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Imparável Destino

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Summary

Heavy Wood é uma restauradora e comerciante de antiguidades. Inteligente, poliglota, bem-humorada e envolta em mistérios que nem ela mesma consegue explicar, toma a decisão mais importante de sua vida: realizar o sonho da maternidade por conta própria. Dagon Kravený é o herdeiro da mais antiga e influente família de Viena. Um empresário implacável, preso a um casamento político e acostumado a controlar tudo ao seu redor, vê sua vida sair dos trilhos quando descobre que seu material genético foi roubado de uma clínica sob sua responsabilidade. A investigação o leva até uma pequena cidade e ao antiquário Relicário, onde conhece Heavy, uma mulher que jamais deveria fazer parte daquela história. O que começa como uma busca por respostas logo se transforma em uma aliança improvável, cercada por conspirações, segredos antigos e um destino que nenhum dos dois escolheu. Enquanto tentam descobrir quem está movendo as peças desse jogo, Heavy percebe que existem verdades capazes de mudar tudo o que ela acredita sobre o mundo... e sobre si mesma. Alguns encontros são coincidência. Outros são inevitáveis.

Status
Ongoing
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - H. Wood

— Heavy Wood?

Lá estava, a esperada pausa.

Não era longa. Quase ninguém percebia. Mas eu sempre percebia. Era aquele segundo mínimo entre o primeiro nome e o sobrenome, como se a pessoa precisasse confirmar mentalmente se tinha lido certo ou se o formulário estava zombando dela.

Ergui os olhos da revista que eu fingia ler e sorri. Sorrir sempre foi para mim o modo mais efetivo de se responder a qualquer situação, qualquer uma mesmo.

— Sou eu. - Eu respondi ao chamado enquanto levantava da cadeira,pegando minha bolsa e minha garrafa d'agua que tinha a cara do Steven Tyler estampada.

A recepcionista olhou para a ficha, depois para mim. A curiosidade passou pelo rosto dela como uma sombra rápida, mas ela devia ser educada demais e pergunta morreu em sua garganta, agradeci em silêncio.

Naquela manhã, eu não estava com disposição para explicar nada. Meu nome, minha vida ou o motivo de uma mulher aparecer sozinha em uma clínica de pré-natal às nove e vinte e três da manhã, com olheiras leves, uma bolsa grande demais e a ansiedade de quem talvez tivesse pesquisado sintomas no Google às duas da madrugada.

A sala de espera tinha cheiro de álcool, ar-condicionado antigo e flores artificiais. Nas paredes, bebês enrolados em mantas sorriam em quadros cuidadosamente escolhidos para acalmar futuras mães. Funcionava com algumas, talvez.

Comigo, não. Eu estava há dez minutos encarando um bebê caucasiano de bochechas muito rosadas na parede e só conseguia pensar que ele parecia julgar minha postura.

Passei a mão na barriga ainda discreta.

— Estamos bem — murmurei. - Temos que estar.

Uma senhora sentada perto da janela me olhou, e eu sorri genuínamente para ela.

— Primeira vez que venho com plateia interna. Ainda estou me acostumando.

Ela riu baixinho, e isso me fez relaxar um pouco.

Eu falava quando estava nervosa. Às vezes demais. Era uma estratégia de sobrevivência que, com o tempo, virou traço de personalidade. O sarcasmo sempre era melhor do que chorar em público ou descontar em alguém. Nenhuma das duas opções combinava com a reputação que eu tentava manter.

A porta do consultório se abriu, e uma enfermeira colocou a cabeça para fora.

— Senhorita Wood?

— Inteira — respondi, antes de pensar.

Ela piscou, surpresa, depois sorriu.

— Pode entrar.

Segui pelo corredor curto, sentindo o piso frio através da sola fina da sandália. Havia uma criança chorando em alguma sala próxima, uma impressora trabalhando atrás do balcão e o zumbido constante do ar-condicionado, que parecia lutar bravamente contra o calor lá fora.

A doutora Helena estava sentada à mesa, com o prontuário aberto e os óculos na ponta do nariz.

