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God of Creation

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Summary

Lumin Vance é um jovem de 17 anos que leva uma vida simples trabalhando no Bar do Sol Poente, ao lado de sua família. Apesar da rotina tranquila, ele sempre sentiu que havia algo maior esperando por ele além dos limites da pequena vila onde cresceu.

Genre
Fantasy
Author
Shoko
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Chapter 1: Lumin

“Mais cinco minutos… só mais cinco minutos”, pensou Lumin Vance, enquanto apertava o rosto contra o travesseiro de palha e sentia o sol da manhã invadir a fresta da janela como se fosse uma lança quente.

A cabeça parecia cheia de algodão, os músculos doíam de leve e o desejo de continuar deitado era tão forte que chegava a parecer um peso sobre o peito. Aos dezessete anos, acordar cedo ao amanhecer já não era novidade, mas isso não tornava a tarefa mais suportável.

“Quem inventou que o trabalho dignifica o homem nunca deve ter levantado cedo da manhã para limpar copos e carregar barris” refletiu ele, virando-se de lado e fechando os olhos com força. “Pai e mãe sempre dizem que temos uma vida estável graças ao esforço de todos nós, e não posso discordar… mas às vezes dá vontade de simplesmente fingir que estou doente e dormir até o meio-dia. Só uma vez que seja.”

Mas o som da panela de ferro sendo tirada do fogo vindo da cozinha, acompanhado da voz suave de sua mãe, Elara, foi o suficiente para espantar qualquer desejo de preguiça.

— Lumin, a café já está pronto! Não se atrase, ou o velho Ron vai reclamar com você. — gritou ela, com um tom que misturava carinho e firmeza.

Ele soltou um suspiro longo, como se estivesse carregando uma montanha só com o ar que saía dos pulmões, e finalmente sentou-se na cama. Os cabelos escuros estavam bagunçados, o rosto ainda marcado pelo sono e os olhos, de um tom cinza-escuro, piscavam devagar enquanto se acostumavam com a luz fraca do quarto.

“Estável… sim, temos uma vida estável. Duas moedas de ouro por semana, mais as gorjetas. Dá para comprar tudo o que precisamos, pagar a casa, ter comida na mesa e ainda sobra um pouco para guardar. O pai trabalha duro na marcenaria, ganha o suficiente para manter o essencial, mas o que eu recebo ajuda a fechar todas as contas e deixa a casa mais tranquila. Somos nós dois que sustentamos tudo, como ele mesmo diz. Às vezes parece que tenho trinta anos, não dezessete.”

Quando saiu do quarto, encontrou a família reunida ao redor da mesa de madeira rústica: Elara, com seus trinta e quatro anos, rosto de traços suaves, pele clara e olhos que pareciam sempre entender o que cada um sentia; seu pai, Gareth, de quarenta e sete anos, ombros largos, mãos calejadas de tanto trabalhar e um olhar calmo, mas que carregava a seriedade de quem já viu muito da vida; e sua irmã mais nova, Lira, de quinze anos, com um sorriso fácil e uma língua afiada que adorava provocar o seu irmão.

— Parece que dormiu mal de novo — comentou Gareth, enquanto cortava uma fatia de pão. — Se trabalhar muito e não descansar direito, um dia vai acabar caindo no meio do bar. Eu também levanto cedo todos os dias, mas ninguém aguenta esse ritmo sem parar.

— É só o cansaço do início da semana, nada mais — respondeu Lumin, sentando-se e pegando sua caneca de madeira. — Além disso, se eu não for, quem vai garantir que não falte nada aqui? O senhor já tem suas encomendas acumuladas, e a mãe cuida de tudo dentro de casa. Minha parte é essa.

— Não pense que não percebemos o quanto se esforça — disse Elara, passando a mão suavemente sobre o cabelo do filho. — Só não queremos que se esqueça de viver também. Você ainda é muito jovem.

Lira riu, enquanto passava doce de frutas sobre a fatia de pão.

— É mesmo! Se continuar assim, daqui a pouco vai parecer mais velho que o pai. E sabe meu irmão, você tem que tomar cuidado com aquela senhora que aparece lá no bar… eu percebi bem como ela olhou para você quando fui levar comida pra você.

Lumin corou levemente, engolindo a bebida com um pouco mais de pressa.

