Zanúria by Wendell at Inkitt
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Zanúria

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Summary

Em 2020, um país até então desconhecido revelou sua existência ao mundo. Tecnologicamente séculos à frente de seu tempo, governado por uma revolução popular e habitado por humanos e licantropos que convivem como iguais, Zanúria tornou-se um dos maiores mistérios da geopolítica moderna. Mas por trás de suas cidades afrofuturistas, da exploração de Marte, da inteligência artificial e das conquistas científicas, existe algo ainda mais extraordinário: as pessoas. A história acompanha a família Aguanda em 2045 — liderada por Kuatso, ex-presidente e revolucionário, e Aleen, seu marido — enquanto equilibram a vida familiar com responsabilidades que podem mudar o destino de uma nação. Ao lado dos filhos adotivos Amani e Zola, do genro Malik Santos, astro do basquete mundial, e de uma rede de amigos e aliados, eles enfrentam desafios políticos, científicos, militares e pessoais em uma sociedade que tenta provar que outro futuro é possível. Entre partidas históricas da LBZ, debates sobre soberania, descobertas que desafiam a ciência e momentos de humor e afeto dentro de casa, **Zanúria** é uma história sobre família, identidade, comunidade e esperança. Um retrato de um país imaginário que, talvez, revele mais sobre o nosso próprio mundo do que gostaríamos de admitir.

Genre
Scifi/Lgbtq
Author
Wendell
Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
16+

Um Dia de Janeiro

O teto estava escuro quando Aleen abriu os olhos.

Não havia alarme. Nunca havia — ele acordava antes de qualquer alarme desde antes de o alarme existir como conceito. Trezentos e nove anos de hábito não se quebram por nada, nem por uma noite que durou mais do que devia.

Ele ficou parado por um momento, avaliando o inventário do próprio corpo com a serenidade de quem já passou por coisas piores. Ombro esquerdo: presente, porém com opinião. Costelas do lado direito: também com opinião. O resto: negociável.

— Grovak — Resmungou ele em zanuri, o palavrão saiu naturalmente como um leve rosnado.

Aleen tinha um metro e noventa e oito de altura — relativamente baixo para um licantropo adulto. Os licantropos eram naturalmente maiores e mais longevos que os humanos, característica que moldava boa parte da sociedade zanuriana. Mesmo assim, Aleen ainda conseguia parecer delicado perto da maioria deles. Os cabelos cacheados, tingidos de amarelo havia décadas, estavam completamente desalinhados depois da noite de sono. Gostava daquela cor. Depois de cinquenta anos, já não conseguia imaginar a própria imagem sem ela.

Do lado dele, o marido dormia com aquela qualidade particular que Aleen tinha aprendido a reconhecer ao longo dos anos. Kuatso estava de bruços, um braço cruzado sobre onde Aleen havia estado, como se o corpo soubesse antes da consciência que havia algo para segurar.

Trezentos e nove anos, pensou, e ainda fico aqui parado olhando pra esse homem dormir.

Levantou devagar — não por Kuatso, que provavelmente sobreviveria a um terremoto naquele estado, mas porque o próprio corpo pediu gentileza. Pegou a camiseta que estava no chão. A dele, não a de Kuatso. Reconheceu pela estampa desbotada do time que havia torcido num jogo quarenta anos atrás e nunca jogou fora.


A cozinha estava fria do jeito que janeiro sabia ser em Kinaris — aquela friagem que não era severa, só insistente, que entrava pelas janelas antes do sol resolver aparecer de verdade.

Aleen colocou água para ferver, encostou os dois cotovelos na bancada e olhou para a janela. Lá fora, o céu estava fazendo aquela coisa de início de ano: metade nublado, metade sem decisão. Uma garoa fina que ainda não havia se comprometido a ser chuva de verdade.

Encontrou o celular na bancada — devia ter caído do bolso em algum momento da noite anterior — e verificou o grupo.

Família Aguanda e Agregados tinha quatorze mensagens novas desde a meia-noite.

Aleen rolou para cima com o polegar.

