Capítulo 1 - Piloto
Aos vinte e quatro anos, Clara acreditava que a vida era infinita.As noites eram sempre longas, iluminadas por luzes coloridas, música alta e risadas que pareciam nunca acabar. Ela era o centro das festas, cercada por amigos que prometiam amizade eterna, copos erguidos e a certeza de que o amanhã sempre chegaria.Toda sexta-feira era a mesma rotina.— Hoje ninguém dorme! — gritava Clara, arrancando aplausos do grupo.Entre bebidas, cigarros e outras drogas que apareciam sem ninguém perguntar de onde vinham, ela buscava esquecer um vazio que nunca conseguia explicar. Para quem olhava de fora, Clara tinha a vida perfeita: bonita, divertida, cheia de seguidores nas redes sociais e sempre rodeada de pessoas.Mas quando chegava em casa, fechava a porta do quarto e o silêncio tomava conta.Era nesse momento que percebia como estava sozinha.Ainda assim, no dia seguinte, fazia tudo outra vez.Os meses passaram naquele mesmo ritmo.Noites sem dormir. Alimentação desregulada. Bebidas em excesso. Poucas horas de descanso. Seu corpo começou a dar sinais de que algo não estava bem.Primeiro vieram as dores de cabeça.Depois o cansaço constante.Mais tarde, pequenas faltas de ar.Os amigos brincavam.— Você está ficando velha.Ela ria junto.— Deve ser ressaca.Mas, no fundo, sentia que era diferente.Numa sexta-feira, Clara estava em uma casa de shows lotada. A música fazia o chão tremer enquanto centenas de pessoas dançavam.Ela levantou o copo para brindar.De repente...Sua visão ficou embaçada.O som parecia distante.O coração acelerou.Ela tentou respirar, mas o ar parecia não entrar.As pernas perderam a força.O copo caiu no chão.Clara desmaiou....Quando abriu os olhos, estava dentro de uma ambulância.As luzes vermelhas piscavam.Uma enfermeira segurava sua mão.— Fique calma. Estamos chegando ao hospital.Horas depois, já estabilizada, vários exames foram solicitados.— Deve ser apenas um mal-estar — pensou.Mas os médicos continuaram pedindo mais exames.Sangue.Tomografia.Ressonância.Biópsia.Os dias viraram semanas.Cada ligação do hospital aumentava sua ansiedade.Até que chegou o dia.Clara entrou no consultório tentando parecer tranquila.O médico respirou fundo antes de falar.— Clara... infelizmente recebemos todos os resultados.Ela sorriu, nervosa.— Então era só estresse?O silêncio respondeu antes do médico.Ele abaixou os olhos.— Encontramos um tipo raro de câncer.As palavras atravessaram seu peito como uma faca.Ela ficou imóvel.— Não... isso está errado.O médico aproximou os exames.— Gostaria muito que estivesse.Clara balançava a cabeça sem acreditar.— Eu tenho apenas vinte e quatro anos...As lágrimas começaram a cair.— Existe tratamento, mas precisamos agir rapidamente.Ela já não conseguia ouvir mais nada.Sua mente parecia desligada.Ao sair do hospital, o mundo continuava exatamente igual.As pessoas caminhavam.Os carros passavam.As crianças brincavam.Mas para Clara...O tempo havia parado.Naquela noite, ninguém atendeu suas mensagens.Os amigos estavam ocupados em outra festa.Pela primeira vez, ela percebeu que muitas pessoas estavam ao seu redor apenas enquanto tudo era diversão.Os dias seguintes foram silenciosos.As redes sociais deixaram de fazer sentido.As festas perderam o brilho.As bebidas ficaram esquecidas sobre a mesa.Ela passou a frequentar hospitais, fazer consultas e iniciar uma batalha que jamais imaginou enfrentar.Cada sessão parecia levar um pedaço de sua força.Mesmo assim, ela fazia o possível para continuar vivendo.Algumas semanas depois, decidiu sair de casa pela primeira vez sem destino.Precisava respirar.Precisava esquecer, nem que fosse por alguns minutos.Caminhou lentamente até uma praça.O vento balançava as árvores.Algumas crianças brincavam perto do lago.Um senhor alimentava os pombos.Clara sentou-se em um banco, observando o movimento.Pela primeira vez em muito tempo, não havia música alta.Nem fumaça.Nem gritos.Apenas silêncio.Ela fechou os olhos.— Posso sentar aqui?A voz masculina fez Clara levantar a cabeça.À sua frente estava um rapaz de aproximadamente vinte e cinco anos.Cabelos castanhos bagunçados pelo vento.Olhos gentis.Um sorriso tranquilo.Vestia roupas simples e segurava um livro nas mãos.— Claro... — respondeu ela.Ele se sentou.Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.Até que ele sorriu novamente.— Engraçado... esta praça costuma estar cheia, mas esse banco sempre fica vazio.Clara deu um leve sorriso.— Talvez porque ninguém tenha paciência para ficar parado.— Ou talvez porque as pessoas tenham medo do silêncio.Ela olhou para ele.Era estranho.Parecia que aquele desconhecido enxergava algo que ninguém mais percebia.— Meu nome é Lucas.Ela respondeu quase automaticamente.— Clara.— Prazer em conhecer você.Ela estendeu a mão.Pela primeira vez desde o diagnóstico, sentiu vontade de sorrir de verdade.Sem saber, aquele encontro mudaria completamente o rumo de sua história.E talvez...