— Não fale bobagem, Lira. Ela é só uma cliente.

— Cliente que pediu para ser atendida só por você, elogiou o jeito que você carrega as coisas e deixou uma gorjeta bem maior do que o normal… e o olhar dela, então? Dava para ver de longe o que ela pensava — provocou ela, com um brilho travesso nos olhos. — Se o velho Ron não tivesse cortado o assunto logo, quem sabe o que mais ela teria dito ou feito.

Gareth soltou uma risada baixa, enquanto Elara balançava a cabeça, sorrindo.

— Deixe o seu irmão em paz — disse ela. — Ele sabe o que faz.

“Se ao menos soubesse o que fazer com isso”, pensou Lumin, balançando a cabeça para espantar a ideia. “A senhora Selene é incrível, bem vestida, sem contar que ela não se interessa por ninguém além de mim, ao que parece. Mas o velho Ron sempre corta qualquer chance. Diz que sou jovem demais para me envolver com mulheres com o dobro da minha idade. Talvez ele tenha razão… ou talvez só esteja me impedindo de viver o melhor... vai saber.”

Ele terminou de beber, pegou um manto e saiu de casa. O caminho até o Bar do Sol Poente era curto, mas ele aproveitava cada passo para organizar os pensamentos. O bar ficava no centro da vila, em uma região que recebia todo tipo de gente: mercadores, artesãos, soldados em passagem, magos que vinham de academias distantes, guerreiros em busca de trabalho e até mulheres que vinham apenas para descansar e conversar.

Era um lugar onde as notícias corriam mais rápido que o vento, e onde segredos muitas vezes escapavam entre uma caneca de cerveja e outra.

Quando entrou, o chefe, Ron, um homem de cinquenta e poucos anos, barba grisalha e olhos pequenos e perspicazes, já estava limpando o balcão.

— Atrasado de novo, Lumin — disse ele, sem levantar a cabeça, mas com um tom que não tinha raiva, apenas costume.

— Cinco minutos, Ron. Não é como se o mundo fosse acabar por causa disso — respondeu o rapaz, sorrindo de lado.

— Cinco minutos é o tempo que um cliente pode ir embora e nunca mais voltar. Agora, vá limpar as mesas do fundo e preparar os barris. Daqui a pouco a casa começa a encher.

E assim começou a rotina. Lumin andava de um lado para o outro, carregando garrafas, limpando copos, atendendo pedidos e ouvindo conversas de todos os tipos. Havia histórias de batalhas, de comércio, de magias que podiam curar ou matar, de terras distantes e de lendas que pareciam mais fábulas do que realidade.

Foi por volta do meio da tarde, quando o movimento já era intenso, que ela apareceu.

Sua entrada fez com que alguns olhos se voltassem na direção da porta. Ela tinha cabelos negros que caiam em ondas até a altura da cintura, pele de um tom dourado, lábios bem definidos e um corpo que parecia esculpido com perfeição. Vestia um vestido de tecido fino, de cor azul escura, e usava joias simples, mas que brilhavam sob a luz das tochas e lamparinas.

Seu nome era Selene, e todos sabiam que ela vinha de uma família de mercadores ricos, vivia sozinha e nunca se deixava se aproximar por nenhum homem — exceto por Lumin.

Ela caminhou até o balcão, apoiou os cotovelos sobre a madeira e olhou diretamente para ele, com um sorriso que fazia o coração de qualquer um acelerar.

— Olá, Lumin. Hoje você parece mais forte do que da última vez que o vi — disse ela, com uma voz suave e arrastada. — A rotina de trabalho está fazendo bem a você.

— Boa tarde, senhora Selene. O que deseja hoje? — respondeu ele, tentando manter a calma, mas sentindo as bochechas esquentarem.

— A mesma coisa de sempre: vinho branco, servido por você. E se puder ficar aqui conversando um pouco, seria muito melhor — ela inclinou a cabeça, olhando-o de cima a baixo com um brilho nos olhos que deixava claro o que pensava.

Antes que ele pudesse responder, Ron apareceu ao lado, limpando um copo com um pano grosso.

— Deixe o rapaz, Selene. Ele tem muito o que viver, muito o que aprender e muito caminho pela frente. Não desperdice o tempo dele com uma mulher que já viveu mais que o dobro da sua idade — disse o chefe, com uma voz calma, mas firme.