Zola havia mandado um áudio de sete minutos às 2h da manhã sobre alguma coisa no trabalho. Ninguém havia respondido o áudio em si. Malik havia respondido com um emoji de lua. Iago havia mandado “Zola isso não pode esperar até amanhã?” ao que Zola havia respondido “já É amanhã”. Akin havia mandado um sticker de um gato com olhos vidrados que aparentemente expressava o sentimento coletivo do grupo.

Amani havia mandado um meme às 3h. Sem contexto. Sem explicação. O meme continuava sem resposta, flutuando no grupo com a tranquilidade de quem não precisava de aprovação.

Íris havia mandado uma foto às 6h17 — já estava na rua, a câmera apontada para uma árvore molhada numa praça. A legenda dizia apenas: “janeiro.”

Aleen sorriu para a tela.

Digitou:

|bom dia família. dormi como alguém que merece sair de cadeira de rodas e vou fazer isso de novo amanhã à noite

Esperou.

A resposta de Zola veio em quarenta segundos:

|PAI

|EU NÃO PRECISO SABER DISSO

|EU ACABEI DE TOMAR CAFÉ

Aleen riu — um som baixo, só para ele — e foi buscar as xícaras.

Kuatso apareceu na cozinha vinte minutos depois.

Tinha dois metros e cinco de altura e uma presença difícil de ignorar até entre licantropos. Os dreadlocks escuros caíam desalinhados até os ombros, completamente amassados pelo travesseiro. Ainda estava sem camisa, revelando o corpo forte moldado por décadas de combate, treinamento e longas marchas durante a Revolução. Algumas cicatrizes discretas espalhadas pelos braços e pelo peito eram lembranças silenciosas daquela época — e também dos anos como agente da Nyoka.

A expressão, porém, era bem menos intimidadora. Parecia apenas alguém que ainda não havia decidido voltar completamente ao mundo dos vivos antes da primeira xícara de café.

Ficou parado na entrada da cozinha olhando para Aleen com o café já pronto na bancada.

— Você postou alguma coisa no grupo — disse. Não era pergunta.

— Bom dia pra você também.

— Aleen.

— Kuatso. — Aleen empurrou a xícara na direção dele. — Café.

Kuatso pegou a xícara. Ficou em silêncio por um momento, bebendo, com os olhos semifechados ainda. Depois:

— O que você postou.

— Nada demais.

— Zola me mandou mensagem separada.

— Ela é dramática.

— Ela é filha sua.

Aleen inclinou a cabeça levemente, como quem considera o argumento.

— Isso é verdade.

Kuatso olhou para ele por cima da xícara. Tinha aquela expressão que Aleen conhecia bem — não raiva, não constrangimento real, mas aquela tentativa de manter a linha séria que durava exatamente até o momento em que não durava mais.

— Você vai tirar do ar?

— Não.

— Aleen.

— Está chuvoso lá fora, — disse Aleen, indo buscar a própria xícara, — você quer ovos?

Kuatso ficou parado por mais dois segundos. Depois foi sentar na cadeira da cozinha com o café, que era exatamente o que Aleen sabia que ele ia fazer.

— Com torrada — disse Kuatso.

— Eu sei.

A garoa lá fora finalmente havia se decidido. Não muito — só o suficiente para fazer barulho nas vidraças e deixar as ruas com aquele brilho molhado de manhã de janeiro.

Kuatso estava com o celular na mão agora, lendo alguma coisa da Nyoka com aquela expressão comprimida que aparecia quando algo exigia atenção mas não era urgente. Aleen o conhecia bem o suficiente para distinguir os tipos de silêncio — esse era o silêncio de processamento, não o silêncio de problema real.

Colocou os ovos na frigideira.

O cheiro tomou a cozinha.

Por um momento, foi só isso: chuva na janela, frigideira no fogo, Kuatso lendo em silêncio com o café na mão.

Aleen pensou em trezentos e nove anos de manhãs. Quantas havia acordado sozinho. Quantas havia acordado em lugares que não eram casa. Quantas havia acordado sem saber o que vinha pela frente.

E então pensou nessa — ombro dolorido, garoa insistente, marido mal-humorado e completamente amado do outro lado da mesa — e não sentiu nada além de uma gratidão quieta e absolutamente específica.

