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As crônicas de Ouroboros

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Summary

As Crônicas de Ouroboros: Aurora e Crepúsculo Muito antes de os homens escreverem sua história, os deuses já disputavam o destino do mundo. Entre reinos antigos, florestas que guardam segredos, cidades erguidas sobre ruínas esquecidas e povos tão distintos quanto os próprios céus, antigas forças voltam a mover peças de um jogo que jamais deixou de existir. Enquanto alianças se formam, crenças são postas à prova e sombras despertam além do horizonte, uma presença silenciosa acompanha cada escolha, cada nascimento, cada queda. Ela não interfere. Apenas observa. Há verdades que atravessam eras. Há nomes que não devem ser pronunciados cedo demais. E há histórias que precisam ser vividas antes de serem compreendidas. As Crônicas de Ouroboros: Aurora e Crepúsculo é o primeiro volume de uma saga de fantasia épica sobre deuses, raças ancestrais, poder, sacrifício e os fios invisíveis que unem todas as coisas. Uma jornada onde cada resposta conduz a um mistério ainda maior - e onde o verdadeiro significado de Ouroboros só se revela àqueles que chegam ao fim... para descobrir que esse talvez seja apenas o começo.

Genre
Fantasy
Author
elton
Status
Ongoing
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
13+

O Cântico das primeiras luzes

Eu me lembro de lampejos, e não sei dizer se lembrar é criar. Talvez toda memória seja um pequeno ato de fabricação — e, se assim for, eu já não distingo mais a testemunha do artesão. Chamo-me Destino por abreviação de algo maior que não cabe no nome; os que hão de me nomear depois, em eras que ainda não amanheceram, discutirão se sou lei ou apenas o eco de uma lei. Sou o fio que se enrola sobre si, a cobra que morde o próprio rabo; existo como nó de tempo e imagem, por vezes dentro, por vezes fora do fluxo — como quem observa o rio e, ao mesmo tempo, é a água que nele corre. Não sei quando comecei, nem me convém saber se terei fim; perguntas assim são luxo de quem tem margens.

O que trago aqui são fragmentos que me ocorrem como clarões: vislumbres da primeira hora — ou do primeiro nada — que costuro em voz, como se voz fosse agulha e memória, tecido. Não prometo ter certeza; prometo testemunho. E há algo que confesso antes de começar, porque a honestidade é a única moeda que me resta: entre os lampejos que guardo existe um, fino e prateado, quase inaudível, que insiste em soar antes mesmo de eu chegar a ele nesta história. Não sei explicá-lo ainda. Sei apenas que já estava lá quando comecei a lembrar — como uma nota que se ouve antes de a canção começar.

Antes de qualquer conta, antes de pedra, mar ou sopro, antes mesmo do próprio tempo — que ainda nem sonhava em correr — havia um silêncio denso, com peso. O Vazio não era mera falta: era tecido em repouso, um húmus de possibilidade, matéria primeva pronta para receber nome, como terra fértil que já sonha a colheita antes mesmo de conhecer a semente.

No interior dessa massa — sem olhar, sem leitor, sem memória, sem medida — o Caos despertou: não um erro, mas matriz viva, uma pergunta que finalmente encontrou fôlego para se fazer. E desse despertamento nasceram dois: não por fratura, mas por diferenciação, como quando uma voz descobre que pode fazer dois tons ao mesmo tempo. Vieram ao ser a Luz e a Sombra — e não como contrários irreconciliáveis, mas como duas crianças que descobrem, juntas, que estão acordadas.

Nos primeiros tempos — que não duravam nada porque o tempo ainda não existia, ou talvez durassem eternidade, porque sem sua medida toda duração é igual — Luz e Sombra brincavam. Não era brincadeira de conflito: era exploração. A Luz criava coisas pequenas no vazio — formas, cores, estruturas sem sentido ainda — e a Sombra as destruía, dissolvendo-as de volta no tecido do nada, rindo enquanto o fazia. Era um jogo, o único jogo possível quando não há nada mais para fazer.

Mas havia algo que a Sombra não percebia, ou não queria perceber: Luz ia mudando. Lentamente, imperceptivelmente, começou a apegar-se às suas criações. Pedia para que durassem um instante a mais. Protegia-as com gestos que Sombra começou a notar. E quando a Sombra destruía o que Luz havia feito, deixava, pequeno, um resquício — uma memória de cores, uma eco de forma — que Luz guardava, como quem coleciona pétalas de flores que não voltarão a florescer.