Ela riu, sem se ofender, e olhou para Ron com um ar de provocação.

— Você sempre estraga a diversão, Ron. Quem disse que é desperdício? Talvez eu possa ensinar a ele coisas que ninguém mais vai ensinar.

— Coisas que ele vai descobrir sozinho, quando chegar a hora. Vá com calma — respondeu o homem, sem deixar de sorrir.

Lumin apenas serviu o vinho, recebeu uma gorjeta de três moedas de prata — bem acima do normal — e se afastou rapidamente, ouvindo a risada de Selene ecoar atrás de si.

“Ela realmente não desiste”, pensou ele, coçando a nuca. “Não que eu ache feia, longe disso… mas parece algo fora do meu alcance. Como se ela visse em mim algo que eu mesmo não consigo enxergar. Melhor ficar só observando, sem se meter em confusão."

A tarde passou rápido, e com o cair da noite, chegaram os clientes que mais falavam alto, bebiam mais e deixavam suas línguas mais soltas.

...

A noite foi caindo devagar, e aos poucos o movimento foi diminuindo, até restarem apenas alguns clientes espalhados pelas mesas. Lumin já havia enxugado o último copo, empilhado as cadeiras e arrumado tudo o que havia para fazer. Estava encostado no balcão, conversando com Selene quando um homem entrou sozinho e caminhou diretamente até ele.

Era Ban — podia se dizer que eram bons amigos.

— Opa, e aí, Ban, como vai? — cumprimentou Lumin, reconhecendo-o de imediato.

— Vou bem, Lumin — respondeu ele, apoiando as mãos no balcão com um sorriso animado. — Vim te fazer um convite. Eu sei que você ama aventuras e adora conhecer lugares antigos. Amanhã vou explorar um templo abandonado nas colinas do oeste, quer vir? Se acharmos algo de valor, sua parte será justa.

Os olhos de Lumin brilharam na hora. Sem pensar duas vezes, respondeu:

— Claro que vou!

— Então tá combinado — disse Ban. — Te espero na entrada leste da vila ao amanhecer. Não me deixe na mão, hein?

Assim que ele se afastou, Lumin virou-se para Ron, que observava tudo com aquele ar de quem já esperava por algo assim.

— Chefinho, posso faltar amanhã? Já terminei tudo o que tinha para fazer hoje.

Ron soltou um suspiro e fez um gesto com a mão.

— Tá bom… mas só dessa vez, entendeu? Não vá criar o hábito.

— Muito obrigado! — agradeceu ele, já pegando seu manto.

Antes que pudesse sair, a voz de Selene o alcançou, cheia de fingido desapontamento.

— Ah, quer dizer que o meu Lumin não vai aparecer amanhã? Que tristeza… quem vai me servir e fazer companhia, então?

Lumin corou de leve, coçou a nuca e pensou rapidamente: “Senhora Selene… tome um pouco de vergonha ao invés de vinho, por favor”.

Mas respondeu com educação:

— É só por um dia, senhora. Volto depois de amanhã.

— Espero mesmo que volte — disse ela, sorrindo com um brilho travesso. — Senão, eu mesma vou atrás de você.

Ron soltou uma risada baixa, e Lumin apenas acenou com a cabeça, despediu-se pois já era hora e saiu o mais rápido que pôde antes que ela acrescentasse mais alguma coisa.

...

Na manhã seguinte, o sol mal começava a pintar o céu de tons dourados quando Lumin já estava de pé. Vestiu sua camisa mais resistente, calçou botas de couro reforçadas e conferiu se tinha tudo o que precisava.

Despediu-se rapidamente da família, explicando que iria ajudar uns conhecidos e voltaria em breve, e seguiu até a entrada da vila.

Lá encontrou um grupo de sete pessoas ao todo; Ban veio ao seu encontro.

— Lumin, esses são os meus amigos — disse ele. — Você já conhece a Mil e o Rudy, os outros são Jax, Doran, Amanis e Tamari.

Todos acenaram em cumprimento. Mil aproximou-se um pouco, olhou-o de cima a baixo e comentou com um sorriso:

— Nossa, você está ainda mais forte, Lumin. Está treinando ou o trabalho no bar faz milagres?

