Prólogo - A fuga
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Leona Lins
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Já era o finalzinho da tarde quando reconheci de longe a voz que tinha o poder de transformar minhas entranhas em gelo. Se tivesse me adiantado menos de vinte minutos durante aquele dia, provavelmente já estaria tranquila e segura em minha nova casa àquela hora. Mas perdi um tempo precioso em uma ligação desnecessária com um idiota mais cedo, se por escolha própria ou do meu ego ferido, não importa, tornando a situação atual inevitável.
Quase fui capaz de enxergar mentalmente Marcos, o ex-namorado que jurei nunca mais encarar, — um término horrível, para dizer o mínimo — atravessando a recepção da empresa com passos de quem acreditava merecer ser dono de qualquer espaço, ignorando totalmente a pobre secretária que certamente tentava contê-lo em desespero, quem sabe até já se imaginando tendo que procurar outro emprego.
— Leona! Sei que está aí. Você não pode continuar fugindo de mim — anunciou para todo o escritório em um tom que para quem não o conhecia, parecia brincalhão.
Mas eu agora entendia muito bem a ameaça real. Então o alerta de pânico disparou imediatamente. Sem pensar, corri para me esconder atrás da porta de vidro fosco da sala de reuniões, ajoelhando-me sobre uma cadeira para que ninguém visse meus pés por um pequeno vão no rodapé. Conseguia ouvir tudo o que se passava dali, embora os sons estivessem abafados pelo do meu próprio sangue, circulando rápido demais nos ouvidos.
Os passos de Marcos avançavam determinados e deu para notar que quase convencia a secretária de que estava tudo bem, com charme e lábia durante o trajeto, chegando cada vez mais perto do meu esconderijo. Ali dentro, eu estaria encurralada em poucos instantes. Desejei que o celular estivesse por perto, que pudesse chamar ajuda. Mas lembrei de como os policiais haviam descartado minhas preocupações anteriormente, tentando até me convencer de que estava tentando arruinar a vida de um homem decente, mesmo quando minha pele tinha marcas claras do contrário.
Me preparei para o momento em que a porta seria aberta e teria que encará-lo — mas justamente quando a mão dele tocou na maçaneta e estava prestes a acontecer, ouvi o som do salto. Não precisava ver para saber que Verônica surgiu. Minha sócia, sempre elegante ao extremo, com aquele ar de quem não perdera o controle nem por um minuto em seus trinta e três anos de vida, interceptou o homem com uma risada fria, ainda assim quase divertida.
— Marcos, meu querido, Leona não está aqui. Você não sabia? Ontem ela caiu na estrada com um motoqueiro. Uma loucura, mas você sabe que é a cara dela.
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Verônica Bastos
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Depois do que eu disse a Marcos, ele piscou duas vezes e a confusão inicial deu lugar a uma raiva incandescente quando reabriu os olhos na última delas.
— Motoqueiro?! Fugiu?! Como assim, Verônica? — A voz saiu um pouco mais alta, embora ele tentasse disfarçar em público. Mas aquele patife nunca me enganou.
Ignorando deliberadamente o modo como ele apertava os punhos, balancei a cabeça, como se também ainda não conseguisse acreditar que Leona tivera tamanha audácia.
— Sim. Você conhece a Leona melhor do que eu, não é? Sempre impulsiva. Se quiser notícias, sugiro esperar ela voltar. Se voltar. Duvido.
Meu tom era tão firme, tão convincente que Marcos não questionou. Murmurou algo sobre irresponsabilidade e saiu derrotado sem olhar para trás. Mas pelo modo como um músculo de seu rosto repuxava, eu tinha certeza que ele estava se segurando muito para não quebrar nada. E ah, se ele ousasse!
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Leona
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Quase inconscientemente tentando sumir contra o assento da cadeira, tremi com cada palavra, relembrando cada minuto de terror que passei com ele. Doía pensar, principalmente na última vez que estivemos frente a frente, muitos meses atrás. Quando finalmente consegui recuperar o controle das pernas e sair da sala, encontrei Verônica de braços cruzados, me olhando com toda a sua ironia.
— Você se esconde, eu resolvo. Mas não pense que faço isso de graça. Agora você me deve, Leona. E você sabe que eu sempre cobro minhas dívidas. — O tom que ela disse isso me causou um choque na espinha.
Engoli em seco, encarando a frase como ameaça, o que tive certeza que de fato era. Não tive a mínima dúvida de que havia acabado de ouvir minha sentença e menos ainda de que fosse qual fosse o preço, estaria encrencada quando chegasse o momento da cobrança. Minha vontade era exigir que Verônica me dissesse já o que queria, afinal, estar presa a uma obrigação que não sabia quando seria exigida era o pior dos castigos. Mas seria inocência demais acreditar que ela facilitaria tanto assim para mim. E muito menos que deixaria para lá.
Claro, até alguém que a conhecesse a bem menos tempo que eu já teria percebido que Verônica era alguém que nunca esquecia de absolutamente nada.

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