— Bom dia, Heavy.

— Bom dia, Helena.

— Como você passou desde a última consulta?

Sentei diante dela e coloquei a bolsa no colo.

— Enjoada, sonolenta, esfomeada e perigosamente emocional diante de qualquer obra artistica criada, mas viva.

Ela sorriu, anotando alguma coisa.

— Alguma dor forte?

— Não.

— Sangramento?

— Também não.

— Tontura?

Pensei por um segundo.

— Só quando levanto rápido demais. Ou quando vejo o preço das fraldas.

Dessa vez, ela riu de verdade.

— Esse segundo sintoma infelizmente não passa, nem depois do parto.

— Imaginei.

A consulta seguiu com perguntas, pressão medida, peso anotado e orientações que eu escutei com atenção. Podia fazer piada, mas levava aquilo muito a sério. Talvez até sério demais. Eu tinha uma pasta em casa com exames organizados por data, receitas guardadas em plástico transparente e uma lista de coisas que grávidas podiam ou não podiam comer. A lista tinha me irritado e não era como se eu realmente a seguisse, como eu disse esfomeada.

Quando a médica pediu que eu me deitasse, obedeci com cuidado. Subi na maca, ajeitei o papel descartável sob o corpo e ergui a blusa até abaixo dos seios. Minha barriga em uma curva suave que talvez ninguém notasse se eu usasse uma camisa EXXG.

A doutora pegou o tubo de gel.

— Pronta?

Respirei fundo.

— Não, mas podemos fingir que eu disse sim.

O gel tocou minha pele, frio o bastante para me fazer contrair o abdômen.

— Desculpa — ela disse.

— Tudo bem. Só avisa ao meu filho que susto térmico não estava no contrato.

Ela soltou uma pequena risada e deslizou o aparelho sobre minha barriga, e a tela ao lado da maca se encheu de manchas cinzentas.

Eu parei de respirar, não de propósito, óbvio. Mas parecia que meu corpo simplesmente esqueceu como fazia. Ainda não sabia interpretar aquelas imagens. Para mim, pareciam sombras dentro de sombras, formas pequenas demais para pertencerem ao mundo real. Mas alguma coisa se moveu na tela, e meu peito apertou com tanta força que precisei segurar a beirada da maca.

— Está vendo aqui? — A médica apontou. — Esse é o bebê.

O bebê. Meu bebê. A frase se formou dentro de mim antes que eu conseguisse pensar em qualquer outra coisa.

— Está tudo bem? Com o bêbê? — perguntei.

Minha voz saiu menor do que eu gostaria.

A doutora moveu o aparelho com delicadeza.

— Está tudo ótimo. Desenvolvimento excelente para vinte semanas. Batimentos fortes, medidas adequadas.

- Vinte semanas? Não se enganou doutora? Eu acabei de completar doze semanas. - Eu questionei sentindo meu peito apertado.

O cenho dela franziu, e ela voltou a tela, avaliou por um momento, o aparelho mudando de lugar uma, duas, três vezes. Meu coração abraçou a ansiedade e seu ritmo era de um desfile de rua.

- Ah, compreendi. - Ela disse por fim, sua voz mais aliviada me acalmou. - Como já é possivel deduzir o sexo achei que estive com mais tempo, mas alguns fetos tendem a desnvolver algumas partes mais rápido que outras. - Ela sorriu me tranquilizando. - Seu bebê está mais que ótimo para doze semanas!

Eu enfim relaxei, soltando um suspiro. Três meses. Para o resto do mundo, talvez fosse pouco tempo. Para mim, já era uma vida inteira reorganizada ao redor de alguém que eu ainda nem conhecia, que nem nome tinha.

A gaveta de panos antigos que eu tinha esvaziado para guardar roupinhas. A cadeira de balanço que prometi restaurar antes do parto. O pote de biscoitos de água e sal em cima do balcão do antiquário. O alarme no celular para tomar vitamina. A planilha de gastos que me dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

Tudo agora tinha outro centro.