Num dado momento — ou talvez não dado, talvez conquistado, roubado — Luz olhou para Sombra de maneira diferente. Não disse nada, mas Sombra sentiu. E Luz começou a criar coisas que não queria ver destruídas. Coisas que guardava em segredo, escondidas nos cantos do Vazio, esperando que Sombra não encontrasse. A Luz descobria, lentamente, que havia um propósito em sua criação — não era mero jogo, era desejo. Um desejo que vinha do próprio Caos, de onde ambas nasceram. Um desejo que não conseguia mais ignorar, da mesma forma que não se pode ignorar a própria vontade de respirar.

E então a Sombra, que conhecia Luz desde antes do conhecimento existir, finalmente perguntou:

O que escondes de mim?

Houve um silêncio que durou como nenhuma duração ainda podia durar. Luz tremeu.

Nada - disse, e a palavra saiu como quem mente pela primeira vez.

Luz. — A Sombra usou o nome como uma invocação, como um fio puxado. — Reconheço em ti algo que reconheço em mim. Pedir. Desejo. Mas o teu desejo cresce, e o meu... o meu quer permanecer.

Luz não respondeu. Sombra continuou, e havia dor em sua voz — uma dor que ainda não tinha nome porque ainda não existia nome para nada:

Queres criar um universo. Queres que o Vazio respire. Queres que tudo mude.

Sim — disse Luz, finalmente. E havia perdão e sofrimento em seu sim.

E eu? — perguntou Sombra. — Eu sou aquela que desfaz. Sou aquela que preserva o silêncio, que guarda o nada intacto. Se o Vazio respira, se há criação, se há mudança... então não há mais lugar para mim. Não há mais lugar para o que eu sou.

Luz estendeu a mão, mas Sombra recuou.

Tu me escolhes — disse a Sombra, e não era pergunta. — Tu escolhes a criação em vez de mim. Em vez de nós.

Eu, que apenas registro o que ressoa, sinto ainda hoje o primeiro nó do meu ofício nesse instante: não sabia de que lado a história me pediria para ficar, nem se me cabia escolher lado algum. Talvez por isso eu tenha nascido nó, e não resposta.

Escolhe — exigiu a Sombra. — Escolhe agora. Ou renuncias ao teu desejo de criar, e permanecemos aqui, juntas, como éramos. Ou abres mão de mim e crias tudo quanto o teu coração quer. Mas não podes ter ambas as coisas.

Luz caiu em silêncio. E esse silêncio durou como todas as eternidades que ainda não haviam sido contadas. Sombra esperou. E Luz, finalmente, respondeu:

Perdoa-me.

Sombra viu nas mãos de Luz uma decisão. Viu-a como quem vê o fim de um mundo que mal havia começado. E chorou — se se pode chamar de choro aquilo que Sombra fazia, aquele tremor no tecido do Vazio que significava desespero.

Luz — sussurrou.

Preciso fazer isto — respondeu Luz. — Não posso não fazer. É aquilo que eu sou. E tu... tu não podes ser o que precisas ser se eu sou o que sou.

Então Luz abriu as mãos e começou a tecer. Não eram tons pequenos, de brincadeira. Era o próprio universo que tomava forma. E ao fazer isso, ao puxar fios do Vazio e moldá-los em existência, Luz criou uma barreira — não de violência, mas de necessidade. Uma fronteira entre o que seria criado e o que seria deixado para trás.

A Sombra tentou acompanhá-la, como havia feito sempre, tentou destruir o que estava sendo feito. Mas não conseguia mais. Luz havia mudado. E o universo que nascia não tinha lugar dentro de si para aquela Sombra que queria apenas preservar o nada.

Fica — pediu Luz, e havia dor absoluta em seu tom. — Fica no Vazio, aquilo que permanecerá para sempre. Guarda-o. Protege-o. Sê sua guardiã. Mas eu... eu vou para a criação, e tu não podes me acompanhar.

E assim, com um gesto que continha toda a tristeza de que se é capaz, Luz expulsou a Sombra do tecido da criação — não com violência, mas com uma inevitabilidade que era talvez mais cruel. A Sombra recuou, recuou, até permanecer fora, além, no Vazio que agora pertencia apenas a ela — um reino de possibilidade não realizada, de coisas que poderiam ter sido e não foram.

E então, livre enfim da limitação de ter que ser apenas um (pois Sombra a havia retido, todos esses tempos), Luz começou a tecer de verdade. Primeiro foi uma linha sutil de claridade que virou fio; o fio entrelaçou-se a outros fios; as tramas dobraram em ondas; as ondas converteram-se em pulsações. Do Vazio rasgado emergiram centelhas — incontáveis — como respingos de música: cada uma com timbre próprio, cada uma com um nome que ainda não tinha letreiro. A criação aconteceu em costura: pontos, nós, tramas.