Antes que ele pudesse responder, Rudy soltou uma risada e brincou:

— Não enche, sua velha! Deixa ele em paz pelo menos pela manhã

— Quem você chama de velha, seu muleque de merda? — rebateu ela, colocando as mãos na cintura e fingindo-se ofendida. — Estou apenas sendo gentil, coisa que você nunca vai aprender.

— Gentil? Olhando para ele desse jeito? — devolveu Rudy, fazendo todos rirem.

Lumin sorriu, envergonhado, e pensou consigo mesmo:

“Acho que o senhor Ron tá certo… sou um ímã para mulheres mais velhas, hehe.” Mil tinha a mesma idade de Selene, e mantinha uma aparência muito bonita e jovem para a idade.

— Chega de conversa — interrompeu Ban, ainda rindo. — Vamos andar.

Ele entregou a Lumin uma bolsa grande e resistente de couro.

— Leve essa. Se encontrarmos algo, vai servir para trazer tudo de volta.

...

A caminhada durou cerca de duas horas. Saíram das terras planas da vila e foram subindo pelas colinas, onde o mato ficava mais alto e as árvores mais antigas. O barulho da vila foi ficando cada vez mais distante, até restar apenas o som dos próprios passos e do vento entre as folhas.

Conversaram sobre histórias da região, trocaram piadas e comentaram sobre a estrada, até que finalmente o templo apareceu à frente.

Era uma construção enorme, feita de blocos de pedra escura que pareciam resistir ao tempo há séculos. Trepadeiras grossas cobriam parte das paredes, e pedras soltas espalhavam-se pelo chão, mas a estrutura continuava de pé, imponente e silenciosa. A entrada principal estava parcialmente bloqueada, mas havia uma abertura lateral larga o suficiente para todos passarem.

Pararam ali e olharam para dentro, onde vários corredores se abriam em direções diferentes, mergulhados na penumbra.

— Tem muitos caminhos aqui — observou Tamari. — Se nos separarmos, podemos nos perder.

— Então vamos todos juntos — decidiu Ban. — Começamos pelo corredor da esquerda.

Caminharam devagar, iluminando o caminho com tochas. Passaram por salas vazias, portas de madeira já desgastadas e passagens que terminavam em paredes de pedra, sem encontrar nada de valor, até chegarem a uma câmara ampla e alta no fundo do templo.

No centro da sala, seis estátuas altas dominavam o ambiente. Eram esculpidas em pedra clara, cada uma com seis asas detalhadas, mas duas delas cobriam completamente o rosto, deixando apenas o corpo visível. A luz bruxuleante fazia as sombras se moverem, dando uma sensação estranha e pesada.

— Que estátuas sinistras — comentou Rudy, olhando ao redor com desconforto.

— Nem me fala — concordou Amanis. — Parece que estão nos observando, mesmo sem rosto.

— Vamos focar, galera — chamou Ban. — Procurem em todos os cantos. Deve haver algo de valor por aqui.

A sala tinha prateleiras de madeira envelhecida, mesas de pedra e vários baús de tamanhos diferentes, alguns fechados, outros já abertos. Todos começaram a vasculhar com atenção.

Lumin foi até o canto mais afastado, onde havia uma sétima estátua, diferente das outras. Ela tinha apenas uma asa completa; as outras cinco estavam quebradas ou faltando por inteiro. Abaixo dela, quase escondido entre detritos e poeira, havia um baú pequeno de madeira escura.

Abriu-o com cuidado. Dentro, entre tecidos velhos e pedaços de metal, algo brilhou com uma luz suave e azulada. Era um colar: o fio parecia ser de ouro, e no centro havia uma pedra que parecia guardar dentro de si o brilho de uma noite estrelada.

Olhou rapidamente para trás — todos estavam ocupados procurando em outras partes. O coração acelerou um pouco.

Num movimento rápido e silencioso, ele enfiou o colar dentro da camisa, escondendo-o bem contra o peito, fechou o baú e limpou a poeira das mãos.

— Lumin, achou algo aí? — perguntou Tamari, que estava perto.

Ele virou-se com calma e respondeu sem demonstrar nada:

— Nada. Só coisas velhas e sem valor.

E continuou a olhar ao redor, enquanto sentia uma sensação suave e levemente quente espalhar-se de onde o colar repousava contra sua pele.

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