— Vamos ouvir o coração? — perguntou a médica.

Assenti depressa e então o som preencheu a sala. Era rápido, forte, insistente. O coração do bebê batia como se já tivesse pressa de existir. Levei a mão à boca. O riso veio primeiro, pequeno e trêmulo, mas as lágrimas chegaram logo depois, quentes, teimosas, impossíveis de conter. Pisquei várias vezes para continuar olhando a tela, porque eu tinha medo de perder qualquer segundo.

— Oi, meu amor — sussurrei.

A médica ficou em silêncio, como um profissional e eu gostei inda mais dela por isso. Algumas emoções não precisam de testemunha barulhenta. Só de espaço. Quando o som parou, senti falta dele imediatamente, eu deveria tê-lo gravado.

A doutora imprimiu algumas imagens, limpou o aparelho e me entregou papel para tirar o gel da barriga. Fiz isso devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar o encanto.

— Você vai continuar vindo ás consultas, sozinha? — ela perguntou.

A pergunta veio macia, cuidadosa, como alguém já acostumada a ter que tocar em assuntos muito delicados. Mesmo assim, eu reconheci o peso dela, não que esse fosse um assunto delicado para mim, pelo contrário, não me incomodava nem um pouco. Sentei na maca e puxei a blusa para baixo.

— Continuarei. - Disse firme.

— Tem alguma rede de apoio próxima? Família, companheiro, amiga?

Peguei as imagens do ultrassom. O papel ainda estava morno.

— Tenho clientes que viraram quase família e pessoas que posso chamar se precisar, que não irão recusar, eu garanto. - Eu exagerei na parte dos clientes? Um pouco, mas ela não precisava saber.

— E o pai?

Sorri. Não triste e nem ofendida, orgulhosa.

— Não existe pai nessa história, doutora. Foi uma escolha minha.

Ela ergueu os olhos do prontuário por um momento, curiosa e ate fascinada eu diria.

— Produção independente?

— Sim.

A palavra independente sempre coube bem em mim. Talvez porque, desde sempre, ela nunca tenha sido escolha e sim uma condição de existência. Mas não era de tudo ruim que tivesse sido assim, ter sido assim fez eu gostar muito de mim e de quem eu sou.

Eu não expliquei nada além disso. Não falei dos relacionamentos que terminaram quando o futuro deixou de ser conversa bonita e virou possibilidade real. Não falei das promessas que desapareceram, das traições, das malas arrumadas por outros, das mensagens sem resposta. Helena também não precisava saber disso, porquê essas coisas não eram o motivo da minha decisão, eram apenas o tortuoso caminho que precisei correr para toma-lá.

— Nesse caso, — a médica disse, colocando os exames em um envelope — vocês dois estão muito bem.

Vocês dois. Sorri com sinceridade antes de conseguir evitar.

- Dois você disse, Helena? É um menino? - Eu perguntei ansiosa.

- Observadora você hein Heavy - Ela pontou - Provavelmente sim, mas terei mais certeza quando chegarmos as vinte semanas.

Saí da clínica com o envelope contra o peito e uma das mãos sobre a barriga. A rua estava quente, barulhenta e viva. Carros buzinavam, vendedores gritavam promoções, alguém discutia no telefone perto da farmácia e o cheiro de café da padaria da esquina me atingiu como uma ameaça pessoal.

Meu estômago revirou.

— Nem pense nisso — avisei à minha própria barriga. — Nós dois já conversamos sobre café. Mamãe amava. Você estragou. Estou tentando não guardar rancor.

Tudo ao meu redo era uma lembrança de que o mundo seguia indiferente, mas eu não.

Para mim, tudo parecia levemente diferente desde que foi confirmada a gravidez. As cores estavam mais fortes. O bolo da vizinha que antes só parecia ser ruim, agora tinha um cheiro insuportável. O perfume das pessoas passava por mim como uma onda densa demais e eu podia jurar que até o sol parecia tocar minha pele com mais intensidade.

