Homem que Não Deveria Existir
Em Hollow, ninguém dizia “boa noite” depois das nove.
Era uma tradição tão antiga que ninguém sabia explicar sua origem. Os mais velhos apenas sorriam quando alguém perguntava e mudavam de assunto. Os mais jovens faziam piadas, mas, por algum motivo, todos respeitavam a regra.
Nathan Hale nunca acreditou em superstições. Aos dezenove anos, conhecia cada rua daquela pequena cidade escondida entre montanhas e uma floresta densa que parecia nunca terminar. Hollow era o tipo de lugar onde todos sabiam o nome de todos, onde a cafeteria servia o mesmo café há décadas e onde o sino da igreja marcava as horas com uma precisão quase sobrenatural.
Era também o tipo de cidade onde nada mudava. Ou, pelo menos, era isso que parecia.
Naquela terça-feira chuvosa de outubro, Nathan saiu da biblioteca municipal pouco depois das oito e meia da noite. A chuva fina cobria o asfalto como um véu prateado, e o vento carregava o cheiro úmido dos pinheiros que cercavam a cidade. Enquanto caminhava pela praça principal, observou a estátua do fundador.
Elias Hollow.
Desde criança, aquela estátua lhe causava uma estranha sensação de desconforto. Não porque fosse assustadora, mas porque parecia diferente a cada vez que passava por ali. Às vezes o rosto parecia mais velho; outras vezes, mais jovem. Era apenas ilusão, dizia a si mesmo. Ou pelo menos tentava acreditar nisso.
Seu celular vibrou no bolso.
Mãe: Nathan, consegue passar na casa do seu avô? Ele não atende o telefone desde a tarde.
Nathan respondeu imediatamente.
Nathan: Estou indo.
Guardou o aparelho e mudou o trajeto. A casa do avô ficava na parte mais antiga de Hollow, onde as ruas de pedra substituíam o asfalto e os postes modernos davam lugar a luminárias de ferro fundido. Conforme caminhava, percebeu algo curioso: as ruas estavam vazias. Muito mais vazias do que o normal.
Nem mesmo o casal que costumava passear com dois labradores estava ali. Nem o velho senhor Morgan sentado em sua varanda. Nem o dono da floricultura fechando a loja. Era como se toda a cidade tivesse ido embora ao mesmo tempo.
Nathan olhou o relógio. 20h58.
Foi então que ouviu o primeiro toque do sino da igreja.
BONG...
O som era grave. Profundo. Vibrava no peito mais do que nos ouvidos.
BONG...
As janelas das casas começaram a se fechar. Nathan franziu a testa. Nunca tinha reparado nisso antes.
No terceiro toque, uma senhora atravessou rapidamente a rua segurando o neto pela mão. No quarto, um comerciante puxou a porta de aço da loja com tanta pressa que quase deixou as chaves caírem.
No quinto... as ruas estavam completamente desertas.
Nathan ficou parado, sentindo apenas a chuva escorrer pelo capuz.
BONG...
Sexto.
BONG...
Sétimo.
O silêncio parecia crescer entre um toque e outro. Quando o nono sino finalmente ecoou pela cidade... tudo ficou imóvel. Nem vento. Nem pássaros. Nem carros. Era como se o próprio mundo tivesse prendido a respiração.
Nathan soltou um riso baixo, tentando espantar o incômodo.
— Que cidade estranha...
Continuou andando. A casa do avô surgia entre árvores centenárias, cercada por um muro de pedras coberto de musgo. A construção era antiga, feita de madeira escura, com janelas altas e uma varanda que rangia mesmo quando ninguém passava por ela. Seu avô, Arthur Hale, morava ali desde sempre. Pelo menos era o que todos diziam.
Nathan empurrou o velho portão de ferro. O rangido ecoou pela propriedade.
— Vô?
Nenhuma resposta.
Subiu os três degraus da varanda. A porta da frente estava entreaberta. Aquilo não era normal — Arthur Hale era extremamente cuidadoso e trancava a porta até para buscar a correspondência.
Nathan entrou. O cheiro de madeira antiga, café e livros era familiar. A sala permanecia impecavelmente organizada. O velho relógio de parede continuava marcando os segundos com seu característico tic-tac.
