Doce&letal
A luz vermelha do ambiente é o disfarce perfeito. Parado no canto desse salão de descanso mal iluminado, consigo visualizar meu alvo em meio a outros homens sala: um beta bastante volumoso. Ao seu lado, há um ômega pequeno.
Ajeito minha postura, seguro com firmeza a bandeja em minhas mãos e caminho suavemente em sua direção. Deixo a bandeja na mesinha de centro, que está repleta de todos os tipos de drogas: cocaína arrumada em fileiras prontas para cheirar, maços de erva, LSD e outros comprimidos - tudo o que o submundo respira. Dou um rápido olhar de relance e confirmo: ele está olhando para mim com aquela mesma cara de interesse . Sem dizer mais nada, ele empurra o pequeno ômega que tinha o rosto enterrado em seu pescoço e abre um sorriso de canto.
- Coisa fofa, nunca te vi aqui. Você é novo?
- Sim, senhor... - respondo, desviando o olhar imediatamente.
Fofo, dócil, indefeso; é assim que ele gosta, é assim que ele me quer. A aura angelical que eu exalo é exatamente o tipo de coisa que homens como ele adoram: algo que parece imaculado, e que eles terão o prazer sádico de macular.
- Não quer se divertir hoje? - ele insiste, com a voz mansa. - Prometo que a noite será inesquecível.
Ergo o olhar mais uma vez, encarando aquele sorriso repugnante.
- Não posso, senhor. Estou no meu local de trabalho... - As palavras saem da minha boca como um sussurro tímido. Pego a minha bandeja vazia e simulo que vou me retirar.
Como esperado, ele agarra meu braço com força e me puxa, forçando-me a sentar em seu colo. O ômega sentado ao lado me fuzila com os olhos, mas não se atreve a interferir.
- Se for esse o problema, não tem com o que se preocupar.
O ego dele falou mais alto, exatamente como planejado. Ser um Alfa neste mundo é como ser um rei; ele, como Beta, mesmo sendo rico, ainda é apenas um Beta.
- M-mas senhor... - tento falar com a voz mais mansa possível, alimentando a ilusão de controle dele.
- Mas o quê? - Se for por causa da comissão de hoje, eu irei triplicar. Você só tem que dizer que sim e se divertir comigo esta noite.
Eu já sabia que ele não me deixaria ir. Vejo o desejo em seus olhos aumentar; o plano está dando certo, afinal, é por causa dele que estou aqui. Agora que tenho toda a sua atenção,
Com uma força moderada, afasto-me um pouco, cobrindo o rosto como se estivesse morrendo de vergonha.
- Aqui n-não, senhor... - falo bem baixinho, quase colado ao seu pescoço.
Sinto o corpo dele enrijecer de excitação. Como planejado; agora preciso tirá-lo do meio da multidão. Vejo mais um sorriso de satisfação surgir em seus lábios.
- É claro, fofura. Tenho um lugar especial para a gente ficar. Perfeito.
Ele é um Beta, o que significa que não consegue sentir meus feromônios. Por isso, uso o controle biológico para forçar o sangue a subir pelas minhas bochechas, simulando um rubor tímido. Era a resposta que ele esperava. A ideia de que um ômega adorável como eu se interessou por ele o agradou profundamente.
- S-sim, senhor... - falo baixinho.
Com essa confirmação, ele avança sobre meus lábios. Tenho que me forçar a ficar calmo, controlando o estômago para não torcer o nariz de nojo; afinal, ele é um velho asqueroso. Mas Estou jogando com o ego dele, e se ele perceber a minha repulsa, o plano inteiro vai por água abaixo.
Ele se levanta com muita dificuldade devido ao seu grande volume corporal. Patético, é a única palavra que surge na minha mente enquanto o observo. Ele segura firmemente o meu pulso e me guia por um corredor anexo ao salão principal. O ômega que estava com ele? Sumiu. Eu estava tão imerso no meu papel de submisso que nem percebi a ausência dele. O som dos nossos passos ecoa pelo local, seguidos de perto por dois guarda-costas armados que nos acompanham a uma distância segura. O Beta parece impaciente. E eu também estou, mas por um motivo diferente.
O corredor nos leva até um elevador privado. Entramos nós dois e os guardas. Mais uma vez, o homem mostra sua impaciência e o desejo de se provar viril, mesmo em sua condição patética: ele apalpa o meu traseiro sem pudor nenhum. Os guardas olham para baixo com visível desconforto. Para mi, o tempo parece congelar em pura repulsa, até que um bipe ecoa.
Nono andar. Constato, começo a calcular mentalmente a minha rota de fuga.
