CAPÍTULO 1
Lupita Suárez:
O nascer do sol na casa Almonte nunca chegava devagar. Era porta a bater, empregados correndo de um lado para o outro, ordens lançadas ao vento como se ninguém ali tivesse sentimentos. Parecia que, antes mesmo de o galo cantar, o caos já tinha batido o ponto. Com o tempo, aprendi a sobreviver naquele barulho.
Não porque gostasse, mas porque reclamar nunca diminuiu a quantidade de trabalho de ninguém.
Atravessei o portão lateral usando o meu uniforme amarrotado, que, sinceramente, parecia refletir exatamente o meu estado de espírito. Peguei no balde, no esfregão e comecei a limpar o chão.
Eu sempre fui trabalhadora, dedicada... até demais. Tão dedicada que às vezes parecia que o meu currículo dizia: “Especialista em levar bronca por um serviço que já estava perfeito.” Uma habilidade muito útil... para absolutamente ninguém.
O chão de mármore brilhava de um jeito quase cruel, como se tivesse sido polido pelos próprios anjos. Dava até para pentear o cabelo olhando para o reflexo. Mas aquele brilho também parecia fazer questão de me lembrar que ali existia uma vida que nunca seria minha. Uma vida de luxo, vestidos caros, perfumes importados... enquanto eu comemorava quando o meu shampoo barato fazia espuma suficiente para duas lavagens.
“Era a minha vida de princesinha”.
Minha mãe morreu quando eu tinha apenas três anos. Alguns diziam que foi doença. Eu só me lembrava do vazio que ela deixou. Pouco tempo depois, meu pai também partiu, levando com ele qualquer ideia de estabilidade que ainda existisse.
E assim terminou o meu conto de fadas... antes mesmo de começar. A minha única carruagem era um carrinho de mão e, no lugar de príncipe, eu tinha um balde e um esfregão.
Uma verdadeira princesa moderna! Zombou o meu subconsciente
Os meus avós criaram-me numa pequena vila do interior, simples e humilde. Lá não existia espaço para luxos, mas nunca faltou dignidade. Aprendi cedo que ninguém enchia a barriga apenas com sonhos, mas também aprendi que viver sem eles era ainda pior. Por isso continuei acreditando que um dia tudo mudaria.
Sempre que alguma das minhas patroas resolvia transformar a minha vida num episódio de tortura psicológica, o meu subconsciente aparecia para discursar:
“Calma, Lupita... um dia tu vais rir disto tudo.”
“Espero que seja numa cobertura com piscina...” mentalmente me encorajava
“Também não exagera.” Comentou meu subconsciente.
— Isto não está limpo, Lupita!
A voz presunçosa ecoou pelo salão e arrancou-me dos meus pensamentos como um trovão em céu limpo.
(Haja paciência... quase tive uma parada cardíaca.)
Olhei para o chão e era nítido brilho impecável.
Brilhava tanto que dava para ver o meu reflexo cansado... e até as minhas olheiras pareciam satisfeitas com o resultado.
Mas não, segundo a patroa, estava mal limpo.
Respirei fundo.
Um... dois... três... porque matar a patroa definitivamente não era a melhor opção.
— Vou refazer, senhora Bruna.
Sorri. Ou melhor... ofereci o sorriso mais falso que os meus chinelos havaianos, o sorriso de quem precisava desesperadamente do salário no fim do mês.
Bruna inclinou levemente a cabeça, satisfeita. Não com o meu trabalho, mas com o facto de eu não responder à altura.
“Calma, Lupita...” dizia novamente o meu subconsciente.
“Você consegue...”
“Consegue o quê?”
“Não ser presa hoje.”
“Excelente meta.”
Bruna era a neta mais velha do senhor Ramon. Ela e a irmã, Rute, nunca gostaram de mim. E até hoje nunca descobri exatamente o motivo. Talvez eu respirasse alto demais. Talvez o meu cabelo cacheado ofendesse alguém. Talvez elas simplesmente acordassem todos os dias e pensassem:
“Quem vamos infernizar hoje?” Resposta unânime: “A Lupita.”
As duas eram bonitas, elegantes, ricas... e insuportavelmente mimadas. Mas comigo... ah.... Pareciam ter assinado um contrato vitalício de implicância. Às vezes até me perguntava se, numa vida passada, eu tinha roubado o brinquedo favorito delas. Porque, sinceramente, tanto ódio exigia algum investimento espiritual.
Então Bruna finalmente virou as costas e saiu rebolando pelo corredor como se estivesse numa passarela de moda.
MEGERA! - Gritei sem voz e fiz careta
“Ela anda ou desfila?” Balbuciou minha deusa interior
“Acho que está tentando provocar um terremoto com o salto alto.”
Não consegui evitar. Sorri sozinha, até por que, rir ainda era muito mais barato do que pagar terapia. Porque era isso ou começar a discutir sozinha no meio do salão, e eu já tinha uma reputação complicada o suficiente.
E regressei ao meu mundo, organizando mentalmente uma lista de maneiras educadas de mandar a Bruna passear. Na minha imaginação, a lista já ia na opção número quarenta e três.
“E se empurrássemos ela para dentro da piscina?” Sugeriu a minha deusa interior.
“Muito óbvio.” Respondeu o meu subconsciente.
“Então colocamos sal no café dela?”
“Pouco satisfatório.”
“E se fingíssemos um exorcismo?”
Parei de esfregar o chão por um segundo.
Sinceramente... quanto mais eu convivia com a Bruna e a Rute, mais começava a desconfiar de certas coisas, vai que elas realmente não eram netas do senhor Ramon...
