Capítulo 1
O vento não soprava.
Era estranho. Não havia uma única nuvem no céu, mas o frio parecia atravessar o tecido do casaco e penetrar até os ossos. Elara esfregou os braços, sentindo o ar gelado na pele, enquanto caminhava devagar até o carro. Antes de abrir a porta, parou e olhou para trás.
O pequeno chalé de madeira permanecia iluminado pelas luzes amareladas da varanda, que espalhavam um brilho suave e quente, como se fossem pequenas chamas acesas contra o frio da noite. A madeira escura e envelhecida pelo tempo apresentava veios visíveis e alguns nós que pareciam marcas de histórias antigas, e o telhado coberto por uma camada fina de musgo parecia se fundir suavemente com a paisagem ao redor.
Não havia vento para balançar os galhos, o ar estava parado, mas carregava um perfume doce e resinoso de floresta, misturado ao cheiro leve de madeira queimada que escapava pela chaminé.
De tão afastado, parecia flutuar em seu próprio universo, isolado do barulho, da correria e das preocupações do resto do mundo. Ao redor, só se ouvia o som distante e baixo de um riacho que corria entre as pedras, escondido pela vegetação, e o canto ocasional de algum animal noturno, que não chegava a incomodar, pelo contrário, tornava o silêncio ainda mais completo e tranquilo.
Pela primeira vez em muito tempo, ali, Elara sentiu uma paz que não encontrava em nenhum outro lugar. Não havia pressa, não havia perguntas sem resposta. O calor que vinha das janelas entreabertas, a luz suave e o silêncio envolvente pareciam envolvê-la como um abraço, fazendo com que, por alguns instantes, o tempo parecesse parar completamente.
Queria voltar. Queria passar mais uma noite sob aquele teto.
A viagem fora ideia de Daran. Nos últimos meses, ele andava diferente: o trabalho, sempre envolto em segredos, consumia quase todo o seu tempo. Havia noites em que mal dormia; em outras, ficava calado, perdido em pensamentos que nunca compartilhava. Elara tentava compreender, mas a distância dele doía, por isso aquele fim de semana significava tanto: era o jeito dele de dizer, sem precisar de palavras, que ainda a amava.
Ela sorriu sozinha, deixando que a lembrança aquecesse o peito.
Havia quatro anos que Elara dedicava-se inteiramente aos estudos. Como pesquisadora de História Medieval, vivia rodeada de documentos antigos, mapas desbotados e textos escritos em línguas há muito esquecidas. A maioria das pessoas bocejam quando ela começava a explicar suas descobertas, mas Daran era o contrário, ela nunca deixava de se surpreender; às vezes ainda se perguntava como duas vidas tão diferentes haviam se encontrado.
Elara nunca fora o tipo de pessoa que chamava atenção ao entrar em um lugar. Era baixa, de estrutura delicada, e se movia com a discrição de quem prefere observar a ser observada. Seus cabelos negros, tão escuros que pareciam absorver a luz, quase sempre ficavam presos em um coque apressado, de onde algumas mechas sempre escapavam. Os óculos de armação redonda eram grandes demais para seu rosto, escondendo parte dos olhos atentos e curiosos que viviam voltados para os livros. Suas roupas eram uma coleção de moletons, camisetas e casacos com estampas genéricas, peças que ela usava sem se preocupar demais com a aparência.
Naquela noite, porém, havia feito um esforço diferente. Soltou os cabelos, vestiu um vestido simples e por cima colocou um casaco grosso para enfrentar o frio. Daran havia insistido: queria vê-la sem as roupas de sempre, só por uma noite.
- Você fica linda de qualquer jeito - ele dissera, com aquele tom calmo que a fazia esquecer qualquer insegurança.
Ela sorriu ao lembrar da voz dele.
Daran era exatamente o oposto: bastava entrar em um ambiente para que todos olhassem. Alto, de ombros largos, barba bem aparada e pele de tom quente, como caramelo, tinha uma presença impossível de ignorar. Mas o que mais a fascinava era a grande marca de nascença que se espalhava do lado direito do peito até o pulso, formando linhas que pareciam pequenos raios desenhados na pele. Desde o primeiro momento em que o viu, não conseguiu desviar o olhar.