As portas se abrem para um andar não muito diferente do restante do prédio. O corredor estava repleto de portas, as quais julgo ser suítes exclusivas. Caminhamos sob o olhar atento de cada câmera até chegarmos a uma porta maciça. Um dos guardas a abre.
- Ninguém me incomoda! - o Beta ordena, ríspido, aos capangas.
Perfeito. Isso me dá tempo de sobra.
Adentro o quarto com ele logo atrás de mim. Basta um olhar para perceber que aquele lugar é o seu abatedouro particular. O quarto é amplo, com uma cama circular enorme no centro sob uma luz levemente vermelha. Há uma única janela no lado direito, coberta por um tecido fino e, próximo a ela, uma porta. Do outro lado, uma miniadega abastecida com vinhos e uísques. É o cenário perfeito.
Sem esperar, ele faz menção de me puxar para um beijo, mas eu me esquivo com delicadeza, fingindo timidez.
- Posso lhe servir uma bebida, senhor? - pergunto, direcionando-me à adega.
Eu não podia batizar a bebida com nada. Ele estava olhando diretamente para mim, com os olhos fixos em cada movimento meu, e o veneno por ingestão levaria muito mais tempo para fazer efeito do que se fosse injetado diretamente na corrente sanguínea.
- Claro - ele responde.
Olho para trás e o vejo sentado na cama, vigiando-me. Caminho em sua direção com o copo na mão, sento-me em seu colo e entrego o uísque. Ele vira o líquido de um só gole e joga o copo em um canto qualquer.
- Perfeito - ele resmunga, as mãos gordas e ocupadas já apalpando cada parte do meu corpo.
Usando a voz mais angelical que consigo forçar, pergunto:
- S-senhor, posso ir ao banheiro?
Vejo-o torcer o nariz, incomodado com a quebra do ritmo.
- Banheiro? - ele pergunta, hesitante.
Merda. Esse velho não desgruda o olhar de mim, e eu preciso montar a seringa que o MinHo me deu. Se eu não conseguir sair deste quarto por alguns minutos, não terei como preparar a arma.
- É que eu realmente estou precisando... - insisto, suavizando a voz ao máximo, apelando para a fragilidade.
O sorriso pretensioso no rosto dele finalmente se desfaz, revelando um homem autoritário e impaciente. Ele agarra meu rosto com força entre as mãos, apertando minhas bochechas.
- Pode ir. Mas se você demorar, eu mesmo vou te buscar e te arrasto de volta para cá.
Isso!Perfeito
Gordo nojento.penso.
Atraverso rapidamente o quarto em direção à porta ao lado da janela onde fica o banheiro. Tranco a porta e, em movimentos rápidos e milimetricamente calculados, monto a seringa - agora desfeita em três partes para melhor ser escondida - e a oculto novamente na parte interna da minha coxa, prendendo-a sob a roupa. Saio do banheiro e retorno ao quarto em menos de cinco minutos. Satisfeito com a minha pressa, o Beta abre novamente seu sorriso asqueroso.
- Ótimo. Venha aqui.
Aproximo-me lentamente e sento em seu colo, ficando de frente para ele. Eu quero a nuca dele; é o ponto perfeito. Em um saque rápido e invisível, extraio a seringa e enterro a agulha profundamente na pele nua de seu pescoço, presionando o êmbolo.
- O que você... - ele tenta balbuciar, os olhos arregalando-se em choque.
Antes que ele possa reagir, eu o jogo brutalmente na cama. Subo em cima de seu corpo volumoso e passo minhas pernas finas ao redor de seu pescoço, aplicando um estrangulamento com força total. Se ele fizer um único barulho alto, será o meu fim. Meu coração acelera tanto que consigo ouvir o zumbido do sangue em meus ouvidos. O rosto do Beta rapidamente fica vermelho e congestionado devido à pressão do aperto.
Ele tenta resistir, mas a toxina combinada com a asfixia é implacável. Ótimo, ele parou de se debater.
Observo o seu rosto por mais alguns segundos até que seus músculos relaxem por completo. Solto minhas pernas devagar, saindo de cima do corpo. Estou ofegante devido à enorme descarga de adrenalina.
- Huf... huf... - Tento regular a minha respiração, puxando o ar calmamente.
Pressiono dois dedos contra a lateral de seu pescoço, buscando o pulso. Sem pulso.
Ótimo. Está feito.
Mas não há tempo para relaxar. Estamos no nono andar e há dois homens armados logo atrás daquela porta. Se eles desconfiarem de algo, chamarão muitos outros que estão dispersos pelo prédio. Chamar a atenção não é uma opção. O melhor a fazer agora é sair silenciosamente.