Virou os ovos.

— Nakoa vem hoje? — perguntou.

Kuatso levantou os olhos do celular.

— Zola falou alguma coisa ontem. — Uma pausa. — Antes de você mandá-la ao desespero às sete da manhã.

— Ela vai se recuperar. É jovem.

— Ela tem vinte e três anos e a sua resistência.

Aleen serviu os ovos no prato, empurrou na direção do marido, e foi buscar a torrada.

— Então vai se recuperar rápido, — disse, — e vai aparecer aqui pra me contar pessoalmente o que acha da minha postagem, e eu vou adorar cada segundo.

Kuatso olhou para o prato. Para Aleen. Para o prato de novo.

Não disse nada.

Mas comeu a torrada.

O Dolphin vibrou às 8h42.

Aleen estava lavando as xícaras quando viu a notificação. Não do grupo — mensagem direta. De Zola.

Zola |pai ele vai aí às dez

|eu e malik temos coisas pra fazer

Aleen |“coisas” entre aspas ou coisas de verdade?

Zola |COISAS DE VERDADE PAI

|eu tenho uma reunião em Mawu às onze e malik tem treino

Aleen |ah então vocês são responsáveis

Zola |PAI

|leva o Trovão também ele destruiu o tapete da sala ontem

Aleen leu a última mensagem duas vezes.

Depois foi até a sala onde Kuatso estava terminando o café com o tablet na mão, já com aquela postura ligeiramente mais vertical que significava que o Diretor da Nyoka havia começado a acordar junto com o homem.

— Nakoa vem às dez — disse Aleen.

— Eu ouvi a vibração.

— E o Trovão destruiu o tapete de Zola.

Kuatso levantou os olhos.

— De novo?

— Aparentemente.


— Esse cachorro — disse Kuatso, com o tom exato de alguém que havia dito essa frase muitas vezes antes e havia desistido de terminá-la.

— Esse cachorro é o amor da nossa vida e você sabe disso.

Kuatso não respondeu. O que era, nos termos deles, uma confirmação.

Trovão chegou primeiro.

Isso porque Malik havia mandado uma mensagem dez minutos antes dizendo “a gente chega às dez” e Nakoa havia chegado às nove e quarenta e cinco porque Nakoa não operava dentro de nenhum sistema de tempo convencional.

A campainha tocou. Aleen abriu a porta.

o lado de fora estava Nakoa Aguanda Santos. Aos cinco anos, ainda tinha aquele jeito tipicamente infantil de ocupar espaço demais para alguém tão pequeno. Usava um impermeável amarelo que quase escondia o restante das roupas, uma mochila maior do que parecia necessário para um dia de aula e botas de chuva que faziam um pequeno toc-toc sobre a calçada molhada sempre que mudava o peso de um pé para o outro. A mochila trazia um enorme lobo estampado na frente, escolhido por ele mesmo semanas antes com uma convicção que a maioria dos adultos só demonstrava ao comprar uma casa.

Os olhos roxos, herdados da mãe, chamavam atenção de qualquer licantropo. Entre eles, aquela coloração era um dos traços mais conhecidos dos portadores do HLB2, uma variação genética rara. Os dentes de leite ainda resistiam firmes, e os cabelos crespos já davam sinais de que uma visita ao barbeiro vinha sendo adiada havia pelo menos duas semanas.

Ao seu lado, preso à guia com tranquilidade quase cômica, estava Trovão. Para qualquer outra cidade do mundo, ele seria um cachorro grande. Em Zanúria, ainda era considerado apenas um cão grande. Mesmo assim, sua presença chamava atenção. O pelo escuro estava encharcado pela garoa fina, e seus olhos acompanhavam o movimento da rua com a serenidade de quem parecia acreditar que todos estavam fazendo alguma coisa errada.

Nakoa olhou para o avô.

— Trovão queria vir logo — disse, como explicação completa.

Aleen agachou na altura do neto.

— Claro que queria.

— A mamãe disse dez horas mas Trovão não sabe que horas são.

— Trovão é muito sábio.