Mas havia algo errado.
A chaleira ainda estava quente sobre o fogão. Uma xícara de chá permanecia pela metade na mesa. Os óculos do avô estavam abertos sobre um livro, como se ele tivesse saído por apenas alguns segundos.
— Vô?
Silêncio. Nathan caminhou pela casa chamando por ele. Quarto, banheiro, escritório, despensa. Nada. Nem sinal dele.
Parou diante da janela da sala. Lá fora, a chuva continuava caindo, mas uma sensação incômoda crescia dentro dele. Uma sensação que não conseguia explicar.
Então ouviu um ruído.
Toc.
Veio do andar de cima.
Nathan congelou. Olhou para a escada e esperou alguns segundos. Nada. Respirou fundo.
— Vô? É você?
Outra batida.
Toc... toc...
Desta vez parecia mais distante. Ele subiu lentamente, cada degrau rangendo sob seus pés. O corredor do segundo andar estava completamente escuro; apenas a luz da lua atravessava uma pequena janela no fim do salão. As portas dos quartos permaneciam abertas e vazias.
Quando passou diante do antigo quarto de hóspedes, percebeu algo que nunca havia visto antes: uma pequena porta de madeira escondida atrás de um armário antigo.
Nathan parou. Aquilo era impossível. Passara boa parte da infância naquela casa. Brincara de esconde-esconde, explorara o sótão, dormira inúmeras vezes ali. Jamais existira uma porta naquele lugar.
Aproximou-se. A madeira era diferente da parede — mais escura e muito mais antiga. Símbolos estavam entalhados em sua superfície: linhas circulares, fases da lua, galhos entrelaçados. E, bem no centro... um desenho semelhante a um olho fechado.
Nathan passou os dedos sobre os entalhes. Estavam frios, gelados, apesar da temperatura agradável da casa. Um arrepio percorreu sua nuca. Naquele instante, lembrou-se de algo que o avô dizia quando ele era criança:
“Existem portas que permanecem fechadas por uma razão, Nathan.”
Na época parecia apenas mais uma frase de um velho contador de histórias. Agora... soava muito diferente.
Ele segurou a maçaneta de bronze. Hesitou. Talvez fosse apenas um depósito antigo. Talvez o avô estivesse lá dentro. Talvez houvesse uma explicação simples para tudo aquilo.
Inspirou profundamente e girou a maçaneta.
Um estalo metálico rompeu o silêncio. A porta começou a se abrir lentamente, revelando apenas escuridão. E, das profundezas daquele cômodo oculto, uma corrente de ar gelado escapou, como se ninguém respirasse ali há muitos... muitos anos.
Nathan permaneceu imóvel. A mão ainda segurava a maçaneta enquanto o ar frio escapava pela abertura como uma respiração antiga. Não era apenas vento; havia um cheiro diferente, uma mistura de terra úmida, madeira envelhecida e páginas esquecidas pelo tempo.
Ele pegou o celular no bolso e ligou a lanterna. O feixe de luz revelou uma escada estreita de pedra descendo para a escuridão.
Seu coração acelerou. Aquilo não fazia sentido. A casa do avô fora construída há mais de cem anos e Nathan conhecia a planta de cor. Nunca existira um porão.
Engoliu em seco.
— Vô...?
Sua voz desceu pela escada e voltou em um eco fraco. Nenhuma resposta.
Respirando fundo, começou a descer. Os degraus eram gastos, como se centenas de pessoas tivessem passado por ali durante muito tempo. No entanto, uma camada fina de poeira cobria as laterais, sugerindo que ninguém entrava naquele lugar há anos. Ou décadas.
Conforme descia, a temperatura caía. O ar ficava pesado e silencioso. Nem mesmo o som da chuva conseguia chegar ali.
No último degrau, Nathan encontrou uma pequena sala circular. As paredes eram de pedra bruta, e prateleiras vazias ocupavam quase todo o ambiente. Velhos castiçais enferrujados permaneciam presos às paredes.
No centro da sala havia apenas uma mesa de pedra. Nada mais.
Sobre ela repousava um único objeto: um livro.
