Passer domesticus
A vida pulsa num ovo. Veia e artéria. Coração ditando o ritmo do relógio da vida. A areia a começar a cair da ampulheta. O preço de poder disfrutar do dom da vida e tudo e tudo o que ele pode oferecer. Mesmo sem ter que para isso ter sequer pedido.
De fora 4 ovos cinzentos mantido aquecido pelo casal de pardais. Uma manhã chuvosa. O frio que penetrava pelas frestas rompendo a barreira de calor da plumagem fina e rala. Que frestas?
O ninho mal cabia os seis. O pai hora ou outra tinha de se empoleirar para fora para não tombar o trabalho árduo de não sabia quantos dias. Que só foi feito.
A chuva dá um descanso. O canto de um ou dois da mesma espécie por ali, jovens, é um chamado para os adultos; Cada um em uma bifurcação do que julgam ser uma árvore. Se era ou não, tanto fazia. Era abrigo. Uma goiabeira, mangueira, cajuzeiro, que seja. Talvez um pedaço malvisto da casa que ninguém nota. Frestas de telha, embaixo de telhados, disputando morada com pombos e toda sorte de tipos de pássaros. O canto se intensifica ainda mais e torna-se um chamado para todos. O macho sai do ninho.
Sobrevoam em um grafo transiente que nem físicos ou ornitólogos se interessariam em entender. Ordinário. Desordenado e ordenado ao mesmo tempo. Como todo padrão de crescimento de cada planta que se interesse alguém por notá-lo. Algumas poucas árvores nos pequenos quintais da quadra que ali alguns decidiram fazer morada. O pouco verde que toda cidade permite viver. Para então sempre renascer.
A maioria segue para os mesmos lugares. Disputar o quintal com farelo de milho e pão que se dá a galinhas caipiras. Disputar a terra em busca de minhocas, insetos... o que quer que se mova e pareça ter vida. Sente vontade de banhar em terra e areia seca, retirar os parasitas do corpo. Terra seca e areia seca alguma se via. Despreguiçou-se para tirar os pingos de chuva que ainda restavam.
Outra vontade em seguida.
Voltar.
Quando mais tarde retorna ao que era o seu lar, para dar à fêmea a chance de se alimentar com o que quer que encontre, que ele agora cuidaria dos futuros filhotes...
De longe, um ovo caído no chão.
Dois ovos sumiram.
A fêmea havia espantado um sariguê. Sempre um sariguê.
Engastanhou nas linhas de pipa e fios que compunham o ninho. Dependurada numa árvore sem nome.
Um restava no ninho.








