CAPÍTULO UM
Uma chuva fria caia no início daquela noite de quinta-feira, Camilo Correa parou seu carro na frente do hospital. Uma sensação angustiante dominando o peito.
Antes de sair do veículo respirou fundo pois quem estava lá dentro de algum quarto era uma pessoa muito amada.
Infelizmente estava sucumbindo.
Camilo Correa é um jovem engenheiro ambiental de 27 anos, magro, cabelos pretos curtos e um sorriso bonito.
Mas tinha um longo tempo que não mostrava seu sorriso pra ninguém.
Desceu correndo pra recepção daquele hospital. Atrás ouviu se trovões.
Camilo então conversou com o médico que cuidava de sua querida tia Rose.
_ Como já te contei anteriormente tua tia esta na fase metastática, isso indica que pode atingir 4,3% de sobrevivência ela está nos seus últimos instantes de vida.
Um nó na garganta, frio na barriga e fraqueza acometeu Camilo. Lutou para que suas lágrimas chegassem a superfície.
_ Posso vê-la doutor ? _ Pediu num fio de voz angustiante.
O médico fez que sim e o conduziu até a sala onde sua amada tia desfalecia.
Tia Rose foi uma segunda mãe por muito tempo, ela também foi vítima de algo terrível que arruinou toda a família Correa e a comunidade onde viviam.
Camilo aproximou-se aflito olhando pra idosa que o sorriu ao vê-lo.
_ OH Camilo ! Que bom que você apareceu preciso conversar meu sobrinho querido, te amo hoje e sempre.
_ Hoje e sempre titia. _ Camilo segurou a mão fria dela. A dor na alma dilacerando.
_ O destino foi cruel conosco meu bem. Um erro trouxe consequências nefastas pra nossa vida. Somos as pessoas mais destestadas de Bela Vista.
_ Tenta esquecer disto tia. Não podemos mudar o que passou. Sempre seremos odiados por aquela gente.
_ Não é justo que você sofra. Você não teve culpa de nada.
_ Tive sim ..... tia eu tive sim.
_ Pare de se martirizar. Basta de mortificações existe redenção e presciso conversar com você a respeito do meu último desejo antes de ir prós braços do criador.
Aquela realidade quebrava o coração de Camilo em mil pedaços.
_ O que quiser eu faço tia._ Avisou Camilo convicto.
Tia Rose mostrou um pequeno sorriso proferindo : _ Querido, nenhuma noite é tão longa que você não consiga encontrar o dia quero que fique com minha casa em Bela Vista reforme e volte a cultivar meu jardim aquele jardim que um dia você amou.
Aquilo fez Camilo tremer. Voltar ao lugar da tragédia, ver as pessoas prejudicadas, enxergar os olhos acusadores de perto.
Não ! Não não e não ! Tudo menos aquilo.
_ Tia a senhora sabe bem que eu não posso fazer isso ..... eles me matariam......
_ Eles não farão isso meu arcanjo, eu sei o que te peço.
_ Além do mais a casa pertence ao seu filho, meu primo que . . .
Rose cortou : _ Já passei para seu nome você vai cuidar do meu jardim, nosso jardim.
_ Tia não posso! Não consigo enfrentar os olhares, as críticas, o julgamento de pessoas que nos desprezam.
_ O pior de tudo é que eles tem toda a razão pra isso. Mas contigo será diferente, Camilo Correa você tem o melhor coração deste mundo inteiro . . . Conto com você pra isso.
_ Tia Rose não faz isso eu eu eu sou culpado eu não.........
_ Para meu bem. Você não fez nada. Lembre-se de ser como o sândalo, que perfuma o machado que o fere...
O aparelho que estava ligado ao pulmão de Rose apitou ela fechou os olhos largou a mão do sobrinho.
Camilo deu um grito altíssimo junto de lágrimas que caíram naturalmente.
A equipe de enfermeiros e médicos entraram.
Foram necessários dois enfermeiros pra retirar Camilo que gritava compulsivamente.
Minutos depois Rose Correa foi declarada morta.
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Depois do velório Camilo Correa dirigiu pra cidade onde viveu por anos e foi muito feliz.
Até que uma desgraça arrancou de seu sonho perfeito o arremessos num poço de infortúnio e exclusão.
Sua família foi expurgada como uma praga da rua onde moravam e agora ele estava de volta devido à um pedido de sua tia.
Andando pelas ruas lembranças foram inundando sua consciência.
A escola onde fez o ensino médio.
A árvore da praça onde passava horas lendo e conversando com amigos.
O bar onde tudo teve início. Onde tudo desabou.
Os vidros do automóvel fechados Camilo ficou apreensivo de ser reconhecido.
Seria um tremendo caos.
Orou pra que as pessoas o ignorassem pois caso contrário sofreria na pele as consequências.
E ele merecia cada uma delas ........
_ Porque me pediu isto tia ? Por que ? _ Ele não compreendia.
Seu coração disparou ao entrar na rua onde morou por anos. Onde foi convidado a se retirar pela população.
A casa do vizinho ainda estava lá sua oficina mecânica continuava a funcionar.
Três anos e muito pouco mudara.
Mordeu os lábios recordando daquele par de olhos negros.
Um dia foram os olhos mais lindos. Agora eram os olhos que queria evitar.
Lá estava a casa de tia Rose. Agora era sua.
Número 604 . Era 23 horas da noite com cuidado ele desceu abriu o portão com cuidado entrou.
A casa tinha pichação na frente : " M O N S T R O S ".
Sim eles eram isto e muito mais.
Com a lanterna do telefone celular Camilo iluminou o jardim que antes era florido agora estava em ruínas.
Ele teria muito trabalho ali.
Abriu a boca aturdido percebendo a mobília cheia de pó e teias de aranha.
Fechou a porta atrás de si Camilo não aguentou e deu vazão ao pranto.
Era tão duro ver a destruição que foi causada a três anos atrás . . . . Há três anos todos os seus vizinhos era como uma extensão de sua família.
Depois daquela noite viraram seus inimigos.
Começou a chover Camilo limpou as lágrimas dos olhos abrindo devagar a janela. Na escuridão via a chuva molhar o terreiro.
Camilo pensou em sua tia. Seu insólito pedido no leito de morte.
Talvez se ele fosse discreto ninguém o atormentaria.
Escutou uma voz na casa ao lado .......
Uma voz profunda, grossa, que lhe agitou a alma.
Aquela voz foi seu juiz lhe punindo cada dia.
Uma voz que já murmurou : " Te amo Te quero " em êxtase.
Voz que antigamente falava tudo em seu ouvido lhe despertando fantasias.
Aquelas mãos calejadas de mecânico tinha percorrido seu corpo untadas de óleo perfumado.
Aquele homem esteve dentro dele o dominando com uma paixão deseperada.
Ele tinha jorrado seu gozo dentro dele enquanto gemia de prazer depois segurava Camilo entre os braços musculosos.
Mas hoje ele o desprezava com um um ódio mais profundo do mundo.
Camilo desabou no chão se encolhendo num canto dizia : _ Ele tem razão em me odiar, odiar a todos nós ......matamos quem mais ele amava.