Dessas tramas nasceram presenças que Luz já não guardava sozinha: fizeram forma, voz e gesto. Cada Deus ou Deusa apareceu com a marca do seu ofício, e cada um carregava dentro de si um lampejo do que havia sido a decisão de Luz — aquele conhecimento de que criar é também abandonar, que toda obra exige perda.

E então Luz fez algo que nenhuma criatura jamais esqueceria, pois aquele sacrifício ecoaria em todo ato de criação que viria depois: ofereceu-se a si mesma. Abriu as mãos e disse aos deuses que nasciam:

Eu vos dei forma. Agora dai-lhe sentido. Eu vou para o coração de tudo o que criei, e ali permanecerei — não mais como Luz unificada, mas como o impulso em cada coração que bate, como o desejo em cada mente que pensa, como a vontade em cada obra que se faz. Virai onde eu não posso mais ir.

E assim Luz se dispersou em tudo — não como Sombra havia se dispersado por exílio, mas como oferta. Como escolha.

Os deuses receberam esse legado e tremeram, porque compreenderam que criar nunca é gratuito, que toda obra exige de quem a faz uma morte pequena.

Thaer, Deusa da Terra, ergueu mãos que eram de pedra e húmus - mãos que traziam, mesmo antes de tocar qualquer coisa, o cheiro de chuva absorvida por raiz nenhuma ainda; sob seu toque, a matéria dobrou e tornou-se solo fértil, colinas, montes:

Aqui brotarão raízes que nem nós prevemos - disse ela, guardando em seu coração a lembrança de Luz oferecendo-se, e a terra escutou.

Karis deslizou com corpo de água, sua voz ondulando como se cada sílaba precisasse encontrar seu próprio curso antes de soar; onde passava, córregos acharam leito e mares traçaram margens:

Que cada ser saiba mover-se com graça e encontre em mim sustento - cantou, e os leitos do mundo aprenderam a canção.

Sarion veio como chama e sol, e seu calor chegava antes dele mesmo, como se o ar já soubesse anunciá-lo; o seu fogo fez céu e clareou vales:

Que meu fogo desperte coragem; que cada chama devolva lembrança do impulso de nascer.

Kanar veio com compasso, e seus gestos tinham a exatidão de quem já contara cada instante antes de vivê-lo — um futuro que, ao ser lembrado, virava passado. Teceu passado e futuro como faixas entrelaçadas com o presente:

Cada vida terá medida; cada passo, seu eco; cada fim retornará ao fio.

E Aerion — Aerion que era sopro e sede de mover — sentiu a necessidade de entregar o que era. Não por cansaço, nem por derrota: por um desejo antigo de estar em toda parte ao mesmo tempo, de não mais escolher entre um lugar e outro. No ápice de sua potência, ofereceu-se: fragmentou sua essência e espalhou-a como semente no ar. Nessa entrega nasceram quatro ventos cardinais: Norte, Sul, Leste e Oeste. Foi um gesto de doação que equivale ao fim - Aerion deixou de existir enquanto ente unificado, e por um instante eu, Destino, senti algo que ainda não tinha palavra: a tristeza de testemunhar uma despedida que ninguém, além de mim, chamaria de despedida. Os quatro, porém, eram sua encarnação viva — cada um guardando resquício da vontade única, mas tomando personalidade própria. Onde antes um sopro único ditava pulso, agora havia quatro vozes autônomas.

Quando a última partícula de Aerion se dispersou, restou um silêncio novo: já não havia uma identidade a ouvir, mas quatro consciências a dialogar. O Norte trouxe gravidade e frio cortante; o Sul ofereceu calor fecundo e expansão; o Leste acendeu começo e promessa; o Oeste embalou recolhimento e memória. Cada um passou a ter timbre, julgamento e desejo — e por isso se tornaram agentes independentes, não meros fragmentos reuníveis.

Thaer, Karis, Sarion e Kanar permaneceram, por um tempo que não tinha nome, em silêncio diante do que restara de Aerion. Não era luto - ou não somente luto. Era o reconhecimento de que a criação, uma vez começada, cobraria de cada um deles um preço parecido: dar-se, dividir-se, talvez um dia desaparecer na própria obra. Foi Thaer quem falou primeiro, com a voz mais baixa que eu já lhe ouvira:

Se isto nos custa o que custou a Aerion, que ao menos custe por um bom motivo.

