na mão.

A polca continuava. Os lustres multiplicavam os pares em ângulos impossíveis. Ao fundo, a mulher de luto passou pelo vão de um corredor com passos que não faziam barulho, e o broche de ônix captou por um instante a luz de uma vela antes de desaparecer na penumbra do corredor.

O Conselheiro estava de costas para ele agora, mas a posição dos ombros — levemente rodados para a esquerda, a cabeça inclinada dois graus além do necessário para escutar o interlocutor — era a posição de quem usa uma conversa de fachada enquanto os olhos trabalham em outro lugar.

Drummond olhou para a taça. Para o champanhe que já não tinha bolhas. Para o reflexo torto da orquestra na superfície imóvel do líquido.

Caso algo aconteça.

Ele bebeu o que restava, colocou a taça numa bandeja que passava, e foi procurar um lugar de onde pudesse ver Saraiva sem que Saraiva percebesse que estava sendo visto.

Era o tipo de noite, concluiu, em que a filosofia seria inútil e o instinto seria tudo.


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