A capa era feita de couro escurecido pelo tempo. Não havia título nem nome do autor, somente um símbolo gravado em baixo-relevo: um círculo cortado por três linhas que se encontravam no centro.
Nathan aproximou a lanterna. Nunca tinha visto aquele símbolo, mas, ainda assim... sentia que o conhecia. Era uma sensação absurda, como lembrar de um sonho que jamais existiu.
Ele estendeu a mão. No instante em que seus dedos tocaram a capa, um arrepio percorreu seu corpo inteiro. A luz da lanterna piscou. Uma vez. Duas. Depois estabilizou.
— Ótimo... só faltava essa.
Tentando ignorar o desconforto, puxou a cadeira de madeira ao lado da mesa e sentou-se. O couro do livro estava surpreendentemente conservado — nenhuma rachadura, nenhuma marca de mofo. Como se alguém tivesse cuidado dele até pouco tempo atrás.
Nathan abriu a primeira página. A caligrafia era elegante e firme. No alto, estava escrito:
Diário de Elias Hale
Seu sobrenome.
Nathan franziu a testa. Elias Hale. Nunca ouvira aquele nome na família. Virou a página. Logo abaixo da data, leu em voz baixa:
— 15 de outubro de 1987.
Ele congelou. Não. Aquilo estava errado. Muito errado.
Sua família possuía uma árvore genealógica pendurada na parede da sala do avô. Nathan a observava desde criança; sabia de cor o nome dos bisavós, dos trisavós, dos tios-avôs. Elias Hale havia morrido em 1937 — cinquenta anos antes daquela data.
As mãos começaram a suar. Talvez existisse outro Elias. Talvez...
Continuou lendo.
“Hoje completam-se quarenta e nove anos desde que o Véu caiu sobre Hollow.”
Nathan piscou. Quarenta e nove anos? O que aquilo significava?
A frase seguinte fez seu estômago embrulhar.
“Se alguém encontrar este diário, é porque falhamos novamente.”
Novamente?
Nathan virou mais uma página. As folhas seguintes estavam completamente em branco. Depois mais algumas, também vazias. Ele passou rapidamente por dezenas delas sem encontrar nenhuma palavra.
Até que, quase no final do livro, encontrou uma única frase escrita com uma tinta muito mais escura, como se tivesse sido registrada em outro momento:
“Nunca confie na primeira memória que tiver.”
Nathan ficou olhando para aquelas palavras, sem entender. Primeira memória? Que tipo de conselho era aquele?
Uma batida seca ecoou acima de sua cabeça.
TOC.
Ele levantou os olhos. Silêncio. Talvez a madeira da casa estivesse estalando por causa da chuva. Voltou ao livro.
Outra batida. Mais forte.
TOC... TOC...
Desta vez vinha da escada. Nathan levantou-se rapidamente. A lanterna iluminou os degraus, mas não havia ninguém. Seu peito subia e descia depressa.
— Tem alguém aí?
Nenhuma resposta.
Então ouviu passos. Lentos. Pesados. Descendo um de cada vez.
Mas a escada continuava vazia.
Os passos pararam exatamente no último degrau. Nathan sentiu o corpo inteiro gelar, como se alguém estivesse parado bem diante dele, invisível. Sem conseguir desviar os olhos da escada, deu um passo para trás.
O livro permaneceu aberto sobre a mesa. As páginas começaram a virar sozinhas. Uma. Duas. Três. Quinze. Vinte. O vento não explicava aquilo — não existia vento naquele lugar.
As folhas finalmente pararam. Nathan olhou para a nova página. Uma frase que não estava ali segundos antes agora ocupava o centro da folha, escrita com uma caligrafia apressada e desesperada:
“Eles descobriram que você voltou.”
Nathan arregalou os olhos. Voltou? Ele nunca estivera naquele lugar antes.
O ar ficou pesado. Então, bem atrás de sua nuca, uma voz masculina sussurrou com clareza:
— Você não deveria se lembrar de nós.
Nathan girou imediatamente. A sala estava vazia. Mas alguém... ou alguma coisa... acabara de respirar bem ao lado de seu ouvido.