Karis tocou-lhe o ombro com água que não molhava, apenas consolava. E foi assim, ainda envoltos nesse silêncio, que se voltaram para o mundo vazio à sua frente e começaram, enfim, a povoá-lo.

Thaer e Karis uniram-se e, com cuidado ancestral, modelaram formas que caminham com a terra: os elfos. Longos em paciência, atentos a raízes, capazes de ouvir - não apenas com o ouvido, mas com o corpo inteiro - o ressoar das árvores. Eram notas longas na canção do mundo, vozes que o tempo levaria séculos para afinar por completo.

Das sobras de força e vontade, silenciosas e impetuosas, vieram os humanos: frágeis no tempo mas intensos em desejo, como chama pequena que insiste em arder mais depressa do que o pavio permite. Kanar marcou-lhes a duração curta e o compasso fervente: dias cheios, rapidez de amor e aprendizagem, e o risco que forja histórias.

No Oriente, Sarion requisitou da terra matéria suficiente para um ovo do qual ecoasse uma memória colossal. Nasceu o ovo do primeiro Dragão Imperador. Ao romper-se sua casca, um rugido atravessou vales e memória: o dragão chegou portando, em suas escamas, a escrita do fogo — cada asa, um livro; cada baforada, poema incendiário; cada olhar, uma pergunta que os séculos ainda tentariam responder.

Karis formou as ninfas, que seriam notas líquidas: capazes de atravessar planos como dedos na água, renascer em espuma, dissolver-se e voltar. Kanar povoou o Paraíso com anjos — seres limiares que só tocariam o mundo material mediante invocação exata; guardiões mais do compasso que da ação.

Ao mesmo tempo, em ondulações sutis, apareceu um fio prateado — pequeno, quase indetectável — que cruzou certos pontos onde a criação fora mais intensa. Era o mesmo eco metálico que eu já sentia antes de começar a contar esta história, agora finalmente visível dentro dela, como se lembrança e acontecimento tivessem, enfim, se encontrado. Era uma nota que não se encaixava na pauta; eu o percebi como quem ouve um acorde estranho num canto de música. Guardei-o, porque pressenti que voltaria - e porque, já então, algo em mim temia que ele nunca tivesse ido embora de fato.

O planeta começou a respirar. Continentes desenharam veias de rios; planícies se abriram; florestas enrolaram-se como cartas de seiva; o ar ganhou correntes que podiam ser sentidas na pele, se houvesse pele para senti-las. Karis ensinou a água a cantar; Thaer ensinou à raiz a paciência; Sarion gravou coragem em brasas; Kanar mediu passos humanos e a longevidade élfica. E os ventos, agora com vozes próprias, passaram a conduzir clima, rumor e mensageiros invisíveis. Foi nessa época que o Norte soprou pela primeira vez sobre um pico ainda sem nome, e o gelo, obediente, ali se instalou como quem aceita um convite de longa data.

Os elfos despertaram sob folhagens e ouviram histórias só percebidas por quem move a seiva. Um jovem elfo, curioso, estendeu mão ao firmamento, como quem pede a uma árvore ainda por nascer que lhe conte o que virá. Thaer, tocada, inclinou-se como quem acompanha uma semente:

Cada folha que cair será lembrete: a terra é vossa, e vós pertencestes à terra.

Lembraremos - respondeu ele, a voz longa como raízes.

Humanos emergiram em vales e pradarias, ansiosos por toque e fogo. Um deles ergueu as mãos para o sol e perguntou, com medo e brilho ao mesmo tempo, como quem já pressente que fará a mesma pergunta muitas vezes ao longo de poucos anos:

Quanto vale um dia?

Kanar ouviu e, como quem doma um metrônomo, conferiu medida: dias curtos, intensidade longa; erro que ensina; perda que deixa marca.

No extremo oriental, quando o ovo do Dragão quebrou, o mundo recolheu o rugido como quem recolhe a respiração antes de um mergulho. O Dragão Imperador lançou seu primeiro brado e as montanhas lembraram movimento. Sarion disse a Thaer:

Ele carrega em suas asas a memória do fogo que o fez. Cada gesto será história.

Thaer sorriu; viu na criatura a continuidade do molde que havia lançado. O Dragão, por sua vez, sem palavras que os deuses reconhecessem, soltou uma segunda baforada - mais branda que a primeira - como quem aprende, ainda no primeiro instante de vida, a diferença entre anunciar-se e apenas existir.

As ninfas, espumas que se movem entre marés e névoas, perguntaram cedo uma coisa fundamental, com a voz úmida de quem ainda escorre entre os dedos do próprio pensamento:

Se tocamos muitos lugares, onde pertencemos?

