Léo & Bia — O Início De Tudo by Autora K.L CHRISTYN at Inkitt
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Léo & Bia — O Início de Tudo

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Summary

Esta obra é fundamentada em eventos reais e retrata situações verídicas. Alguns nomes e localidades foram alterados a fim de preservar a identidade dos indivíduos envolvidos. Sim, LÉO e BIA são de verdade! Com todas as suas falhas e acertos, eles viveram uma intensa e bastante conturbada história de amor. Beatriz tem dezoito anos e acredita que seu maior desafio será enfrentar o último ano do colégio. Até conhecer o novo professor de biologia. Leonardo é inteligente, provocador, irresistível… e absolutamente proibido. A atração entre os dois explode antes que consigam impor qualquer limite. Entre olhares roubados, encontros secretos, discussões intensas e reconciliações ainda mais arrebatadoras, eles iniciam uma relação capaz de colocar em risco seus sonhos, reputações e o próprio futuro. Mas nem o amor, nem o desejo, são suficientes para apagar a diferença de idade, os julgamentos ou o peso das escolhas que precisarão fazer. Porque algumas pessoas entram na nossa vida para mudar tudo. A única pergunta é… até onde você iria por um amor que nunca deveria ter acontecido?

Status
Ongoing
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
18+

Pólogo


Rio de Janeiro, Março de 2024…

O silêncio no apartamento é tão denso que posso ouvi-lo respirar comigo. A bolsa aberta diante de mim é um convite para o novo, mas o que me prende não é o futuro que cabe nela, e sim o passado que repousa em uma velha caixa de papelão.

Ela surge como uma intrusa, oculta sob camadas de lençóis esquecidos. Minhas mãos tremem quando a puxo para fora do armário, e o cheiro de papel guardado sobe no ar, carregado de memórias que jamais permiti que fossem embora.

Diários.

Uma dúzia deles, talvez mais.

Todos com as capas gastas, as bordas amareladas e um peso que não é somente físico.

Me sento no chão, deixando o jeans raspar contra a madeira fria. Meu coração acelera quando abro o primeiro.

A tinta desbotada nas páginas é uma assinatura cruel do tempo, mas é a minha caligrafia que salta aos olhos: caótica, urgente, como se cada palavra escrita fosse uma tentativa desesperada de salvar um pedaço de mim.

Meus dedos percorrem a página com uma reverência que me desconcerta… um carinho doloroso. Entre as linhas tortas e as manchas de Coca-Cola que escaparam para o papel, há algo mais.

Eu.

A pessoa que um dia fui.

A pessoa que já não sei se sou.

Um sorriso tímido curva meus lábios quando me deparo com um rabisco desajeitado, algo que provavelmente achei genial na época. Mas o sorriso logo cede lugar a uma lágrima que escapa sem permissão, deslizando quente por minha bochecha até o queixo quando seguro um amontoado de folhas de caderno soltas, com uma caligrafia bem diferente da minha.

Uma caligrafia que por tanto tempo foi sinônimo de promessas sussurradas ao pé do ouvido.

Mais uma lágrima… e diferente do que geralmente acontece, dessa vez não tento detê-la. Ela carrega o peso de tudo o que ainda não sei se consigo revisitar.

Lá fora, o mundo segue seu ritmo implacável. Automóveis passam apressados, pessoas cruzam ruas, vidas se entrelaçam em uma coreografia que desconheço. No entanto, é a constância disso tudo que me conforta.

A vida não para.

Mesmo quando a nossa desmorona.

Fecho o diário, mas não devolvo a tampa à caixa. Encosto a cabeça na parede e deixo o peso das lembranças me puxar para trás, para um tempo onde as páginas ainda eram virgens e o mundo parecia infinito… repleto de possibilidades.

Acordo do transe como se alguém puxasse meu corpo de volta com força exagerada. O céu parece ter escurecido há horas. A claridade alaranjada que entrava pela janela deu lugar a uma penumbra azulada, ignorando minha parada no tempo.

Meu celular vibra sobre a cômoda, provavelmente pela milésima vez. Me arrasto até ele. A tela acende e, com ela, uma culpa pontiaguda me atinge: quinze chamadas perdidas. Todas do mesmo contato. Eduardo, meu editor. Merda!

Empurro os diários para o lado com o pé e caminho até o banheiro. A luz fria ilumina a bagunça que estou… olhos inchados, maquiagem borrada, boca seca, o cabelo amarrado em um coque frouxo que grita por dignidade.

Me apoio na pia e encaro o espelho. Ali, entre os reflexos de azulejos brancos e as sombras da noite, vejo algo que me paralisa.

Ela.

A rainha do baile.

A garota que achei ter deixado para trás.

Aquela que acreditava que podia controlar tudo com inteligência e ironia, que fingia não sentir, só para não precisar admitir que sentia até demais. Que calculava cada passo com a frieza de uma adulta precoce, mas que desmoronava diante de qualquer sinal de abandono.

Ela me encara de volta.

E sorri.

Um sorriso melancólico de quem sabe que perdeu algo precioso, mas ganhou em troca uma versão mais forte de si mesma. Uma versão que aprendeu, à força, que você pode fugir das regras, das consequências, pode até fugir de si mesma… mas nunca vai conseguir fugir do que sente.