Pensar nisso fez com que sua mente voltasse a 6 anos atrás, na noite em que se conheceram. Na verdade, ela nunca deveria ter ido àquela festa - foi Joy, sua melhor amiga desde o início da faculdade, quem insistiu, sem dar espaço para recusas.
- Você passa a vida toda enfiada nos livros. Vai morrer sem saber o que é se divertir de verdade - disse a amiga.
Elara respondeu com sua calma habitual:
- Não vejo problema nenhum nisso.
Mesmo assim, acabou cedendo.
Quando chegaram à porta da casa noturna, havia uma fila imensa. Por um instante, Elara quase suspirou de alívio:
- Acho que não vamos conseguir entrar...
- Claro que vamos! - respondeu Joy, segurando sua mão com firmeza. - A Darah conseguiu acesso VIP.
Darah era mais uma estudante da mesma sala. Era esguia e muito alta, com uma postura que parecia sempre querer se impor.
Elara não tinha muita intimidade com ela; na verdade, mantinham uma distância discreta. Mas Joy a adorava, especialmente quando se tratava de saídas noturnas e de tudo o que era proibido ou difícil de conseguir.
- Como?
Joy deu de ombros, com um sorriso travesso:
- Dizem que ela está fazendo a cabeça do DJ.
Elara arregalou os olhos, surpresa:
- O quê?
Mas Joy apenas riu e a puxou para frente.
Enquanto esperavam, Elara o viu pela primeira vez. Estava apenas algumas pessoas à frente, vestido com uma simples camiseta branca que deixava à mostra a marca de nascença incomum, subindo por todo o braço e desaparecendo sob o tecido, e uma calça jeans escura. Mantinha as mãos nos bolsos e o rosto fechado, deixando claro que preferia estar em qualquer outro lugar. Ela não conseguiu desviar o olhar.
Darah percebeu imediatamente. Cutucou o ombro de Elara e sorriu com a confiança de quem já considerava a conquista garantida:
- Nem pense nisso.
Elara franziu a testa, sem entender:
- Pensar no quê?
Sarah apontou discretamente para o rapaz:
- Naquele ali. Ele já é meu.
Elara apenas deu de ombros. Não o conhecia, e muito menos tinha intenção de se aproximar de alguém no meio daquela multidão barulhenta. Quando voltou a olhar para frente, porém, ele já havia desaparecido entre as pessoas.
Pouco tempo depois, conseguiram finalmente atravessar a multidão e chegar ao salão principal. Assim que entraram, Joy e Darah a puxaram pelos braços, quase correndo, e a arrastaram direto para o centro da pista de dança, onde o movimento era mais intenso.
A música vinha em ondas fortes, tão alta que fazia as paredes parecerem pulsar e o próprio chão vibrar suavemente sob os pés, como se estivesse vivo. Luzes de todas as cores, vermelhas, azuis, douradas e roxas, giravam e riscavam o ar em movimentos rápidos e frenéticos, iluminando rostos e corpos por um instante antes de deixá-los novamente na penumbra. O ar estava quente e denso, misturando o cheiro de suor, perfume doce, bebidas e fumaça leve que subia em nuvens finas pelo ambiente.
Elara mal conseguia pensar direito com o barulho e a agitação ao redor. De repente, sem perceber bem quem o entregava, sentiu alguém colocar um copo de vidro gelado em sua mão. Não parou para perguntar o que havia dentro - o líquido tinha uma cor avermelhada e brilhava à luz dos refletores, e o cheiro forte de álcool e fruta subiu até o seu nariz. Naquele momento, não lhe importou o que era; queria apenas se deixar levar, esquecer os livros, os prazos e a rotina pesada de estudante era o fim do semestre, e por algumas horas queria simplesmente desligar a cabeça. Então bebeu, dançou e riu, deixando para trás os prazos, os artigos e as pilhas de livros que esperavam por ela em casa.