A médica da clinica de inseminação havia me dito que era hormonal. Eu aceitei aquela avaliação por um tempo. Era mais fácil do que admitir que, às vezes, eu acordava no meio da noite com a sensação absurda de ter ouvido alguém me chamando de muito longe. Mesmo assim, preferi trocar de Obstetra depois dos dois meses, era minha segunda consulta com Helena, e por enquanto tudo estava indo bem.

Atravessei a rua devagar, desviando de uma moto estacionada quase em cima da calçada. O sol batia forte nos ombros, e uma gota de suor escorreu pela minha nuca. Prendi melhor o coque com os dedos e continuei andando.

O meu antiquário ficava a poucas quadras dali. Só de pensar nele, senti a calma se ajeitar no meu peito.

Relicário ocupava a esquina de um prédio antigo entre uma floricultura e uma papelaria. A fachada de madeira escura brilhava sob a luz da manhã, polida, firme, sem uma lasca fora do lugar. As letras douradas do letreiro estavam limpas porque eu mesma tinha retocado a pintura duas semanas antes, depois de notar um risco minúsculo no “R”.

Eu sempre gosto de dizer que vendo coisas antigas, não abandonadas. Há uma grande diferença entre as dua palavras. Se uma dobradiça rangia, eu desmontava. Se uma prateleira empenava, eu lixava. Se uma parede pedia tinta, meu sábado estava perdido. Às vezes diziam que eu era exigente demais com a loja e os produtos, eu preferia pensar que era gratidão, aquele lugar tinha se tornado o meu chão, o meu ganha-pão e o meu lar.

Girei a chave duas vezes e empurrei a porta com o quadril, equilibrando o envelope de exames debaixo do braço. O sino preso acima do batente tilintou com seu som delicado de sempre. Sorri com a sensação de estar de volta em casa.

— Bom dia, pessoal.

Sim, eu cumprimento os móveis, e não, eu não aceito críticas sobre isso.

O cheiro familiar me envolveu assim que entrei: madeira encerada, papel antigo, couro, cera de abelha e lavanda seca. Relógios de parede marcavam horas ligeiramente diferentes. Espelhos com molduras trabalhadas refletiam pedaços dourados da manhã. Caixas de música, castiçais, livros raros, porcelanas e pequenos objetos de prata ocupavam as prateleiras com uma desordem cuidadosamente planejada.

Coloquei a bolsa atrás do balcão e apoiei o envelope ao lado do computador. Tirei uma das imagens do ultrassom e fiquei olhando para ela por alguns, muitos, segundos.

Na foto, meu filho parecia mais uma possibilidade do que uma pessoa. Mas eu já o amava com uma certeza absurda.

— Bem-vindo ao reino, pequeno — murmurei. — É apertado, cheio de poeira histórica e tem um relógio australiano que toca quando quer, mas é o nosso lar.

Guardei a imagem em uma gaveta limpa, longe de qualquer risco de bebidas, cliente curioso ou acidente envolvendo minhas próprias mãos desastradas. Depois amarrei o avental na cintura, liguei as luzes da vitrine e comecei a abrir a loja de verdade.

Tirei uma camada imaginária de pó de uma cristaleira que já estava impecável. Endireitei três livros que ninguém teria percebido tortos. Troquei uma peça de lugar porque o equilíbrio visual da prateleira estava me provocando desde ontem e quando terminei, a campainha da porta tocou.

O primeiro cliente do dia era o senhor Alastor, colecionador de moedas e especialista não oficial em detalhes da vida alheia.

— Bom dia, menina Heavy.

— Bom dia, senhor Alastor. Veio pelas moedas ou pelas fofocas?

Ele colocou a mão no peito, ofendido de maneira teatral.

— Que acusação.

— Então moedas.

— Primeiro as moedas. Depois, se sobrar tempo...

— Nunca sobra, mas o senhor sempre arruma.

Ele riu e se aproximou do balcão.

Atendi o idoso como sempre, negociei uma moeda que ele jurava ser mais rara do que era, recusei com firmeza uma oferta indecente por um relógio francês e prometi procurar uma moldura oval para dona Marlene, que ligou três vezes em vinte minutos para acrescentar detalhes que “tinha esquecido completamente”.

