Prólogo
Já era o fim da tarde quando Leona ouviu a voz que congelou seu sangue. Se tivesse se adiantado menos de vinte minutos durante o dia, talvez já estivesse em casa àquela hora. Mas perdera um tempo precioso em uma ligação desnecessária mais cedo, e por escolha própria, tornando a situação atual inevitável.
Marcos, o ex-namorado que ela jurara nunca mais encarar, um término horrível, para dizer o mínimo, atravessava a recepção da empresa com passos firmes, ignorando a secretária que tentava contê-lo.
— Leona! Sei que está aí. Você não pode continuar fugindo de mim.
O coração dela disparou. Sem pensar, correu para se esconder atrás da porta de vidro fosco da sala de reuniões, como uma criança que teme ser descoberta, ouvindo tudo o que se passava dali.
Marcos avançava, determinado, e estava cada vez mais perto do esconderijo dela. Foi então que Verônica surgiu. Sempre calma e elegante, com aquele ar de quem nunca perdera o controle em toda a vida. Ela interceptou o homem com um sorriso frio, mas quase divertido.
— Leona não está aqui. Você não sabia? Ontem ela caiu na estrada com um motoqueiro. Uma loucura, mas você sabe que é a cara dela.
Marcos piscou, e a confusão inicial deu lugar a uma raiva incandescente quando reabriu os olhos.
— Motoqueiro? Fugiu? — A voz saiu um pouco mais alta, embora ele tentasse disfarçar em público.
Ignorando o modo como ele apertava os punhos, Verônica balançou a cabeça, como se também ainda não conseguisse acreditar que a sócia tivera tanta audácia.
— Sim. Você conhece Leona, não é? Sempre impulsiva. Se quiser notícias, sugiro esperar ela voltar, se voltar. Duvido.
O tom era tão firme, tão convincente, que Marcos acreditou. Murmurou algo sobre irresponsabilidade e saiu, derrotado, sem olhar para trás; mas Verônica tinha certeza que ele estava se segurando muito para não quebrar nada.
Leona, ainda escondida, tremeu com cada palavra, relembrando tudo que passara com ele, principalmente na última vez que estiveram frente a frente. Quando finalmente saiu da sala, encontrou Verônica de braços cruzados, olhando-a com um traço de ironia que lhe causou um calafrio na espinha.
— Você se esconde, eu resolvo. Mas não pense que faço isso de graça. Agora você me deve, Leona. E eu sempre cobro minhas dívidas.
Leona engoliu em seco. A frase, para ela soou como ameaça, ou sentença, fazendo com que, naquele instante, soubesse que estava encrencada. Não apenas havia sido salva, mas também presa a uma obrigação que não sabia quando seria exigida.
E, claro, Verônica nunca esquecia de nada.