Nakoa considerou isso com muita seriedade.

— Eu também não sei que horas são direito — admitiu.

— Então vocês dois combinam. Entra.

Trovão entrou na casa com a soberania de quem não reconhece barreiras arquitetônicas como obstáculos reais. Foi direto para o centro da sala, rodou uma vez, e deitou no tapete com um barulho surdo que fez a mesa do café tremer levemente.

Nakoa tirou o impermeável com a concentração de uma tarefa séria, jogou no gancho mais baixo — o que havia sido instalado na altura dele há um ano — e foi até a sala com a mochila ainda nas costas.

Encontrou Kuatso.

A dinâmica entre os dois tinha uma qualidade específica que Aleen observava com prazer clínico há cinco anos. Kuatso — que havia dirigido operações de inteligência em três continentes, que havia presidido uma nação, que fazia salas inteiras de adultos recalibrarem a postura só com a presença — ficava completamente desarmado diante de um metro e pouco de criança com mochila de lobo.

— Vovô — disse Nakoa.

— Oi — disse Kuatso.

Nakoa foi até o sofá, escalou, e se instalou do lado do avô com a naturalidade de quem ocupa espaço por direito adquirido. Olhou para o tablet na mão de Kuatso.

— O que é isso?

— Trabalho.

— Chato?

Uma pausa brevíssima.

— Sim — admitiu Kuatso.

— Então para.

Aleen, da cozinha, ouviu isso e teve que colocar a mão na boca.

Kuatso pousou o tablet na mesa.

Às dez e quinze, Malik apareceu no portão com cara de quem havia perdido completamente a noção do tempo durante o treino e resolvera compensar correndo os dois últimos quarteirões. O cabelo raspado ainda estava úmido, e a barba, restrita ao queixo, já havia se tornado sua marca registrada.

Com dois metros e dez de altura, era o mais alto da família, mesmo sendo humano. O físico impressionava menos pelo volume e mais pela eficiência. Cada músculo parecia ter uma função específica, resultado de anos dedicados ao basquete. Não havia um único movimento desperdiçado naquele corpo; tudo nele parecia construído para acelerar, saltar e permanecer no ar por um segundo a mais que qualquer adversário.Não era difícil entender por que muitos o consideravam o melhor jogador do planeta , competindo de igual para igual — e frequentemente superando — atletas licantropos maiores, mais fortes e naturalmente mais resistentes.

A bolsa de ginástica estava jogada sobre um dos ombros, e a expressão era a clássica de um pai que chegou atrasado para deixar o filho com os avôs e já esperava ouvir uma bronca.

Aleen abriu a porta antes de ele tocar a campainha.

— Ele já está aqui há trinta minutos — disse Aleen.

— Eu sei, eu sei. — Malik passou a mão no rosto. — O Trovão puxou a guia e Nakoa simplesmente foi junto e eu—

— Malik.

— Sim?

— Entra. Tem café.

Malik entrou com o alívio específico de quem havia sido perdoado sem precisar negociar.

Da sala veio a voz de Nakoa:

— PAI!

— Oi, filho.

— Você chegou atrasado.

— Eu sei.

— O vovô falou que trabalho é chato.

Malik olhou para Aleen. Aleen olhou para o teto.

— O vovô — disse Malik com cuidado — tem razão às vezes.

A chuva aumentou um pouco perto das onze.

Nakoa havia decidido, com a autoridade soberana dos cinco anos, que era hora de jogar. Isso significava que o tablet de Kuatso havia sido sequestrado — com consentimento total do proprietário, o que dizia muito — e Nakoa estava sentado no chão da sala com Trovão deitado ao lado dele como encosto vivo, controlando algum jogo com uma concentração que Aleen achava geneticamente familiar.

Malik estava no sofá com o café que havia chegado frio mas bebido assim mesmo, olhando o filho jogar com aquela expressão aberta que ele só tinha em casa. Não havia câmera, não havia torcida, não havia nada que precisasse ser gerenciado. Era só Malik Santos sentado num sofá olhando o filho e parecendo exatamente o que era — um homem completamente feliz num momento completamente comum.