Mal percebeu quanto tempo passou. Quando as pernas começaram a pesar e os pés a doer, só queria encontrar um lugar para descansar. Felizmente, tinha um dom especial: sabia achar o canto mais vazio de qualquer ambiente, de preferência com um sofá confortável. Depois de olhar ao redor, encontrou exatamente o que procurava: um assento quase escondido no fundo do salão. Joy a seguiu e, em poucos segundos, caiu ao lado, exausta.
- Não dorme, Joy...
- Só vou descansar os olhos... - respondeu a amiga, já com a voz arrastada.
Elara sorriu e começou a fazer carinho distraidamente nos cabelos dela, enquanto observava o movimento da festa.
Foi então que, entre o vaivém da multidão e o brilho das luzes, Elara avistou Daran novamente, do outro lado do salão, um pouco afastado do centro da agitação. Ao lado dele, Darah fazia de tudo para roubar-lhe a atenção: erguia o queixo, equilibrava com esforço um copo alto de vidro com bebida de tom avermelhado e brilhante bem no topo da cabeça, e ria de forma exagerada, já com a fala arrastada e o corpo balançando de um lado para o outro estava visivelmente bêbada, sem conseguir manter o equilíbrio nem o foco.
Por alguns segundos, pareceu que conseguiria manter o copo ali, mas o movimento inconstante do seu corpo fez com que ele escorregasse devagar, até tombar de vez. Metade do líquido espirrou para os lados, e o restante desceu em jato direto sobre a camiseta branca que Daran vestia, manchando o tecido claro de uma cor escura e deixando o pano grudado à pele.
Ele fechou os olhos lentamente, respirou fundo uma vez, depois outra, como se estivesse contando até dez para não perder a calma. Não fez gestos bruscos, não gritou nem demonstrou raiva abertamente, apenas mantinha a expressão tensa, o maxilar ligeiramente cerrado, suportando a situação com uma paciência que parecia custar-lhe esforço.
Darah, por sua vez, não percebeu o incômodo: continuou rindo alto, como se aquilo fosse uma brincadeira divertida, e levantou as mãos trêmulas e desajeitadas para tentar limpar a mancha, espalhando ainda mais o líquido e deixando a roupa ainda mais úmida.
Sem dizer uma única palavra, sem olhar sequer para ela, Daran afastou suavemente as mãos da moça, virou as costas devagar e começou a caminhar para longe, deixando para trás o copo caído no chão, a risada confusa e toda aquela confusão que ele claramente não queria fazer parte.
Elara acompanhou a cena, divertida, até perceber que ele vinha em sua direção. Seu coração disparou de repente, e ficou imóvel, observando-o se aproximar de cabeça baixa. Ele parou ao lado do sofá, soltou um suspiro cansado e sentou-se ao seu lado.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, até que ele apontou discretamente para Joy, que já roncava baixo, com a cabeça apoiada no colo de Elara:
- Sua amiga está viva?
Elara piscou, sem entender de imediato:
- Hã?
Foi então que ele sorriu - o primeiro sorriso daquela noite, e iluminou todo o seu rosto:
- Perguntei se ela está bem.
Elara não conseguiu segurar a risada e apontou, também com discrição, para Darah, que agora tentava repetir a mesma façanha com outro rapaz:
- Está em melhor estado do que a outra, pelo menos.
Daran olhou na direção indicada, depois voltou os olhos para ela, com uma expressão de surpresa e compreensão. No instante em que seus olhos se encontraram, os dois riram ao mesmo tempo.
Foi ali, naquele sofá escondido no canto de uma casa noturna barulhenta, que tudo começou. Às vezes, Elara pensava que a vida tinha um senso de humor muito próprio: ela, que preferia bibliotecas a festas; ele, que claramente também não queria estar ali. Bastou uma camiseta encharcada, uma amiga desacordada e uma conversa inesperada para que ela encontrasse o amor da sua vida.
Se alguém tivesse contado essa história antes, ela jamais acreditaria. Mas, olhando pela última vez para o chalé iluminado, tinha certeza absoluta de uma coisa: encontrar Daran fora a melhor coincidência de toda a sua existência.