A manhã correu normal, eu diria quase normal.

Em algum momento, enquanto recebia uma encomenda de prataria chinesa para retoque, pude sentir um arrepio gelado subindo pela minha nuca.

Parei com a caneta suspensa sobre o papel do recibo e olhei ao redor. Não havia nada de diferente. O relógio maior bateu meio-dia com dois minutos de atraso. Um carro passou devagar pela rua. A florista da loja ao lado discutia com alguém sobre rosas brancas. O ventilador de teto girava em uma velocidade preguiçosa.

Ainda assim, a sensação permaneceu.

- Senhorita Wood, tudo bem? - O jovem entregador me olhava preocupado.

O ignorei, aquela sensação havia se tornado meu único foco. Levantei os olhos para a vitrine. Do outro lado da rua, um homem estava parado perto da faixa de pedestres.

Alto, imóvel e com um terno caro demais para aquela calçada irregular e quente.

Ele olhava para loja? Não. Olhava para mim. Não como um cliente curioso ou como alguém tentando lembrar de onde me conhecia. Era um olhar fixo, intenso, quase ofensivo na certeza que carregava.

- Senhora Wood? - O rapaz insistiu.

O sinal abriu, dois carros passaram entre nosso contato visual e então eu perdi o homem de vista. Quando a rua ficou livre de novo, ele não estava mais lá. "Agora estou imaginando coisas?"

- Está tudo bem, agradeço a preocupação. - Respondi o liberando e indo para dentro da loja.

Fiquei parada atrás do balcão, a encomenda ainda em mão, tentando convencer meu corpo de que não havia motivo para reagir daquela forma. Talvez fosse só um estranho, que me achou parecida com alguém. Talvez eu estivesse impressionada ou talvez gravidez também deixasse a imaginação dramáticamente maior, junto com o olfato, o paladar e a bexiga.

— Ótimo — murmurei. — Mais um sintoma para a lista.

Forcei uma risada, mas ela não saiu direito. Cinco minutos depois, enquanto eu abria a encomenda e espalhava a prataria no balcão para analisar melhor, o sino da porta tocou e eu me virei no mesmo segundo. O homem da rua entrou no Relicário como se o lugar tivesse sido pequeno demais para mantê-lo do lado de fora.

A presença dele mudou o ar da loja. Esquisito, mas não sei se há como explicar de outro jeito. Algumas pessoas entram em um ambiente e outras os ocupam. Aquele homem ocupou o meu antiquário como se por somente ter pisado ali, o lugar se tornasse dele.

Não gostei disso, era impressionante a forma como parecia estar no controle de tudo? Sim, mas ainda assim me deu vontade de cuspir no chão.

Ele era alto de um jeito que fazia as estantes parecerem mais baixas. Usava um terno azul escuro sem gravata, a camisa aberta no primeiro botão, e havia nele uma elegância dura, controlada, que não combinava com turistas, colecionadores ou homens perdidos procurando presente de aniversário.

Seu olhar encontrou o meu e meu corpo inteiro ficou alerta. Não por medo, por instinto de sobrevivência. Seus olhos cinzas eram com certeza a caracteristica mais marcante nele.

— Boa tarde — disse, colocando as ultimas duas facas sobre o balcão com calma. — Seja bem-vindo ao Relicário. Procura alguma coisa específica?

Ele não respondeu de imediato, os olhos cinzas me analisando e então desceram por um segundo até minha barriga. Foi rápido, rápido demais para qualquer outra pessoa notar. Tão rápido que a meses atrás eu não notaria, mas para o azar dele, agora eu notava.

Apoiei as duas mãos no balcão com firmeza.

— Os olhos costumam ficar aqui em cima.

O maxilar dele se contraiu.

— Você é Heavy Wood? - Sua voz firme e aspera.

— Depende. Você é da Receita Federal?

Nenhum sorriso, uma pena. Eu costumava confiar mais em pessoas com senso de humor.