Mas como? Ahhh, uma missão relâmpago em menos de uma hora depois de voltar de outra...
Depois de ponderar por mais alguns minutos, me decido. Caminho até a miniadega e pego uma garrafa de uísque com o vidro bem grosso.
Perfeita, penso.
Respiro fundo, caminho até a porta, giro a maçaneta e coloco só o rosto para fora. Os homens me olham surpresos.
- Err... eu não sei o que houve. Nós estávamos na cama e ele, de repente, desmaiou - gaguejo, forçando o desespero na voz.
Ao ouvirem isso, os guardas adentram o quarto apressados, um atrás do outro. O que está mais à frente corre para tentar socorrer o chefe. É a minha brecha. Miro no guarda que ficou por último, erguendo a garrafa, e a desço bem na nuca dele com toda a minha força.
O som do vidro estilhaçando contra o crânio enche o quarto. O homem cai de bruços no chão, pesado. Em segundos, os azulejos brancos, iluminados pela fraca luz vermelha, tomam um tom sombrio e escuro. É o seu sangue, fluindo e se espalhando como um rio que transborda violentamente após uma chuva torrencial.
O segundo guarda percebe a situação num piscar de olhos e, em um reflexo rápido, saca a arma da cintura. Não há tempo para pensar. Corro na direção dele com toda a velocidade e desfiro um chute preciso em seu pulso. A pistola voa da mão dele, choca-se violentamente contra a parede próxima à adega e cai no chão, longe do nosso alcance. Com isso, iniciamos um combate corpo a corpo brutal.
O homem enfurecido é bem maior do que eu. Ele avança com um movimento rápido para desferir um soco direto em meu rosto, mas, em um giro rápido, me esquivo. Sinto o deslocamento de ar trazido pelo punho dele passar raspando. Milímetros.
Agora eu estou atrás dele. Aproveito a brecha e desfiro um chute violento na parte traseira do seu joelho, atingindo em cheio os tendões. O homem vacila e cai por alguns segundos, mas, como um touro enfurecido, ele se levanta rápido e tenta usar o peso do seu corpo - que é o dobro do meu - para me prensar contra a parede.
Rapidamente passo por baixo do seu antebraço e, mais uma vez, consigo me esquivar. Mas, antes que eu possa fazer qualquer coisa, sinto sua mão pesada se enroscar no meu cabelo e na minha nuca, me puxando para trás com brutalidade. Com a facilidade de quem levanta uma boneca, ele me arremessa.
Meu pequeno corpo colide violentamente contra a parede. Uma dor alucinante me cega por alguns segundos e sinto tudo latejar. Mas eu não tenho escolha: me levanto o mais rápido que posso enquanto ele se joga na minha direção. Para fugir de suas mãos, me jogo contra o chão.
Embora eu seja rápido em me desviar, o homem à minha frente tem quase o dobro do meu tamanho, e isso inclui uma força física avassaladora. Ser pego por seu corpo poderia ser o meu fim.
Mas não era o meu caso.
Jogado no chão, visualizo a arma que eu havia chutado e rastejo rapidamente em direção a ela. Mas, como uma corrente elétrica de aço, sinto algo prender minha perna. A mão dele se fecha ao redor do meu tornozelo e me puxa de volta.
- Vadiazinha, onde pensa que vai? - ouço o seu grunhido vitorioso.
Idiota. Cantando vitória antes da hora.
Me viro e fico de frente para ele. Com isso, desfiro um forte e violento chute direto em seu nariz. O impacto o faz me soltar instantaneamente para segurar o próprio rosto.
- Caralho, sua puta! Você vai pagar por isso!
Ameaça em vão. Logo quando ele solta minha perna, me jogo para frente e alcanço a arma rapidamente. Giro o meu corpo com toda a precisão, miro em seu peito e atiro.
Futz! O som abafado da pistola com silenciador corta o ar, lembrando o sopro rápido de um foguete decolando.
O baque o faz cair de joelhos, mas ele ainda tenta se aproximar, movido pelo puro ódio. Aperto o gatilho mais uma vez, agora mirando direto em sua testa. Ele desaba sem vida.
Silêncio. O único som no quarto escuro é o eco dos meus próprios batimentos cardíacos.
Ali, deitado no chão, fecho os olhos, sentindo-me completamente tonto por causa da pancada. Droga... acho que bati a cabeça forte demais contra a parede, penso. Mantenho as pálpebras cerradas por alguns instantes, sentindo o peso esmagador do embate violento de minutos atrás somado à exaustão crônica de ter sido enviado para essa missão relâmpago sem qualquer descanso. Respiro fundo, esperando que a tontura passe e minha respiração finalmente se estabilize.