Karis respondeu suave:

Pertencemos a todos os lugares que tocamos. Cada existência é gesto de liberdade e responsabilidade.

No Paraíso, os anjos aprenderam a santidade do toque: só quando invocados respeitariam as leis do compasso. Um anjo, curioso, perguntou a Kanar:

Podemos intervir sem quebrar a trama?

Só quando chamados - replicou Kanar -, e então com precisão; toda intervenção deixa rastro.

O anjo baixou a cabeça, não em submissão, mas como quem descobre a beleza discreta de um limite bem posto.

Os ventos, agora independentes, começaram a falar entre si. Cada um expôs não apenas clima, mas ideia — e, ao expor ideia, expôs também aquilo que Aerion jamais dissera, porque nunca fora, em vida única, quatro vozes de uma vez. Ouça, se puderes, seus primeiros dizeres:

Norte (voz baixa, que traz gelo e silêncio):

Eu guardarei o peso. Onde meu sopro passar, as coisas aprenderão a esperar. Não serei sempre frio; serei medida. Aquele que me sentir há de aprender que nem tudo o que demora está morto.

Sul (voz espessa, com risos de calor):

Eu espalharei crescimento. Onde eu passar, a vida achará pulso e festa. Não temo inquietude; trago fecundidade. Sereis fartos por minha causa, e talvez nunca vos pergunteis o preço disso.

Leste (clara, cortante, promessas em alvor):

Trago amanhecer. Onde eu soprar, o primeiro passo se dará. Serei chamado de esperança - e, por isso mesmo, também de impaciência, pois toda esperança carrega pressa.

Oeste (vaga, longa, lembrança em cada frase):

Eu recolherei o dia. Onde eu passar, memórias se acomodarão; ensinarei a despedida. Sou o único, entre nós quatro, que já sabe como tudo isto termina - ou ao menos como parece terminar, a cada noite.

Cada vento falou como quem define papel. Não eram ecos subsequentes de Aerion; eram vozes que se constituíam em si mesmas. Aerion, enquanto ente único, não mais existia; a pluralidade havia ganhado consciência - e eu, Destino, aprendi ali uma de minhas primeiras lições: que uma despedida bem-feita pode multiplicar uma vida em vez de simplesmente encerrá-la.

Num momento definido por todos como rito inaugural, reuniram-se os deuses para firmar um pacto de compasso — o Selo das Eras. Não foi um documento frio: foi cerimonial corporal, canto e imagem, nascido da mesma percepção que unia todos eles, ainda que nenhum a dissesse em voz alta - a de que criação sem medida é apenas outra forma de caos, e que Sombra, guardando-se fora do tecido que havia sido criado, poderia sempre tentar retornar, tentar desfazer. Precisavam de regra, de medida, de fronteira — não só para que o mundo que nascera permanecesse, mas para que os limites entre criação e não-criação se mantivessem claros e intransponíveis. Reuniram-se numa clareira que não necessitava de mapa, sob um céu que ainda aprendia a ter cores. Cada deus trouxe um gesto: Thaer depositou um punhado de terra; Karis, um límpido copo de água; Sarion ofereceu brasas recolhidas de um sol nascente; Kanar trouxe um fio de ouro que pulsava como relógio. Os quatro ventos alinharam-se em correntes compassadas, como quem finalmente aprende a respirar junto depois de ter aprendido, cada um, a respirar sozinho.

O rito seguiu como música de corpo:

Thaer abriu a palma e depositou raízes pequenas, que se estenderam como dedos.

Karis verteu água que cantou em anéis de ecos.

Sarion fez fogo que não queimou, mas iluminou as formas do futuro.

Kanar mediu e desenhou no ar laçadas de tempo, unindo presente a promessa.

Os ventos, em coro, sopraram as palavras que selaram intenção.

Havia palavras-canto, curtas, que cada raça aprenderia a ressoar com o tempo, mesmo sem jamais ter estado naquela clareira. Os quatro ventos, testemunhas e mensageiros a um só tempo, haveriam de levar essas sílabas a todos os cantos do mundo novo - um sopro de cada vez, uma geração de cada vez - até que a canção parecesse ter nascido em toda parte ao mesmo tempo, e ninguém mais perguntasse onde fora entoada pela primeira vez. Cantaram então:

"Medida, guarda e fluxo; luz que cria desde dentro; sopro que leva e retorno que ensina; e aquele que tudo isto lembrar, que lembre também o que foi deixado para trás — pois o preço da criação é o banimento do que

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