— Precisamos conversar — ele disse apenas.

A voz era baixa, controlada, e carregava uma autoridade de quem está muito acostumado a dar ordens, aquele tom talvez funcionasse muito bem com outras pessoas. Comigo, só teve o efeito de me irritar e me alertar. Eu inclinei a cabeça e o perfurei com os olhos.

— Não, estranho que acabou de entrar na minha loja encarando minha barriga de forma mais estranha. Nós não precisamos conversar.

Ele deu um passo à frente e eu não recuei, me aproximei ainda mis do balcõ, meu bustos roçando a madeira fria. Eu sabia uma coisa ous duas sobre defesa pessoal e tinha uma faca de prata na mesa, que por curiosidade eu saberia mnusear muito bem numa briga. Não importva o quão imprudente poderia ser encarar esse homem, mas eu não ia permitir que ninguém tivesse a chance de achar que pode mandar em mim, ou pior, me amedontrar.

A distância entre nós estava definitavamente menor, mas eu ainda possuía o balcão como fronteira. Eu também conhecia bem a utilidade de móveis pesados. A ursa que ficava como decoração no balcão, em específico, era de madeira maciça e já tinha sobrevivido a duas mudanças, um vazamento e uma cliente desmaiada. Se necessário, sobreviveria a um homem esquisito, bonito e ameaçador.

— Você não entende a situação — ele disse.

— Concordo. - Respondi sincera - Principalmente porque você começou pelo meio, pulou a educação e aterrissou direto na parte assustadora.

Os olhos dele se estreitaram. E eu podia jurar que o cinza de suas íris havia ficado mais escuro. Aqueles olhos possuiam algo que me incomodava, uma atenção quase física, como se eles podessem ver bem mais do que alguém quer mostrar.

— Quem te mandou? — perguntou.

Franzi a testa.

— Mandou?

— Quem te deu acesso ao material?

A pergunta não fazia sentido.

Ainda assim, alguma coisa fria se espalhou pelo meu peito.

— Eu vou te dar uma chance de reorganizar essa frase — falei devagar. — Porque, do jeito que saiu, parece acusação.

Ele apoiou as mãos no balcão. Os dedos eram longos, firmes, e havia uma tensão neles que denunciava esforço para se controlar.

— Você sabe exatamente do que estou falando.

Olhei para as mãos dele, depois para o rosto, uma sensação de confusão gênuína sendo formada no meu franzir de cenho. Do que diabos ele estava falando?

— Não. Eu não sei. - Respondi séria dessa vez. - E sendo sincera, acho que nem você está sabendo direito.

Ele ficou tenso, os olhos vacilaram por um milisegundo, tão rápido que fiquei surpresa em ter notado. Aquilo cheirava a problema dos grandes, a forma como ele me encarou, como entrou na loja perguntando por mim. Respirei fundo e cruzei os braços, era óbvio que ele tinha algo para me dizer, mas isso não justifica agir como alguém enviado para te assassinar.

- Vamos recomeçar. Você pode agir como uma pessoa normal, se apresentar e então explicar em detalhe o que você quer comigo. Que tal?

Minha voz perdeu parte do humor, e isso pareceu fazê-lo me observar com mais atenção. Lá fora, um carro buzinou. O som pareceu distante demais. Dentro da loja, tudo ficou estranhamente quieto. Até os relógios, que nunca concordavam entre si, pareceram prender a respiração.

O homem fechou os olhos e respirou fundo, como se o ar ao meu redor tivesse alguma coisa que ele procurava e detestava encontrar. Depois direcionou seu olhar a mim e pude sentir que ele estáva travando uma batalha mental sobre sua decisão. Por fim, soltou um longo suspiro.

- Eu me chamo Dagon Kravený. - Ele parou por um segundo, analisando meu rosto que provavelmente passava a sensação de um "sim e dai?" - Sou o pai do filho que você está carregando.

Ele soltou de uma vez, como alguém arrancando o curativo de uma ferida, e o maldito relógio australiano decidiu tocar nesse momento.

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