Capítulo 1 - Prólogo

Capítulo 1 - Prólogo
A escuridão daquele mundo não era feita apenas de monstros, sangue ou guerras. Ela vivia dentro das pessoas.
Nos reis consumidos pela ambição. Nos homens destruídos pelo medo. Nas mães que enterravam seus filhos enquanto os deuses permaneciam em silêncio.
E, no meio daquele vazio sem esperança, uma voz ecoou.
Não como um trovão. Não como uma ordem.
Mas como um abraço quente em meio ao inverno.
— Meu filho... você precisa entender que viver dói.
A voz feminina parecia atravessar a própria alma do guerreiro ajoelhado.
— A vida traz felicidade, mas também traz perdas. Traz amor, mas também sofrimento. Traz desafios que quebram homens, reinos... e até a fé.
Uma luz branca envolvia lentamente o salão antigo, iluminando as ruínas esquecidas daquele templo.
— Diante da dor, existem apenas dois caminhos. O primeiro... é enfrentar o sofrimento e aprender com ele. Tornar-se forte o bastante para ensinar outros a continuarem caminhando, mesmo quando seus corações estiverem despedaçados.
A voz se tornou mais pesada.
— O segundo caminho... é parar. Ver o desafio como um muro intransponível. Entregar-se ao medo. Aprisionar-se na própria dor.
O ar ficou frio.
— E muitos escolhem esse caminho. Permanecem acorrentados ao sofrimento... à perda... à culpa. Transformam suas vidas em um altar erguido para a própria tristeza.
A luz voltou a crescer.
— Mas basta um único passo para que a perda se transforme em perdão.
O guerreiro ergueu lentamente os olhos.
Diante dele, uma figura divina se formava entre partículas douradas e véus de luz branca. Não havia ódio em seus olhos. Não havia julgamento.
Apenas compaixão.
— Eu escolho você, meu querido paladino... como a última luz deste mundo sombrio.
A presença da deusa fazia o próprio chão estremecer.
— Esta terra tornou-se imaculada de espírito. Os homens já não buscam aquilo que não podem tocar. Já não tentam sentir o que existe além das emoções humanas. Abandonaram a esperança de construir algo melhor.
O silêncio tomou conta do templo.
— É difícil acreditar na paz em um mundo onde a violência caminha sem correntes.
Então, pela primeira vez, a deusa sorriu.
— Ainda assim... eu escolho você.
A luz tocou o peito do guerreiro.
— Não por ser perfeito. Nenhum homem é. Eu conheço seus erros... suas dúvidas... seus pecados. Mas também conheço sua fé.
A voz dela agora parecia próxima.
Maternal.
— E enquanto sua fé existir, jamais estará sozinho. Reze para mim... e eu ouvirei.
O brilho ao redor começou a desaparecer lentamente.
— Este será nosso último diálogo desta forma, meu último paladino. Então diga-me... qual é o nome daquele que carregará minha vontade até o fim?
O guerreiro fechou os olhos.
Respirou fundo.
E então declarou em voz alta:
— Meu nome é Marcelo Leonhardt.
A energia ao redor explodiu em luz.
— Sou o último paladino abençoado pela deusa Oxalá. Que minha força sirva ao seu propósito. Que minha vontade caminhe ao lado da sua. Estou aqui para mostrar ao mundo o poder daqueles que possuem fé.
E então...
a luz desapareceu.
E aquela foi a última luz que o paladino viu.
Pois o mundo... já estava coberto pela escuridão.





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