Vai que tinham sido esquecidas pelo próprio capeta na maternidade.
Porque não era possível duas pessoas acordarem bonitas, ricas e ainda assim escolherem gastar o dia inteiro infernizando a vida de uma pobre empregada.
Aquilo era vocação.
“Sabes...” murmurou o meu subconsciente.
“Estou começando a acreditar que o Diabo fez um estágio com as duas.”
“Ou elas fizeram estágio com ele.” Corrigiu a minha deusa interior.
Na minha cabeça, a cena surgiu tão nítida que quase comecei a rir sozinha.
Imaginei um enorme salão escuro.
O próprio Diabo sentado num trono de fogo, segurando um garfo gigante, olhando orgulhoso para duas meninas pequenas.
“Minhas filhas...” dizia ele emocionado.
“Tenho tanto orgulho de vocês.”
“Pai...” respondia Bruna.
“Hoje fiz a Lupita limpar o mesmo chão cinco vezes.”
“Excelente trabalho!”
“E eu...” continuava Rute.
“Reclamei porque o copo tinha água demais.”
O Diabo limpava uma lágrima de emoção.
“Superaram o mestre...”
“A partir de hoje, o inferno é de vocês.”
Balancei discretamente a cabeça para afastar aquela loucura.
“Lupita...” suspirou o meu subconsciente.
“Tu precisas urgentemente de férias.”
“Ou de um aumento.”
“Os dois.”
Sorri sozinha.
Porque, sinceramente, se eu não transformasse aquelas duas criaturas em piada dentro da minha cabeça, acabava presa por homicídio antes do fim do mês. E, convenhamos, cadeia definitivamente não combinava com o meu tom de pele.
Soltei um suspiro e continuei esfregando o mármore. Afinal, se o chão já refletia até a minha alma, talvez conseguisse refletir também a consciência da Bruna.
Mas consciência, pelo visto, era um acessório que ela nunca comprou.
Até que o ambiente mudou... Primeiro vieram os passos firmes e calmos... e aí ele apareceu.
Antes mesmo de levantar os olhos, eu já sabia quem era. O meu coração ...ah, esse traidor sem vergonha, sempre o reconhecia primeiro, o desgraçado começou a bater tão forte que parecia querer pedir aumento de salário.
“Pronto...” suspirou o meu subconsciente. “Lá vem o problema de olhos verdes.”
“Problema nada...” rebateu imediatamente a minha deusa interior. “Lá vem o homem da nossa vida.”
“Da nossa vida? Ele nem sabe que tu existes.”
“Detalhes.”
Ele entrou na sala como se aquele espaço tivesse sido construído exclusivamente para recebê-lo. Caminhava com uma tranquilidade irritante, elegante sem fazer esforço. O deus grego loiro tinha uma postura calma e um olhar que não precisava chamar atenção de ninguém, porque ela simplesmente vinha até ele.
Era como se dissesse em silêncio:
“Podem olhar à vontade. Eu sei exatamente o estrago que causo.”
E causava, oh minha Nossa Senhora...como causava.
Continuei ajoelhada, esfregando o mármore com muito mais força do que o necessário. E o chão já estava tão limpo que dava para realizar uma cirurgia cardíaca ali mesmo.
Mas eu precisava fingir que estava ocupada porque olhar demais para o Damian era um esporte de alto risco.
“Respira...” dizia o meu subconsciente. “Não baba.”
“Impossível.” Respondeu a minha deusa interior. “Olha esse homem!”
Levantei os olhos.
E, como se o universo adorasse brincar comigo, ele olhou exatamente na minha direção e os nossos olhares encontraram-se.
Eu devia baixar os olhos imediatamente.
Imediatamente.
Só que o meu cérebro resolveu tirar férias por uns cinco segundos.
“Baixa o olhar, criatura!” Gritava o meu subconsciente.
“Espera só mais um bocadinho...” implorava a minha deusa interior.
*“Mais um segundo...”
“Pronto, agora já está passando vergonha.”
Mas, vamos lá ser sinceros tá?
Estamos a falar simplesmente do homem mais bonito que estes meus pobres olhos já tiveram o privilégio de contemplar.
Alto, loiro, com os olhos verdes que provavelmente eram proibidos em alguns países por atentarem contra a estabilidade emocional das pessoas. Uma aura descontraída, elegante e aquele jeito de quem acordava bonito por obrigação divina.
E ainda por cima era piloto de Fórmula 1.- gritou minha deusa interior.
Francamente... Deus, quando resolveu criar o Damian, claramente não usou a palavra ”moderação”.
A minha deusa interior já estava escolhendo o nome dos nossos futuros filhos.
O meu subconsciente deu-lhe uma chapada imaginária.
“Primeiro ele precisa saber que tu existes.”
“Deixa-me sonhar.”
“Sonha, mas com responsabilidade.”
— Bom dia.
A voz dele era baixa, calma e acompanhada por um pequeno sorriso.
Aquele sorriso... Meu Deus...
Aquele sorriso tinha o estranho poder de aquecer até uma segunda-feira de inverno.
E eu... Bom... eu simplesmente esqueci como funcionava a fala humana.
“Parabéns.” Comentou o meu subconsciente.
“Agora desaprendeste até português.”
Depois de uns eternos segundos tentando lembrar como as palavras funcionavam, finalmente consegui responder:
— Bom dia, senhor Damian.
“Até que enfim, burrinha!” Resmungou o meu subconsciente.
“Achei que íamos precisar chamar uma ambulância.”
A minha deusa interior apenas suspirou apaixonada.
“Ele sorriu para nós...”
“Ele sorriu por educação.”
“Não estraga o momento.”P