O celular vibra novamente. Irritante. Persistente. Corro de volta para o quarto, tropeçando em uma almofada caída no caminho, e atendo antes que a ligação seja encaminhada para a caixa postal.

— 'Finalmente! Achei que tivesse morrido e que precisaria desembolsar uma boa grana para providenciar seu enterro com honrarias literárias.' — O tom de Eduardo é carregado de deboche.

— Se te causa alívio saber, estou viva… meio enterrada nos escombros do meu cérebro, mas viva.

— 'Engraçadinha. Sabe quanto tempo faz que você está fugindo de mim e me enrolando com a conversa de que em breve vai me entregar alguma coisa? '

— Edu…

— 'Três meses, Beatriz. Noventa dias. Cento e oitenta cafés. Oito sessões de terapia extra com meu psiquiatra. Cinco tentativas frustradas de aprovar uma nova prorrogação do seu prazo com a diretoria. E, até agora, o que temos? O silêncio. A ausência. A arte do 'enrolation' elevada à potência máxima.'

— Uau. E eu achando que só quem dramatizava aqui era eu.

— 'Não estou dramatizando, estou sendo realista. A sua última publicação foi um sucesso. Os leitores estão esperando o próximo livro. A editora também. Quanto a mim… estou no meio do fogo cruzado tentando segurar a onda, inventando que você está em retiro criativo no Tibet na companhia de um monge analfabeto castrado quimicamente e que só fala por metáforas.'

Solto um longo suspiro e me sento na beirada da cama, rodeada por folhas soltas, letras amareladas, frases riscadas com paixão, amor, raiva ou arrependimento. Uma bagunça emocional que parece injetar coragem líquida em minhas veias.

— Em breve, você terá um manuscrito sobre sua mesa. Prometo. Sem metáforas, sem Tibet e, principalmente, sem monge castrado quimicamente. — Minha voz sai mais baixa e hesitante do que eu gostaria.

— 'Está falando sério ou é apenas charme literário?'

— Promessa é dívida. Estou te dando minha palavra.

— 'Beleza. Vou segurar as pontas por aqui e tentar ao máximo acalmar a diretoria. Escreva qualquer coisa, não precisa ser nada épico como a última série… só precisa ser seu, do seu jeito.'

— Do meu jeito?

'Tudo bem, esquece seu jeito. Por que não tenta um romance clichê entre CEO e secretária? 'Grávida e Abandonada Pelo CEO Cretino' seria um ótimo título.'

— Isso é horrível, Edu!

'Horrível ou não, preciso de um manuscrito seu na minha mesa… custe o que custar e doa a quem doer!'

— Acredite, o manuscrito que estará sobre sua mesa doerá exclusivamente em mim. Agora, preciso desligar. Tenho um livro para escrever. — Falo, soltando um suspiro e esfregando a testa com os dedos.

— 'Boa noite, escritora. Ah, se faltar inspiração, ouvi dizer que dançar nua sob o céu estrelado resolve todos os problemas.'

— Vou lembrar disso.

'Faça acontecer, Bia.'

Encerro a chamada e o quarto volta a ficar em silêncio. Meus olhos passeiam pelas caixas abertas, pelos diários e folhas espalhadas como pedaços de mim. Entre tudo isso, está uma decisão. A mais difícil, porém, a mais óbvia de todas.

Chegou a hora de esvaziar o armário.

De abrir as gavetas emperradas do passado.

De dar nome às sombras que insisti em deixar sem rosto.

Talvez isso custe minha paz, arranhe o pouco que consegui reconstruir e exponha partes de mim que, até hoje, preferi manter intactas, escondidas sob camadas de sarcasmo e frases bem formuladas.

Mas não dá mais para evitar.

Preciso contar.

Desde o começo.

Desde a primeira aula, a primeira troca de olhares, o primeiro beijo, a primeira culpa. Desde o instante em que tudo parecia inocente demais para ser pecado… até o momento em que entendi que o amor, por mais doloroso que seja, não é uma escolha.

Me levanto, caminho até a mesa e pego o laptop. Me sento entre as memórias e, antes que o medo me paralise de novo, escrevo o título na primeira página em branco.

'Léo & Bia'.

Respiro fundo. Não para fugir, mas para me encontrar em meio a palavras engasgadas e lembranças que gritam em silêncio. Nada disso pode mais voltar para a caixa.

Não agora.

Não depois de tudo.

Existem histórias que, por mais que a gente tente calar, continuam a nos escrever por dentro. Chegou a hora de transformar cicatriz em parágrafos, memórias em narrativa, dor em libertação.

É hora de deixar que a verdade ocupe cada linha, sem disfarces, sem meias versões. Que se danem os riscos. Que venha o incômodo. A exposição. A dúvida. A raiva. E, se for preciso, que venha até o caos.

Porque dessa vez, não vou apenas criar um romance.

Vou contar uma história.

A minha história.

Fecho os olhos, me concentro e começo a digitar. Pela primeira vez, após muitos anos, me rendendo e me permitindo voltar para onde tudo começou.



Chapters
1. Pólogo
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