Kuatso estava do outro lado da sala com o próprio café, de pé perto da janela. Aleen foi até ele sem fazer barulho, encostou levemente no ombro do marido.

Do lado de fora a garoa desenhava trilhas nas vidraças.

Do lado de dentro: Nakoa xingando baixinho o jogo. Trovão suspirou fundo. Malik ria.

— Você ia trabalhar de manhã — disse Aleen, em voz baixa.

— Ia — confirmou Kuatso.

— E?

Kuatso olhou para o neto por um momento.

— E pode esperar.

Aleen não disse nada. Só ficou encostado no ombro do marido, olhando a chuva lá fora, com a satisfação quieta de alguém que sabia exatamente o que havia construído.

O almoço foi rápido e barulhento da forma que só acontecia quando Nakoa estava presente.

Aleen havia feito arroz, feijão e frango — nada elaborado, o tipo de comida que a casa pedia num dia de chuva — e os quatro haviam se instalado na mesa com a desorganização natural de uma família que havia parado de se preocupar com protocolo há muito tempo. Nakoa comeu metade do prato com foco total e a outra metade enquanto tentava contar uma história sobre uma tartaruga que havia visto numa ilustração no tablet, que havia virado uma história sobre uma tartaruga que ele queria ter, que havia virado uma negociação silenciosa com Malik que terminou com Malik dizendo “fala com a sua mãe” com a tranquilidade de quem havia aprendido a transferir esse tipo de decisão com eficiência cirúrgica.

Trovão ficou embaixo da mesa durante todo o almoço. Ninguém comentou.

Malik levantou da mesa perto da uma da tarde.

— Treino às duas — disse, já com o celular na mão verificando mensagens do CT.

— Você acabou de comer — disse Aleen.

— Eu como de novo depois. — Malik pegou a bolsa de ginástica que havia deixado no corredor. — Nakoa, pai vai indo.

Nakoa levantou os olhos do prato.

— Você vai treinar?

— Vou.

— Posso ir?

— Não hoje, filho.

Nakoa avaliou isso com a seriedade de uma objeção formal.

— Por quê?

— Porque hoje é treino fechado.

— O Zion vai estar lá?

Malik pausou.

— Por que você pergunta do Zion?

— O vovô Aleen falou que o Zion é seu inimigo.

Aleen, da cozinha, não se voltou.

Rival — disse Malik, com um cuidado específico. — A palavra é rival. São coisas diferentes.

— Qual a diferença?

— Inimigo é alguém que você quer que perca. Rival é alguém que te faz jogar melhor.

Nakoa pensou nisso por um tempo genuinamente longo para uma criança de cinco anos.

— Mas você quer que ele perca?


— Nos jogos que importam — disse Malik — sim.

— Então é inimigo.

Malik olhou para Kuatso em busca de apoio. Kuatso estava com a expressão de alguém que estava se divertindo muito e não tinha nenhuma intenção de intervir.

— Você cresceu muito — disse Malik para o filho.

Nakoa voltou ao prato satisfeito.

Malik se despediu de Nakoa com um abraço que durou o tempo que Nakoa decidiu que devia durar — que era mais do que Malik havia planejado mas exatamente o suficiente. Depois foi até Kuatso, que estava de pé no corredor com a jaqueta já na mão.

— Reunião hoje? — perguntou Malik, em voz mais baixa.

— Sempre tem — disse Kuatso.

— Algo sério?

Kuatso olhou para ele por um segundo. Havia algo nessa troca — dois homens que a vida havia colocado em posições muito diferentes mas que partilhavam a mesma casa, o mesmo filho, a mesma família — que não precisava de muitas palavras.

— Nada que precise estragar o seu treino.

Malik assentiu. Era suficiente.

— Jogo quinta — disse Malik. — Contra os Miners. Vocês vêm?

— Nakoa já sabe a escalação de cor — disse Aleen da sala.

— Isso é um sim?

— Isso é um sim — confirmou Kuatso.

Malik saiu com a bolsa no ombro e o passo de alguém que já havia começado a entrar no modo treino dois quarteirões antes de chegar ao CT.

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Great Character

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Strong Dialog

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